O Clube

28/07/2010

Ele não saberia dizer ao certo como ou quando tinha entrado para o Clube. As cláusulas foram escritas em meio a espirais de fumaça no ar frio sobre a calçada em frente a livrarias em noites de autógrafo, assinadas mais tarde com espuma de chope no tampo carcomido de mesas de latão, tudo tão vago que ele estaria desculpado se pensasse que tais recordações tinham a consistência de um sonho dentro de um sonho. Mas era concreta demais a resenha de página inteira que, menos de um mês depois, o chamava de gênio e seu último livro, de obra-prima incontornável, e mais concreta ainda a assinatura de prestígio vertiginoso a encimá-la. A esta crítica seguiram-se outras de tom semelhante espalhadas pelo país, numa orquestração que só poderia ser compreendida como o trabalho de um grupo coeso, um verdadeiro Clube, de forma que, quando atendeu o telefone com o coração disparado certa madrugada e ouviu do outro lado da linha uma voz rouca a lhe perguntar sem preâmbulo se estava satisfeito, resolveu agir com naturalidade e dizer que sim, estava satisfeito. O que era verdade, pois nunca, em muitos anos de carreira literária, fora alvo de tanta atenção, e embora se julgasse merecedor da maioria dos elogios, não era ingênuo a ponto de ignorar que o merecimento era a carta de menor valor naquele jogo. A voz lhe passou então um nome estrangeirado, o nome de um colega, e desligou. Dois dias depois o nome soprado pela voz estava na capa de um livro sobre sua mesa de trabalho, junto com a carta em que o editor do suplemento literário do jornal em que fora chamado de gênio o convidava a escrever uma resenha. E nesse momento, novato, ele errou. Profissional consciencioso, fez restrições de forma e conteúdo ao livro, todas meticulosamente embasadas, e por duas semanas aguardou em vão que o texto fosse publicado. O segundo telefonema no meio da madrugada o pegou desprevenido. Dessa vez a voz rouca não lhe perguntou se estava satisfeito, mas igualmente sem preâmbulo o chamou de moleque, de trapaceiro, de palhaço, e disse que abrisse o olho, pois tinham seu endereço. A voz desligou antes que ele tivesse a oportunidade de pedir, por misericórdia, uma segunda chance.

2 Comments

  • Pedro Curi 29/07/2010 at 23:26

    Oi, Sérgio. Gostaria de conversar com você sobre uma pauta e, se possível, fazer uma entrevista. Qual a melhor forma de entrar em contato com você?
    Um abraço
    Pedro

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial