O ‘crítico demolidor’ como figura folclórica e outros links

13/01/2012

Para críticos e resenhistas que se ressentem, às vezes de forma dolorosa, da importância atribuída às obras dos escritores em detrimento da sua própria, uma boa notícia: um prêmio (anglófono, of course) para resenhas jornalísticas. Mas não se trata de qualquer resenha. Só podem concorrer aquelas que, de preferência com estilo, fizerem picadinho de seu objeto, como o nome do galardão indica: Hatchet Job of the Year, isto é, Serviço de Machadinha do Ano.

Talvez a notícia não seja tão boa, afinal. Por que não premiar simplesmente a melhor resenha, a que jogue mais fachos de luz – negativos ou positivos, mas mais provavelmente uma mistura deles – sobre o livro que analisa? O foco em textos de espinafração espirituosa é claramente uma forma de, pela via do folclore, dar contornos nítidos a algo que permanece embaçado e amorfo na cena cultural contemporânea.

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Talvez seja o caso de refletir sobre a surpreendente humildade declarada por George Steiner, crítico de altíssimo coturno, nesta entrevista (em inglês) de duas semanas atrás:

Críticos, comentaristas e exegetas, mesmo os mais talentosos, ainda estão a anos-luz dos criadores. Nós não compreendemos as fontes íntimas da criação. Por exemplo, imagine esta cena, que se passou em Berna: um grupo de crianças está fazendo um passeio com sua professora, que as faz sentarem-se diante de um viaduto e observa enquanto elas tentam desenhá-lo. De repente ela olha sobre o ombro de um garoto, e ele desenhou botas nos pilares! Desde então, todos os viadutos do mundo estão marchando. O nome do menino era Paul Klee. A criação muda tudo o que contempla, com umas poucas linhas os criadores nos mostram tudo o que já estava lá. Qual é o mistério que detona a criação? Escrevi “Gramáticas da criação” para entender isso. Mas, no fim da minha vida, ainda não entendo.

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Se Steiner nos alerta contra o prescritivismo arrogante que estará sempre, como risco, no horizonte do comentário sobre arte, seria um erro grosseiro supor que preconiza uma crítica intimidada e servil. No trecho acima, faltou dizer que os “criadores” não compreendem mais do que os “críticos” as tais “fontes íntimas da criação”. O importante é tocar em frente essa conversa, e ela acaba de ganhar o reforço de mais uma voz que, vinda do outro lado do balcão, tem muito a dizer: a escritora Carola Saavedra estreia uma coluna de comentários sobre literatura no jornal “Rascunho”.

Enfim, o boom deu à literatura latino-americana uma nova e inesperada visibilidade, mas por outro lado fez com que autores que não trabalhavam nesse registro, como (Juan Carlos) Onetti e o próprio (Juan José) Saer, permanecessem por muito tempo quase desconhecidos fora de seus países. Afinal, que interesse poderia haver em um autor estrangeiro se este não traz para sua literatura algo de sua ‘estrangeiridade’? Qual é o interesse num autor latino-americano que escreve sobre a Rússia, coisa que seria muito mais bem realizada por um russo? Ou, para voltar ao nosso exemplo inicial, de que poderia nos interessar um índio jivaro (ou Shuar) que escreve um romance que se passa em Helsinki? Ou que se interessa por Nietzsche ou Walter Benjamin?

6 Comments

  • josé marins 13/01/2012 at 14:22

    Ainda fico em dúvida entre a crítica malsã e a indiferença. Tanto livro bom sendo ignorado, não entendo. Porém, admiro o crítico fora-das-panelas que comenta com independência e objetividade.

  • clara lopez 13/01/2012 at 20:25

    “de que poderia nos interessar…”? Foi isso mesmo que eu li? Nossa!
    abraço,
    clara

  • Carol 14/01/2012 at 06:14

    O grande problema que eu vejo é que os críticos literários deste país só falam de autores estrangeiros e de suas obras alienígenas. Cadê execelentes resenhas, mesmo aqui, de AUTORES BRASILEIROS que estão longe da Mídia? Porque ficar falando de latino-americanos e não falar de brasilíndios como Urda Kruguer, Miguel M. Abrahão,Leonardo de Moraes,Moacir Japiassu e outros? Acho que o foco da questão não é espinafrar ou elogiar. É mostrar ao público esses autores maravilhosos que estão escondidos. É isso o que acho, Sérgio, principalmente sendo você uma analista respeitado atuando em um veículo de peso como a Veja. Repesne, reveja e reescreva. Abraço.

  • Vanessa 16/01/2012 at 14:52

    Autores como Julio Cortázar também precisam de mais visibilidade!!! enfim, os autores brasileiros que sejam reconhecidos tbm.
    http://garotadistraida.wordpress.com

  • Luisa Pereira 21/01/2012 at 04:25

    Porque perder tempo lendo críticas ou críticos? Vejam vocês: escrevemos comentários e esses mesmos críticos nem comentam sobre o que escrevemos. Perda de tempo ler e comentar essas opiniões. Fui!

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