O desacordo ortográfico e a literatura

07/04/2008

Um capítulo decisivo dessas relações transnacionais foi a consagração de García Lorca em Buenos Aires, em 1932, não evitando, porém, que Jorge Luis Borges o antagonizasse e chamasse de “andaluz profissional”. Borges, por sua vez, freqüentava grupos literários argentinos de vanguarda, influenciados por Darío. Na ocasião, Lorca acolhia Neruda, que reconheceria a importância desse encontro em sua Ode a García Lorca. Neruda, por sua vez, hostilizava César Vallejo, acusando ainda Vicente Huidobro de contribuir para essa ruptura. No início da guerra civil espanhola, emergia para a vida literária Octavio Paz, em um momento em que se confundiam criação e resistência antifascista. Por conta de divergências na organização de uma antologia de autores hispano-americanos, Paz e Neruda acabariam pegando-se em um banquete (o registro desse e outros episódios, em Sombras de Obras de Paz).

Uma geração de espanhóis influenciada por um nicaragüense; o poeta de maior prestígio dessa geração hostilizado por um argentino, o que não o impediu de fascinar a um chileno rompido com um peruano, em um ambiente literário que logo receberia a um mexicano. Tais episódios podem parecer um registro menor, da petite histoire. Mas a série de aproximações e afastamentos entre poetas de diferentes países, porém da mesma língua, do começo do século XX até hoje, constitui uma rede de afinidades e antagonismos, atração e distanciamento, de evidente relevância. Decisiva para que Octavio Paz, a uma dada altura de Os Filhos do Barro, pudesse declarar: Meu ponto de vista é parcial: é o ponto de vista de um poeta hispano-americano. Note-se: poeta hispano-americano, e não apenas mexicano.

Esse artigo de Claudio Willer na revista Agulha é, entre todos os que já li, a mais lúcida e ponderada defesa do acordo de unificação ortográfica da língua portuguesa sob o ponto de vista da circulação de obras literárias. A comparação com o espanhol, que tem uma só ortografia pairando sobre sua miríade de nacionalidades e idiossincrasias locais, é irrespondível – ou quase isso. Será que uma obra ao mesmo tempo tão latino-americana e tão cosmopolita como a do genial Roberto Bolaño poderia ter germinado longe desse solo de influências cruzadas que Willer descreve nos parágrafos acima?

Agora que o acordo parece uma questão de tempo, com todos os seus transtornos para a vida prática e suas compensações à primeira vista magras, talvez tenha chegado a hora de promover um debate público com mais profundidade – embora os escritores brasileiros não gostem muito de debates públicos e menos ainda de profundidade. Em Portugal, sabe-se que José Saramago é simpático ao acordo ortográfico e António Lobo Antunes lhe torce o nariz. E aqui?

Quando eu digo que a comparação usada por Willer é “quase” irrespondível, estou pensando no clamoroso abismo existente entre os perfis internacionais do espanhol e do português – perfis que se refletem, sim, na ortografia, mas que a antecedem e a ultrapassam, como o próprio autor reconhece. Mexer em uns poucos acentos e letras dobradas do português é arranhar a superestrutura do problema, enquanto uma enorme base de indiferença e até de hostilidade cultural permanece intocada. Resta decidir se não será, mesmo assim, um bom começo.

45 Comments

  • Saint-Clair Stockler 07/04/2008 at 11:51

    Não sei não… Posso estar sendo ingênuo (frequentemente sou, reconheço) mas acho que não precisamos de uma unificação falhada – porque o Acordo Ortográfico é falho, parcial, às vezes ingênuo como um saint-clair -; veja só o exemplo do Saramago: ele não permite que o português de seus livros seja “adaptado” para o brasileiro e nem por isso suas obras deixaram ou deixam de fazer imenso sucesso em nosso país. Elas circulam pra caramba aqui em Belíndia. Tanto que já houve um romance (acho que Ensaio sobre a lucidez, mas não estou bem certo) que foi lançado primeiro no Brasil e só depois em Portugal…

  • Rafael 07/04/2008 at 12:12

    Vamos aos fatos:

    (a) não dá para acreditar que toda essa rede de influências, de contra-influências, de abjurações de influência, de enaltecimento, de juras de ódio eterno não teria sido tecida não fosse a uniformidade ortográfica do espanhol (será que García Lorca teria deixado de acolher Neruda, caso houvesse diferenças na ortografia do espanhol da Espanha e o do Chile? Em tal hipótese, Borges teria dificuldades para entender a escrita de Ruben Darío? Haveria relação de causa e efeito entre a uniformidade ortográfica e o trânsito de idéias e influências entre os diversos autores de língua espanhola?).

    (b) a diversidade ortográfica, que abarca um universo insignificante de vocábulos, nunca foi obstáculo de entendimento para nenhum escritor profissional (será que Graciliano Ramos, ele que fora tão influenciado por Eça de Queirós, v.g. Caetés, tinha dificuldades imensas para ler Miguel Torga por causa da ortografia?).

    c) a língua inglesa convive tranqüilamente com as regras distintas de ortografia válidas para cada lado do Atlântico e mesmo assim os autores americados e os inglesas se deixaram influenciar mutuamente.

    d) os livros do Saramago são editados no Brasil, por exigência do próprio autor, com a ortografia portuguesa – e vendem cá muito bem.

    e) as dificuldades enfrentadas por um estudante médio brasileiro quando se aventura a ler um autor luso não residem na ortografia, mas no léxico.

    f) um decreto que impõe, pela vontade imperial de um punhado de acadêmicos, modificações casuísticas nas regras ortográficas pouco alterará o quadro de alheiamento e distanciamento entre os países lusófonos.

    g) esse mesmo decreto, entretanto, jogará na clandestinidade gramatical milhares de estudantes que se alfabetizaram sob as regras atuais de ortografia.

    A acordo ortográfico é, enfim, uma estupidez monumental.

  • Rafael 07/04/2008 at 12:18

    Digo mais: se esse acordo entrar mesmo em vigor, eu, por não reconhecer a autoridade de nenhum órgão legiferante sobre o idioma, continuarei a acentuar minhas idéias.

  • Sérgio Rodrigues 07/04/2008 at 12:39

    Rafael, se você quer fatos, convém ter um pouco mais de rigor com eles.

    A ortografia da língua inglesa é única em todo o mundo. As variações como “theatre/theater” são apenas isso, variações. Também estão previstas variações desse tipo na nova ortografia do português.

    As diferenças ortográficas entre os países de língua portuguesa não são, obviamente, obstáculos à compreensão de textos. Mas são obstáculos terríveis à circulação de livros, especialmente didáticos.

    Acho a reforma, do modo como está proposta, fraca e torta. Insuficiente por um lado (o hífen permanece uma selva, por exemplo) e exagerada por outro (ideia?). Mas vamos combinar que qualquer norma ortográfica será sempre uma conspiração de uns poucos sábios. As atuais também o são. Todas as anteriores o foram. Ortografia é lei.

    Ninguém – nem eu nem Willer – disse que o espanhol não teria sido palco de tantas trocas literárias se tivesse diferentes ortografias. Como eu disse, tudo isso antecede e ultrapassa a ortografia. Mas negar que esta esteja dialeticamente inserida nesse quadro, parte causa, parte conseqüência, não se sustenta.

    Qualquer manifestação de desobediência civil, como a que você promete, será sempre bem-vinda.

  • Raquel 07/04/2008 at 12:41

    Mudar para facilitar? Ah! a preguiça…

    Concordo com o Rafael e também não tenho mais paciência para mudanças.

  • Eric Novello 07/04/2008 at 13:51

    Usando as palavras de Saint, acho o acordo falho e sem foco. Por favor me corrijam, mas o que esse acordo realmente quer é tornar todas as pronúncias corretas comendo para tal alguns acentos da forma escrita. Pois, Póis, Pòis, Pôis, Pöis então :) continuaremos a não nos entender nas conversas, mas poderemos bradar que falamos as mesmas palavras, a mesma língua (meu avô ficava fulo quando eu não entendia o que ele falava, o que era quase sempre).
    Algum professor de português presente para me dizer como o Você e o Vós são ensinados atualmente nos colégios? O vós que raramente usamos ganhará força renovada por aqui e o você por aí?

    E uma dúvida relevante agora: quantos países realmente aceitaram esse acordo?

    Abss!

  • Sérgio Rodrigues 07/04/2008 at 14:19

    Eric, ortografia é verniz, a casca da língua. Não tem nadíssima a ver nem com pronúncia, nem com questões pronominais (vocês/vós), nem com variações semânticas (bicha, para ficar num caso folclórico). Continuaremos a nos desentender, pode ter certeza. Mas deixaremos de ser a única língua internacional do mundo que não unificou sua ortografia, e um dicionário brasileiro poderá ser adotado em Portugal, autores que não são Saramago poderão ser lançados em vários países sem adaptação de grafia, coisinhas assim.

    Boa parte dos países lusofônicos hesita diante do acordo, ratificado até agora apenas por Brasil, Portugal (que andou emperrando o processo mesmo assim), Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Mas, cá entre nós, se Brasil e Portugal entrarem firmes na roda os outros não terão a mínima escolha – e notícias recentes dão conta de que Portugal está finalmente embarcando. Dito isso, convém encarar as notícias com cautela: faz quase vinte anos que a novela do acordo vive de marchas e contramarchas.

  • Rafael 07/04/2008 at 14:34

    Exatamente! Os partidários da unificação ortográfica (há louco para tudo) acreditam piamente que um vernizinho qualquer irá fazer sumir o abismo cultural gigantesco que se abriu entre Brasil e Portugal. Uma geração de estudantes será o rato de laboratório de mais um experimento concebido por tecnocratas, essa casta de lunáticos que esperam solucionar todos os problemas do mundo mediante alterações legislativas.

  • Sérgio Rodrigues 07/04/2008 at 14:51

    Rafael, não subestime seus adversários. Não conheço ninguém que acredite em tal coisa, que “um vernizinho qualquer irá fazer sumir o abismo cultural”. No máximo, aposta-se nisso como ponto de partida; no mínimo, como um imperativo do bom senso. Já a questão do transtorno para uma geração de estudantes me parece extremamente exagerada por sua posição radicalizante. O número de palavras afetadas pela reforma é minúsculo – menor aqui que em Portugal. O impacto será muito mais econômico (milhares de reedições etc.) do que educacional, e mesmo assim minimizado pelos longos anos de transição. Enfim, me parece bem claro que a idéia de uma unificação para o português faz o maior sentido, que esses cismas provocados por antigas pinimbas burocráticas e cartoriais só o enfraquecem. Reservo minhas críticas para o conteúdo da reforma, que é decepcionante.
    Mas reconheço que tem louco mesmo para tudo, como você diz.

  • Querem assassinar o trema 07/04/2008 at 17:49

    chuif

  • Cristiana Soares 07/04/2008 at 17:54

    Oi Sérgio

    O comentário lacônico aqui de cima é meu, com um link para um post que escrevi sobre a possível extinção do nosso querido trema. Não me conformo.

    beijos da tua amiga

    Cris

  • Foda-se o trema! 07/04/2008 at 18:19

    Foda-se o trema!

  • alvaro 07/04/2008 at 18:39

    Perdão, Sérgio, mas Saramago não é simpático ao acordo. Pelo contrário, lhe faz duras críticas. Chegou a dizer que, a esta altura da vida (dele), tem o direito de continuar escrevendo como antes.

  • Sérgio Rodrigues 07/04/2008 at 18:50

    Álvaro: Saramago nunca fez “duras críticas” ao acordo, há um mal-entendido aí. Ele é tão simpático à idéia que, em entrevista dada em fevereiro deste ano, cobrou do governo português o cumprimento do que fora assinado. Disse o homem:

    “Estiveram à mesa das negociações, discutiu-se o problema, chegou-se a um acordo e assinou-se. E depois não se cumpre, como em outras coisas no nosso país. O acordo existe e passou por umas quantas cabeças de um lado e de outro. Se for preciso, sentem-se outra vez à mesa, puxem as esferográficas e avancem, que isto já se está a tornar caricato.” E em seguida: “Gosto da minha língua tal qual a escrevo, mas não posso impor a 150 milhões de pessoas os meus gostos pessoais.”

    Depois disso, de fato, acrescentou ironicamente que o acordo seria para os outros, mais jovens, e não para ele, que morreria escrevendo como se habituou a fazer.

  • Sérgio Rodrigues 07/04/2008 at 18:50

    Cris: que bom ver você por aqui. Mas menina, você vive numa cidade em que um grande jornal passou anos boicotando o trema, antes mesmo de qualquer reforma. A tal manifestação na Paulista rolou?

  • Breno Kümmel 07/04/2008 at 19:30

    Realmente espero que o trema não vá embora. Ele é mó legal.

  • Pablo 07/04/2008 at 19:43

    Caro Sérgio e demais,

    Em agosto do ano passado, tive a oportunidade de ir para Angola, cujo recente e complexo processo de “descolonização” explica um pouco a triste realidade dos seus indicadores. A razão era profissonal, mas não por isso deixei de querer observar certos aspectos linguísticos durante a viagem. Só em Luanda, por exemplo, província que concentra hoje cerca de 1/3 da população, pude ouvir três “línguas” (não sei exatamente o termo técnico) distintas, além do próprio português. O momento mais curioso, porém, foi quanto eu tentei negociar um cordão na chamada feira do benfica: para cada palavra que o negociante trocava comigo, duas eram trocadas em umbundo (acho que a grafia é essa) com o seu sócio. Lusofonia?
    Bom, o fato é que acabei levando o bendito cordão, espero que por um bom preço, mas a experiência foi suficiente para me convencer de que a badalada “identidade lusófona”, sobretudo quando se trata de países fora do eixo Brasil-Portugal, não é uma bandeira tão simples assim como talvez seja mostrada por aí…
    Confesso que já alimentei posições bastante inocentes em relação à reforma. Muitas até estimuladas por uma leitura apressada do lastro simbólico que, vide a CPLP, parecia a sustentar: a imagem de uma lusofonia “una”, “única”, “universal”. Mas ortografia, como bem foi lembrado aí em cima, não é sinônimo de semântica. E se for através da sua unificação que estimularemos maior circulação de livros e idéias, que seja bem-vinda: talvez tenhamos aí mesmo multiplicadas as chances de nos vermos em nossa própria diversidade.

  • alvaro 07/04/2008 at 20:16

    Perfeito, Sérgio. Simpático ele é. “Duras críticas” foi exagerado. Mas, pelo que li, me parece que ele é mais simpático a que se cumpra o acordo, se foi aprovado, não ao acordo em si.

  • Sérgio Rodrigues 07/04/2008 at 20:56

    Álvaro: Saramago é um velho e convicto defensor da comunidade lusófona. É uma postura política. Não cobraria o cumprimento do acordo em termos tão severos – num país em que a oposição à coisa é bem maior do que aqui – se não fosse programaticamente um defensor dele. “Temos que acabar com a idéia de que somos os donos da língua”, disse ele na mesma entrevista que citei. Ironia com a própria idade à parte, me parece que não cabe a menor dúvida sobre sua posição nesse caso.

  • Pablo 07/04/2008 at 21:13

    É ler Saramago e perceber facilmente que a língua é a mesma. Não é por causa de meia dúzia de acentos e cês mudos que precisamos rasgar todos os livros de nossa estante.
    É óbvio que o acordo tem puro interesse econômico (e viva Houaiss, garoto-propaganda do acordo, que venderá como nunca).

    Abraço,

    Pablo
    http://cadeorevisor.wordpress.com

  • chico 07/04/2008 at 23:25

    Nao sou linguista, mas o problema da unificacao da lingua abarca muitos outros problemas que os somente gramaticais ou a colocacao das enclises no lugar das proclises. Unificacao gramatical eh otima para encher seminario com nefelibatas chapa-branca.

    Os Estados Unidos sao um pais onde nao ha um idioma oficial e quase todos falam ingles mas nao ha uma lingua oficial e isso nao impede que um austaliano entenda prefeitamente o que um americano de Noth Dakota esta dizendo. Nao sei se no caso de um brasileiro e um mocambicano, mesmo dentro de 5 geracoes, isso seria possivel.

    Alias, no Brasil, sim , a lingua portuguesa eh oficial, baseada em regras gramaticais e estilisticas – e ateh mesmo historicas centradas no IHGB e posteriormente no Petit Trianon. Em Portugal, Angola, Timor, Cabo Verde, tambem. Entretanto, nesses paises de lingua portuguesa, tao burocraticos quanto o nosso, a lingua eh uma instituicao autonoma que da poder e prestigio a quem a fala corretamente – veja o caso de Goa athe pouco tempo atras, antes de ser engolida pela India. Portanto, na minha opiniao, essa unificacao eh uma miriade do Itamaraty.

    Quer alguns exemplos praticos e prosaicos do meu ceticismo – contrapondo o do que o Houaiss chamava de identidade gramatical? 1) tenta encontrar um codigo civil ou penal atual, de Angola na Biblioteca Nacional, por exemplo. 2) Pega um livro de um autor lusofono. Nao.. nao.. do Agualusa, nao por que este estudou em Portugal… o Mia Couto tampouco por razoes obvias. Falo de Germano Almeida de Cabo Verde ou de um Luis Cardoso do Timor – estou esquecendo outros que li recentemente – e tenta encontrar uma lingua comum…. 3) tente lembrar de 3 escritores de cada um dos paises lusofonos – mas primeiro tente saber quantos sao – e depois a gente conversa sobre unificacao das linguas, dos esofagos, dos figados…

    Agora, nao ha duvida que a militancia do Saramago – sendo um nobel – faz sentido. Uma lingua unificada dah sentido ao Quinto Imperio – ja dissera o Vieira.

  • Fabiano 08/04/2008 at 01:35

    Esse acordo ortográfico é mais um capítulo da velha mania luso-brasileira de querer controlar todo e qualquer aspecto da sociedade… é fruto do nosso fascismo moreno.

    Os brasileiros já têm sérios problemas de relacionamento com a “língua oficial” – veja-se a crase, as regrinhas de acento e o índice de indeterminação do sujeito -, e agora vamos ter que reaprender mais uma vez o que nunca soubemos direito? E isso por quê, porque um grupelho de tecnocratas resolveu unificar duas culturas não-unificáveis?

    Fala-se que isso baratearia os livros didáticos, que estariam adaptados à grafia dos dois países… mas qualquer um que já tenha lido a wikipédia em português sabe que o problema não está só nas letras mudas e nos a(c)centos… é o léxico, a semântica, a sintaxe… tudo é diferente. Vão fazer o quê depois, arbitrar um jeito “certo” de dizer as coisas, para terminar de unificar as culturas?

    Aliás, por que é que precisamos unificar as culturas? O que nos faz especiais não é justamente essa diversidade? Que bom é pegar um escritor guineense ou angolano e ver que só metade do que ele escreve é português padrão…

    Que tal pararmos com essa idéia de que existe um português “certo”, o da terrinha, e que os outros – inclusive o nosso, que é quase 20 vezes mais falado que o deles – estão errados?

    Que tal assumirmos que o nosso português é diferente do deles sim, e é lindo do jeito que é, e não é errado coisa nenhuma? E que não tenho que escrever como um português, da mesma forma que não falo como um português, já que português não sou? Será que escrever do mesmo jeito em todos os lugares não vai piorar o problema?

  • joao gomes 08/04/2008 at 09:36

    Ah!

    Ressuscitaram Farenheit 451!

  • Sérgio Rodrigues 08/04/2008 at 09:56

    Já falei demais aqui nesta caixa, tentando desfazer alguns mitos que, caramba, são mais fortes do que eu imaginava. Deixo a tribuna para os leitores, mas antes faço uma última observação a propósito do discurso exaltado de Fabiano: os portugueses estão dizendo a mesma coisa – “por que nós temos que mudar nossa língua para ficar parecida com a dos brasileiros?”. A diferença é que eles têm, na estatistica dos vocábulos afetados pela reforma, o dobro de razão para pensar assim.

  • Rafael 08/04/2008 at 11:54

    Sérgio,

    Neste ponto, concordo com você: o acordo ortográfico não é evidentemente parte de nenhuma conspiração portuguesa, concebida além-túmulo por D. Sebastião, para levantar o Quinto Império.

    No entanto, um empreendimento que forçaria a reedição de todos os livros didáticos, a maior parte deles bancada pelo erário, é uma insensatez tremenda, tão mais desatinado se cotejado com a impossibilidade prática de realização dos propósitos a que se destina. Não acredito que a reforma seja um catalizador da circulação de livros didáticos entre países lusófonos, já que o maior obstáculo a essa circulação é ecônomico (quem, alguma vez, comprou um livro didático português aqui no Brasil sabe como ele é caro e inacessível).

    Quanto aos estudantes, é verdade que eles, em sua maioria, não sentirão os efeitos da reforma: não lêem, não escrevem, ninguém exige deles, no trabalho e mesmo na escola, a cega obediência às regras gramaticais: a reforma será para eles algo tão distante quanto os avanços da física quântica.

    Entretanto, aquela minoria dos estudantes que precisa dominar, ainda que de forma rudimentar, a linguagem formal (os que tentam vestibular, que almejam ingressar no serviço público), essa minoria sentirá terrivelmente os efeitos da reforma, pois esta, embora atinja um universo reduzido de vocáculos, alcança muitas palavras de uso corrente (v.g., vôo/voo, idéia/idea).

    Se você mesmo considera tímida e insuficiente a reforma, se vê nela casuísmos e complicações desnecessárias (as novas regras de hifenização fazem algum sentido?), por que a defende? Só porque foi aprovada com o aval de uns quantos lingüistas de grife (como o Houaiss)?

    E o exemplo da literatura de língua espanhola parece-me fraco demais, já que o intercâmbio de idéias no universo hispânico não foi devido à uniformidade ortográfica.

  • Sérgio Rodrigues 08/04/2008 at 12:09

    Rafael: se depois de toda essa minha falação você ainda não entendeu por que eu sou simpático, por princípio, à idéia de uma única ortografia para o português, e por que a ortografia única do espanhol, sem ser obviamente a causa, é parte indissociável de um quadro de internacionalismo cultural, e se ainda acha que eu, velho e conhecido grifômano, estou seguindo cegamente o Houaiss – bom, cara, eu desisto.

  • Rafael 08/04/2008 at 12:25

    Sérgio,

    Até compreendo que a unificação ortográfica, em tese, internalizaria mais o idioma, tornando-o mais permeável ao trânsito das idéias e de mais fácil assimilação para o estrangeiro.

    No entanto, esse ideal, por mais belo que seja, não passa disso: um ideal. O que existe de concreto e palpável a reforma tal como proposta e aprovada – e ela é um desastre quase que completo.

    E o custo de implementação da reforma, tal como concebida, suplantará enormemente os benefícios. O país não se pode dar ao luxo de reeditar todos os livros didáticos por causa desse azambrado projeto.

  • Fabiano 08/04/2008 at 12:34

    Sérgio, mas será que não seria realmente o caso de pensarmos o português como uma língua com duas variantes escritas, mesmo? Como falei antes, não é nem o acento circunflexo ou as consoantes mudas, mas a própria forma de dizer as coisas. Escrevermos iguais não vai nos fazer ‘lusófonos’; vamos continuar brasileiros ou portugueses. E viva a diferença! É isso que nos faz tão interessantes.

    Estava pensando sobre a comparação com a língua espanhola, e acho que é impraticável. A América espanhola se fragmentou, não havia um país grande e culturalmente influente o bastante para competir com o padrão lingüíistico ditado pela Real Academía espanhola. Se os argentinos ou mexicanos resolvessem criar uma grafia própria, pareceria só uma excentricidade. Já no Brasil havia a unidade das colônias, uma academia nacional de letras e uma elite cultural anti-lusitana nos anos 1920. Aqui foi possível criar-se um padrão nacional separado do português, e que se converteu numa questão de identidade nacional — da mesma forma que a nossa dicção é diferente da deles e é típica daqui, e por isso se presta a uma identidade nacional.

    Por fim, a América hispânica nunca perdeu uma noção de unidade cultural, que faz com que artistas mexicanos, chilenos e cubanos se entendam como herdeiros de uma tradição cultural lastreada no [i]castellano[/i]. No Brasil, a nossa tradição era a das elites culturais, entendidas não como paraenses, paulistas e fluminenses, mas como elites brasileiras (e anti-lusitanas). É completamente diferente.

  • Sérgio Rodrigues 08/04/2008 at 12:37

    Claro que o país pode, Rafael. Você pode defender que não deva, direito seu. Mas pode fazer isso e muito mais. O benefício é perpétuo e vai além do conteúdo da reforma em si: acabar com um cisma, este sim, estúpido e constrangedor, fruto de velhas picuinhas de beletristas daqui e d’além-mar. As ortografias atuais não são “naturais”, como os alérgicos ao acordo parecem crer. Nenhuma ortografia é.

  • Sérgio Rodrigues 08/04/2008 at 12:48

    Fabiano, viva a diferença, apoiado. Acredito que o Brasil já não precise de uma ortografia própria para afirmar sua identidade de maior e mais criativo falante da língua – se é que um dia precisou. É possível manter para sempre duas variantes escritas, claro. Mas isso só nos trará prejuízos no tal “concerto das nações”.

  • Rafael 08/04/2008 at 13:25

    Sérgio,

    Só uma dúvida: em sua opinião, a reforma, tal como aprovada, contribuiria realmente para acabar com o cisma ortográfico que tanto prejudica o país no “concerto das nações”?

  • Sérgio Rodrigues 08/04/2008 at 13:39

    Isso não é opinião, Rafael, é fato. A reforma, ao unificar, acaba com o cisma, ou seja, o desacordo. Boa ou má, a ortografia passa a ser uma só. Não entendi qual é a dúvida.

  • Fabiano 08/04/2008 at 13:46

    Mas será que o cisma entre os países acaba junto? Sei lá se a Wikipedia é padrão para qualquer coisa, mas é o principal canal em que portugueses e brasileiros convivem, e aquilo virou uma guerra lingüística… Parece até que se odeiam, e só não entram em guerra porque dá pra passar a maior parte do tempo separados.

    Sérgio, veja se entendo o que você quer dizer com benefícios no concerto das nações: se houver só um padrão, basta um documento em português, e seria mais fácil para um estrangeiro saber que padrão aprender. É isso?

  • Rafael 08/04/2008 at 13:58

    Mas, Sérgio, são tantas as exceções e duplas grafias admitidas pela reforma que a unificação por ela proclamada não passa de um engodo.

    Como seria demasiada prentensão impor minha opinião (sou mero leigo nesses assuntos), remeto os interessados ao fundamentado juízo do professor Cláudio Moreno:

    O que não tem cabimento é continuar usando acentuação mas mudar algumas regras em nome de uma unificação que é utópica e impossível, pois, considerando o grande número de formas facultativas que foram mantidas, os livros do Brasil e de Portugal continuarão a ser diferentes. Jamais um livro escolar editado aqui poderá ser utilizado no além-mar, e vice-versa. A unificação ortográfica, que era a razão de ser da reforma, cai como um castelo de cartas — sem falar nas incontornáveis diferenças lexicais entre um país que apregoa “berbequim para betão ao desbarato” de outro que anuncia “furadeira para concreto em oferta” — e estão falando da mesma coisa.”

    Pode-se ler o texto aqui: http://www.sualingua.com.br/06/06_deixem_paz.htm

  • Sérgio Rodrigues 08/04/2008 at 14:00

    Entre outras coisas, Fabiano. Essa duplicidade de traduções na ONU é, sim, constrangedora, pergunte a qualquer diplomata. Mas não é só isso. A criação de um mercado livre de barreirinhas sem sentido para publicações, sites, dicionários online, ainda que a princípio tímido, também tem o potencial de dar robustez à língua num momento de globalização acelerada. Vou repetir: abismo cultural é outra coisa, um trabalho para gerações. Sim, milhões de pobres de espírito alimentam ódios mútuos dos dois lados do Atlântico. Estamos falando só de ortografia, quase nada – por enquanto.

  • Sérgio Rodrigues 08/04/2008 at 14:10

    Rafael: pois é, discordo de Claudio Moreno. Considero essa visão simplista, de curto prazo, com algo daquela birra do garoto que, por não ganhar o ovo de Páscoa gigante da vitrine, pisoteia o de tamanho médio. A reforma saiu de tensas, longas, chatíssimas negociações políticas e é decepcionante, como eu disse. Mas ainda preferível a reforma nenhuma, na minha opinião.

    Opinião que também não pretendo impor a ninguém, veja bem. Apenas não posso aceitar qualquer argumento como se fosse irrespondível.

    E agora, por favor, eu realmente gostaria de ir cuidar de outros assuntos. Fiquem à vontade para continuar debatendo, isto é, se houver graça em falar em uníssono contra o “inimigo comum”.

  • Pedro Curiango 08/04/2008 at 16:45

    O padre Luís do Monte Carmelo, quem primeiro tentou criar regras detalhadas e precisas para uma ortografia do português, em seu “Compendio de Orthografia” [Lisboa, 1767] usou, como epígrafe das mais de 800 páginas de seu livro, uma citação latina tirada das “Instituições Oratórias,” de Quintiliano, escritas há cerca de dois mil anos: “De minha parte, creio que, dentro dos limites prescritos pelo uso, as palavras deveriam ser soletradas como são pronunciadas. O uso é o melhor guia quando falamos, e devemos tratar a língua como moeda cunhada com a estampa pública. Mas mesmo aqui é necessário que empreguemos nossa faculdade crítica e devemos decidir o que queremos dizer com a palavra USO. Se definimos ‘uso’ apenas como a prática da maioria, teremos uma regra que afeta não apenas o estilo mas a própria vida, o que o torna muito mais sério. Pois onde encontraremos aquilo que, por ser certo, também será aprazível para a maioria? Definirei ‘uso’ então como a prática aceita de comum acordo por homens educados, da mesma maneira que, no que diz respeito às regras da vida, eu o defino como a prática com que estão de acordo todos os homens de bem.”
    O texto tem cerca de dois mil anos, mas reflete o problema que ainda enfrentamos: ORTOGRAFIA [Caldas Aulete: “arte de escrever com os caracteres e sinais consagrados pelo uso”] É CÓDIGO [Caldas Aulete: “coleção de regras ou de preceitos sobre qualquer matéria não legislativa”]. Creio que só pensar nestas duas definições, à luz da citação de Quintiliano, seria o bastante para que a gente começasse a pôr em dúvida a necessidade de OFICIALIZAÇÃO de qualquer “acordo ortográfico.”
    Ortografia, diz Quintiliano noutro trecho, não citado pelo padre Luís, é a serva do uso. Mas, há dois mil anos, o retórico romano não poderia pensar que, no momento em que vivemos, “uso” corresponde não apenas a uma relação espacial (por exemplo: os vários países que falam o português) mas também a uma que diz respeito ao tempo (os que escreveram antes de nós). Nosso CÓDIGO deveria permitir a leitura de Machado de Assis, como ele escreveu, como também a dos comentários desse blog. Ou será que, pela quarta vez, teremos de “re-soletrar” GracilianoRramos?
    Mudança de código só se faz quando ele se torna incapaz de transmitir entre seus usuários as mensagens a cuja disseminação está destinado. E este, realmente, não é o caso atual. Mineiros como eu, que problemas temos em ler um livro publicado em Portugal que seja maior do que a que teremos em ler um livro que trate da Amazônia, do Nordeste ou da terra gaúcha?
    Tentar legislar num campo que, pela sua natureza, não é legislativo mas nascido apenas de consenso entre pessoas cultas, é caminhar entre minas. E passar a vida inteira mudando as regras é pior ainda. [Creio que uma boa parte dos brasileiros reconhecerá esta como a quarta mudança a ter lugar durante sua vida!]
    Meu antigo professor de inglês, Abgar Renault que, embora fosse excelente poeta, chegou a Ministro da Educação e membro da Academia Brasileira de Letras, nunca aceitou quaisquer destas reformas e “acordos.” Fora alfabetizado na década de 1910 e sempre escreveu português como aprendeu com sua primeira professora. Guardo um livro seu, “Poemas Inglêses de Guerra,” que me deu anos atrás e em cuja dedicatória ele usa as palavras “traductor” e “offerece,” isto em data já posterior à última modificação (a simplificadora lei Médici 5.765, de dezembro de 1971). [Note-se que, neste parágrafo, estou usando mudanças que tiveram lugar em 1943, 1945 e 1971 – será que teria que mudá-lo de novo ? Ah… Ia-me esquecendo: uso também duas palavras grafadas dentro da simplificação proposta em 1911 por Gonçalves Viana, que deveríamos ter aceito e nunca abandonado.]

  • Cezar Santos 08/04/2008 at 17:01

    Ortografia é arbitrário, é normatização, é imposição, ao contrário de língua…
    Portanto, o interessante é que coloquem gente que realmetne goste e conheça o idioma para tratar da matéria.
    De vez em quando é preciso mesmo dar uma mexida aqui outra ali.
    O senso comum diz que uma ortografia unificada poderia melhorar as coisas, dando mais força ao português perante os outros idiomas mais “fortes”, como inglês, espanhol, francês, etc., de países mais fortes economicamente.
    Não vejo como uma ortografia unificada vá prejudicar a autonomia cultural, a identidade, dos paises lusófonos.

  • Pablo 09/04/2008 at 12:10

    E de que adianta mesmo deixar a ortografia igual (igual não, parecida) e a sintaxe e o léxico diferentes?
    O benefício continua irrelevante comparado ao prejuízo.

    Abraço,

    Pablo
    http://cadeorevisor.wordpress.com

  • Rafael 09/04/2008 at 15:16

    Pedro,

    Excente sua exposição, que toca no ponto nevrálgico dessa insana empreitada: a imposição ex vi legis de regras ortográficas é uma estupidez tremenda. Nenhum órgão legislativo deveria se meter a besta de regular um matéria que não é da alçada do poder estatal.

    Na minha edição das obras completas de Monteiro Lobato, há uma “ligeira nota sobre a ortografia de Monteiro Lobato” na qual o escritor paulista desce o pau nessa mania do legislador de regular a escrita:

    Não há lei humana que dirija uma lingua, porque lingua é um fenomeno natural, como a oferta e a procura, como o crescimento das crianças, como a senilidade, etc. Se uma lei institue a obrigatoriedade dos acentos, essa lei vai fazer companhia às leis idiotas que tentam regular preços e mais coisas. Leis assim nascem mortas e é um dever civico ignora-las, sejam lá quais forem os paspalhões que as assinem. A lei fica aí e nós, os donos da lingua, nós, o povo, vamos fazendo o que a lei natural da simplificação manda. Trema!… Acento grave!… ‘Ôutro’ com acento circunflexo, como se houvesse meio de alguem enganar-se na pronuncia dessa palavra!… Imbecilidade pura, meu caro. E a reação contra o grotesco acentismo já começou. Os jornais não o aceitam e os escritores mais decentes, idem. A aceitação do acento está ficando como a marca, a carateristica do carneirismo, do servilismo a tudo quanto cheira a oficial. Eu, de mim, solenemente o declaro, não sou “mé”, e portanto não admito esses acentos em coisa nenhuma que eu escreva, nem leio nada que os traga. Se alguem me escreve uma carta cheia de acentos, encosto-a. Nem leio. E se vem alguma com trema, devolvo-a, nobremente enojado…”

  • Sérgio Rodrigues 09/04/2008 at 15:28

    Pablo, sobre a sintaxe e o léxico não há nada que se possa fazer, pelo menos não a curto prazo. Essas são coisas vivas, incontroláveis. A ortografia se regula por lei. No fim das contas, me parece que estamos numa encruzilhada. Ou pegamos o caminho do acordo possível, parido após duas décadas de palavrório, e apostamos numa reaproximação entre os falantes de português, acreditando lançar a pequena pedra fundamental de uma – futura, claro – comunidade lusófona; ou escolhemos o outro caminho, o do distanciamento natural que seguirá por inércia, baseados em argumentos bastante ponderáveis como o de que somos mais numerosos do que todos eles juntos e multiplicados por x, e afinal o que temos a ganhar com um bando de povinhos atrasados e uma pequena corte culturalmente decadente, mas orgulhosa, que também não quer se misturar com a gente. Sigamos nossos caminhos opostos, dizem. Não estou dizendo que todos os que se opõem à reforma pensam assim. Mas eu prefiro a primeira opção. Acho que o português tem muito a ganhar com uma única ortografia oficial, não importa o número de variantes que ela admita. E o Brasil, como maior falante de português, tem a ganhar mais. O acordo ortográfico é uma vitória da diplomacia brasileira, e desce arranhando na goela lusa mais que na nossa. O que me parece importante ver é que não tem certo ou errado aqui. São escolhas.

  • Sérgio Rodrigues 09/04/2008 at 15:40

    Rafael: sobre a questão do cabimento filosófico do controle a que o Estado submete a ortografia – isto é, a orto-grafia oficial, a propriamente dita – se levanta todo um arcabouço jurídico e ideológico que, sim, prevê que haja um modo correto e outro incorreto de grafar as palavras. De jornais a entrevistas de emprego. A liberdade autoral não está eliminada de forma alguma por essa constatação. A grafia pode ser, sim, um modo de expressão artística. Cada um escreve como quiser, é uma liberdade civil, mas paga um preço por isso. Nenhum agá a mais passará despercebido, e provavelmente terá um significado maior do que qualquer agá devesse ter. Me divirto com a posição anarco-conservadora de Fernando Pessoa, patrono do laissez-faire ortográfico lusoparlante, mas também reconheço que a história passou por cima disso. No mundo em que vivemos, a ortografia de hoje é tão arbitrária quanto a de ontem e a de amanhã.

  • Cristiana Soares 10/04/2008 at 23:10

    Não fechei a Paulista ainda porque estava esperando a sua opinião… bom, vejo que vc é a favor da unificação… entonces, com tantos argumentos racionais, quem sou eu para causar uma revolução por questões passionais?

    Adeus pinguinhos lindos, fofos e charmosos…

    Só ainda não sei como pronunciarei “linguiça”, “cinquenta”, “eloquente, “pinguim”… “tranquilo”…

    Pode me ensinar?

  • Sérgio Rodrigues 10/04/2008 at 23:28

    Isso é trancuílo, Cris. Finge que os pinguinhos continuam lá. Também vou sentir falta deles.
    Bjs

  • Fabiano 11/04/2008 at 00:53

    Talvez o grande nó da questão seja a sensação de que, depois de uma reforma a cada geração, essa aí não parece nem de longe ser definitiva. Vai mudar um pouquinho agora, pra obrigar todo mundo a reaprender a escrever e encher as burras (de dinheiro) das editoras, e daqui a uma geração muda tudo de novo…

    Se é pra unificar a orthographia, que se a unifique de uma vez, ou se a deixe assim até isso ser possível.

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