O desprazer de ler (II)

21/05/2009

Eu odiei O grande Gatsby quando o li na escola, mas achei-o glorioso ao relê-lo para meu curso na universidade, alguns anos depois. Suspeito que, aos 17, eu simplesmente não tenha entendido nada. Baixar o nível do currículo não é a solução, mas talvez tenhamos uma visão estreita demais do que deveria constar numa lista de leituras escolares. A sugestão dada por um editor, misturar clássicos com literatura contemporânea, foi descartada por muitos como um golpe de marketing, mas talvez seja um conceito que poderia se mostrar fértil nos contextos educacionais em que os estudantes fazem um grande esforço para descobrir naquilo que lêem algum tipo de relevância para a vida moderna.

Diretamente do arquivo do “Guardian”, Jean Hannah Edelstein entra com este bom post de 2007 na discussão que andou rolando dia desses no Todoprosa. A causa é nobre, embora provavelmente perdida: fazer nosso sistema educacional entender a verdade ululante de que o prazer não é tudo na leitura, mas sem ele a leitura não existe.

10 Comments

  • gilvas 21/05/2009 at 19:38

    não penso que há o que fazer, pois trata-se de um tostines: o cara lê porque gosta de ler ou gosta de ler porque lê? maior disciplina, controle de ansiedade, como executar?

  • Rafael Rodrigues 21/05/2009 at 23:39

    Estava pensando nisso agora há, pouco, Sérgio, enquanto pegava um café aqui. Estou pensando ler e resenhar uns livros infanto-juvenis.

  • Carlos Eduardo 22/05/2009 at 08:26

    A solução, no meu modo de ver, talvez seja equilibrar a leitura de clássicos com a de contemporâneos. Leu um clássico, agora lê um contemporâneo, e assim segue.
    O próprio Italo Calvino, no texto “Por que ler os clássicos”, sugere essa solução. Só não consigo entender o porquê de se evitar tanto _ pelo menos eu não conheço nenhuma escola que ofereça essa dieta aos alunos _ a alternância constante entre a melhor literatura do passado e a melhor do presente, e, no entanto, não se pensa duas vezes na hora de se adotar gibis para suporte escolar. Há quem goste, mas pra mim gibi não serve.
    Ler por obrigação é chato sim. Mas como, infelizmente, não se pode fugir das leituras obrigatórias, está na hora de se testar essa alternativa do Calvino.

  • Carlos Eduardo 22/05/2009 at 08:30

    Só falei do Italo Calvino _ de quem vi a sugestão pela primeira vez _ mas o próprio editor (anônimo) citado por Jean Hannah Edelstein oferece a mesma solução. De minha parte, nunca vi um único editor brasileiro sugerir coisa parecida. O Brasil, definitivamente, não é um país sério.

  • Rafael 22/05/2009 at 10:11

    Do jeito que as coisas vão, o melhor a fazer é ressuscitar a gloriosa palmatória!

  • Carlos Gabriel Arpini 22/05/2009 at 17:31

    Não acho que a palmatória seja solução para coisa alguma, assim como nãoa cho besteira incluir gibis no currículo escolar. O prazer na leitura se adquire com o tempo e como qualquer prazer, é refinado também por ele. Começamos com gibis e literatura infanto-juvenil, passamos para algo mais elaborado e assim por diante, até chegarmos nos clássicos. Não adianta enfiar Machado de Assis garganta a baixo de quem não lê nem gibi por que não vai… gerando inclusive o efeito oposto. Dificilmente o indivíduo abrirá outra vez na vida um livro…
    Agradeço por termos Dan Brown’s e Paulos Coelho por levarem tantos a ler… esse é o início, o começo, de onde parte dos leitores irá se iniciar no prazer de ler um bom livro.
    Sergio, realmente “O Grande Gatsby” é um ótimo livro. Saiu agora uma recompilação de contos do Fitzgerald. Estou lendo atualmente Moby Dick, naquela incrível edição da Cosac & Naify. Excepcional.

  • Marcos Vinicius Gomes 22/05/2009 at 18:44

    Essa história sobre hábitos de leitura é um pouco cansativa. Sou professor da rede oficial de SP e trabalho textos de literatura brasileira e literatura estrangeira (principalmente os da literatura inglesa-americana) que geralmente são relegados a um segundo plano no Brasil.Ainda se mantêm esse pensamento no Brasil de que literatura é apenas Machado de Assis.A escritora Ruth Rocha disse- e estava certíssima-que a literatura infantil no Brasil é posta em último plano, assim como seus autores. Se tratamos mal os pequenos, como queremos adultos leitores? Somente a Universidade de Santa Maria no RS tem em seu currículo literatura infantil.No prêmio Jabuti a literatura infantil é premiada por último, quando todos já estão cansados para ir embora.Há aqui no Brasil (e nos países latinos) há preconceito contra literatura infantil. Há uma coleção “Penguin Popular Classics” da editora inglesa Penguin que tem desde “O mágico de Oz, “Alice no País das Maravilhas” até “A importância de ser honesto” de Wilde e Macbeth de Sheakespeare. Para a Penguin e para os leitores de língua inglesa todos são clássicos literários.Incentivar a leitura de HQ’s então parece uma heresia (heresia da qual faço orgulhosamente parte).Já fiz em sala de aula,projetos com histórias em quadrinhos com os alunos com excelentes resultados. Existe um certo ar besta e esnobe nesta discussão. Rui Barbosa lia “Tico-Tico”, quem sou eu para julgá-lo? Tive uma professora na faculdade que só faltava esganar quem dissesse que Luis Fernando Veríssimo era escritor.A literatura está aí por si mesma, se quisermos leitores, temos que ter em mente que leitura não é diletantismo, um passatempo para desocupados, burgueses esquisitos ou afins. Leitura é algo cotidiano, necessário, prosaico, poético.E também precisamos parar com essa sucessofobia contra autores que vendem bem(heresia master) e são bons. Virginia Wolf comprou uma casa com os direitos de um de seus livros e isso pelo que me consta não a desqualifica como autora.

  • FATIMA 23/05/2009 at 10:17

    a leitura é um prazer que deve ser dispertado, eu enquanto professora de português, antes de oferecer livros aos alunos, converso muito com eles para saber suas preferências de filmes: suspense, romance, etc.. A partir daí vamos para a biblioteca e os deixo a vontade para selecionar o que quiserem, tive alunos que escolhiam sempre o mais fino porque a chatice acabaria logo, mas que ao longo dos anos em que permaneci com a turma , estes mesmos alunos terminaram aprendendo a gostar de ler e a selecionar o que querem ler, e não apenas as leituras obrigatórias da escola. Este trabalho exige do professor um grau de paciência e conhecimento muito grande, pois não é fácil ter que analisar, por exemplo quarenta textos diferentes de uma única turma e de uma vez. . É um trabalho árduo porém gratificante.

  • ricardo 23/05/2009 at 12:01

    em geral, as escolas fazem meninos de 12, 13 anos, viciados em internet e games, lerem os romances de Machado de Assis e uns romancinhos juvenis para-didáticos meia-boca.

    não seria melhor melhor deixar para o colegial os romances de Machado? Os contos são a melhor introdução à sua obra. E quanto aos contemporâneos, há uma boa oferta de romances juvenis nacionais e estrangeiros de maior fôlego, bem narrados, com idéias menos padronizadas, evitando preconceitos subliminares.

    além de muito Dumas, Stevenson, Dickens…

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