O desprazer de ler

12/05/2009

A Bravo! atualiza – a propósito do lançamento do livro “A escola e a letra”, coletânea organizada por Flávio Aguiar e Og Dória – a velha mas interminável discussão sobre o que fazer para estimular nas crianças o gosto pela leitura. Por coincidência, algo em que tenho pensado muito nos últimos dias.

Acontece que meu filho de 12 anos anda se engalfinhando com dois livros recomendados pela escola: “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, e “The red badge of courage”, de Stephen Crane (isso mesmo, no original, para a aula de inglês).

Bons e importantes livros, ninguém discute. Mas serão escolhas sábias para leitores dessa idade? Não vou fingir que entendo de pedagogia, mas literatura eu conheço um pouco. Uma peça teatral de Suassuna e um clássico americano do século 19 (que, mais do que ler, eu traduzi, e posso garantir que é datadíssimo) me parecem opções desastrosas – a segunda, então, beira a piada. Em sua aparente insensibilidade para os desafios que a palavra escrita enfrenta com a geração Playstation, chegam a ser desanimadoras. E estamos falando da “moderna” Escola Parque, no Rio.

É claro que meu filho avança lentamente e de má vontade nas duas tarefas. E olha que, criado numa casa cheia de livros e conversas sobre livros, ele gosta de ler. Entre muitas outras coisas, se apaixonou pelas aventuras de Harry Potter, devora tudo do Tintim e atualmente vibra – quando Suassuna e Crane deixam – com “Capitães da areia”, uma recomendação minha, tentativa modesta de compensar a aridez do dever de casa.

Não, não acho que a escola deva enfatizar demais o prazer em detrimento da disciplina, do compromisso. É a impressão de que esse equilíbrio não vem sendo sequer buscado que me preocupa. Como pai determinado a deixar de herança para os meus filhos no mínimo uma parcela da paixão pelos livros que toma boa parte da minha vida, vou me dar por satisfeito se a escola, caso seja incapaz de contribuir, tentar pelo menos não atrapalhar.

60 Comments

  • Carlos 12/05/2009 at 12:14

    Tosco. Essa escola do Rio que você citou deve acreditar que o gosto pela literatura é inato e, por isso, é dever dela favorecer os escolhidos, efiando goela abaixo esses anabolizantes literários. Aliás, esse é o pensamento dominante na pedagogia canarinho. Mês que vem eles terão prova sobre Finnegan´s Wake, não é mesmo?

    Harry Potter, Sérgio, neste caso, é uma benção…

  • ALBERTO SANS 12/05/2009 at 12:35

    Desde sempre a escola obriga a gente a ler o que quer e o que nao quer e nao e por isso que gerou-se mais ou menos leitores esta geraçao e exposta diariamente a zilhoes de informaçoes via web cel tel etc entao sempre virao prioridadedes de leitura para os pequenos do que os velhos e conceituados romances ,entao creio eu sim que a escola deva obrigar a leitura dos classicos pois se nao for assim creio que nunca estes pequenos poderao se defrontarao com este tipo de leitura.

  • Josep Domènech Ponsatí 12/05/2009 at 12:43

    Eu sei que no é um alívio, mas isso acontece em todo lugar. Sem ir mais longe (bom, pra você é longe mesmo), aqui na Catalunha é igualzinho.

  • Mr. WRITER 12/05/2009 at 12:48

    Pois é, aí é que redide o problema, no “dever”…

    Eu me considero leitor tardio, pois foi quando ler se tornou um prazer que passei a fazer isso de forma quase sem pausa em uma leitura e outra.

    Hoje só leio por puro e simples prazer… tá, tem vezes que é vício mesmo.

    E também ainda não larguei o vício dos games, não no Playstation, mas no PC mesmo. Só reduzi as HQs mesmo, tanto pelo preço pouco onvidativo como pelas histórias muito ruins de se acompanhar e de se ler mesmo.

    Muitas explosões, muistas sagas cósmicas, muitas brigas inúteis e histórias se arrastando sem fim e dezenas de títulos chatos. HQs hoje só mesmo as muito boas.

  • ricardo 12/05/2009 at 12:49

    quando esse problema das leituras equivocadas nas escolas vai acabar? por favor!

    um professor inteligente deveria ter indicado um romance mais rigoroso, de acordo com a idade, e outro que fosse pura diversão.

  • Roberta 12/05/2009 at 12:53

    Saí da escola achando Drummond meio chato, Vinícius chatíssimo e João Cabral um porre. Muitos anos depois caí de amores, em momentos diferentes, por cada um deles.
    Pior que as aulas de literatura eram as de análise gramatical, meu deus que tortura! Por melhor que fosse o texto, o esquartejamento promovido pelas professoras – que nem eram de todo ruins – me entediavam absurdamente.
    Escola não estimula leitura, salvo raras exceções.

  • Rafael 12/05/2009 at 13:30

    Essa discussão é bem antiga. Lembro-me de um texto do Monteiro Lobato, escrito, se não me engano, na década de 40 do século passado (toda vez que escrevo “século passado”, sinto como se estivesse falando do século XIX…), em que ele fazia um grande elogio ao livro “Tereza, Filósofa”, clássico da literatura erótica, lido, às escondidas, por garotos onanistas (com a internet, o apelo a esse tipo de literatura, acredito, reduziu-se significativamente). Segundo Monteiro Lobato, esse era o tipo de livro que estimulava a leitura, porque era “interessante”, ao contrário dos maçantes clássicos que o sistema educacional enfiava goela abaixo nos desamparados estudantes.

    A série do Sítio do Pica-Pau Amarelo foi concebido por Monteiro Lobato com o propósito de estimular a leitura e a curiosidade intelectual mediante o prazer e o entretenimento.

    Mudamos de século, e o sistema educional brasileiro continua fiel àquela filosofia do tedioso-clássico-que-deve-ser-lido-para-não-se-tirar-zero.

    Não bastasse o crime de lesa-educação, há ainda o agravante: os clássicos brasileiros (salvo as rarefeitas exceções) são avassaladoramente bolorentos e tediosos. Nada mais aborrecido que ler as pitorescas descrições de José de Alencar, os angustiantes dramas dos alunos do Ateneu, o melodramático e açucarado romance d’A Morenina. As Memórias de um Sargento das Milícias e o Triste Fim de Policarpo Quaresma são exceções, reconheço, mas exceções demasiadamente tímidas.

    Nossa literatura (situação que persistirá até a conclusão do monumental work in progress do nosso Hiago) não dispõe de clássicos de apelo juvenil, como as Viagens de Gulliver, Robison Crusué, O Livro da Selva, Cândido e Tereza, Filósofa.

    Tive a sorte, a grande sorte de ser educado com a leitura das deliciosas aventuras da Coleção Vaga-Lume (ainda existe?), a maior contribuição ao ensino da literatura ofertada ao país desde o Sítio do Pica-Pau Amarelo.

  • fabricio de melo marques 12/05/2009 at 13:52

    o goasto pela leitura deve começar cedo, para quem tem tempo ler para os filhos antes do sono chegar seria um bom exemplo,como tambem indicar livros que possam responder algumas perguntas das criançãs. porem penso que não há uma formula mágica ou a criança gosta ou não gosta da leitura e pior fica com as leituras forçadas indicadas pelas escolas.

  • marvado 12/05/2009 at 14:06

    Eu como professor de Literatura e estudante de pós graduação em Literatura pela Puc São Paulo, estou abismado com o conteúdo deste texto.
    Em primeiro lugar concordo plenamente com o autor. Porém, me pergunto com o seguinte: qual a chance das crianças e estudantes deste país, estudei em escola pública, meu filho estuda numa particular em SP, sinceramente preferia que estudasse na pública, apesar de tudo acredito que procurando, muito diga-se, acha-se alguma com qualidade, na verdade preferia talvez manter meu filho longe da escola, mas a primeira alternativa não depende só de mim, pois não moro com a mãe e ela pensa muito diferente de mim, já a segunda opção, pelo que me consta dá até cadeia. A escola não só atrasa ou aborta o prazer de ler, como o faz também com a percepção, as sensações dificultando o contato com o conhecimento, digamos, mais analógico.
    Mas voltando ao meu susto, que disparidade é esta? como uma criança de 12 anos pode ter como atividade tais leituras? Nas escolas públicas paulistas, um contingente considerável de jovens terminam o ensino médio sem aprender o código linguistico da língua que fala, outros tantos que chegam à Universidade nas milhares de particulares, principalmente, terminam a graduação, inclusive em Letras, sem terem desenvolvido condições de uma leitura realmente proveitosa.
    Qual a chance de uma maioria esmagadora de pessoas desse país têm de concorrer neste mundo de consumo e capitalista com um estudante desta nobre escola?
    Há uma patologia muito séria na pedagogia, mas as vezes o tiro sai pela culatra, o que me parece é que a tal Esola Parque, moderníssima, é como costumamos dizer aqui, uma escola de patrão, ainda que com a intenção de que sejam patrões “humanos”, patrões…

  • joao gomes 12/05/2009 at 14:11

    Sinceramente, penso que a escola busca proporcionar ao aluno que ele aprenda a ler.

    Os veículos/conteúdos para tal tarefa não penso que prejudique a disposicao para a leitura.

    Escola é lugar de ensino. Raramente lugar de prazer.
    Sim, poderia …ou deveria unir as duas coisas, mas isso é cada vez mais raro. Aí entrariamos em uma discussao sem fim sobre epistemologia do conhecimento, didática e as Novíssimas Tecnologias de Informacao e Comunicacao.

    Entretanto cabe a escola ter, além dos livros dos programas curriculares, livros diversos em sua biblioteca. …se é que elas têm.

  • Pandora 12/05/2009 at 14:52

    Para um adolescente, basta ser obrigatório, que é o fim do mundo. Vida de educador não deve ser fácil.
    Tive um professor de inglês que recomendou Animal Farm (Orwell) para uma atividade.
    Após alguns dias, ele disse que mudaria a indicação para algo mais didático, que a direção não gostou, etc. E aproveitou para dar indicações veladas de outros livros “inadequados” disponíveis na biblioteca.
    Depois que foi proibido, lembro como se fosse hoje, que a leitura passou a ser uma delícia, incluindo boa parte da obra de Kafka (traduzido para o inglês) que ele também indicou e até mesmo o The Catcher in the Rye, (que hoje considero um tédio).
    Atualmente ele não enganaria ninguém. Eu caí feito um patinho…

  • Rafael 12/05/2009 at 15:53

    Tenho a impressão (quem me dera esteja errado!) de que alguém, aí em cima, defende que a grande injustiça não é a má qualidade do ensino público, mas a excelente qualidade de algumas poucas escolas privadas, nas quais estudam os filhos dos execráveis patrões!

    As sutilezas do raciocínio humano sempre me supreendem.

  • clelio 12/05/2009 at 16:29

    Por ter sido obrigado a ler em hora errada, eu odiava Machado de Assis e mais ainda Aloisio de Azevedo. “O Cortiço” chegava a me dar alergia quando criança. Demorei muito para me livrar desse ranço, menos com Machado que com Aloísio, mas hoje considero “O coruja” um ótimo livro e Machado está na cabeceira. Tem hora sim para literatura e os colégios não ajudam muito nisso. Minha filha inda tem 8 anos mas já desenvolveu seu gosto pela literatura infantil, espero que dê frutos.
    Abraço Sérgio

    p.s. não quero entrar no concurso para ganhar o “Elza”, porquejá comprei, já li, muito bom, leitura gostosa, com boa informação histórica e um Xerxes pra lá de batuta…

  • Ed 12/05/2009 at 16:32

    Chega de falar só do que tá errado. Querem ver como se ensina a gostar de leitura? Venham à Escola Classe 18 de Taguatinga, DF. É demais! Meus filhos estudaram lá até a 4ª série e adoram literatura. Vi alguém um dia dizer que a escola deveria ser “uma biblioteca cercada de salas de aula por todos os lados”. A EC 18 é assim. A literatura é o centro do projeto pedagógico. Ah, e a escrita também.

  • Sandro Cavallote 12/05/2009 at 16:44

    Tenho uma filha de 8 anos e a escola dela começou bem a apresentar pequenos livros, de histórias curtas e ela tem evoluído a cada passo. Entretanto, na minha época, revistas em quadrinhos ajudavam muito, muitas vezes sendo até o pontapé inicial. Pensando nisso, comprei algumas revistas da turma da Mônica (que, aliás, estão caras demais para a quantidade de folhas) e ela gostou em primeira instância. Agora ela está querendo a tal da Turma da Mônica Jovem. Bom pai que sou, consegui um exemplar para ver se está de acordo com os valores que acredito. Tristeza constantar que a publicação é fútil, elitista e completamente superficial, induzindo ao consumo a cada história, como se adolescentes fossem pessoas que só servem pra isso. Me decepcionei completamente com o assunto e pedi para ela esperar mais um pouco, mas a propaganda é tão maciça que ela está até impaciente, porque as amigas da escola tem e ela não. Coisa da idade.

    Triste constatar que uma pessoa que me deu tantas alegrias e me ajudou a ler agora se rendeu ao consumo desenfreado e deixou o conteúdo de lado para que a roupagem possa ficar mais bonita.

    Infelizmente, esse é parte do retrato social do Brasil. O “trash for cash”. E poucas leituras (e escolas) hoje em dia podem se dar ao luxo de serem diferentes e realmente proporcionar uma experiência de vida para nossos filhos.

  • marvado 12/05/2009 at 16:55

    Caro amigo Rafael, vc não está errado no que diz não, temos padrões diferentes para reconhecer a excelência de uma escola, realmente as escolas nas quais estudam filhos de patrões e as que formam patrões são a opção dos que têm grana e as públicas dos que não têm, o nível de ambas a mim realmente não interessa.
    O que me interesse dizer a vc neste momento, é que a excelente escola que vc citou existe exatamente porque existe a pública, na qual estudam os futuros balconistas de lanchonetes e padarias e trabalhadores braçais em geral, Ah é claro e os futuros professores das escolas públicas tb.
    Já nas que vc acha de ótimo nível, estudam os que ditaram as regras, ocuparam as vagas nas Universifdade públicas e etc.
    Vc acha que isso é por acaso? Nenhuma destas escolas me interessam, ambas são mal intensionadas, principalmente a que vc considera excelente!
    mesmo assim abraços

  • marvado 12/05/2009 at 16:58

    errata:
    ditarão, ocuparão

  • Daniel 12/05/2009 at 17:06

    Convém pesquisar se o professor que indica tais livros, realmente os leu antes de indicar, ou se vai corrigir os pequenos leitores com base apenas em uma carftilha pré formatada por alguma editora.
    Para indicar uma leitura tem que ter a base do que indica.
    E literatura para essa faixa etária sobra no nosso planeta: Monteiro Lobato, Julio Verne, As mil e uma noites, Guliver, Robson Crusoé, e por aí vai…
    O prazer de ler está sim acima de tudo, para que se desenvolva e possa apreciar os grandes clássicos, na hora certa.

  • isaac 12/05/2009 at 17:58

    eu lembro da coleção vagalume com prazer.
    não se usa mais a coleção vagalume para a garotada?

  • Rafael 12/05/2009 at 18:11

    Marvado,

    Você me pergunta se tudo isso é por acaso. Respondo que não. Em verdade, debaixo do Salão Oval, na Casa Branca, em Washington, há um porão sinistro, onde criaturas não menos sinistras se reunem para sinistramente arquitetar planos sinistros cujo propósito é implodir o ensino público brasileiro, este notoriamente sinistro.

    O pior é que eles estão tendo êxito na empreitada.

    Tanto isso é verdade que as pessoas, nestes tristes trópicos, nem mais conseguem atinar com as mais elementares regras da lógica. O exemplo está aqui nesta proposição: “a excelente escola que vc citou existe exatamente porque existe a pública”.

    Traduzindo: a má qualidade do ensino da escola pública é a conditio sine qua non para a boa qualidade do ensino da escola privada. Quanto pior é o ensino público, melhor é o ensino privado. Quanto mais analfabetos forem os egressos do ensino público, mais sofisticados e brilhantes serão os egressos do ensino privado.

    O filho do Sérgio, por exemplo, só está adquirindo conhecimento lingüistístico que o habilite a ler Stephen Crane no original porque, alhures, quinhentos alunos estão sendo vítimas do descalabro patrocinado pelo Minc com a cumplicidade criminosa das secretarias estaduais de educação.

    Hei de gastar a noite folheando o Organon do Aristóteles para me inteirar dessa lógica sinistra.

  • Carlos de Morais 12/05/2009 at 20:01

    Meu caro Sergio

    Há mais de quarenta anos atrás, aconteceu um fato semelhante, quando me pus a dar aulas particulares. Por isso, fiquei deveras surpreso com o texo, pois tinha certeza, que tal questão jamais existisse. Um aluno me telefonou que seu prof. de português exigiu a leitura de mais um livro. Qual livro? perguntei. E o aluno: Memórias de um Sargento de Malícias ahahahaha. De fato, naquela altura os prof. exigiam leituras de livros sem nenhum comentario nenhuma explicação, como nesse caso. Pensei que isso não existisse mais…. Infelizmente ainda persiste!

  • Claudio Soares 12/05/2009 at 20:59

    Sérgio, as crianças adoram ler e escrever. Porém, infelizmente, pelo andar da carruagem de muitas das escolas brasileiras, elas terão que descobrir isso sozinhas.

    A leitura e escrita, sabemos, são atividades melhor desempenhadas e aproveitadas quando adquirem aspectos lúdicos [isso vale também para os adultos].

    Uma de minhas filhas, por exemplo, adolescente, chegou a Machado de Assis via Tim Burton [Tim -> Poe -> O Corvo -> Machado]. Ela lê diversos livros na web, interagindo com eles, entende? Contextualizar a leitura, a torna uma atividade dinâmica e prazerosa. Sempre.

    Este ano, a turma dela escreve um romance coletivo. E para escrever é preciso ler, e muito. E eles lêem, mas lêem com um propósito. A turma lê, se reune, define personagens, trama etc. Tudo sob a orientação do professor, claro, que mais do que um “depositário de conhecimento” é um tutor.

    Ano passado, eu publiquei alguns artigos sobre Machado de Assis e o xadrez e por conta deles fui convidado a dar uma palestra a alunos da rede salesiana. Mas, como falar de Machado, um autor do século XIX, para os “digital natives”? Não tive dúvidas: a palestra foi dada através de Blogs, Youtube e Orkut. Quase duas horas de intensa participação.

    Os mesmos alunos, durante o ano letivo, ainda realizaram atividades [lúdicas, claro] de montar peças, apresentações PPT, animações, vídeos etc tendo como tema as obras de Machado.

    Leitura sempre foi [e cada vez mais será] o despertar da curiosidade, a busca, o diálogo. Ler é interagir com o livro e com outras pessoas compartilhando descobertas, aquilo que nos chamou a atenção durante a leitura [que diz respeito mais ao leitor que ao livro propriamente dito].

    PS: O Auto da Compadecida foi o primeiro livro que li, o que fiz questão de registrar no primeiro que escrevi [que entreguei, em mãos, ao mestre Suassuna]. Espero, Sergio, que seu garoto ainda consiga se divertir com as aventuras de João Grilo e Chicó.

  • Nathanael 12/05/2009 at 21:20

    Exatamente o que eu vinha pensando. Eu vi a questão na revista. As escolas não compreendem que o classico é uma finalidade, o objetivo primeiro deve ser a leitura. As escolas deveriam incentivar a leitura dos contemporaneos; uma vez os alunos paixonados pela leitura, aí sim poderia indicar clássicos.

  • Pedro David 12/05/2009 at 21:50

    Leitura é escolha, né? Como eu estudei em escolas que não cobravam muito, e meus pais também não marcavam muito em cima, eu dava uma anarquizada. Me mandavam ler Brás Cubas, eu lia o Quincas. Daí chegava para a professora e falava: li este, serve ? Quase sempre dava certo, e fui a cada dia ganhando mais gosto pela leitura.

    Acho que o modelo não deve ser seguido, mas dá pra tirar umas lições. Se escola conseguir juntar uns dez ou quinze livros diferentes, mas semelhantes no que diz respeito ao grau de dificuldade da leitura, seria muito mais instigante. Afinal, se a gente que é adulto escolhe livro pela cara dele, título, nome do autor, e principalmente, por razões inexplicáveis, imagina um garoto ?

  • Osório 12/05/2009 at 22:53

    Estudei em escola pública, na época em que escola pública era outra coisa. Ela tinha uma biblioteca e tinhamos, portanto, acesso a vários livros destinados à nossa faixa etária. Li Guilherme Tell, Robin Hood, Quo Vadis, Júlio Verne (creio que dois), entre tantos outros. Em casa li Meu Pé de Laranja Lima, O Doidão, Senhor do Engenho, Monteiro Lobato (creio que todos). Ou seja, sem que ninguém me obrigasse, eu lia, simplesmente por prazer. A leitura certa na idade certa, simplesmente. Será que é difícil para uma escola entender isso?

  • Isabel Pinheiro 13/05/2009 at 00:05

    Rafael e Isaac perguntaram sobre a coleção Vagalume. Existe, sim, e com aqueles títulos todos que fizeram nossa alegria na pré-adolescência. Mas eu tenho uma notícia triste pra vocês: mantenho um blog sobre livros, apenas livros e minhas impressões sobre eles. Mais da metade das pessoas que visitam meu blog o encontram pelo Google, ao pesquisar por “O caso da borboleta Atíria” e “Spharion” – dois clássicos da Vagalume -, por “O gênio do crime”, um exemplo de literatura juvenil, e por “O caso da estranha fotografia”, idem.

    E aí vêm as variações: “borboleta atíria – resumo”, “borboleta atíria – personagens principais”, “borboleta atíria – comentário crítico”, “borboleta atíria – análise”, “borboleta atíria – como termina”. A esse bando de gente foi, sim, recomendada a leitura de livros bons e, acredito, coerentes para a idade. Mas eu só posso concluir que eles NÃO QUEREM ler. É mais fácil procurar pelo resumo online.

    Isso foi me dando tanta raiva, mas tanta raiva, que eu coloquei um aviso nos posts de cada um desses livros, dizendo algo como “A quem chegou aqui procurando o resumo da borboleta Atíria: deixe de preguiça e leia, porque o livro é excelente.” De vez em quando, um ou outro anônimo deixa um comentário: “Não é preguissa (sic), mas é que preciso fazer um resumo pra amanhã”; “O livro é muito chato”, “Minha professora quer que eu leia muito.” Meu lado Darth Vader anda doido de vontade de escrever um “resumo” muito particular desses livros, inventando um samba do crioulo doido pra cada um deles, só pelo prazer de imaginar o aluno preguiçoso levando bomba na escola.

    Em resumo, porque já escrevi muito: não sei se a culpa é só das escolas. Infelizmente, nem todos os pais são como o Sérgio, que estimulam a leitura em casa – que é, acredito, de onde o exemplo deve mesmo vir. Abraços, Isabel

  • Isabel Pinheiro 13/05/2009 at 00:19

    Lembrei de uma outra coisa: em 1994, entrevistei a Ruth Rocha para a revista em que eu trabalhava. Ela me surpreendeu ao dizer que, naquela época, as crianças já não liam Monteiro Lobato porque simplesmente NÃO ENTENDIAM as histórias. Que Monteiro Lobato tinha virado coisa de quem tem 12 anos pra cima (eu li “Reinações de Narizinho com uns 6 ou 7, aos 12 conhecia os 17 volumes da coleção de trás pra frente).

    É evidente que existem exceções – o filho do Sérgio, ao ler “Capitães de Areia” com 12 anos, taí pra provar isso. E viva Harry Potter, se estimula o gosto da literatura na garotada de 10, 12 anos (até eu, que tenho 39, li todos com prazer). Mas eu fico pensando: que tipo de involução fez com que os pré-adolescentes de hoje sequer entendam a fantasia de Lobato? Em que momento das últimas duas ou três décadas esse encanto se perdeu?

  • Jose Cláudio 13/05/2009 at 06:53

    Os paradigmas utilizados para incentivo à leitura, são baseados em clássicos e famosos. Simplesmente para dar status à escola, não formar os educandos. Às vezes nem mesmo os professores tem esse hábito assim tão arraigado. É uma lástima. Imagine que em minha infância tomei ódio de Machado e Assis. Há de convir que com nove, dez anos, ler Machado é um porre. Hoje fico tentando me desculpar com ele (que bobagem) .Mas a escola quase me faz desistir da literarua definitivamente. Paz e bem.

  • marvado 13/05/2009 at 09:30

    Sr. Rafael,

    Nos porões da casa branca, ao contrário do que vc escreve, planeja-se a democracia, liberdade e igualdade para todos no mundo. Um mundo onde todos, aos 12 anos possam ler livros em inglês arcaico, e a partir dos 18 possa trocar de carro todos os semestres. Aqui no Brasil alguns têm a opção de matricular os fihos nas grifes de ensino, e estes chegarão mais rápido a ter o poder de consumo vislumbrado pela humanidade.
    A casa branca, nossa assembléia legislativa, nossa câmera de Vereadores, fiesp, igreja, etc são realmente instituições muito sérias e preocupadíssmas com a socialização do conhecimento, o problema é este povo vagabundo, com ascendência de povos inferiores, que ficam pra lá e pra cá e não querem fazer nada. Brasileiro não gosta de estudar, já os estadunidenses adoram, este mundo é feito com muita justiça e os principais responsáveis por tanta justiça são: Em primeior lugar Sr. jesus cristo, em segundo as corporações, maravilhosas com seus projetos pró ecologia e de desenvolvimento sustentável e em terceiro e como um Exu(aquele que está mais próximo dos mortais) A Grandiosa Casa Branca, com seus porões cujas alamedas são revestidas de ouro e o ar de ternura,
    AMÉM

  • Rafael 13/05/2009 at 09:34

    Isabel, confesso que eu também já fiz uso desse expediente malandro, o de consultar resumos, em cima da hora, deixando de lado a leitura dos originais. E fiz isso mais de uma vez, porque as aulas de literatura que tive na escola eram desestimulantes, chatas, maçantes e provocavam tamanho tédio que eu, pobre mortal, via-me acometido de grande repulsa pelas livros indicados pelo professor. Essa é razão pela qual não consegui, até hoje, ler Iracema, Macunaíma e O Cortiço.

    Em compensação, tantos eram os livros que lia clandestinamente no afã libertário de obter uma cultura que nem meu professor tinha.

    Acredito que meu plano deu certo: hoje sou um profissional bem sucedido e parte do meu sucesso debito à cultura literária que alimentei esses anos todos.

    O meu pobre professor, coitado, deve ser hoje um aposentado que vive às custas do INSS e da venda de bilhetes de loteria…

  • Rafael 13/05/2009 at 09:40

    Sr. Marvado,

    Fazer ironia é como andar de bicicleta: aprende-se certo esforço, após muitos tombos e algumas esfoladas.

    Vai em frente, meu amigo! Afianço que essa habilidade, uma vez dominada, não se desaprende jamais.

    Boa sorte.

  • Fernando Torres 13/05/2009 at 09:56

    Ainda não tive tempo de ler os outros comentários, o que devo fazer mais tarde. De tal forma que me refiro apenas ao texto do Sérgio.

    Temos todos nossos traumas literários (as vezes livros fenomenais que não nos descem por conta do despreparo de um professor esforçado). Sérgio, espero que seu filho supere o fado da geração playstation, como eu superei o da Gerção SuperNes.

  • Jailton Bomfim 13/05/2009 at 10:34

    Sérgio Bom dia, tenho o mesmo problema com meu filho de 12 anos, ele não gosta de ler , adora futebol , joga futsal pelo Campeonato da Federação Paulista de Futsal e Futebol de Campo nos Meninos da Vila do Santos F.C, devido os treinamento que na maioria das vezes são à noite , ele já tem pouco tempo para estudar junta com a pouca vontade de ler , o ano passado quase repitiu de ano.

    Jailton Bomfim

  • Anna May 13/05/2009 at 11:18

    PARA: Sandro Cavallote

    Amigo, teho uma filha de 6 anos que me botava a mesma pressão. Como na época do lançamento vi que Maurício iria tratrar de temas adolescentes (namoro, iniciação seual, conflitos geracionais, Alucinógenos e etc) estava convencida a não comprar. 6 anos não é tempo de tratar disso, talvez os dez sejam.
    Entretanto comprei para mim mesma a edição que está nas bancas, sobre a montagem de uma peça de teatro, e sinceramente babei. É um roteiro inteligente, uma arte final primorosa, altas doses de humor e uma boa discussão sobre amadurecimento, responsabilidade, sociedade de aparências, etc. Altamente recomendável para todas as idades. Talvez valha à pena abrir esta excessão.

    Qto à coleção vaga-lume, ela foi o meu trauma. Tirando Luiz Puntel e “Garra de Campéão” o resto da coleção era muito chata. O Escaravelho do Diabo não tinha pé nem cabeça, nenhum apelo. Lia uma página, pulava 5 e a história não mudava. por causa dela quase desisti de ler. a sorte é que dos 6 aos 8 anos colecionei uma série de livros que eram acomppanhados de mini discos chamada TABA com histórias infantis folclórica e de autores nacionais dramatizadas pelo Tablado, acompanhados de um livro com ilustrações riquíssimas, sonorizado0s com a fina-flor da MPB: Caetano, Chico Buarque, Gil, Novos Bahianos… E no fim ainda tinha atividades para se fazer com o grupo de amigos!!! Isso que me que foi determinante para a minha paixão pela leitura, e que não deixou que me perdesse pelos Vaga-Lumes impostos. Conclusão: aos 10 anos eu liaos poemas do romantismo brasileiro (Gonçalves Dias e Cia) de livre e espontânea vontade. Aos 11 amava José de Alencar (embora não ltenha lido até hj os indianistas – só Iracema, por obrigação na escola e q achei um porre!!!) e já juntava a graninha da mesada por 2, 3 meses para poder comprar estes livros.

    E a TABA ? Pq não se reedita em CD???

  • Chapeleiro 13/05/2009 at 13:05

    O problema maior talvez esteja em como a atividade é passada. Considero “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, uma obra muitíssimo engraçada, e gostosa de se ler. Aliás é um dos livros mais divertidos que já li. No entanto, dependendo de como a leitura é passada na sala de aula e das atividades e trabalhos que transformam o prazer em obrigação entediante, corre-se o risco de azedar até as obras literárias mais divertidas.

    Lembro que sempre odiei trabalhos escolares e acredito que muitos afastam o leitor juvenil ao invés atrair.

  • Isabel Pinheiro 13/05/2009 at 14:16

    Eu, Rafael, tive vontade de queimar “Dora Doralina”, da Rachel de Queiroz, quando fui obrigada pela escola a ler o livro aos 13 anos. Nunca mais passei perto de obra dela, olha que pena. Mas procurar resumo de Vagalume e “O gênio do crime” não me desce… :-) Vai ver é como a Ruth Rocha falou: hoje é mais difícil entender certas coisas. Abraço!

  • Ernani Ssó 13/05/2009 at 15:20

    Sérgio, acho que já disseram tudo aqui, mas talvez não seja demais esta declaração do filósofo espanhol Fernando Savater: “Sem dúvida, acho que o que faz você entrar no mundo da leitura é a paixão por um livro, não tem outro jeito. Você explica para alguém teoricamente que ler é maravilhoso, que vai descobrir não se sabe que coisas, e se ele não o experimenta, não há o que fazer. Em troca, quando alguém leu um livro com paixão, com emoção, quando sentiu a paixão de um autor, você já não precisa explicar mais nada. Por isso acho que o hábito da leitura se contagia. Em vez de transformá-lo numa lição, é preciso transformá-lo num contágio. Nesse sentido, este livro (La infancia recuperada) queria ser também um livro um pouco contagioso, queria contagiar com o entusiasmo da leitura”.

  • Eric Novello 13/05/2009 at 15:53

    Aula de literatura virou um poço sem fundo, história da literatura, quando não nariz para o alto, minha escola é melhor que a sua. Uma pena.
    Não li praticamente nenhum livro recomendado no segundo grau (ainda se chama assim?) e os que peguei para ler depois de muita bagagem achei um saco do mesmo jeito. O que salvou, além do que comprava por própria conta, foi um livrinho chamado Blecaute, do Marcelo Rubens Paiva. Mais uma vez cito-o feliz da vida. Abss!

  • Fernando Torres 13/05/2009 at 16:03

    Eric,Blecaute é um ótimo livro, lí em uma tarde. Assim como os traumatizantes livros do colégio, todos nós temos os livros que nos salvaram, eu cito sempre “Haroum e o mar de Histórias” de Rushidie

  • Claudio Soares 13/05/2009 at 16:04

    Aos que acham que ler é apenas ler romance: não, ler é isso e muito mais. A leitura de um bom resumo pode estimular sim a leitura do romance [mas a escolha é um direito inalienável do leitor].

    “Ler para viver”, como lembra Flaubert. Cada coisa no seu tempo e lugar. Assistam “La sujetividad del tiempo”, de Julio Cortázar [tem no youtube]. Ler não é apenas ler um livro. Não considero que os jovens de hoje leiam menos ou pior. Trata-se de uma leitura apenas diferente e, arrisco a dizer, mais apropriada para os novos tempos.

    Eu me surpreendo como muitos aqui são presos a determinados dogmas, de mercado, que lhes foram passados e aceitos [aparentemente] sem exercitar o espírito crítico.

    Alguém lembrou Monteiro Lobato, lembrança merecida. Monteiro arregaçou as mangas e foi a luta pelo que acreditava. Nossa literatura umbiguista é carente desse perfil. Monteiro ganhou e perdeu. Mas, acima de tudo, lutou pelo que acreditava. Em uma carta de 1936 ele escreveu para a menina Maria Luiza: “A nossa [literatura infantil] é a pobreza que você sabe. Se eu não me metesse a escrever uns livrinhos para vocês, que é que vocês teriam para ler? Nada, ou quase nada”.

    Setenta e tantos anos depois, perguntamos, mudou alguma coisa? Diria que muito pouco [inclusive, pelo que leio nesses comentários].

    Repito: as crianças amam ler e escrever, mas no Brasil, infelizmente, elas acabam tendo que descobrir isso sozinhas.

  • W.M.Carvalho 13/05/2009 at 16:39

    Dentro do assunto: alguém conhece e pode me indicar um Dom Quixote em quadrinhos (ou adaptação uma legal) para eu presentear meu sobrinho de 9 anos?

    w.m.carvalho

  • Roberto Fonseca 13/05/2009 at 17:13

    Em primeiro lugar, se sentirem felizes em seus lares, com os seus pais tendo uma boa condição de vida (dinheiro no bolso), para lhes dar uma boa alimentação e depois fazer com que as mesmas passem a ler para estimular as suas mentes. É possivel fazer isso no Brasil, com a maioria da população ganhando (ou perdendo) o R$zinho mínimo? Até parece que estamos na Escandinávia…
    RF

  • Te 13/05/2009 at 22:27

    Escola Parque não é aquela que demitiu um professor de literatura por que ele escreve poemas eróticos?

  • Eric Novello 14/05/2009 at 11:09

    Engraçado que tem gente que reclama que ler O Cortiço, do Azevedo, é um trauma, enquanto outros choram o tempo perdido por não ter lido Dostóievski aos 10 anos de idade. rs. Ô mundinho esse dessa tal literatura. Abss!

  • Humberto 14/05/2009 at 13:13

    Lembro-me de experiências didáticas no ensino fundamental e médio que foram boas para estimular o hábito da leitura. Nós, alunos, podíamos escolher os livros que leríamos numa relação bastante extensa fornecida pelo professor e podíamos inclusive, trocar de livro se percebêssemos logo no começo que o livro escolhido não nos agradava. Além disso, ao invés de fazer uma prova sobre o livro, cada aluno apresentava o que tinha lido (15 minutos) para o restante da classe. Acredito que propostas como esta poderiam ser mais utilizadas pelos educadores.

  • Fernando Torres 14/05/2009 at 14:36

    humberto, eu ahco isso o ideal (até sugeri isso nos mometários de meu blog).

    Eric: Dostoievski aos 10? Marquês de Sade aos 11? e o que aos 12?

  • Lord Jim 15/05/2009 at 13:24

    a turma que concorda com o autor é que mais comete erros barbaros, verdadeiros crimes de lesa majestade da lingua patria..tudo e ver não?

  • Hefestus 15/05/2009 at 15:34

    Pior que na minha época O Cortiço era o único dos livros recomendados no segundo grau que o pessoal ainda se puxava para ler – alguém falou que havia cenas de putaria, foi o que bastou para despertar o interesse. Agora, realmente concordo com o Sérgio (e espero que sem erros bárbaros): a caótica estruturação do currículo escolar, com sua abordagem historicista mais do que voltada à leitura, tem como resultado uma legião que sai da escola sem ler nem querer saber O mínimo equilíbrio entre o prazer e o dever não é mesmo uma aspiração no horizonte.
    E concordo também, integralmente, com a Isabel. Querer resumo da Coleção Vaga-Lume é o fim da várzea.

  • Cezar Santos 16/05/2009 at 23:26

    Seja qual livro indicado como leitura obrigatória, e haverá quem o ache bom e quem o ache ruim, inadequado para a faixa etária, etc.
    Leitura é assim mesmo, deve ser inoculada no vivente, às vezes maciamente; às vezes no trompaço.

    A criança que sobreviver a esse processo pode se tornar um leitor, com tudo de bom e de ruim que isso implica…

    E acredite, leitura não é só prazer. Eu fico pasmo com quem apregoa leitura como pura fonte de deleite, sossego, maravilhas.

    Leitura provoca angústia também, desassossego, frustração, inquietação…

  • Satan-Clair Stockler 17/05/2009 at 03:41

    Escola Parque? Não é aquela que demitiu o professor Oswaldo Martins porque uma mãe achou “pornográfico” o romance que ele indicou (La joueuse de go) aos alunos e fez um escândalo, a distinta?

    Jornalista chora miséria, mas bota os filhos pra estudar em escola de elite…

    Ai, que saudades dos CIEPs!!!

    P.s.: Se alguém me mostrar uma só ceninha pornográfica no romance da Shan Sa, prometo assistir a uma Missa no Mosteiro de São Bento do princípio ao fim, sem espumar (e virar o pescoço ou vomitar ou me masturbar com o crucifixo (essa vai ser difícil)).

  • Silvano Silva 18/05/2009 at 12:57

    Já escrevi, editei e lancei de forma independente, 4 livros de contos regionais,que retratam as brincadeiras e os brinquedos artesanais, a vida no interior com seu povo simples e seus causos.
    Tenho ido, no peito e na raça, mostrar estes livros, ler e contar minhas histórias nas escolas da região.
    Tenho reparado que o AUTOR é um ser que está muito distante das crianças. Já chegaram a dizer que achavam que autor de livro era somente pessoa que já havia morrido… pode?
    Então… as escolas deveriam TRAZER AUTORES para no “cara a cara” com as crianças, mostrar o mundo da literatura.
    Ninguém melhor que a autor para passar a emoção do escrito para os alunos.
    Isto traz, com certeza, uma nova concepção do real mundo da literatura para a s crianças. Autor, livro e leitor… JUNTOS.
    Os muncicípios tem seus autores regionais… é fácil viabilizar estas visitas.
    Falta somente boa vontade das partes envolvidas.

    Saci Pererê

    Ainda não estava matriculado na escola isolada da professora Maria Rosa. Tinha muita vontade de saber escrever o meu nome. Minha mãe falava que ” Floriano” era muito difícil e quando tivesse tempo me ensinaria. Mas eu sabia que só ia aprender no colégio, porque ela trabalhava na cidade, empregada em firma de cerâmica, e só vinha embora à noite. Na luz de lampião eu não gostava de pegar no lápis; a fumaça exalada pela queima do querosene ardia a vista.
    A idade não permitia o estudo, mas não impedia que eu ajudasse o meu avô nas atividades corriqueiras da roça. Operar a manivela da máquina de enrolar fumo, malhar feijão e amontoar feno em pito, era para mim pura diversão.
    Quando o sol ficava mais fraco e formava uma bola vermelha no “risco do fim do mundo”, era hora de recolher as rezes que se entrevavam na capoeira. As que tinham cincerro se achava logo. O tilintar seguido, de ferro batendo em ferro, mostrava o caminho de onde elas estavam.
    Eu sabia contar até doze, devido à conferência diária que fazia. Esta era a quantidade de novilhas que o avô José tinha.

    Se faltasse alguma e não ouvisse o sininho, saía na cata a cavalo porque elas pegavam o caminho da mata grande e ficava um pouco ruim de bater perna atrás delas. Eu era um rastolho de gente, mas galopava bem. Além do quê, o baio era manso e conhecia muito bem o carreiro.
    Nunca houve engano em minhas contas. Contei e recontei… contei de novo. A soma naquela tarde deu onze; até lembrei da vaca que não estava ali: era aquela que tinha uma ferida de carrapato na pata da frente. A mancha roxa de *bebesol aparecia bem. * remédio veterinário
    No intuito de encontrar a vaca desgarrada, grudei no “cabelo” do cavalo e me joguei na garupa.
    O bicho relinchou e deu um pinote … algo não estava certo. A crina dele toda trabalhada de trancinhas me deu a certeza.
    O pangaré foi assustado por saci __ afirmei.
    Corri até o forno escavado no cupinzeiro velho, onde haviam sido feitas umas broas, e peguei um tição de brasa pra desfazer a molecagem que o coisa ruim tinha feito.
    Eu não sabia a mandinga de reverter aquilo. Quem fez a simpatia foi meu avô. A reza que ele dizia, fumaceando em cruz a crina do cavalo com aquele carvão, era muito comprida, além do que, eu não escutava nada. Ele orava cochichando.
    Um viajante da cidade falou, certa vez, que quem fazia aquelas artes era passarinho. Eu nunca acreditei em gente estranha. Onde já se viu me falar uma asneira daquele tipo.
    Sempre preferi acreditar na versão de meu avô. Ele falava que o menino preto tinha uma perna só, viajava dentro de redemoinho de vento e de água e que, se alguém conseguisse jogar uma peneira, era só passar a mão por baixo e tirar a carapuça vermelha, para ele perder o encanto.
    Por várias vezes eu tentei e nunca catei nada. O negrinho era ligeiro.
    Terminado o benzimento, não pensei duas vezes em recuperar a vaca perdida, além do mais, eu estava na pista do pererê, pois, se a trança era fresca conforme meu avô falou, ele ainda devia estar por perto. Tinha esperança até de ver um “Matinta Pereira”, que era bem mais difícil de aparecer. Nunca tive medo.
    Os antigos diziam que “os Matinta” eram de gênio mais forte. Nunca se deixavam engambelar por fumo e garrafa de cachaça que os caçadores deixavam em forma de agrado pelos carreiros. Eles queriam sempre mais. Às vezes era preciso deixar até um pouco de torrão de açúcar e toucinho defumado nas guaxumas, pra que “os coisa ruim” não fizessem malvadeza para as criações e nem iludissem os homens a se perderem na floresta.
    Entrevado na mata, não tinha jeito de escutar o barulho do cincerro. Trovoava muito. Parecia que o tempo se arrumava para chuva, a noite caía rápido e o baio já estava impaciente.
    Um tufão forte de vento veio assim que de repente, varrendo as folhas pelo chão e chacoalhando as árvores grandes. O cavalo se assustou com um galho que partiu, deu uma corcoveada e me atirou na relva.
    “__É saci, é saci…” _Eu gritava, caído por sobre a peneira que havia levado.
    Não é saci, coisa nenhuma. É temporal e dos grandes __ disse meu avô José, ajuntando-me de surpresa pelo cogote. Ele havia me seguido sem que eu percebesse.
    Agarrado ao pelego do cavalo, sentado em seu colo, tomamos o rumo de casa.
    A vaca já tinha voltado por conta própria.
    __Talvez com medo da chuvarada… __ dizia meu avô.
    __ Ou espantada pelo saci… __ pensava eu.

    ” As Novas Aventuras de Floriano” – Contos Regionais.
    silvanosilv@gmail.com

  • Daniel Brazil 20/05/2009 at 09:57

    ” Como ensinar literatura a jovens que mal pegam num livro, cuja informação vem de forma audiovisual, massificada e redutora? Como ensinar o futuro do pretérito a jovens que nunca ouviram alguém falar desse jeito, e que seriam ridicularizados se utilizassem esse tempo verbal? Como lidar com preconceitos, com limitações individuais, com excluídos da ordem econômica com pouquíssimas chances de ascensão social?”

    Este é parte de um post que escrevi esta semana, sobre o filme Entre os Muros da Escola, vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2008.
    O personagem principal é um professor de literatura, e o quadro apresentado não difere muito da situação nas escolas públicas brasileiras. Filme sem moralismos, sem heróis, que realmente faz pensar pra onde vai o ensino da língua e da literatura para jovens soterrados pela informação audiovisual de baixa qualidade.
    Filme altamente relevante para quem se interessa pelo tema!

  • Carol 21/05/2009 at 13:42

    Sérgio, dê uns livros do Pedro Bandeira para ele ler. E recomende para a escola que o incentivo à leitura deve ser feito desde que eles sejam BEM pequenos e que evolua conforme a sua idade: livros de crianças para crianças e livros de adultos para quando eles estiverem preparados para eles.
    Abraço

  • Maria Quitéria de Souza Gomes 27/10/2009 at 22:58

    Sou professora do Ensino Fundamental e Médio e, realmente, já passei pela dificuldade na escolha de livros paradidáticos para os meus alunos e a própria direção da escola priorizava a leitura de clássicos, como José de Alencar, Aluísio de Azevedo e Machado de Assis. Resultado: Os aluns odiavam esse tipo de leitura e o desempenho nos trabalhos era péssimo. Tentei resolver o problema fazendo uma coletânea de catálogos das editoras e distribuindo-os entre o alunos pra que eles mesmo pudessem escolher os títulos que mais lhe agradassem . A experiência foi muito positiva, pois a leitura não foi imposta. Deve-se levar em conta, durante o processo de escolha de títulos, além da faixa etária, a capacidade de compreensão que o aluno venha a ter com as obras literárias.

  • Dharckan 07/03/2010 at 07:12

    Tenho um neto com seis anos de idade, ainda na incipente escolaridade, que adora folear livros que contenham figuras que fielmente transmitam idéias ínsitas ao significado que substituam palavras específicas aos temas abordados, provavelmente pelo prazer de entender cognitivamente todo o conteúdo apresentado, mas, quando os referidos desenhos transfiguram a representatividade da idéia, nota-se uma leve demonstração de desprazer da leitura interpretativa visual. Acredito que o tema de um livro deva estar no alcance textual do campo linguístico do universo de interesse e conhecimento da fase de desenvolvimento e descoberta social de uma mente infanto-juvenil… Foi um prazer comentar seu tema. Espero ter alcançado fielmente o meu objetivo = Parabéns…

  • Dharckan 07/03/2010 at 07:14

    corrigindo = folhear…Desculpa pelo descuido

  • 13/03/2010 at 00:01

    Sou professora de Língua Portuguesa, leciono há 5 anos em escola particular e pública. Gostaria de receber dicas de livros direcionados aos alunos do Ensino Fundamental II. Não quero ,futuramente, ouvir de um aluno que a leitura de tal livro foi “torturante”, desprazeroso” . É claro que, temos alunos heterogêneos, e é muito difícil atendermos a todos. Penso e afirmo que professores devem utilizar vários recursos, meios para se obter resultados satisfatórios quanto à prática da leitura . E a primeira ferramenta fundamental nesta etapa é a participação dos pais.

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