O dostoievskiano Sr. C.

04/01/2008

O ótimo crítico James Wood discorre (em inglês) sobre Diary of a bad year, de J.M. Coetzee (Señor C é o personagem principal do livro, alter ego do autor):

No último verbete do romance, “Sobre Dostoiévski”, Señor C escreve:

“Li mais uma vez ontem à noite o quinto capítulo da segunda parte de Os irmãos Karamazov, o capítulo em que Ivan devolve seu ingresso para o universo que Deus criou, e de repente me vi soluçando incontrolavelmente.”

Não é o poder da argumentação de Ivan, diz ele, que o arrebata, mas as “entonações da angústia, a angústia pessoal de uma alma incapaz de suportar os horrores deste mundo”. Podemos ouvir a mesma nota de angústia pessoal na ficção de Coetzee, mesmo que essa ficção sustente que não está nos oferecendo uma confissão, mas apenas a representação de uma confissão. Seus livros fazem todos os barulhos pós-modernos corretos, mas a força deles repousa na relação atônita que mantêm com uma tradição mais antiga, dostoievskiana, em que sentimos a marca do autor confessional, por mais recôndita e velada que seja.

O texto, que faz uma análise brilhante do Formidável – mas sempre um tanto Enigmático – Sr. C., é leitura recomendável para todo mundo e imperdível para admiradores mais cascudos do autor de “Desonra”. A “New Yorker” fez sem dúvida a grande contratação do ano passado ao levar Wood, que vê algo de, mais que metafísico, intensamente religioso na “prosa casta, exata e cinzenta” do sul-africano. Uma prosa que pode, observa ele, “parecer o próprio borralho da contenção, mas acaba sempre atraída para extremos passionais”. (Tarde demais me lembrei que desta vez, só para variar, eu estava determinado a não ser tão ávido na leitura do novo Coetzee. Mas depois de ler isso já o encomendei na Amazon.)

4 Comments

  • Jonas 04/01/2008 at 19:52

    Ontem mesmo mandei o link desse texto para alguns amigos. Wood é meu crítico favorito entre os contemporâneos. A resenha dele sobre o Exit Ghost, do Roth, também é sensacional.

  • Mr. WRITER 05/01/2008 at 00:42

    Coetzee é fantástico e acho que isso se deve exatamente pela sua prosa seca, cinzenta masi ao mesmo tempo carregada de alguma coisa que não sei explicar o que é ou como funciona. Só sei que funciona.

  • Cezar Santos 07/01/2008 at 15:06

    Puxa,… o crítico é melhor do que o escritor, a ponto de ser mais aproveitável a leitura da crítica do que do texto criticado.
    O que é um crítico, mesmo?
    Sérgio, que tal abrir a temporada de definições sobre o que é um crítico?

  • Chico 08/01/2008 at 12:57

    Um dia acabo lendo o Disgrace…

    Resenha sobre o ultimo no WP.

    http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/print/bookworld/index.html

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