O estranho caso do Wiki-Machado

23/07/2009

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Sugestões, pessoal?

Hm.

Hmm.

Bom, de saída eu vejo um problema: o que é legado?

Herança. Legado é sinônimo de herança.

Então por que não ser inclusivo e escrever logo herança, cazzo? Legado é tão elitista.

Acho que funciona: “… a herança da nossa miséria”.

Apoiado, mas essa miséria também é de um negativismo que vou te contar… E logo na última frase do livro!

Hmmm.

Hmmmm.

Uma péssima última impressão, eu acho.

Entendi seu ponto. Talvez “a herança de nossas modestas aquisições” fique maneiro. Porque combina com o personagem, que é um cara assim meio fracassado, mas não puxa tanto pra baixo.

E no fundo diz a mesma coisa.

Beleza.

O que mais?

Olha, eu ainda não tinha falado nada, mas pra mim esse negócio de não ter filhos e anunciar isso cheio de orgulho é que é mó deprê. Muito leitor ou leitora que seja pai ou mãe vai se sentir agredido ou agredida.

É.

Que tal isso? “Não tive, infelizmente, a oportunidade de ter filhos…”

Epa, mas aí seria uma agressão aos leitores e leitoras que optaram por não ter filhos!

Tá, a gente tira o “infelizmente”.

Hmmmmm.

Hmmmmmm.

Como tá ficando esse troço?

“Não tive a oportunidade de ter filhos, não transmiti a nenhuma criatura a herança de nossas modestas aquisições.”

“Mas estou pensando em adotar um.”

O quê?

Uma sugestão. Assim o livro termina pra cima, aponta pro futuro. E ainda rola uma consciência social.

“Mas estou pensando em adotar um.” Cara, você é bom! Todo mundo concorda?

Acho legal, mas olha, sem querer ser estraga-prazeres: o sujeito não tá morto?

O autor? Claro, achei que essa parte já estivesse clara pra todos nós. O autor morreu, por isso estamos aqui.

Não, quero dizer o narrador. O narrador morreu, como vai adotar uma criança?

Caramba, é mesmo. Que saco.

Hmmmmmmm.

Hmmmmmmmm.

Hmmmmmmmmm.

Quer saber? Esse fecho não tá rolando. Tem coisas que não dá pra consertar. E se a gente simplesmente cortar isso, der um sumiço no filho, na herança e na porra toda?

Issa!

Gênio!

Já é!

20 Comments

  • chato 23/07/2009 at 13:31

    Matou a pau.

  • Tibor Moricz 23/07/2009 at 13:40

    HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA… genial!!

  • Saint-Clair Stockler 23/07/2009 at 13:52

    Muito bom.

  • Fernando Molica 23/07/2009 at 13:57

    Sei não, esta história de narrador morto é muito deprê. Ainda mais um morto tão cético, nada religioso. Isso ofende crentes e ateus (onde já se viu morto escrever?, diriam estes). Deixa o cara vivo, pô.

  • Eric Novello 23/07/2009 at 13:59

    a. Engraçado que conversava esses dias sobre a mão do editor no texto dos autor.

    b. Fugir do politicamentecorretismo está cada vez mais complicado.
    Muito bom, Sérgio! Abss!

  • Saint-Clair Stockler 23/07/2009 at 14:20

    Vocês esquecem do outro lado: dizem que o romance A fogueira das vaidades, do Tom Wolfe, devia ter sua co-autoria creditada ao editor, uma vez que ele fez tantas sugestões de cortes e alterações que a obra, no final das contas, tem dois autores.

    Não é à toa que se trata do maior e mais incontestável sucesso do Wolfe…

    Um editor, às vezes, melhora uma obra…

  • Fernando Torres 23/07/2009 at 16:03

    Concondo com o Saint-Clair (ao menos uma vez): Alguns editores salvam a obra.

    As vezes, lendo um livro me deparo com trechos que são absolutamente desnecessários e penso: “como o editor deixou isso ficar assim?”

  • Noga Lubicz Sklar 23/07/2009 at 16:22

    rsrsrsrs.

  • Alejandro 23/07/2009 at 17:10

    Hilário. Brilhante como sempre.

  • Tibor Moricz 23/07/2009 at 17:23

    Menos Alejandro…

  • Breno B. 23/07/2009 at 19:39

    O fato de um editor ser capaz de melhorar um texto ao modificá-lo não quer dizer que deva fazê-lo (num mundo ideal, é claro). Se ele parece estar mais preparado para contar aquela história, então que o faça no próprio livro.
    Afinal, eu não gostaria de terminar uma leitura pensando em como é genial aquele autor sem saber que a genialidade é de outra pessoa.

  • Willian Rosa 23/07/2009 at 20:23

    Isso de alterar a obra alheia sem permissão é uma filha-da-p…agem, desculpe não encontro termo melhor.

  • C. S. Soares 23/07/2009 at 22:11

    O que não se comenta é que a obra adaptada a outras mídias deve ser vista como algo diferente. Independente de qualquer mash-up sobre um ‘Memórias Póstumas’ ou ‘A Moveable Feast’, é claro que as obras originais serão as mesmas sempre, congeladas, empalhadas, como borboletas em quadro de vidro, bonitas e mortas.

    Uma roteirização para o cinema já muda a obra. Já é uma outra obra. Aquela original em livro, poderia ser vista como uma versão “default”, a que vem de fábrica. Mas, por que não interagir, brincar, movimentá-la? Que mal há nisso? Só perderíamos tempo brincando, alterando, interagindo com algo que realmente nos importa, não?

    Já fizeram isso com Frank Baum, Conan Doyle e até com Machado (Sabino, Fagundes Telles, Proença Filho etc). As FanFics, que congrega diversos adolescentes, escrevendo tramas alternativas para Harry Potter e Crepúsculo seria muito diferente?

    Enquanto alguém se interessar em povoar de vampiros, zumbis (ou qq outros monstros tão populares entre os jovens) o universo de Pride & Prejudice, Jane Austen (tal qual os vampiros e zumbis) sai de sua tumba para alimentar (e se alimentar) sangue e cérebros vivos.

    Não sejam tão arraigados a um só modelo (antigo). Analisem sob os contras (claro que existirão, além do que é mais fácil apontá-los), mas também os prós.

    Hoje, senhores, falamos de web semântica, integrando objetos no texto, que ajudam o texto a ser classificado por algoritmos. O Center for Future Storytelling, do MIT, tem projetos interessantíssimos nessa linha: narrativas transmidiáticas.

    Bem, certamente, não há como ressucitar Machado, mas tenham certeza, de que no futuro, não sei se estaremos aqui, poderemos interagir com os personagens de Machado, conversar com eles, através de realidade virtual, simular os cenários, seguir paths, sequências derivadas do que Machado escreveu originalmente, e essas coisas, serão muito comuns e aceitáveis pelas próximas gerações, mais adaptadas à possibilidade de escolhas e não apenas feliz pelas escolhas que fazem por nós (porque se não precisamos escolher não gastamos energia, não é?).

    Mas, considero justa a crítica do Sérgio e demais. Até porque ela está sendo realizada em um blog. O que sem dúvida já representa algo bastante significarivo.

  • Hefestus 24/07/2009 at 15:53

    “poderemos interagir com os personagens de Machado, conversar com eles, através de realidade virtual, simular os cenários, seguir paths, sequências derivadas do que Machado escreveu originalmente, e essas coisas, serão muito comuns e aceitáveis pelas próximas gerações, mais adaptadas à possibilidade de escolhas e não apenas feliz pelas escolhas que fazem por nós (porque se não precisamos escolher não gastamos energia, não é?).”

    Ai ai…
    Como são chatos os deslumbrados digitais…

  • C. S. Soares 24/07/2009 at 20:33

    Deslumbrado não, Hefestus, informado (como Julio Verne, que era leitor da SciAm). Acompanhe o PONTOLIT e Leia o artigo Mattel’s New Web-Enabled “Avatar” Toys Will Offer Augmented Reality http://bit.ly/BR6G9

  • isaac 24/07/2009 at 21:00

    “Alguns editores são escritores
    fracassados. Mas a maioria dos
    escritores também é.” T.S. ELIOT

    esse pensamento resume a ópera entre escritores e editores. :-)

  • janciron 25/07/2009 at 02:09

    Vejam o cara que prometeu criar milhões de empregos, que prometeu dar um aumento justo aos aposentados; acabar com a corrupção e injustiças sociais; alem de muitas outras promessas e bla,bla,bla: Agora ele esta é na mordomia convivendo entre aqueles que ele mesmo criticou, comendo caviar bebendo uísque importado e champanhe de mijar nas calças: Enquanto que os aposentados estão abandonados como indigentes em filas do SUS ou INSS sem condições até de comprar seus remédios: E com seus salários defasando a cada dia mais! Mas veja o (CARA) de pau; que figura! E aproveite e veja o currículo da Dilma e o que é preciso para ser Presidente no Brasil!
    Quem defende ou acoberta isso não merece respeito ou consideração, pois faz parte da imprensa vendida!!

    http://protogenescontraacorrupcao.ning.com/photo/photo/listForContributor?screenName=1

  • Ana Cristina Melo 25/07/2009 at 07:14

    Adorei! Tenho acompanhado seu blog, mas a correria me impede de registrar comentários. Mas hoje não resisti.
    Uma sugestão para o cara: acho que criatura é meio deprê. Troca também, acho que Machado não vai se incomodar. rsrsrs

  • Antônio Torres 27/07/2009 at 09:45

    Tomara que a galera aí venha a ler o “Memórias póstumas de Brás” para tomar tino sobre o que está dizendo a respeito do “legado da nossa miséria”.

    Antônio

  • mariana sanchez 30/07/2009 at 11:44

    Acidamente divertido, Sérgio!
    Adorei!

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