O Grande Romance do Futebol e outras lendas

25/06/2010

Onde está o Grande Romance do Futebol Brasileiro? Por que nossos escritores perebas não conseguem fazer justiça a essa porção tão risonha e límpida da alma nacional?

A questão vive rondando a fronteira entre a crítica literária e o departamento de vigilância da auto-estima brasileira. A cada Copa do Mundo, ressurge com ares de grande sabedoria para rechear cadernos literários, blogs e seminários.

Convocados a explicar o fenômeno, os sábios de plantão costumam se dividir em dois times: o dos que consideram os escritores brasileiros elitistas demais para dar bola para o tema e o dos que consideram os escritores brasileiros competentes de menos diante da magnitude do tema. De uma forma ou de outra, culpados.

Mas será que o Grande Romance do Futebol Brasileiro (daqui em diante GRFB, para facilitar) é essa grande lacuna porque, como diz o antropólogo Roberto DaMatta, os elitistas intelectuais brasileiros “detestam o futebol” – logo eles, com sua forte corrente populista encabeçada por ninguém menos que Jorge Amado?

Ou seria porque, nas palavras do crítico Silviano Santiago, “o imaginário sobre futebol no Brasil é um espaço tão complexo, tão amplo e tão multifacetado” que provoca a falência dos projetos estéticos que dele se aproximam – ou seja, somos ruins de bola na hora de dar tratos à bola?

A essa altura do jogo, tocando a pelota de lado, alguém sempre recorda – como o escritor Flávio Moreira da Costa, organizador de antologias de contos sobre o tema – que a situação não é tão grave, pois temos boas histórias curtas sobre futebol. É verdade. Minha preferida é aquela de Rubem Fonseca chamada Abril, no Rio, em 1970 (do livro “Feliz ano novo”).

Cabe acrescentar que contamos ainda com belos poemas futebolísticos, inclusive de nomes estrelados como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Sem falar nas crônicas propriamente esportivas, o terreno em que o futebol e as letras mais se fecundam – gleba administrada com brilho pelos irmãos Rodrigues, Nelson e Mario Filho.

Mesmo assim, convenhamos que tudo isso é preliminar. Na hora da partida principal, o que entra em campo é um modestíssimo time liderado por um José Lins do Rego menor (“Água-mãe”). Cadê o GRFB? “Eu vim aqui só pra te ver!”, ressoa o coro das arquibancadas. O clima é de revolta.

Pois eu tenho uma pista. Nada de elitismo ou falência da arte brasileira. Aposto que o GRFB está escondido no mesmo limbo em que dormem seus irmãos, os embriões eternos do Grande Romance do Basquete Americano, do Grande Romance da Fórmula 1 Italiana, do Grande Romance do Pingue-Pongue Chinês e do Grande Romance do Curling Escocês.

Acontece que o futebol e outros esportes são eles mesmos narrativas acabadas, dotadas de início, meio e fim e cheias de drama, comédia, tragédia. A poesia e a crônica, gêneros mais apropriados ao lirismo, estão equipadas para abordar esse mundo fechado pela via da exaltação – João Cabral comparando a bola à mulher, Nelson Rodrigues transformando os craques canarinhos em cisnes.

Para uma arte também narrativa, como o romance, a tarefa é mais difícil: envolve uma espécie de concorrência. Isso não quer dizer que o cruzamento de esporte e literatura não possa dar filhotes fortuitos, como o conto fonsequiano citado acima e a primeira e sensacional parte do romance “Submundo” (Companhia das Letras, 1999), de Don DeLillo, em que uma partida de beisebol é descrita com técnica cubista e ambição de grande arte.

Às vezes surge até um sucesso como o romance “Shoeless Joe”, do canadense W.P. Kinsella, também sobre beisebol e tão carregado de sentimentalismo que logo chegou a Hollywood com o nome de “Campo dos sonhos”.

É claro que o GRFB pode acabar dando as caras um dia: é aquela história da caixinha de surpresas, coisa e tal. Mas reconhecer que o cruzamento da paixão esportiva com a boa literatura não tem nada de natural ou obrigatório, nem aqui nem em lugar nenhum do planeta, nos pouparia de muito papo furado a cada Copa do Mundo. Como se não bastasse o dos comentaristas de futebol.

23 Comments

  • Xerxenesky 25/06/2010 at 12:30

    Para mim, “O paraíso é bem bacana”, do André Sant’Anna, é o grande romance brasileiro sobre futebol. Exceto, talvez, que não seja sobre futebol, apesar do futebol estar por todo lado.

  • Lucas 25/06/2010 at 12:41

    Há, sim, um grande romance sobre o futebol. Ele se chama ‘O Paraíso é Bem Bacana’.

  • Raquel 25/06/2010 at 12:56

    Sérgio

    confesso que não suporto futebol (neste momento tento achar um lugar para me esconder do jogo e das cornetas infernais, difícil…) mas passo aqui para desejar boas-vindas em sua casa nova!

  • Claudio Soares 25/06/2010 at 12:57

    O retorno do TP, agora em nova casa, é uma ótima notícia. Parabéns, Sérgio! Você cita “Field of Dreams”, segue uma curiosidade: no livro de Kinsella, “Shoeless Joe” (S.J.Jackson realmente existiu), o “personagem-escritor” é mesmo J. D. Sallinger. No filme, virou Terence Mann. O monólogo deste personagem, próximo ao final do filme, pode servir de inspiração para que no futuro possamos ter o Grande do Futebol Brasileiro. Está ali a semente, sem dúvida. Abs, CS

  • Sérgio Rodrigues 25/06/2010 at 13:42

    Xerxenesky e Lucas: para mim esse livro do André tem pouco espírito de futebol, apesar das aparências, e com certeza não o chamaria de “grande”. Mas respeito todas as torcidas. (Acho até “O segundo tempo” do Laub mais futebolístico, apesar da sutileza da ligação. Aliás, vcs leram um livro chamado “A crônica do valente Parintins”?)

    Raquel: futebol ou não, seja bem-vinda à casa nova.

    Abraços a todos.

  • Rafael Rodrigues 25/06/2010 at 13:48

    Mas veja só: anteontem enviei, para o Flávio Carneiro, uma entrevista que começava justamente com uma pergunta abordando este assunto. Até citei “O paraíso é bem bacana” como exemplo recente de livro envolvendo o futebol. Mas fiquei com uma dúvida: o “grande” utilizado para se referir a ele é em relação ao seu tamanho (mas aí seria longo…) ou por

  • Helena 25/06/2010 at 14:33

    Sérgio, estréia de craque. Parabéns à Veja.

  • Helena 25/06/2010 at 14:44

    Sérgio, só para esclarecer, dei os parabéns à Veja por tê-lo convidado a fazer parte do elenco de colunistas. Agora, vai aqui uma pergunta que não quer calar: por que literatura – e cinema, e crônicas etc – na categoria “Variedades”? Será que a Veja tem medo de “Cultura”?

  • Rafael 25/06/2010 at 16:04

    Poxa, Sérgio, fiquei chateado. Sempre acreditei que havia, perdido em meio à biblioteca das obras desconhecidas, um grande romance chinês sobre o pingue-pongue. Como a Humanidade consegue suportar tamanho vácuo?

  • Roberto P 25/06/2010 at 17:00

    Sergio,

    Nao concordo com o argumento de que “o imaginário sobre futebol no Brasil é um espaço tão complexo, tão amplo e tão multifacetado” ou que “que o GRFB está escondido no mesmo limbo em que dormem seus irmãos…”

    O fantismo ingles pelo futebol é igual ao Brasileiro e há dois excelentes livros sobre futebol – Fever Pitch do Nick Hornby (e para quem é fanatico por futebol como eu é uma delicia acompanhar alguns lances as partidas comentadas no livro pelo Youtube) e The Dam United de David Peace sobre Brian Clough – considerado por alguns o melhor treinador ingles dos ultimos 30 anos.

    Abracos e boa sorte na nova casa

  • Maria 25/06/2010 at 18:19

    Parabéns pela estréia, ótimo post!

  • kylderi 25/06/2010 at 15:23

    Oi, Sérgio, é um prazer continuar a ler seus textos. Agora, eu esperava um comentário sobre o Saramago. E o livro que ele deixou inacabado era sobre uma questão bem mais interessante do que último livro dele.

    Muito sucesso no novo endereço!

  • Sara 25/06/2010 at 17:26

    Pôxa Sérgio, acompanho o seu trabalho já há um tempinho e, que bom é reencontrá-lo neste novo espaço. Parabéns à Veja pela contratação e à você por conquistar esse espaço.
    Espero uma nota sobre o desaparecimento do Saramago, autor esse tão querido.
    Beijo e um cordial boa sorte!

  • Ricardo Sanchéz 25/06/2010 at 20:30

    eu compraria um romance escocês sobre o curling ^^

  • Sérgio Karam 25/06/2010 at 20:55

    Sergião, xará: parabéns pela estréia na casa nova. Seguirei lendo o meu blog preferido sobre literatura. Abraços!

  • pedro curiango 26/06/2010 at 01:26

    Sérgio:
    Parabéns pela nova coluna e obrigado pela volta ao trabalho.
    Creio que o assunto esportivo se esgotou com Píndaro. Não creio que haja alguma GRANDE obra de arte literária sobre esporte, em geral. A literatura de mais consistência trata de problemas individuais que repercutem problemas de todos os indivíduos – seria difícil escrever um romance sobre uma coletividade, uma equipe de onze. Nem os “realistas socialistas” conseguiram tal façanha… Na realidade, os problemas do Ronaldo Fenômeno, do Kaká, do Romário só me interessam enquanto problemas destes indivíduos, nunca da equipe a que pertencem. E parece que não sou o único a pensar deste jeito. Aí estão as revistas de fofocas tratando das aventuras de um jogador com os travestis, de outro com uma igreja meio escalofobética, de um técnico que gosta de esculhambar quem diverge de sua opinião… Bons ou maus, são temas “universais,”enquanto o que fazem no gramado só dá mesmo para uma crônica de comentarista. Nestes casos, o ser jogador entra apenas como um detalhe da realidade, aquele responsável pela sua celebridade. Considerar que o futebol tem importância no caso é como dizer que o interesse por Raskolnikov se reduz à sua condição de estudante pobre.
    Lembro-me que Peter Handke escreveu um romance curto intitulado “A Angústia do Goleiro na Hora do Pênalte.” Não sei se é sobre futebol. E gosto muito de um conto modernista bem curtinho que tem uma ótima cena de futebol: “A Galinha Cega,” de João Alphonsus. O Edilberto Coutinho também tentou usar o futebol como tema.

  • Norberto 26/06/2010 at 16:12

    Que bom ler novamente o seu blog. Sobre o tema, sugiro a todos a leitura de Estrela Solitária: um Brasileiro Chamado Garrincha, do Ruy Castro. Continuando, acho que nestes tempos de luto pela perda do único premiado Nobel em nossa língua, José Saramago, ele merecia um post neste espaço. Afinal, qual você acha seu melhor livro?

  • Saint-Clair Stockler 26/06/2010 at 17:56

    Não sei dizer. Prefiro Ballet.

  • Tibor Moricz 26/06/2010 at 21:50

    Ora vejam, o Sergio voltou. Onde estão os aerofones (momento cultural)?

  • clelio 26/06/2010 at 21:56

    Nada como voltar em grande estilo. Lê-lo novamente é como encontrar um velho amigo. Belo texto. Parabéns.

  • Rosângela Maria Pessanha de Souza 02/10/2010 at 19:43

    E ainda bem que você cruza este caminho e muito bem. E a caixainha de surpresa logo logo se abrirá.

  • Lucas 23/10/2010 at 13:45

    DRIBLES DA VIDA, de Ricardo Rodrigues, é um romance policial muito bom, tendo como um dos protagonistas da trama um jovem jogador de futebol do Flamengo. O futebol está em todo o livro e o final é surpreendente. Muito bom. Procurem no site: http://www.clubedeautores.com.br

  • Magno de Oliveira 14/05/2012 at 13:19

    Hoje pela manhã criei este conto e têm tudo haver com o texto apresentado meu amigo Roberto Prado me indicou a leitura deste faço este comentário publicando meu escrito e quem gostar visite o blog que eu sou editor: informativofolhetimcultural.blogspot.com

    Ela resolveu fazer uma surpresa a ele, vestiu um vestido vermelho, calda longa comprou para aquela ocasião, só estava esperando o momento chegar e o momento chegou. Estádio Cícero Pompeu de Toledo domingo 13 de Maio de 2012, Santos 4 Guarani 2, Santos Tri |Campeão Paulista. Show do santástico, feito antes só conquistado pelo Santos com Pelé. Santos de Pelé.
    Ela sentiu aquele era o dia, ele chegaria triste em Campinas pelo vice e então a oportunidade que ela tanto esperava chegou.
    Salto alto nos pés, batom vermelho na boca, usou o batom e escreveu uma frase no espelho, mandou os filhos para Santo Antônio de Posse na casa da avó materna, disse a eles que voltaria pela manhã.
    Cabelos pretos, longos e soltos como antes ele nunca havia visto o dessa forma.
    A viagem dele com a derrota foi mais longa, saiu mais depressa possível para não ver Edu Dracena levantar o caneco, ele chorava nunca viu o seu time ser campeão. Foi procurar seu carro o encontrou riscado, os flanelinhas fizeram o serviço, da próxima vez se houver, ele aprende, não pagou o carro flanelinha riscou. Um espirro estava gripado e olha que a chuva não era tanta, entrou em seu carro, veio de São Paulo chorando, bebendo, chorando e bebendo mais um pouco. Por sorte não foi pego pela Polícia Militar, não foi parado pela Polícia Rodoviária. Chegou finalmente em Campinas.
    Ela em casa belíssima tirou uma foto de si mesma postou no Facebook mais linda do que nunca. Deixou a foto na câmera ao lado da frase no espelho, a câmera foi presente de seu próprio marido comprado pela amante, ele só lembrou porque a secretaria o lembrou que era aniversário da esposa.
    Ele passou num bar continuou a beber para aliviar a dor da derrota, ela bela toda linda ela, colocou Chopin Piano Concerto no 1 in e-minor op. 11 – Rondo – Vivace

    E começou a dançar com a camisa social azul que havia comprado no dia dos pais de presente a ele. Ele disse que gostou mais em um ano nunca usou, azul é sua cor favorita e nunca a usou. Ela dançava como nunca tinha dançado com ele. Dançou como se fosse a última dança, a última música, a última sinfonia.
    Ele decidiu passar antes na casa da amante, e lá ficou, só voltou para casa de manhã, ela o cansou de esperar, foi para Santo Antônio de Posse buscar os filhos, foram para Brasília! Ele foi direto ao quarto viu a foto, arremessou a câmera na parede, ela se espatifou. Ele leu a frase no espelho. E ao terminar de ler socou-º

    “Amor não mais te amo, viva bem com sua amante, irei viver melhor sem você e com meus filhos, não me procure não mais te amo. Mas se pensar em mim veja esta foto e veja o que perdeu”.

    Ele começou a chorar, chorou mais por aquilo do que pela derrota do dia anterior. Deitou se na cama e sentiu algo parecendo um quadro, tirou a colcha, abriu o pacote e lá estava a foto de Edu Dracena levantando o caneco. E um bilhetinho azul escrito assim:

    “Azul sua cor favorita, a camisa nunca usou, mas este bilhete você irá ler, sei como você é, e por isso é fácil saber que não ficou para ver isso, mas te amo e não poderia deixar de fazer com que você visse esse momento. Saboreie a dor da derrota”.

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