O grande romance do futebol

05/01/2010

Naquele primeiro post da história deste blog, para o qual criei um atalho ontem, havia um link quebrado – irremediavelmente quebrado a esta altura, soterrado nos escombros do “NoMínimo”. Trata-se de uma resenha que publiquei no já distante ano de 2004 sobre “O negro no futebol brasileiro”, de Mario Filho. Em nome da sempre interessante discussão sobre literatura & futebol, decidi republicar o texto na íntegra:

Algumas mentiras, de tão repetidas, passam por verdades. Uma delas aponta o que seria uma contradição a mais da vida brasileira, entre as muitas de que o país é feito: nosso futebol, com seu incomparável apelo de massa e sua qualidade aclamada em todo o mundo, nunca produziu na literatura uma única obra à altura dessa exuberância. Trata-se de uma quase-verdade. Só é mentira, e mentira clamorosa, porque o jornalista Mario Filho lançou em 1947 – e relançou, com o acréscimo de dois capítulos, em 64 – um livro chamado “O negro no futebol brasileiro”.

Não se trata apenas do “maior clássico sobre o futebol brasileiro”, como costuma ser apresentado. É o único clássico digno desse nome, a mais acabada tradução da mitologia construída por um povo – fundada ou não, sonho ou realidade, uma fonte concreta de auto-afirmação nacional – em torno do abrutalhado e elitista jogo europeu que nossos craques reinventaram com ginga e malandragem. Craques que eram, em sua maioria, negros e mulatos, como lembra Mario, praticamente a cada parágrafo. “Há quem ache que o futebol do passado é que era bom”, a frase de abertura vai direto ao ponto. “De quando em quando a gente esbarra com um saudosista. Todos brancos, nenhum preto.” Sim, o livro é assumidamente político.

Nem seria preciso saber que a primeira edição de “O negro…” vinha apresentada com entusiasmo por Gilberto Freyre para situar a obra num momento histórico de afirmação da identidade brasileira em que grande parte de nossos intelectuais acreditava no mito da “democracia racial”. Antes de ser denunciada como mascaradora de conflitos, a tese cumpriu o papel progressista de tornar ridículos os defensores do “embranquecimento” como solução para os problemas do país, e Mario era um de seus cultores. Andou repensando essa posição – como prova o fato de ter cortado da segunda edição esta frase espantosa, sobre o momento em que os negros já se haviam firmado como excelentes jogadores: “em foot-ball não havia o mais leve vislumbre de racismo” – mas não pôde impedir que a própria moldura da obra exalasse um otimismo racial datado.

Ocorre que repudiar o livro por conta disso seria um erro tão grosseiro quanto dizer que “Os sertões” perdeu sua condição de obra-prima quando se comprovou que os conhecimentos “científicos” em que se baseou Euclides da Cunha eram pura ideologia. Da mesma forma, se a dimensão sociológica de “O negro…” soa ultrapassada, seu valor literário não encolheu um centímetro. Talvez tenha até crescido. Isso porque Mario Filho podia achar que fazia ciência social, anunciando com orgulho que ali estava “a verdade pura e simples”, mas o que fazia era arte. Os cientistas sociais que dêem um jeito de desentranhar da montanha de informações coletada por ele em centenas de entrevistas o material de que precisam para entender com mais rigor as relações raciais no futebol brasileiro. Mario nos dá riquezas de outra ordem.

Nelson Rodrigues, seu irmão e fã declarado, é mais famoso do que ele como intérprete de uma certa “alma brasileira” no futebol. Ambos têm incontáveis pontos em comum, mas uma diferença radical: onde Nelson inventava deslavadamente, transformando sua subjetividade no principal jogador em campo, Mario preferia pesquisar, ouvir, observar. É isso que o faz superior (como cronista esportivo) a Nelson. Tinha alma de repórter, o que pressupõe uma saudável dose de humildade, sem prejuízo da capacidade de, como o irmão, encenar batalhas épicas num campinho de arquibancadas de madeira. Não é à toa que Mario foi o maior incentivador da construção do Maracanã, que acabaria batizado com seu nome. Ele pensava grande.

A ambição jornalística do livro é impressionante: contar com minúcias, sempre pelo viés da progressiva ocupação de espaços por jogadores negros e mulatos, a história do futebol carioca desde o tempo em que os melhores em campo eram todos ingleses, no início do século 20. Dar conta desse recado já seria muito, mas Mario o faz com um talento de escritor que raros jornalistas esportivos têm ou tiveram em qualquer época. É forte a tentação de dizer que ele escreve como se falasse, mas vale lembrar que nem o orador mais experiente conseguiria – não de improviso – se expressar com tanta clareza.

Tome-se como exemplo a cena de comédia do mulato Friedenreich, apresentado como o primeiro grande ídolo do futebol brasileiro, lutando com o cabelo que “não negava”: “Primeiro untava o cabelo de brilhantina. Depois, com o pente, puxava o cabelo para trás. O cabelo não cedendo ao pente, não se deitando na cabeça, querendo se levantar. Friedenreich tinha de puxar o pente com força, para trás, com a mão livre segurar o cabelo. Senão ele não ficava colado na cabeça, como uma carapuça”.

Ou o comentário sobre a lógica estritamente esportiva, e não humanitária, que fez o Vasco encher seu time de negros e mulatos para ganhar o título carioca de 1923, o primeiro dos “pequenos” a conseguir tal feito, dando início a uma revolução: “O Vasco não fazia pretos: para o preto entrar no Vasco tinha de ser já bom jogador. Entre um branco e um preto, os dois jogando a mesma coisa, o Vasco ficava com o branco. O preto era para a necessidade, para ajudar o Vasco a vencer”.

O último exemplo é extraído da parte final do livro, quando o melhor jogador do mundo aparece como símbolo máximo do orgulho da raça, fiel à sua cor mesmo no auge do sucesso, anos-luz à frente daquele Robson do Fluminense que, entrevistado sobre racismo no futebol, respondera ao autor com candura: “Eu já fui preto e sei o que é isso”. Diz Mario Filho: “Dondinho era preto, preta dona Celeste, preta vovó Ambrosina, preto o tio Jorge, pretos Zoca e Maria Lúcia. Como se envergonhar da cor dos pais, da avó que lhe ensinara a rezar, do bom tio Jorge que pegava o ordenado e entregava-o à irmã para inteirar as despesas da casa, dos irmãos que tinha de proteger? A cor dele era igual. Tinha de ser preto. Se não fosse preto não seria Pelé”.

É pela capacidade de povoar de gente de verdade – com seus dramas, causos, tiradas, provavelmente suas lendas também – uma paisagem freqüentemente fria, composta de datas e troféus, que o livro de Mario Filho resiste ao tempo. Na sua prosa de enganadora simplicidade jogadores consagrados dividem o palco com outros cujo brilho fugaz foi soterrado por décadas de esquecimento. Todos ressurgem imponentes como heróis de uma epopéia e, ao mesmo tempo, humanos, acessíveis, com qualidades e defeitos. Em livro recente, um acadêmico carioca, querendo desqualificá-lo, disse que “O negro…” não é um livro de História e sim um romance. Pegue-se a mesma afirmação com o sinal trocado e ela vira um tremendo elogio. Mario Filho escreveu o grande romance do futebol brasileiro.

33 Comments

  • Benedicto Ap da Silva 05/01/2010 at 13:48

    Como leitor de alguns livros,e algumas anedótas sobre futebole e outros assuntos já li muitos textos dois dois Mário Filho e Nelson Rodrigues e não sei se por influência da famade ambos ou por interesse em tomar conhecimento de futebol e de tudo que a mim enteressava,sempre achei o Mário mais verdadeiro qque o Nelson,quando falo mais verdadeiro o Mário Filho não estou dizendo aqui que Nelson Rodrigues seja mentiroso.
    O que eu queria entender é que aquilo que o M´´ario Filho nos contava,na minha ótica parecia me convencer melhor que o Nelson contava;Tal vez a minha visão fosse mais perférica.
    Quero dizer que tanto um como outro contribuiram para um aprendizado.
    Sendo assim aho que eles contribuíram bastante para o meu pequeno desenvolver literário,e como leigo conhecedor de um mínimo que ainda pretendo aumentar ,gostaria de cumprimentar o autor do texto,porque acho que quem procura uma boa leitura com entretemimento é uma boa dose de aprimoramento.

    Atenciosamente ;

    Benedicto Ap da Silva. Sou Prof e residente em Americana(SP)

  • Roberto B Cavalanti 05/01/2010 at 14:00

    Prezado Jornalista O Grande romance do futebol me sensibilizou O meu velho pai dizia, martelava sempre, que Rubem Braga re-ensinou o Brasil a escrever crônica A sua pessoa tem a verve, o falar com a pixão, mas com sinplicidade do bom cronista No duro, na verdade mesmo, tinha uma impressão, flha e maniqueísta, de seu texto ser pretencioso Mas, ainda hoje, vou comprar um de seus livros È a minha dúvida: será que começo por Elza, que é um romance histórico? É um romance histórico, mas os fatos são todos reais, correto? Enfim, o seu texto, da citada coluna, espelha uma precisão, sem perder a suavisdade, sem o exagero de enfeitar com muitos floreios e, sobretudo, integridade Parabéns!

  • Gutemberg Mendes Tavares 05/01/2010 at 14:09

    Ótimo texto, tão bom que de pressa irei ler o livro “O Negro no Futebol Brasileiro”.

    Parabéns

  • Benedicto Ap da Silva 05/01/2010 at 14:21

    No comentário que fiz O Grande Romance do Futebol,estou emitindo aqui a minha visão como desportista e leitor de algumas leituras que já fiz sobre o futebol e os acompanhamentos dos conhecidos autores,que deixaram incríveis contribuiçoes para o nosso mundo literário.
    Quando coloco da minha visão periférica ,estou me referindo a mim mesmo,ou seja uma visão de alguem que tenta incluir o seu pensamento mais ou menos o que pensa as pessoas que estão distantes do conhecimento,tema,aqui mencionado,mas que procura tentar entender um pouco sobre tudo isso,no meu entender a visão periférica é isso,falar o que sente sem ser especialista no assunto.
    Mário Filho e Nelson Rodrigues me deram muitas inspirações para escrever pequenos textos para a minha própria pessoa,por isso,pesso licença ao autor desse texto,Sergio Rodrigues para fazer o meu comentário sem visar nada mais nada menos que uma contrbuição de minha parte.
    Sobre o que foi publicado é muito bom segundo meu entendimento por isso parabenizo a iniciativa do autor.

    Benedicto AP da Silva
    benedicto2575@itelefonica.com .br

  • Ronaldo Costa 05/01/2010 at 14:32

    O texto do Sr. Sérgio Rodrigues voltou a despertar em mim um sentimento de orgulho que andava adormecido, a saber, o orgulho de ser brasileiro pois, um país que produz intelectuais do porte do citado deixa a todos orgulhosos. O autor exprime seus pensamentos de maneira mais filosófica do que jornalística, pois basea-os em argumentos sólidos, em alguns casos quase irrefutáveis, usando a linguagem de maneira científica ao contrário do discurso geralmente “opinativo” do jornalismo. Não sou um grande fã do futebol, mas, o texto realmente despertou meu interesse pela obra de Mario Filho.

  • cely 05/01/2010 at 15:36

    Sabe Sérgio,amei seu texto! Como meus outros colegas comentaristas ,tenho orgulho de ser sua leitora…..E se Mario Filho escreveu o Grande romance do futebol brasileiro,tenho orgulho,como brasileira e branca que sou,de afirmar que o negro tem escrito a história do futebol brasileiro.

  • Sérgio Rodrigues 05/01/2010 at 16:32

    Benedito, Roberto, Gutemberg, Ronaldo e Cely, obrigado pelos comentários. Fico feliz de ajudar a divulgar o livro do Mario Filho, que nunca foi tão lido quanto merece. Abraços.

  • Luís Nascimento 05/01/2010 at 16:40

    Sim, um grande romance, de fato. Quem sou eu pra falar qualquer coisa de Mário Filho. A não ser, claro, que ele era torcedor do flamengo. Todo mundo sabe disso. Com isso, é lógico que fica meio suspeita a opinião (tratada no texto como verdade absoluta) sobre a relação do Vasco com os negros. O grande flamenguista escreve (com a competência inquestionável no quesito texto), outro flamenguista divulga no blog (também com competência no quesito texto) e ambos nem se preocupam em aprofundar nada diante de um assunto tão delicado. E vamu-que-vamu na tentativa de mudar a história. Daqui a pouco vão descobrir que o Vasco na verdade era um clube escravocrata. Não sei por que, mas me lembrei de Orwell agora. E vamos todos duplipensar felizes…

  • Sérgio Rodrigues 05/01/2010 at 16:47

    Luis, seu comentário é divertido, mas equivocado. Leia (ou releia) o livro do Mario e você verá que o Vasco sai muito, mas muito bem nessa foto. Foi o clube que derrubou a barreira racial no futebol, e o Mario conta isso com muito prazer e respeito – a causa para ele era evidentemente superior à paixão clubística. Só não era ingênuo de supor que o Vasco fosse movido por ideais humanistas, a lógica era basicamente esportiva – trecho que destaquei. Um abraço.

  • Ronaldo L Machado 05/01/2010 at 17:29

    O que eu acho é, que quanto mais se fala ou, se faz por causa

    de raças, ou sexos, (cotas, delegacias de mulher e outras

    quetais) mais racista fica o Brasil e o mundo.

    NÃO ESQUEÇAM, O MUNDO NÃO É FEITO PE NEGROS BRANCOS, AMARELOS, HOMENS OU MULHERES, E SIM DE SERES HUMANOS. falei Eu.

    • cely 05/01/2010 at 18:31

      Concordo com voce Ronaldo…SERES HUMANOS
      NEGROS, BRANCOS, AMARELOS,HOMENS, MULHERES,GORDOS, MAGROS,…….Só tenho uma observaçãozinha a fazer:Chamar um Negro de Negro ,é simplesmento definir a qual raça ele pertence,o que aliás,deve ser motivo de orgulho.Assim como eu me orgulho de ter pelo menos uma gotinha de sangue Tupi correndo nas minhas veias.

  • Luís Nascimento 05/01/2010 at 18:10

    Não li o livro do Mário Filho ainda, Sérgio. E só agora, pela sua resposta ao meu comentário, fiquei sabendo que o Vasco “sai muito bem na foto”. Porque pelo trecho que você resolveu destacar como exemplo da “ambição jornalística” em contar “com minúcias” a história do negro no futebol brasileiro, a impressão que fica é que o Vasco só quis “se dar bem”. Uma impressão equivocada, como você mesmo diz, só que inevitável. Porque é meio difícil ler o teu texto e não ficar com essa impressão.
    Quanto aos “ideais” que moveram o Vasco, a discussão seria longuíssima. Teria de passar pelas origens dos clubes da cidade (Zona Sul X Zona Norte, elite carioca X colônia portuguesa…) para chegar aos motivos que levaram um clube a aceitar que negros perambulassem por sua sede em pé de igualdade com sócios, fundadores e afins; e porque outros clubes se arrepiaram por tanto tempo só de ouvir falar nessa possibilidade. Mas aí ocuparia espaço demais, perderia-se muito tempo pra falar bem do Vasco. Então destaca aí que o Vasco, na verdade, só queria ganhar as competições, e fica tudo certo. Pelo menos fica na moda.

    A propósito: O Vasco elegeu um presidente mulato em 1905, 17 anos depois da Abolição. Isso embaralha à beça a discussão sobre os “ideais”, né não?

  • Sérgio Rodrigues 05/01/2010 at 18:28

    Luis, lamento se feri seus brios cruzmaltinos, garanto que foi sem querer. Clube de futebol nenhum é movido por ideais humanistas, achei que isso era apenas o óbvio. A lógica esportiva da incorporação de negros ao elenco (origem mais popular que o Vasco, e mesmo operária, muitos clubes tinham) foi, no fim das contas, o que fez a tal revolução vascaína dar certo e inaugurar um novo tempo. Em outras palavras: os jogadores conquistaram esse espaço na bola, não por concessão ou regime de cotas. Se não me detive mais no assunto, foi porque tinha um livro inteiro para resenhar em poucas linhas e me interessava destacar a visão nada ingênua (quase digo “materialista-dialética”) do homem. O resto é mitologia clubística, coisa naturalmente respeitável, mas alheia às intenções do autor. Leia a história que conta o rubro-negro Mario e aposto que sua desconfiança vai virar orgulho. Justificado, aliás. Um abraço.

  • C. S. Soares 05/01/2010 at 20:08

    Trecho do livro no Google Books [ http://bit.ly/8XdYkD ]:

    Há quem ache que o futebol do passado é que era bom. De quando em quando a gente esbarra com um saudosista. Todos brancos, nenhum preto […] Sabia-se quem era o preto, quem era o branco, o branco e o preto não se confundiam. O Bangu podia botar um preto no time embora fosse um clube de ingleses. Tão de ingleses que tinha o The, era o The Bangu Athletic Club

  • U-carbureto 05/01/2010 at 20:27

    Sérgio, há também um conto belíssimo do Rubem Fonseca sobre futebol – “Abril, no Rio, em 1970”, do “Feliz Ano Novo” –, talvez alguém, à maneira da Patrícia Melo, queira transformá-lo em romance. Uma coisa é certa: todos, ou quase todos, os ingredientes estão ali.

    Obs.: Sérgio (espero que não tenha sido um homônimo, mas pela qualidade do texto acho improvável), gostei muito da sua matéria com Oscar Niemeyer na Veja Especial Brasília 50 anos, parabéns.

    • Sérgio Rodrigues 06/01/2010 at 00:28

      U-carbureto, a matéria é minha mesmo. Obrigado.

  • Harpia 05/01/2010 at 20:54

    Sérgio, confesso que a minha percepção inicial do texto foi a mesma dos meus compadres cruzmaltinos, que o meu time ficava mal na foto.

    Até que li a sua ponderação final e pude dar uma boa gargalhada de alívio por você ter relembrado a todos nós o óbvio: empreendimentos que visam lucro não são movidos por ideais humanitários, ponto.

    Mas você, que é torcedor, há de nos perdoar a passionalidade. Até pela relevância da mitologia clubística, que você tão sabiamente cita.

    (lá na Gávea, por exemplo, há um time em cuja mitologia clubística eles ganharam seis campeonatos brasileiros)

    Abraços e parabéns por este relevante blog,

    • Sérgio Rodrigues 06/01/2010 at 00:32

      Harpia, obrigado, mas o hexa é um singelo fato. Mitologia é a embrulhada politiqueira que a CBF aprontou. Grande abraço.

  • Rosângela 05/01/2010 at 22:00

    Adorei este seu escrivinho, Sérgio! Gosto de muitos dos seus escritos, e este de hoje, é aquele que a gente lê já com vontade de reler…

    Acabamos de ler uma linda partida.
    E que gol bonito você fez!

  • Luís Nascimento 05/01/2010 at 22:08

    “Clube de futebol nenhum é movido por ideais humanistas, achei que isso era apenas o óbvio.”

    Desculpe, Sérgio, mas não vejo nada de óbvio nessa afirmação, principalmente com relação a clubes que são muito mais que times de futebol, com tradição mais que centenária em vários esportes. Segundo essa tese “óbvia”, acreditar nos ideais de um clube, comprovados por fatos históricos, vira “ingenuidade”; e uma História repleta de atos contra o racismo e o preconceito social não passa de “mitologia clubística”.
    Mas não tô com brio ferido, não. Fica tranquilo. É a paixão que faz as pessoas acreditarem nisso, e o próprio Mário não escapou dela, a julgar por essa frase aqui:

    “Entre um branco e um preto, os dois jogando a mesma coisa, o Vasco ficava com o branco.”

    Ele dá algum exemplo disso no livro? “Apurou” algum caso que comprova essa “tese”? Se não, meu caro, só a paixão justificaria uma afirmação tão contundente como essa sem qualquer tipo de prova. Normal. Se o time do coração do Mário tivesse essa página gloriosa em sua história, talvez nosso grande autor fosse mais “ingênuo” ao comentá-la.

    No mais, lerei o livro, claro. É bom demais poder reforçar nossa paixão com uma História digna do H maiúsculo. Abraço pra você também.

    • Sérgio Rodrigues 06/01/2010 at 00:39

      Luis, se tem uma coisa que sobra no livro do Mario é exemplo, apuração. Se tem uma coisa que falta (sem fazer falta) é essa bobagem de puxar sardinha pro próprio time – a coisa toda é muito maior. Leia sim.

  • João Paulo 05/01/2010 at 22:23

    Lerei!

    Sérgio,

    o livro do Mário Filho também é fonte importante pro “Veneno Remédio”, do Zé Miguel Wisnik, livro recente e absolutamente espetacular…

    E parabéns pelos 1001 posts!

    Abraço.

  • subultra 06/01/2010 at 01:49

    Imaginem a seguinte hipótese.
    O internacional derrota o flamengo em 87 e depois é eliminado por WO ao se recusar a disputar uma partida de uma regulamento que, apesar de estranho, ele aceitou disputar.
    O respeito as regras só vale quando convém ?
    Alguém da mídia trataria o colorado como TETRA ?
    Se o mito e mais interessante (e vendável) que a realidade …

  • jaime 06/01/2010 at 11:36

    “No Rio de Janeiro, Fluminense, Botafogo e Flamengo não admitiam de forma alguma que o negro vestisse sua camisa. Mas o Vasco, representando o espírito do comércio de secos e molhados, comércio em contato permanente com o público em geral, já desde 1923, surgira como grande potência e não fazia restrição de espécie alguma.

    (…) Em São Paulo, o Palmeiras resistia. O Paulistano, clube do Jardim Paulista, preferiu fechar sua seção de futebol a ter de aceitar preto em seu time. No Rio Grande do Sul, o Grêmio Porto-Alegrense também era intransigente. No Paraná, o Atlético e o Coritiba não aceitavam os negros. Em Minas, Atlético e América; na Bahia, o Baiano Tênis, que procedeu como o Paulistano: fechava mas não transigia. Em Pernambuco, o Náutico; no Ceará, o Manguari; no Pará, o Remo, e assim por diante: em cada Estado da Federação havia clubes aristocráticos que não deixavam os pretos jogarem.”

    João Saldanha – Os Subterrâneos do Futebol

  • Luís Nascimento 06/01/2010 at 11:50

    Claro que tem apuração no livro, Sérgio. Estamos falando de Mário Filho. Mas tem paixão também, e a prova disso foi essa afirmação contundente sobre os “ideais” do rival do time dele, embasada apenas na própria opinião, na opinião de um flamenguista. Me desculpe, mas ingenuidade, de verdade, é achar que a paixão por um clube não faz diferença alguma quando se escreve sobre futebol.

  • Marcelo Moutinho 06/01/2010 at 12:28

    Sérgio, estou preparando um projeto de mestrado cujo te,a é justamente este: o futebol na ficção brasileira (excluídas as crônicas). O livro de Mário Filho é grande, mas me parece ser a exceção que confirma a regra da ausência do tema em nossos textos. Abraço (e saudações tricolores)

    • Sérgio Rodrigues 06/01/2010 at 13:16

      Boa, Marcelo. Um dia quero ler essa tese. Grande abraço.

  • João Sebastião Bastos 06/01/2010 at 12:38

    Segundo resenha da Veja (1998), uma frase de Nélson Rodrigues, teria inspirado Macedo Miranda a escrever O Sol Escuro, um romance sobre futebol: ” Não há um único personagem de romance, neste País, que saiba cobrar um escanteio ” . O livro é tão híbrido de romance/reportagem,tão a cara de Mané Garrincha, que talvez merecesse uma reedição . Edilberto Coutinho cita um poema de Gilka Machado (?) de 1938 , em saudação á nossa seleção , finalista da Copa , contra a França , referindo- se aos jogadores negros e mulatos “…sóis escuros / que haveis deslumbrado as loiras platéias…” .O Náutico , aqui de Recife, elitista em suas raízes de clube de remo, tem algumas histórias de racismo.Uma delas, é que o jogador Nino ,(famoso pelos gols de cabeça), mulato , foi admitido nos treinos, graças á uma milagrosa e oportuna falsificação de sua foto na ficha do clube. No futebol, o negro perdia a sua invisibilidade social .

  • Murilo 06/01/2010 at 17:11

    Caro Luis Nascimento,

    sou paulistano e corintiano, portanto nesse Fla-Flu que é o Flamengo vs Vasco (copyright Vicente Matheus) não meto a colher.
    Observo apenas que a frase pinçada pelo Sérgio (“Entre um branco e um preto, os dois jogando a mesma coisa, o Vasco ficava com o branco”) em nada maculou a imagem que tenho do Vasco – como diria o Sérgio, não tenha lá muitas ilusões sobre o humanismo de cartolas de futebol.
    Já os seus comentários, esses sim me deram a impressão (por certo preconceituosa) que cruzmaltinos devem ser todos uns malas.

    Sérgio,

    como cronista esportivo, tb prefiro o Mário Filho ao irmão mais famoso. Se considero Nelson Rodrigues nosso melhor dramaturgo do séc 20, devo confessar que suas hiperbólicas crônicas esportivas tendem a me cansar um tanto.

  • Luís Nascimento 06/01/2010 at 18:03

    Prezado Murilo,

    A frase (”Entre um branco e um preto, os dois jogando a mesma coisa, o Vasco ficava com o branco”) afirma, sem qualquer tipo de prova, que existia racismo no Vasco. Uma opinião dessas, a julgar pela história do clube, só pode ser movida a muita paixão. Foi por paixão também que essa frase agradou tanto ao nobre blogueiro, a ponto de ele destacá-la na resenha. E, adivinha, é por paixão que ela não maculou a imagem que você tem do Vasco. Tivesse o Timão essa bela página em sua história, e talvez você também não gostasse de ver tal frase ser tratada como prova de apuração minuciosa. Aí o mala seria você, se já não o é. Porque essas pessoas que gostam de dar pitaco em tudo, mesmo dizendo que “não metem a colher”, geralmente são bem chatinhas.

  • leticia da silva jesus 04/05/2010 at 10:18

    isso e muito interessante e criativo continue assm parabns

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