O jogo do sério

09/02/2007

Eis um belo paradoxo. Em todas as áreas da vida britânica, a acusação de falta de humor é um insulto cruel; não ser engraçado é praticamente um pecado nacional. Mas para ser considerado um dos “romancistas de verdade” deste país, hoje, você tem que ser mortalmente sério. Estou começando a temer que haja algum insidioso Zeitgeist rolando, uma estranha sopa em que se unem os Tempos Difíceis em que vivemos, um malformado desejo de categorizar e regras subterrâneas que ninguém articula mas todos sabem que estão lá.

(…) Com raras exceções, o clima literário agora é de solenidade implacável. Uma noção nebulosa serpenteia em torno do subconsciente do romancista como uma trepadeira: você precisa ser sério, senão nunca vai ser resenhado nos jornais importantes ou terá a menor chance de conquistar uma vaguinha na posteridade.

Tive vontade de aplaudir de pé esse pequeno artigo (em inglês, acesso livre) publicado no blog de livros do “Guardian” por Tania Kindersley. Ela cita Jane Austen e Graham Greene como escritores sérios dotados de fino senso de humor, para não mencionar o mais obviamente cômico Evelyn Waugh. Acrescenta que Martin Amis, cansado de jamais ganhar prêmios com suas comédias sombrias, “agora escreve sobre os últimos momentos de Mohamed Atta”.

No Brasil, terra de humoristas ferozes do naipe de Machado de Assis e Campos de Carvalho, o quadro é parecido. Escritores que trabalham com ferramentas literárias “antigas” como sátira, farsa e ironia – sim, eu sou um deles, mas antes de tudo sou um leitor que adora essas coisas – andam tendo dez vezes mais dificuldade para ser levados a sério. Isso explica, entre outras coisas, a gelada recepção crítica que teve um livrinho brilhante como O homem que não gostava de beijos, de Edward Pimenta. Já um autor soturno, mesmo que junte sujeito e predicado com durex, tem meio caminho andado para a glória. Se aos ares macambúzios aliar uma prosa opaca, então…

58 Comments

  • Clarice 09/02/2007 at 17:44

    “mesmo que junte sujeito e predicado com durex,”
    Pois é Sérgio…

  • Clarice 09/02/2007 at 17:46

    “Humor não é um estado de espírito, mas uma visão de mundo.”
    Wittgenstein

  • Cezar Santos 09/02/2007 at 17:56

    Sérgio, essa sisudez é nefasta em tudo, na vida em si.
    De 15 anos pra cá, a crítica mete o pau em Rubem Fonseca, por exemplo, a quem continuo achando que é um senhor escritor. E uma das razões por que continuo gostando (muito) da literatura do Fonseca é que ela é repleta de ironia, definitivamente sem essa seriedade toda a qual seu excerto refere.
    Em alguns momentos seus contos chegam a ser francamente cômicos…

  • Pedro Curiango 09/02/2007 at 18:48

    Sérgio: Dê uma olhada no teatro e veja o que está acontecendo no Brasil. O que era “sátira, farsa, ironia” virou “besteirol”. E parece que toda obra clássica precisa ser “adaptada” ao “gosto brasileiro”. Poucas vezes, se alguma, a arte literária brasileira andou tão por baixo. E não adianta ser irônico – quase ninguém entende… Nosso nível geral de leitura é apenas o sentido literal – nada de nuances. Creio que uma das razões disto é a aceitação de jornalismo como literatura. Antes, embora compartilhassem o mesmo espaço, ninguém os confundiria. Veja Machado de Assis ou Olavo Bilac, por exemplo: sempre escreveram crônicas nos jornais, mas sua prosa nunca se assemelhou ao do noticiário ou foi colocada no mesmo saco. Hoje em dia, a crônica quer ser igual ao noticiário. E isto é apenas um exemplo. Escritores de mais qualidade (Autran Dourado, e.g.) são considerados difíceis e um poeta como Mário Faustino é quase ilegível. Enquanto isto, pululam os “sites”” poéticos na Internet e há muita gente que acha que Vinicius é o MAIOR poeta da língua depois de ter lido um de seus sonetos…

  • Rafael 09/02/2007 at 18:58

    Imagine se Jonathan Swift estivesse vivo hoje e publicasse a sua inédita “Modesta Proposta para Evitar que as Crianças Pobres da Irlanda se Tornem um Peso para seus Pais e seu País”. Seria um escândalo, todos tomando-o ao pé-da-letra, crendo que o deão de Dublin seria um louco.
    Ah, os politicamente corretos iriam se unir numa manifestação “espontânea”, editoriais inflamados encheriam os jornais, comentaristas histéricos iriam à televisão lamentar a escalada de violência que assola uma Europa xenófoba e elitista. E alguém, do alto de uma cátedra universitária, iria pontificar, com insofismável lógica construtivista, relativista e pós-moderna, que tal infâmia, junto com o ataque de 11/09, o tsunami e o aquecimento global, é o sinal mais evidente de que a humanidade caminha para a auto-destruição.

  • Saint-Clair Stockler 09/02/2007 at 19:01

    Saint-Clair dando uma de Advogado do Diabo:

    Mas será que, algumas vezes, a “culpa” (detesto esse palavrãozinho cristão) não é dos próprios autores? Veja, por exemplo, o caso do Rubens Figueiredo – escritor que eu admiro muito -, que era farsesco, humorístico e satírico até “O livro dos lobos” e, depois, deu uma guinada: ficou mais sisudo, mais sério (curiosamente, só a partir dessa “nova fase” foi que começou a ganhar prêmios, inclusive o Jabuti). Você mesmo, Sérgio, falou há algumas semanas sobre essa primeira e “carnavalesca” fase do Rubens. Enquanto leitor, gosto de ambas. Mas me pergunto: por que mudar? Será que ele pressentiu que não seria levado a sério se não ficasse mais circunspecto?

    Em 1996 eu tive a oportunidade de assistir a um encontro de escritores no Real Gabinete Português de Leitura, onde estavam três autoras que muito amo: Raquel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles e Nélida Piñon. Ao final, como bom mineiro que sou, me aproximei delas pra um dedo de prosa. Quando comecei a falar com a Nélida, a primeira coisa que eu disse foi: “Acho incrível o seu senso de humor, me impressiona muito”. Ela parou e me observou longamente. “Engraçado…”, ela respondeu. “Em geral os meus críticos não notam esse meu humor”. Pois é: aqui no Brasil, muitas vezes, o fino humor não é bem entendido ou mesmo percebido. Parece que só funciona se for humor tipo Casseta & Planeta.

    Por que uma obra circunspecta deveria ser encarada como “melhor” do que uma bem-humorada? Porque associamos sisudez à qualidade. O que faz rir “não presta”. Mais um dos nossos defeitos de visão, lamentavelmente.

    Não nos esqueçamos de que os grandes autores clássicos quase sempre são finos humoristas: Swift, Sterne, Shakespeare, Jane Austen, Machado, Cervantes, Guimarães Rosa, Flaubert, Kafka (tá, aqui eu preciso fazer uma parada estratégica pra explicar a presença do K nesta lista: consta que ele, ao ler capítulos de seus livros para amigos, mal conseguia se segurar, sacudido por gargalhadas incontroláveis… Nem sempre somos capazes de ver o humor nas obras, hahaha). A lista é praticamente infinita.

  • Clarice 09/02/2007 at 19:22

    Não precisa explicar, Saint-Clair. Quem não vê o humor no Kafka não entendeu nada.
    Uma curosidade:
    Ao se googlar a palavra “esquina” temos 17.200.000.
    Ou seja, divertimento de sobra para ir procurar alguém.

  • Clarice 09/02/2007 at 19:23

    “curiosidade” claro. rsrsrsrsrsrsrsrs

  • Rafael 09/02/2007 at 19:27

    Acabei de ler o artigo da Tania Kindersley. A imputação da falta de humor aos jurados do prêmios literários parece-me uma boa pista. Nada direi sobre o Reino Unido, do qual pouco sei, mas observarei que aqui mais ao sul as cátedras e os juris são ocupados quase que exclusivamente por medalhões, no sentido machadiano do termo. Os medalhões, para quem não conhece o conto de Machado de Assis, são impermeáveis à ironia, “esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos céticos e desabusados” e, no entanto, têm inteligência suficiente para alcançar a sutileza da chalaça, “a boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensórios.”
    A falta de humor é o túmulo da inteligência.

  • tibor moricz 09/02/2007 at 19:55

    Sem graça não há leveza. Sem humor, não há firmeza.

  • tibor moricz 09/02/2007 at 20:08

    Não dá pra imaginar um texto, qualquer um, sem a marca indelével do humor. Por mais sutil que seja. A ficção é sempre um retrato burlesco da realidade, mesmo quando procura se distanciar dela.

  • ombudsman 09/02/2007 at 20:30

    É, deve ser por isso que ninguém fala em Moacyr Scliar, João Ubaldo Ribeiro, Luis Fernando Verissimo, Wilson Bueno, Cíntia Moscovich, Marcelino Freire. E, lá fora: Zadie Smith, Ali Smith, Julian Barnes, Philip Roth, Salman Rushdie… Na literatura contemporânea o humor é mesmo mesmo mto desvalorizado.

  • vinicius jatobá 09/02/2007 at 20:39

    É verdade, o humor parece abolido da literatura. A literatura se alimenta da vida, mas os autores parecem querer eliminar dela três elementos muito importantes: a religiosidade, o erotismo e o humorismo. Ninguém mais reza nos livros; ninguém mais transa nos livros; e ninguém ri. A sexualidade é nossa própria essência, o que nos define, e me espanta a total inexistência de literatura erótica e pornográfica entre bons autores. Num livro vemos a personagem fazendo tudo, menos bolinando a esposa… E o humor, também, parece não encontrar mais morada na prosa de qualidade. Só um humor corrosivo, esse sim, que faz das personagens caricaturas, que as reduzem; mas o humor do cotidiano, esse está ausente, o humor inteligente com que o brasileiro vai levando sua vida, onde estará ele? Para falar a verdade o próprio cotidiano está ausente dos livros. É muito difícil para o leitor se identificar com as personagens dos livros porque elas me parecem mais literárias que humanas, em muitos casos. Isso é pano pra manga. Mas sou muito favorável a esse debate. Acho que dele só poderiam surgir coisas saudáveis.

  • Marco Polli 09/02/2007 at 21:34

    Eu não poderia concordar mais, Sérgio. Eu sempre gostei de humor na literatura, a começar por várias crônicas da coleção Para Gostar de Ler, presente ali na minha iniciação literária.

    Eu até acho que há um excesso de ironia na TV, chega a ser enjoativo. Já na literatura, é um item realmente escasso; o autor precisa realmente ter muito talento e muita confiança própria.

    Nas minhas últimas leituras, eu fiquei admirado com o humor preciso de alguns contos de Julian Barnes em “Um Toque de Limão”.

    Por coincidência, ontem mesmo eu estava escrevendo sobre o filme Dr. Fantástico de Kubrick, que jogou uma visão sarcástica sobre a ameaça nuclear. Deixou aqui uma citação do diretor no ano de lançamento do filme, 1964:

    ““Por que a bomba deveria ser abordada com reverência? A reverência pode ser um estado mental paralisante. Para mim, o senso do cômico é a resposta mais eminentemente humana para os mistérios e paradoxos da vida. Eu espero apenas que alguns deles sejam iluminados pelos exageros e pelo estilo do filme. E eu não vejo razão para um artista fazer algo mais do que produzir uma experiência artística que reflita o seu pensamento.”

  • Entusiasmado 09/02/2007 at 21:37

    Saint-Clair, venho aqui todos os dias e fico sempre embasbacado com sua sabedoria e cultura. Soube que você faz mestrado na área. É muito bom saber que uma pessoa deste nível está fazendo parte da nossa academia. Tenho certeza de que gente como você será capaz de nos livrar do atraso intelectual em que nos encontramos. Gostei muito do seu comentário a respeito do Harold Bloom, um detrator de Harry Potter. Quem ele pensa que é? Acompanho sempre seus apartes e fico muito feliz de saber que você é um legítimo representante da nossa juventude letrada. Fico esperançado de que as coisas mudarão e que finalmente a literatura venha a fazer parte da vida de todos nós, brasileiros. Viva Machado de Assis! Vida a Literatura! Viva Saint-Clair!

  • Lucas Murtinho 09/02/2007 at 21:44

    Concordo em parte com Kindersley, mas as “raras exceções” que ela menciona não são tão raras assim, pelo menos na literatura britânica. Jonathan Coe, David Mitchell e Zadie Smith são três dos melhores e mais respeitados escritores ingleses da atualidade, e os três sabem ser muito engraçados. Do outro lado do Atlântico, Michael Chabon, Jonathan Safran Foer e Jonathan Lethem são divertidos e influentes.

    É verdade que os prêmios favorecem as obras sérias, mas isso não é privilégio da literatura, e todo mundo sabe que essa é a deixa para perguntar quantas comédias já ganharam o Oscar. E se um escritor muda de estilo para ganhar prêmios, como Kindersley parece sugerir ter sido o caso de Martin Amis, ele merece nossa compaixão ou nosso desprezo?

  • Abell Achtervolgd 09/02/2007 at 22:14

    eu não sou muito fã mesmo de humor… besteirol enfim
    tem que ter uma certa acidez, um certo tapa, um certo escracho utilizando-se do ridículo. um certo pessimismo enfim

    humor por humor, para fazer rir e nada mais(como pensar ou escandalizar, por exemplo) é patético na minha opinião…

  • Radical Livre 10/02/2007 at 00:05

    SR,
    pô um comentário deste tamanho só para reclamar do seu abandono pela crítica(?) especializada moderna? aliás, o que é a crítica literária aqui no Brasil hoje em dia?

  • sérgio de castro pinto 10/02/2007 at 00:53

    Cortázar: “o humor cava mais túneis utéis do que todas as lágrimas do mundo”

  • Koglod Reztrau Swiuytjs 10/02/2007 at 01:01

    “sim, eu sou um deles”… [risos]

  • sérgio de castro pinto 10/02/2007 at 01:04

    não é.

  • Sérgio Rodrigues 10/02/2007 at 01:19

    Radical, não barateie tanto. Convenhamos que eu não fui abandonado pela “crítica especializada moderna”: As sementes de Flowerville ganhou resenhas – uma ou outra indecisa, a maioria francamente positiva – no Estadão, Globo, Correio Braziliense, Digestivo Cultural, Rascunho, Paralelos. Foi menos do que eu queria, mas vai ver o que o pessoal anda arrumando. Acho – e é claro que acho isso porque também escrevo de uma determinada forma – que tem rolado uma certa sisudez, sim. Uma visão um pouco solene da literatura. Isso me preocupa porque nós somos um país ainda verde, com um mercado leitor imaturo e eu acho, ou melhor sei, que a inteligência sem humor é um pouco menos inteligente.

    Quanto à sua pergunta, não, não temos bem uma crítica literária. Eu tenho preferido chamar de imprensa literária.

    Um abraço.

  • sérgio de castro pinto 10/02/2007 at 01:42

    Permitam-me citar o seguiinte trecho: “”Quando o Titanic naufragou, um dos homens mais ricos a bordo, não pôde resistir à tentação de pilheriar quando viu o mar cheio das lascas do iceberg contra o qual o navio havia abalroado: ‘Eu tinha pedido gelo, mas isso é ridículo!”
    E Freud, escrevendo sobre o leit motiv do procedimento humorísico? Eis: “Olhem! Aqui está o mundo, que parece tão perigoso! Não passa de um jogo de crianças, digno apenas de que sobre ele se faça uma pilhéria!” E Manuel Bandeira? O melhor dele é “Libertinagem”, quando o poeta pernambucano supera “o gosto cabonito da tristeza” pra se readptar ao “mundo dos sãos”. E o faz através do humor, da ironia. Infelizmente, a nossa literatura anda muito sisuda. Parnasianismo à vista? Ô galera!

  • Marcelo Moutinho 10/02/2007 at 02:22

    Sergio, a sisudez existe, mas acho que não só com relação ao humor. Talvez – e sobretudo – quanto a uma literatura que está mais próxima da vida do que da própria literatura…

  • sérgio de castro pinto 10/02/2007 at 03:13

    moutinho:
    meu endeço: rua golfo de anadyr, 21, ap. 7o2.
    praia de intermares – cabedelo – paraíba
    cep: 58. 310- 000
    envie-me o seu endereço para que eu remeta o meu livro: “zôo imaginário”!, escrituras, são paulo, 2005.
    abraço amigo do
    sérgio

  • Noga Lubicz Sklar 10/02/2007 at 07:05

    ironia é sinal de inteligência, não? uma visão perspicaz da realidade? não sei se é intelectualmente apreciada uma literatura muito próxima à vida, mas é a que mais me toca. outro dia reclamei, justamente, na resenha do meu livro, que o crítico não entendeu o humor. quanto à literatura erótica, ih, vou ter que concordar com o Vinicius, quem diria! e convidá-lo a me resenhar em breve… vai lá, Vinicius: http://www.noga.blog.br/hierosgamos.pdf

  • Saint-Clair Stockler 10/02/2007 at 11:09

    Entusiasmado,

    Se e quando eu conseguir me estabelecer na Academia (quero ser professor universitário; nem precisa ser no Rio ou em São Paulo: pode ser no Paiuí mesmo – e não, não estou desmerecendo o Piauí), vou dar um jeito de mudar as coisas. Esta sempre foi a minha firme intensão. Não posso concordar com uma mentalidade que louva exemplares medíocres da, digamos, “corrente principal da Literatura” e joga na lama exemplares de gêneros não-canônicos mas mesmo assim brilhantes. É estreiteza mental demais pra cabeça de alguém como eu, que cresceu lendo num dia Machado de Assis e no outro Patricia Highsmith.

    (e obrigado pela “força”)

  • Saint-Clair Stockler 10/02/2007 at 11:12

    E por falar em humor, ninguém ainda mencionou o nosso patriarca hoje esquecido José Cândido de Carvalho. Lembro-me que eu rolava de rir na década de 80 lendo “O coronel e o lobisomen”, “Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon” e “Um ninho de Mafagafe cheio de Mafagafinhos”. Aquele sim sabia o que era humor… pena que não é mais lido.

  • Jonas 10/02/2007 at 11:23

    Por essas e muitas outras, Sterne continua sendo o mais moderno autor da história.

    Saint-Clair e Clarice, concordo com vocês: quem não vê humor em Kafka, não entendeu nada. E isso também vale para Thomas Bernhard, que muitos lêem porque gostam de vê-lo reclamar e metralhar meio mundo, sem reparar no quanto ele está gargalhando por dentro.

    Sinto falta do humor de Saul Bellow, para mim o melhor escritor do último meio século. E Martin Amis, em seus melhores momentos, é ótimo.

  • Sérgio Rodrigues 10/02/2007 at 11:45

    Marcelo e Noga, sátira e ironia todo mundo sabe o que são (o que, claro, não exclui discordâncias como a do sérgio aí de cima, que sequer admite minha inscrição na modalidade; talvez me considere um realista socialista). Agora, essa história de “literatura próxima da vida”, não sei não. Tenho ouvido isso por aí com certa insistência mas, sinceramente, acho que não chego a captar a idéia. Vocês poderiam explicar? Se toda literatura é necessariamente artifício, uma literatura “próxima da vida” seria aquela cujo artifício é disfarçar ao máximo o fato de ser um artifício, dando à narrativa um ritmo meio arrastado de “vida real”? Por exemplo – Onetti é próximo da vida, García Márquez é distante? É por aí?

  • Saint-Clair Stockler 10/02/2007 at 11:57

    Jonas: outro que tem um humor finíssimo é o Isaac Bashevis Singer. Maravilhoso. E tem a Elfriede Jelineke, que ganhou o Nobel há uns dois anos. O humor dela é muito próximo do humor do Thomas Bernhard, meio ácido, muito venenoso, humor negro (gosto muito, hahaha).

  • Cezar Santos 10/02/2007 at 14:29

    Vinícius,
    ninguém mais transa nos livros? Olha, o que mais se vê são transas, descrições de pegações, etc e tal nos livros… de onde vc tirou essa tese?

  • Entusiasmado 10/02/2007 at 16:00

    Saint Clair,

    Você não é mesmo capaz de pescar uma ironia, hein?!

  • Noga Lubicz Sklar 10/02/2007 at 16:43

    Sérgio. Literatura é vida. Procuro não ler muito sobre teorias, me encaixar em cânones do que deve ou não ser literatura, se artifício ou não… Simplesmente não me preocupo com isso, deixo a tarefa aos críticos. Quanto à vida real ser arrastada, não sei. É verdade que venho descobrindo a duras penas (sem trocadilho) que tentar reproduzir na literatura o ritmo da vida acaba em repetição e alguma vulgaridade. Digamos, então, que literatura é “síntese” da vida, mais ágil, sutil, refinada. Sem disfarçar nada, abaixo o disfarce. E como escritora me envolvo, me entrego à voz interior (devo ser esquizofrênica mesmo, para ouvir tantas), é o que eu quis dizer sobre literatura próxima da vida, ou melhor, como parte integrante dela. Garcia Marquez, com toda a fantasia, está encravado dentro da vida e nunca distanciado dela, é a tal emoção metafórica, não? Ou vai ver que não entendi nada, aliás… faço às vezes questão de não entender, prefiro me deixar envolver ou largo de mão. Não sei se te respondi, e se tiver falado besteira, culpo a “outra”, a ciclotímica. Admiro a erudição, mas não a cultivo. O fato é que procuro a antena e não o código: uma opção estritamente pessoal.

  • Mr. Ghost(WRITER) 10/02/2007 at 19:28

    Essa história de irônia, humor negro, sarcasmo e entrelinhas é algo complicado, vide as caixas de cometário dos blogs do Nomínimo… acho que as pessoas não estão prontas para esse tipo de expessão…
    Lembro muito de uma frase do Tutty que dizia assim: “O humor é assim mesmo, fronteiriço entre a graça e a grosseria.”
    O problema é que muita gente confunde humor com palhaçada ou com falta de seriedade, e quando é humor sutil, inteligente e, por assim dizer camuflado, não agrada…
    Pena, uma boa ironia é magnífica…
    Abraços

  • Mr. Ghost(WRITER) 10/02/2007 at 19:34

    Jonas,
    Eu acho Kafka excelente em termos de humor…
    Em minha opinião ele tratava suas situações absurdas com um maestria irônica ímpar…
    As situações são tão absurdas que são cômicas mesmo… não cômico pelo cômico, acredito haver algo de trágico nisso tudo que Kafka nos deixou…

  • Marcelo Moutinho 10/02/2007 at 19:49

    Garcia Marquez está próximo, claro, Sergio! Não me refiro aqui a uma defesa do naturalismo. Longe disso. Mas acho que há uma tendência da literatura brasileira em se ensimesmar (a redundância é intencional). Ou seja: autores processarem leituras em novas escrituras, resvalando no pastiche sem querer. É aquilo: tem muita carga de leitura, muita pose de escritor, mas falta ao seu texto algo que de fato faça vicejar o humano. Não é uma discussão simples, admito.

    Sérgio de Castro Pinto: não entendi o recado. Me manda um email (m.moutinho@uol.com.br)

  • mr. simancol 10/02/2007 at 21:06

    “Foi menos do que eu queria”. Alguém traz uma dose de autocrítica pro SR, por favor! Ele tá precisando mto. Cara, seu livro realmente não faz vergonha. Mas tb não merecia a atenção q teve. Vc é um cara inteligente, decorou direito a tabuada do pós-moderno, mas seu livro não sai daquela faixa da diluição irrelevante de coisas que outros (mtos) já fizeram com mais criatividade, graça, talento. Pode ser q vc escreva coisas boas um dia, sem dúvida. Mas ainda falta um bocado…

  • sérgio de castro pinto 11/02/2007 at 00:59

    meu caro sérgio rodrigues:
    distante, aqui numa praia da paraíba, intermares, queria saber do título do teu livro e a editora.
    cordialmente,
    sérgio de castro pinto

  • Sérgio Rodrigues 11/02/2007 at 01:06

    Mr simancol, que atitude covarde. Ou você mostra a cara e a gente conversa que nem gente sobre autocrítica (a minha é tão grande que eu preciso podá-la todos os dias) etc., ou então vá amolar outro. Eu estou aqui com meu nome, endereço, CPF e quatro livros para mostrar. Você é só um nickzinho de ocasião. Entende como essa conta não fecha, por que sua opinião não vale o tempo que eu perdi ao lê-la? Entendo que a atenção que meus livros sempre recebem o incomode, pois muita gente (você inclusive, talvez?) não tem isso. E claro que ninguém é obrigado a gostar do que eu escrevo, tem gosto pra tudo. Mas pra ter moral para dizer que eu decorei ou deixei de decorar a tabuada x ou y o cara precisa, no mínimo, ser alguém. Ficar jogando mamona aí da moita é muito feio.

  • Sérgio Rodrigues 11/02/2007 at 01:11

    Caro xará, meu último livro é um romance chamado “As sementes de Flowerville”. Foi lançado pela editora Objetiva. Um abraço.

  • sérgio de castro pinto 11/02/2007 at 04:01

    vou procurá-lo como uma “agulha no palheiro”. o meu livro, “zôo imaginário”, escrituras, 2005, foi adotado no programa “lendo e aprendendo”, da secretaria de educação do estado de são paulo. aí, a título de direito autoral, vão me chegar dois mil exemplares. e o que eu faço? distribui-los com quem gosta de ler e com quem escreve, do contrário, eles, os livros, terminam me movendo uma ação de despejo. se possível, envie-me o seu endereço postal. meu email: castropinto@pop. com. br
    abraços do
    sérgio de castro pinto

  • sérgio de castro pinto 11/02/2007 at 04:08

    erotsmo? sugiro a leitura de hermilo borba filho, ficciionista pernambucano que, se vivo fosse – e o é através dos seus livros! – estaria completando noventa anos de idade.

  • mr. simancol 11/02/2007 at 14:45

    SR: “Ficar jogando mamona aí da moita é muito feio”. Tens razão. Mas eu (‘tantas vezes vil’!) também tenho. Se não qto à autocrítica (bom saber q vc possui), pelo menos qto ao ridículo da sua reclamação. Mas esse é mesmo um assunto q não vale teu tempo de leitura nem o meu de escrita. Fosse vc um pouco menos (licença) viperino, seu lamento teria me despertado simpatia, pelo candor, em vez de irritação (pelo despropósito). Até pq esse dissabor conheço bem, nisso vc tb tem razão. O anonimato facilita, pelo menos, confissões patéticas como essa. Invejo de verdade sua coragem de fazê-las com nome, endereço, CPF e quatro livros pra mostrar. Aliás, como eu disse, eles não fazem vergonha. Não duvido, mesmo, q vc ainda escreva algo realmente bom (vê a evolução do Bernardo Carvalho, p ex). Boa sorte.

  • Sérgio Rodrigues 11/02/2007 at 15:25

    É claro que os meus livros não fazem vergonha, intrépido simancol. Você faz, insistindo em se esconder mesmo quando lhe cutucam a moita. A internet é assim, eu sei. Faço votos sinceros de que a imprensa tenha motivos para ser menos indiferente ao seu próximo livro, se próximo houver. Aí quem sabe você descubra o óbvio, que a atenção da crítica, por maior que seja, nunca parece suficiente para autor nenhum. Não há coragem especial em admitir isso, apenas uma honestidade intelectual básica, coisa que sempre tentei ter neste blog. Mas reconheço que talvez seja meio difícil para você entender.

  • Saint-Clair Stockler 11/02/2007 at 16:45

    Entusiasmado,

    quando a ironia é vazia e feita pra “tentar” ofender, prefiro ignorar (na verdade, nem estaria cantando essa lebre aqui se você não tivesse feito questão de apontar o dedinho para si mesmo dizendo: OLHEM COMO SOU IRÔNICO!). O que você escreveu pra mim, tirando a ironia, é o que eu sou. E tenho orgulho disso. Pra você não perder o seu tempo: sou 110% impermeável às ofensas. Você pode continuar tentando, mas provavelmente vai se cansar. Sou bem pouco inseguro em termos da minha formação literária/profissional, portanto sua ironia ou seu veneno não tem efeito nenhum, fora me fazer ficar dando risadinhas. Não tenho nem falsa nem verdadeira modéstia. Além de possuir, aqui neste mundinho virtual tantas vezes tão medíocre quanto o real, uma qualidade rara: boto meu VERDADEIRO nome nas coisas que escrevo. Acho muito covarde e vergonhoso alguém assinar com pseudônimo. Homem que é homem, quando quer atacar alguém, assina com seu verdadeiro nome e sobrenome. Depois aguenta as consequências. Acho que você não me conhece, certo (embora seja sempre possível que você também faça parte da Uerj, o que não me surpreenderia)? Não sabe quem eu sou, não sabe dos meus dotes intelectuais e acadêmicos. Não sou salvador de Literatura nenhuma (aliás, uma Literatura que precisa de salvadores é merecedora de desaparecer sem lamentos), sou só uma leve aragem que pretende tirar o cheiro de mofo de mentezinhas como a sua (Au revoir século XIX! Bienvenu, século XXI!) Tenho certeza que você escreve aí detrás do seu monitor com a inabalável certeza de que é assim uma espécie de “Machado redivivo”, com sua penetrante ironia, o que pra mim está muito bem. Quanto a mim, não sou nada além de Saint-Clair Stockler. O que já me basta. As palavras de Jesus “a quem muito é dado, muito será cobrado” se aplicam perfeitamente a minha pessoa: como sou dos poucos a botar a minha cara e minha bunda na janela por aqui, sem nenhum medo (que medo eu teria? De quando meu livro sair o Sérgio Rodrigues escrever uma nota dizendo que ele é uma merda? Dos meus queridos Clarice e Tibor não gostarem? Se as pessoas não gostaram do Proust quando ele lançou sua magnífica catedral literária, quem sou eu pra pretender que algum dos sábios aqui presentes goste do “Dias estranhos”? Posso só torcer para isso, jamais pretender), sou dos que mais levam bordoadas. Pois está muito bem. Quanto a mim, seguirei sendo o Saint-Clair que sempre fui. Com ou sem o vosso beneplácito.

  • Saint-Clair Stockler 11/02/2007 at 16:49

    “alguns dos sábios gosteM”. Sorry.

  • mr. simancol 11/02/2007 at 19:32

    “mesmo quando lhe cutucam a moita” – venenoso… Cândido SR: minha autocrítica, pelo menos, está feita. Por outro lado, seu nojinho juvenil (“reconheço que talvez seja meio difícil para você entender”), já me parece um certo exagero. Não me utilizei do anonimato para difamação, calúnia, agressão gratuita. No meu comentário procurei explicar, rapidamente, pq sua obra é medíocre, e seu chororô pouco justificado. Poderia ter me estendido um pouco mais, se o tema não fosse tão desinteressante. Até meu nickzinho de ocasião rende mais assunto (aliás, se aqui a procedência é anônima, seu blog está coalhado de espetadinhas de destinação apenas semi-conhecida; porque não nomeá-las? coragem! honestidade!). No mais, já sabemos que vc é um exímio podador de autocrítica, e gosta de cutucar moitas… Chato é que a colheita mesmo seja tão mais ou menos (qto aos motivos da imprensa, aliás, seu caso me parece mto ilustrativo).

  • Sérgio Rodrigues 11/02/2007 at 20:22

    Tá legal, destemido simancol. O venenoso sou eu, o medíocre sou eu. Você é o gênio injustiçado, está se vendo. Tenha muito sucesso na vida, rapaz, mas se quiser discutir literatura como gente grande, que é o que importa neste espaço, experimente engolir seu ressentimento com o sucesso alheio e ser homem. Com poltrão sem nome a conversa acaba aqui.

  • mr. simancol faz jus ao nome 12/02/2007 at 09:22

    SR: incompreendido, talvez um pouco. Gênio, com certeza não. Minha intervenção aqui foi errada e motivada por sentimentos péssimos. Tenho até simpatia pelas idéias ‘pós-modernas’ q vc postula aqui e comentou no Globo. Como iniciei as agressões, penso que cabe a mim interrompê-las. Por isso não respondo às suas testosterônicas invectivas. Assumo o erro e me desculpo. shalom

  • João Viana 12/02/2007 at 15:09

    Tá na moda um crítico escrever uma resenha para responder outro resenhista. Chega! Leiam e analisem os livros, critiquem, opinem, mas não tentem enquadrar toda obra num cercadinho de preferências literárias. Digo isso à guisa desse post do Sérgio sobre humor na literatura. Vai dizer agora que todo livro tem que ter humor? Ah, não limitem a arte, não dêem bula para a literatura.

  • Simone 12/02/2007 at 23:46

    E ainda tem o reverso da moeda: quando se coloca humor negro ou ironia num texto aparentemente sério, mas as pessoas não captam e o aplaudem pela seriedade!

  • cecilia 13/02/2007 at 15:06

    Clap clap de pé também pela menção ao artigo no blog, e pelo seu “Já um autor soturno, mesmo que junte sujeito e predicado com durex, tem meio caminho andado para a glória.”…

    Como diria o Seymour ao Buddy, “faça as pazes com seu senso de humor” é o lema, (mas parece que leitor só leva a sério a total e irrestrita falta de humor).

  • Clarice 19/02/2007 at 19:10

    Mr. Simancol!!!!!
    Você acabou de me convencer que devo comprar urgente o livro do Sérgio.
    Estou até envergonhada de não o ter ainda.
    Eu vou correndo para a livraria agora.
    Se é capaz de inspirar tanto rancor em alguém a ponto de este alguém fazer o que você fez, inclusive dissimuladamente sugerindo que o Sérgio é mau caráter é por que deve ser muito bom.
    Leve a mal não Mr. Simancol mas eu tenho a impressão que você é ex-namorada com raiva.
    A sua última intenção é em relação à obra do Sérgio. Isto é coisa pessoal.
    Não confunda e vê se leia o livro para avaliar.
    Mas com isenção. Esquece que está com saudade dele.
    Agora eu nem sei o que faço.
    Se compro o livro ou se mando um e-mail para o Sérgio com fotografia e currículo.
    Além disso você fez propaganda do homem.
    Bôba. Assim você perde mais ainda ele. Tolinha. Vai chuver mulher na horta e ele vai te esquecer completamente.
    Tá vendo? Pense antes de se vingar.
    Poxa Sérgio! Dá um telefonema para a moça.
    São só 7 números. Aproveita que hoje é feriado e sai mais barato.

  • marcos 23/02/2007 at 11:20

    oi pessoal tu blz

  • marcos 23/02/2007 at 11:22

    ……… uauauauaua

  • marcos 23/02/2007 at 11:25

    oi cecilia como vai tbem com vc quatanto anos vc tem em vc tem msn ce tem me passa ta . bjuuuuuuuuuuuuu

  • mariellen thais 25/03/2007 at 19:37

    meus parabéns pelo filme e pelos atores james!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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