O monstro Banville contra o médico Black

29/07/2008

Esta reportagem (em inglês, acesso gratuito) do “Washington Post” de ontem sobre o médico e o monstro que habitam o premiado escritor irlandês John Banville, 62 anos, pode ser lida como pura diversão. Como nunca foi segredo, mas permanece pitoresco, o autor de “O mar” (Nova Fronteira, 2007, tradução de Maria Helena Rouanet), vencedor do Booker 2005, tem duas personalidades literárias. Uma é o próprio Banville, um escritor perfeccionista, angustiado, ambicioso, torturado, um tanto esnobe e, com exceção de “O mar”, pouco lido. A outra é mais recente e atende pelo nome de Benjamin Black, um autor assumidamente comercial, que já está em seu terceiro romance policial – nenhum deles traduzido no Brasil por enquanto.

Não chega a ser tão surpreendente que, para Banville, o monstro seja o primeiro, que leva cinco anos para terminar um livro, e o médico o segundo, que o faz em cinco meses. “Tenho orgulho dos livros de Benjamin Black da mesma forma que um marceneiro tem orgulho de uma mesa bem feita”, diz. “Já os livros de John Banville eu abomino, desprezo e odeio. São uma afronta para mim.” Um leitor mais cínico poderia definir assim as duas personalidades de Banville: um autor de gênero e um autor que faz gênero. Mas tudo isso ainda é diversão.

A segunda forma de ler o artigo toca de leve em algumas questões mais sérias sobre o eterno conflito entre “alta cultura” e “cultura de massa”. E aponta para uma superação dessa divisão esquizofrênica, que já há algum tempo, a meu ver, se sustenta mais em acordos tácitos de reserva de mercado do que em pressupostos propriamente artísticos. Não diria que é o caso aqui – nunca li Black, e acho Banville um escritor interessante – mas não faltam exemplos de autores ditos comerciais que dão olé artístico em seus colegas de nariz em pé. Que, no entanto, continuam de nariz em pé. É engraçado.

Banville sugere ao “Washington Post” que os dois escritores estão se aproximando, um aprendendo truques com o outro. Talvez se encontrem no meio do caminho um dia. Um final que eu chamaria de feliz.

29 Comments

  • Isabel Pinheiro 29/07/2008 at 16:11

    Nunca li Banville, mas já gostei dele. Admiro a capacidade que alguns artistas têm de criar para si outras personas. Como o Bustos Domecq de Borges e Bioy Casares que, talvez não por acaso, também enveredou pela seara policial (médio policial, vá lá). Será que é pra isso que servem os alter egos? Pra dar vazão a um gênero que muitos consideram menor? :-) (Eu adoro.)

  • Florduardo Cordisburguês 29/07/2008 at 16:21

    “não faltam exemplos de autores ditos comerciais que dão olé artístico em seus colegas de nariz em pé”

    Não faltam? Cite dez, então, por favor. Gostaria muito de lê-los.

  • Rafael 29/07/2008 at 16:24

    O nosso Aluísio de Azevedo, que a escola, nas aborrecidas aulas de literatura, faz questão que seja odiado, fez coisa muito semelhante, no Século XIX. Havia o Aluísio de Azevedo de elevadas pretensões artísticas, o autor que, filiando-se à escola de Zola e Eça, inaugurou o Naturalismo no Brasil, com romances como “O Mulato” e “O Cortiço”, e o autor folhestinesco, descaradamente comercial, que ganhava dinheiro publicando, sob pseudônimos, obras romanescas e sentimentais como “Uma Lágrima de Mulher”.

  • Sérgio Rodrigues 29/07/2008 at 16:43

    De que adianta, Florduardo? Se até hoje você não conhece nenhum deles, não os entenderia mesmo.

    Recomendo, em todo caso, procurar um post aqui embaixo sobre algo que disse Tom Stoppard na Flip: “Não damos prêmios para intenção, mas para realização”. É por aí.

  • Sérgio Rodrigues 29/07/2008 at 17:08

    Está bem, Florduardo. Para não parecer que fui pouco generoso cito um: Guilherme Shakespeare. Recomendo, viu? Escrevia peças para lotar o teatro, mas tinha talento. Se gostar, volte que eu sugiro outro.

  • Murilo Gabrielli 29/07/2008 at 17:19

    Sergio,
    não achei bilhante nenhuma dsa duas personas. Black é um tanto mais interessante, mais vivaz e menos, como vc mesmo definiu, pedante.

  • El Torero 29/07/2008 at 17:33

    Mas Banville é pedante mesmo!? Ou é apenas um modo de realçar oque separa os ‘alter egos’? O autor comercial seria o mais simpatico, camarada. O outro o intelectual de nariz em pé.

  • Sérgio Rodrigues 29/07/2008 at 17:41

    Murilo: gosto de Banville. Li “O livro das provas” e “O mar”, e mesmo sem me apaixonar por nenhum deles, admiro sua prosa supertrabalhada, beirando a poesia. Não o chamei de pedande, embora ele talvez o seja, porque acho a palavra meio forte para quem tem talento de verdade. Um tanto esnobe, sim.

    El Torero: Banville já era assim antes de Black nascer, não se trata de realçar as diferenças. Acho que seria mais correto dizer que Black nasceu para que o cara tirasse umas férias de si mesmo. Nem ele agüentava mais.

    Abraços.

  • Saint-Clair Stockler 29/07/2008 at 18:45

    Florduardo,

    Não vou citar 10 porque estou com preguiça. Vou citar só um caso: Neil Gaiman é muito superior ao pretensioso José Sarney.

    Serve esse exemplo?

  • Hiago R.R. de Queirós 29/07/2008 at 19:35

    Entre todos, gostei do “O mar” embora o das provas seja bonzinho também… gostei da ironia, mas a excentricidade (do significado de se desviar do central objetivo) de demorar cinco anos para escrever um livro chega até me dar nó no estômago.. tá parecendo o Hotel da Miséria Humana (demorei 7 anos para escrever) que fica intalado e nunca desce… ou sai para fora de vez.

  • Sérgio Karam 29/07/2008 at 20:49

    Vou ser legal com o “Florduardo” (puta nome, hein, meu?) e vou sugerir o Raymond Chandler, que, aliás, também se debatia um pouco (bastante, eu acho) com essas questões de “alta literatura” versus “literatura comercial”, e no entanto escreveu um livro como O LONGO ADEUS que é absolutamente do caralho!!! Abraços.

  • Sérgio Karam 29/07/2008 at 20:53

    Meio fora de propósito, mas vá lá: o Hiago falou no seu Hotel da Miséria Humana e eu me lembrei do VIDA: MODO DE USAR, do Georges Perec, editado no Brasil pela “Ophicina Typographica” e esgotado há anos. Alguém aí tem uma cópia pra me vender?

  • Sérgio Rodrigues 29/07/2008 at 21:01

    Xará, ia te sugerir a Estante Virtual, mas só tem num sebo de SC e estão pedindo 180 reais. Assim, nem com autógrafo do homem. Olha só:

    http://www.estantevirtual.com.br/mod_perl/busca.cgi?pchave=Vida%2C+modo+de+usar&tipo=simples&estante=%28todas+estantes%29&alvo=titulo

    Na Amazon, você encontra em francês por cinco dólares.

  • El Torero 29/07/2008 at 21:09

    ‘Flodoardo’ é uma música do “Expresso Rural”, uma banda dos anos 80 aqui de Santa Catarina.
    “Hey Flodoardo êta sapinho fissurado
    Hey Flodoardo êta sapinho sem vergonha.”

    Sergio obrigado pelo toque, abraço.

  • Sérgio Rodrigues 29/07/2008 at 21:14

    Como é que é, El Torero? “Eta sapinho fissurado”??? Você não está inventando isso não?

  • Sérgio Karam 29/07/2008 at 23:09

    Sérgio: gracias pela dica. Realmente, 180 paus é demais. Será que a Cia. não tá pensando em reeditar o livro?

  • Hermann K. 30/07/2008 at 01:17

    “Florduardo” também é o nome do pai do Guimarães Rosa, cambada de analfabetos!

    Ei, Sérgio “bigodinho” Rodrigues… Shakespeare é o exemplo que você dá? Quero ver de contemporâneos. Declarações como esta sua de que “não faltam exemplos blá blá blá” são pura desonestidade intelectual. Faltam exemplos, sim. Ou você os daria.

    E o outro pateta fala em Raimundo Chandler (ou Fagner?)! Vivinho da silva, claro, triunfando sobre os “colegas de nariz em pé”. Aliás, outra fórmula cheia de desonestidade intelectual. Quem o crítico tem em mente? “Não faltam exemplos” também? E mais outro pateta (ou o mesmo?) acha que escritor de nariz em pé é José Sarney! Eta vida!

    Queria honestamente entender contra quais fantasmas vocês estão se batendo – e quais fantasmas estão defendendo. Aliás, quanto a estes, tenho um palpite. O crítico está defendendo seus próprios livros, que ele imagina “comerciais”. Mas se fossem mesmo venderiam alguma coisa.

    E todos sonhando em ser publicados pela Oficina Typographica! Vocês me dariam tédio, se o espetáculo de patetice coletiva não fosse tão engraçado.

  • Entediado 30/07/2008 at 09:24

    Fernando Vallejo fazendo escola… (bocejos)

  • Sérgio Rodrigues 30/07/2008 at 09:49

    Hermann K.:

    Eu não deveria responder a você, um escritor que não assina o nome e vem falar em desonestidade intelectual. Toda a ética da web diz que eu não deveria, só tenho a perder. Se você quisesse um debate, teria dignidade, hombridade, mostraria a cara. Talvez ache essas coisas fora de moda.

    Se mesmo assim respondo é porque seu assédio ao meu blog, que parece lhe causar grande preocupação, está começando a ficar ridículo. Dá pena, Florduardo. Quem sabe se, ao tratá-lo como uma pessoa digna de resposta em vez de um bufão internético, eu o ajudo a me tirar dos seus pesadelos?

    Shakespeare foi uma piada com sua cara mutante. Quer mesmo exemplos atuais? Não consegue descobrir sozinho? Hoje estou generoso, vamos lá.

    Elmore Leonard é o melhor autor de diálogos da literatura americana. Até Philip Roth teria uma ou duas coisas a aprender com ele nesse departamento.

    John Le Carré escreveu o livro que, daqui a duzentos anos, todo mundo será obrigado a ler para entender o mundo que criou o Muro de Berlim.

    Luis Fernando Verissimo entende mais de tensão narrativa, para não mencionar a precisão vocabular, do que toda a soma da Mercearia – ou do Belmonte do Leblon, não sejamos bairristas.

    Pois é, Milnomes. A verdade que você acha tão dolorosa é dura mesmo: a “experimentação” é freqüentemente – não sempre – um disfarce para a insuficiência técnica, a incompetência. Se a carapuça serviu, console-se escolhendo o tamanho da fração de contemporâneos que quiser para ilustrar o que, em terras intelectualmente mais lúcidas, é hoje um truísmo, um pressuposto banal. E a gente aqui, perdendo tempo com a discussão do óbvio.

    Só não entendo uma coisa, Hermann, Sicofanta, Eunuco ou que nome tenha hoje: por que esse desespero? Que tipo de ameaça você vê aqui? Julga-se talvez o grande representante da “alta cultura” sitiado pelas hordas do middlebrow? Não seja ridículo. E, se quiser continuar essa conversa, não seja covarde, assine seu nome. Como na capa do livro.

  • Ernani Ssó 30/07/2008 at 09:53

    Grahan Greene dizia escrever livros sérios e de entretenimento. Eu, que o reli muito, nunca consegui descobrir quais eram os sérios e quais os de entretenimento, mesmo quando vinha o aviso na contra-capa. Mas confesso: sou meio pateta em matéria de seriedade.

  • Sérgio Karam 30/07/2008 at 10:04

    Nada me obriga a ser tão civilizado quanto o dono do blog, que deu uma resposta perfeita ao tal do “Hermann K.” (ou que outro nome tenha). Então, no que me diz respeito, seu Hermann, “pateta” é você, que fica aí se escondendo atrás de mil apelidos e dando uma de bacana pra cima da gente. Vai te tratar, meu chapa!

  • Hiago R.R. de Queirós 30/07/2008 at 12:07

    Olá prezado Sérgio Karan…
    eu tinha VIDA: MODO DE USAR, mas troquei ele por um livro de coleções das poesias do Edgar allan poe.. mas tenho o contacto do cara que eu troquei… se quiser, posso falar com ele…

  • quemvem 30/07/2008 at 14:56

    Isso é bem normal. Aqui no blog, por exemplo, temos o Sérgio monstro e o médico Rodrigues, não é não?

  • Rafael 30/07/2008 at 15:18

    Bem lembrado! O escocês Robert Louis Stevenson foi um ato de descarado apelo comercial, e mesmo assim um grande escritor.

  • Rafael 30/07/2008 at 15:18

    Autor, digo e corrijo.

  • Isabel Pinheiro 30/07/2008 at 19:25

    Gente! O Florduardo é da turma da Mercaria? Acho que eu tenho um palpite…
    Sérgio K., por favor, me mande seu endereço de email (contato no meu blog) e cruze os dedos. Eu ACHO que deixei uma prova do Perec na casa da minha mãe. Ganhei de um antigo colega e confesso que, na época, a leitura não foi pra frente. Se estiver lá, vou ficar feliz em cedê-lo. Abraço

  • Sérgio Rodrigues 31/07/2008 at 09:41

    Ué, cadê o Flor? Ah, voltou correndo pra toca. Até reaparecer outro dia, valente outra vez, com outro nome. O mais triste disso tudo é pensar que a internet pode ser – e é, para muita gente – um lugar inigualável para discutir, quebrar o pau numa boa, tocar em frente esse barcão. Pena.

  • Lirian de castro 21/10/2009 at 00:29

    vcs sao todos burros se eu fosse depender de todos vcs eu iria ser aprimeira burra de todo o universo vamos respeitar né
    kkkkkk

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