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O Nobel de Le Clézio e a regra idealista

09/10/2008

Se a notícia do Nobel de Literatura é recebida com certa frieza no Brasil, onde pouca gente leu o francês J-M. G. Le Clézio, 68 anos, a culpa desta vez não pode ser atribuída às editoras. A Brasiliense foi a pioneira, lançando “À procura do ouro” e o clássico “Deserto” – seu livro mais premiado. Depois vieram a Companhia das Letras, com “O peixe dourado” e “A quarentena”, e a Cosac Naify, com “O africano”. Revelado em 1963 com narrativas de caráter experimental, identificadas com a rebeldia intelectual da década, Le Clézio caminhou progressivamente nos anos seguintes para um terreno mais clássico, mas sempre teve seu nome associado a uma literatura refinada. O que, com alguma boa vontade, talvez ajude a entender o elogio desajeitado que lhe fez a Academia Sueca – “um explorador da humanidade além e abaixo da civilização atual”.

Uma pesquisa feita em 1994 pela revista “Lire” revelou que 13% dos leitores franceses o consideravam o melhor escritor vivo da língua. Ou seja: Jean-Marie Gustave Le Clézio é um escritor de verdade, “além e abaixo” (como diria o Nobel) de qualquer dúvida. Se você nunca o leu, problema seu. É o meu caso. Quem tiver algum tipo de experiência de leitura do homem está convidado a compartilhá-la na caixa de comentários abaixo – como, antecipando-se, já fez o Thiago Maia no post anterior.

Minha contribuição neste momento fica restrita a uma observação de fundo: a Academia Sueca, que sempre se pautou mais do que deveria por questões politicamente corretas, parece estar desenhando um padrão claro. A britânica Doris Lessing, premiada ano passado, é uma cidadã do mundo que nasceu na antiga Pérsia, hoje Irã, e escreveu sobre a África, onde viveu. Os antepassados de Le Clézio se mudaram no século 18 para a ilha Maurício, o que o levou a nascer em Nice por acaso – conseqüência do caos da Segunda Guerra. Grande viajante, João Maria Gustavo é outro autor que poderia tranqüilamente ser definido como (perdoem o palavrão) transculturalista. Talvez por isso o nome dele constasse de todas as listas de favoritos este ano.

Em outras palavras: ter um olhar europeu (americano não, argh, por favor!) é ótimo; levá-lo a passear compreensivamente por recantos menos afortunados do mundo, melhor ainda. Se essa mensagem política soa deslocada numa disputa que deveria ser estritamente literária, convém não esquecer que o próprio regulamento do prêmio o encaminha ao “trabalho mais destacado entre os de tendência idealista”. O que comporta exceções, felizmente: como observou alguém no blog do “Guardian”, Ernest Hemingway e Samuel Beckett jamais teriam ganhado por esse critério. Mas, oscilações à parte, a regra continua de pé.

13 Comentários

  • Drex Alvarez 09/10/2008em10:21

    Nunca li nem ouvi falar, infelizmente.

    E, se não sou um profissional das Letras, me considero um interessado em Literatura. Sou um bom leitor, um consumidor costumaz de cadernos culturais e revistas, além de frequentador internético desde sempre.

    Culpa minha então, ou esta terra brasilis é mesmo uma ilha?

  • Raul 09/10/2008em12:16

    Nunca li nada dele. Mas, há algum tempo, li uma crítica do Rodrigo Gurgel sobre o livro O Africano, no Rascunho. Segue o link:

    http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=25&lista=0&subsecao=0&ordem=1777

    Precisa dizer que não deu muita vontade nem de ler o livro nem de conhecer o autor?

  • Paulo 09/10/2008em13:18

    Sérgio, creio que o resultado deste ano confirma mais uma vez a orientação política do prêmio. Mas, como você notou, o laureado pelo menos é um escritor de verdade.

    E tem um ponto importante aí, acho: a escolha de um escritor aparentemente desconhecido não é uma oportunidade para que seja ampliado o alcance do literário entre nós? Sobretudo nós, brasileiros? Alguém aí acima falou em ilha?

    Não é uma chance de estendermos o olhar – nós e a mídia mainstream – para além do horizonte anglo-saxão?

    Abs

  • Paulo 09/10/2008em13:32

    O écrivain já se pronunciou sobre o prêmio:

    http://www.dailymotion.com/video/x70igg_jeanmarie-gustave-le-clezio_news

    Detalhe: não está fácil acessar a página. O Nobel é pop.

  • Paulo 09/10/2008em14:45

    Sérgio, desculpe mais um post, mas discutindo ainda o aspecto político do Nobel, gostaria de compartilhar o que acaba de escrever o New York Times sobre a vitória de Jean-Marie Gustave Le Clézio:

    “O secretário da academia sueca Horace Engdahl disse recentemente que a Europa era ‘ o centro do mundo literário’, e sugeriu que escritores americanos são por demais insulares e muito influenciados pela cultura popular americana para vencerem.”

    Matéria completa aqui:

    http://www.nytimes.com/2008/10/10/books/10nobel.html?_r=2&hp&oref=slogin&oref=slogin

  • chato 09/10/2008em15:28

    Pelo que entendi do texto do NY Times, esse Mr. Creysson aí foi laureado pela Academia Sueca a partir de critérios antropológicos ou sociológicos, e não estéticos. Pelo jeito, mais e mais o Nobel vem perdendo o seu status de referência cultural, ao menos no que tange à arte literária. Siga as suas indicações e poderá encontrar bons trabalhos politicamente corretos, de gente muito viajada e sensível. Mas um Kafka, por exemplo, nunca estaria nesse rol de simpáticas exotiquices.

  • Saint-Clair Stockler 09/10/2008em17:48

    Ih, o Paulo Coelho ficou puto com o(s) ministro(s) da cultura:

    http://colunas.g1.com.br/paulocoelho/2008/10/09/a-deselegancia-do-ministro-da-cultura/

    Pior que acho que ele tem razão – mó falta de respeito com ele. Querendo ou não, ele é o nosso escritor mais famoso e o que vende mais no mundo to-di-nho…

  • Fernando Torres 10/10/2008em09:05

    A busca da intelectualidade americana é a aprovação do velho continente. A distancia do nobel os têm corroído. Não que nós tupiniquins e piratiningas somos diferentes.

    Saint-Clair – Deixa eu ver se eu entendi a notícia. O Paulo Coelho convidou i Ministro, que era o Gil. O Gil deixou de ser ministro, mas vai de qualquer jeito. O novo ministro, que não é o Gil, disse que não vai e inventou uma desculpa esfarrapada. Mesmo assim o Gil vai estar lá. Ai ai ai…. nós Tupiniquins e Piratiningas em busca de aprovação de todos…

  • Sérgio Rodrigues 10/10/2008em10:10

    Paulo, obrigado pelos links. Concordo que é uma oportunidade de tornar o autor mais conhecido no Brasil, embora eu duvide da eficiência do Nobel para esse tipo de divulgação. Mas ajuda um pouco, claro.

    Quanto ao NYT, Paulo e Chato, não é a fonte mais equilibrada neste momento para fazer uma avaliação dos méritos de Le Clézio. A imprensa americana está em guerra com a Academia depois daquelas declarações idiotas do sueco lá. Tem toda a razão de estar em guerra, aliás. Mas isso contamina qualquer análise neste momento.

    Todo prêmio artístico é meio arbitrário e o Nobel, especialmente, sempre teve vocação para a bobagem. O deste ano me pareceu sensato. Tem um enorme componente político, evidentemente, e isso é chato. Mas Le Clézio é um escritor que existe, tem leitores, o que não é pouco. Os anos de prêmio para poetas dialetais da Islândia são mais chatos.

    Engraçado, depois do Thiago no outro post, ninguém apareceu aqui para defender a literatura de Le Clézio. Parece que o desconhecimento é maior do que eu imaginava.

    Abraços a todos.

  • Sérgio Rodrigues 10/10/2008em10:15

    Eis o teste definitivo: se nem a Isabel Pinheiro leu, é grave.

    Leu, Isabel?

  • Rodolfo 10/10/2008em10:59

    Pois é. Como costumo fazer sempre que me aparece um nome novo, fui à biblioteca pegar um livro do cara. No momento, leio Les Géants, mas no original. Não havia traduções disponíveis (apenas dois registros de que elas deveriam estar lá). Agora é esperar que, como de costume, as editoras nacionais reeditem os livros que já foram lançados (e os inéditos) por aqui.

    Pensado bem, até prefiro quando o Nobel premia um desconhecido (ou pelo menos alguém que eu desconheça). De forma bem pragmática e egoísta, é para isso que esses prêmios me (nos?) servem.

  • Eric Novello 10/10/2008em11:48

    Assim que alguém ler, me conte.
    De nobelizados aconselho Heinrich Böll.

  • Isabel Pinheiro 12/10/2008em22:02

    Devo responder, mesmo roxa de vergonha? Não li…