O paradoxo do moleque no país do futebol

12/06/2013

Pelé apronta uma molecagem histórica com o goleiro uruguaio Mazurkiewicz na Copa de 1970

Molecagem baiana. Capoeiragem pernambucana. Malandragem carioca. “Com esses resíduos”, escreveu o sociólogo Gilberto Freyre, autor de “Casa grande & senzala”, obra clássica sobre a formação da sociedade brasileira, “é que o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado original britânico para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é.” Atenção: o autor pernambucano não estava embriagado pelos vapores de uma grande vitória esportiva quando escreveu isso. O texto é de 1947. Além de ostentar como maior feito internacional um terceiro lugar na Copa do Mundo da França, em 1938, a seleção – algo que hoje parece mais grave – ainda envergava como uniforme uma camisa branca. Ou seja, o “país do futebol” ainda não o era.

Hoje, depois de cinco títulos mundiais e da introdução da camisa amarela como um dos mais poderosos ícones da mitologia esportiva em todos os tempos, o problema é outro. Comenta-se pelas esquinas que o “país do futebol” já era. Será? A possibilidade não deve ser descartada. Dentro e fora do esporte, os destroços de potências decaídas entulham a história. Mas é curioso observar como a velha retórica otimista do sociólogo, com suas “surpresas irracionais” e “variações dionisíacas” (uma referência a Dionísio, deus grego da festa e do prazer), ainda descreve com perfeição o futebol de um garoto paulista nascido há 21 anos em Mogi das Cruzes.

Neymar, criticado com razão por não ter mostrado até hoje na seleção as qualidades exibidas no Santos, terá na Copa das Confederações mais uma chance de queimar a língua de seus detratores. Impossível, claro, prever se fará isso. De uma forma ou de outra, percebe-se ao ler a louvação de Freyre à “molecagem” – publicada como prefácio à primeira edição do livro “O negro no futebol brasileiro”, do jornalista Mario Filho, hoje mais conhecido como o homem que deu nome ao Maracanã – que Neymar se mantém fiel às características que, para começo de conversa, conquistaram para o Brasil o direito ao título “país do futebol”.

Pode-se argumentar que slogans são coisas vazias. Seria mesmo burrice ignorar o cheiro de ufanismo, esse arraigado vício nacional, que exala do bordão. Burrice ainda maior seria negar os fatos que lhe deram origem. A sequência de triunfos enfileirada pela seleção brasileira entre as Copas de 1958 e 1970 (com 1966 como falha grotesca num sorriso cintilante) ocorreu na hora certa, quando o futebol se consolidava como mania global, via televisão. Tal conjuntura ajudou Pelé a se tornar o maior ídolo esportivo da história e deu ao “escrete canarinho” dos locutores do rádio um significado que ultrapassava o campo de jogo.

“Quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?”, escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm em seu clássico “Era dos extremos: o breve século XX”. O estilo peculiar daqueles homens de amarelo ficou conhecido em inglês como beautiful game (jogo bonito) e transformou a seleção brasileira em benchmark inalcançável – até por ela mesma – de um futebol competitivo e, ao mesmo tempo, de alto nível estético. Com a possível exceção da música popular, nenhum outro produto cultural do país atingiu tal padrão de excelência no cenário internacional.

Desde 1970 passou-se quase meio século, mas fenômenos desse tipo não desbotam facilmente. Pelo contrário, tendem a pular fora do tempo, aspirando à eternidade dos mitos. O que pode ser cruel com o presente. Do passado de glórias da seleção brasileira, que até o início de junho amargava um inédito 19º lugar no ranking da Fifa [depois caiu para 22º], a equipe que disputará em casa a Copa das Confederações parece ter herdado apenas o peso de uma comparação que oprime em vez de inspirar. Os prognósticos da maior parte da imprensa esportiva só não são mais sombrios porque a Alemanha – seleção que o ex-craque e atual deputado Romário, concordando com muita gente, elegeu como favorita para a Copa de 2014 – não disputará o ensaio geral. No entanto, Espanha, Itália, Uruguai e México parecem ter força de sobra para estragar a festa dos anfitriões.

Talvez estraguem mesmo. Além dos resultados pífios colhidos pela seleção nos últimos anos, os ventos de baixa auto-estima que varrem o país são movidos pela constatação de que, da Confederação Brasileira de Futebol ao mais modesto clube do interior, toda a infra-estrutura do futebol brasileiro precisa se modernizar, abandonando esquemas carcomidos por clientelismo, corrupção e incompetência administrativa. Algo, aliás, que pode ser dito sobre o Brasil como um todo. “Quando se alterna na televisão os jogos das grandes ligas europeias e do Brasileirão”, escreveu recentemente o cronista musical Nelson Motta, “pela lentidão e violência, pelos gramados carecas, pela pobreza técnica e tática, pelas torcidas selvagens, os nossos parecem jogos da segunda divisão.”

Apesar de tudo isso, não tira a legitimidade das críticas reconhecer que elas sempre acompanharam a seleção. A equipe de 1970, hoje alçada ao Olimpo de melhor da história, foi cruelmente vaiada no Maracanã ao derrotar a Áustria por 1 a 0 na última partida antes do embarque para o México. “Um escrete é feito pelo povo”, escreveu o cronista Nelson Rodrigues. “E como o povo o fez? Com vaias. Nunca houve na Terra uma seleção tão humilhada e tão ofendida.” Em 1958, antes da partida contra a URSS, era comum ver nossa derrota dada como certa diante do “futebol científico dos russos” – uma provável influência do lançamento, um ano antes, do satélite artificial Sputnik, façanha tecnológica inédita. Depois que o Brasil venceu por 2 a 0 com um show extraterrestre de Garrincha, a depressão virou euforia.

Surtos semelhantes de bipolaridade podem ser encontrados em vários momentos da história. O mesmo Nelson Rodrigues que, às vésperas da Copa de 1958, dizia que para triunfar a seleção precisaria superar nosso “complexo de vira-latas”, registrava após o título que “o triunfo embelezou-nos. Na pior das hipóteses, somos uns ex-buchos”. A ciclotimia brasileira não se restringe ao futebol, mas encontra nele uma poderosa caixa de ressonância, encenando no plano esportivo a alegoria de um país que tem confiança ilimitada em seus recursos naturais e talentos humanos, mas vê com frequência essas potencialidades serem derrotadas por mazelas ligadas ao baixo grau de desenvolvimento político, econômico, educacional e social.

Em seu livro “Veneno remédio: o futebol e o Brasil”, de 2008, o crítico cultural José Miguel Wisnik chama tal alternância de humor de “dispositivo doentio segundo o qual o país é ou receita de felicidade ou fracasso sem saída”. E a relaciona ao fato de brotarem no mesmo solo nossas qualidades e defeitos, “a informalidade e a impunidade, o carnaval e o favorecimento ilícito, o estilo versátil e a irresponsabilidade”. Nesse ponto podemos cunhar uma nova expressão e dizer que o futebol brasileiro vive preso – e não é de hoje – no “paradoxo do moleque”. Se vencemos, vencemos porque somos moleques (abusados, criativos, destemidos, originais). Se perdemos, perdemos porque somos moleques (irresponsáveis, indisciplinados, indolentes, sem fibra). A distância entre a soberba e o vira-latismo é tão curta que cabe na mesma palavra.

Se o moleque Neymar e seus companheiros conseguirem a façanha – e nenhum adversário seria tão idiota a ponto de considerá-la impossível – de virar o jogo mais uma vez, catapultando o paciente de uma depressão de dimensões continentais a uma euforia do mesmo tamanho, será importante ter em mente o paradoxo do moleque. Talvez acreditemos então que os problemas do futebol brasileiro estarão resolvidos. Não estarão.

*

Ensaio que publiquei no “Guia da Copa das Confederações”, edição especial de VEJA que está nas bancas e que pode ser baixada gratuitamente no tablet.

3 Comments

  • Papai Sabetudo 12/06/2013 at 22:46

    Até tu, ó Sergius? Eu pensava que ias falar de “os jogadores”? Como se explica uma “seleção” de um jogador? E esse mesmo não disse ainda ao que veio na Seleção, não se sabe se por timidez ou algo que não podemos divisar?

  • Andre Albuquerque 28/06/2013 at 05:40

    A mediocrização do futebol brasileiro , a meu ver, é a consequência inevitável do nascimento do futebol negócio, a partir dos meados dos anos 70 .Perder, antes de mais nada , tornou-se um péssimo negócio . Não é coincidência a evolução dos esquemas táticos de retranca,visando primeiro não perder( e depois ,bem se ganhar ótimo )paralelamente á expansão do futebol negócio,em escala globalizada.Futebol arte surge vez por outra em alguns lampejos de espontaneidade (naqueles realmente craques)o que prevalece é a determinação em antes de mais nada, não perder.

  • eduardo 18/07/2013 at 15:55

    no Brasiluu o jogo de equipe, a obediência ás regras e a organização da infraestrutura do jogo não valem nada !
    o que vale e é aplaudido é a “molecagem”, o drible que humilha o adversário, a falta “cavada” na área, o gol de mão desde que seja gol… esse é o “país do futebol” a “pátria de chuteiras” em que moramos !!!

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