O pensamento voa, as palavras andam

14/08/2008

Gosto de livros de citações. Seria cômodo dizer que minha eterna busca de frases espirituosas sobre o ato de escrever, provocada pela necessidade de renovar pelo menos uma vez por semana a epígrafe do Todoprosa, me levou a uma convivência íntima com eles. Mas é mais honesto reconhecer que não foi essa a ordem dos fatores.

Há um modo melhor e um modo pior de apreciar um livro desses. O pior é transformá-lo em algo próximo do vire-um-super-algo-em-dez-lições, um depósito de sabedoria concentrada que vai “direto ao ponto” – sendo o ponto, naturalmente, o aprendizado, o lucro ou a redenção do leitor. Para muita gente, não faz sentido ler coisa alguma se tal perspectiva contábil ou salvacionista não estiver no horizonte. E se os manuais de auto-ajuda são mais úteis pelo lado prático, coleções de frases gozam de boa reputação como instrumento aplicador de verniz e repositório de lições de moral. Provêm o cidadão de uma erudição de laboratório nada insatisfatória quando se sabe que a erudição propriamente dita dá um trabalho danado, além de poder tornar o sujeito um ermitão, um esquisito.

Já a maneira melhor de ler um livro desses é ver nele um jogo, um jogral em que idéias e modos de expressão conversam, concordando, se emendando, quebrando o pau, ao longo dos séculos:

“Ninguém que nunca saiu de seu país jamais escreveu algo digno de ser publicado. Nem mesmo nos jornais”, disse Ernest Hemingway em 1926. Logo seria desmentido por Nelson Rodrigues, que não arredava pé do Rio e se orgulhava disso: “Em Bangu eu já me sinto num exílio de Gonçalves Dias”.

Da Alemanha, em 1826, disse Goethe: “Aquele que não espera ter um milhão de leitores não deveria escrever uma linha”. Ao que respondeu o americano Gore Vidal, século e meio depois: “Idealmente o escritor só precisa ter como audiência os poucos que o entendem. É cobiça e falta de modéstia querer mais”.

E o que dizer da provocação feita pelo ensaísta escocês Thomas Carlyle em 1832, atirando na explosão do jornalismo e acertando bem na testa de nossos tempos digitais? “Considerando a multidão de mortais que manejam a pena nos dias de hoje, a maioria dos quais sabe soletrar e escrever sem violentar demais a gramática, a pergunta emerge naturalmente: como é possível, então, que nenhum trabalho provenha deles com um selo qualquer de autenticidade e permanência, capaz de durar mais que um dia?”

No fim das contas, esquadrinhar livros de citações em busca do que eles dizem sobre a literatura, sobre escrever, talvez seja mais do que uma obsessão pessoal. É possível que aí, no espelho da metalinguagem, resida a alma dessas obras.

Com prazer, em certa esquina do salão de espelhos reencontro uma boa tirada do escritor francês Julien Green (1900-1998): “O pensamento voa e as palavras andam a pé. Esse é todo o drama do escritor”.

Tem uma bela verdade nessa metáfora motora, não tem? A meu ver, tem um belo furo também: o tal descompasso de velocidades é o drama de quem escreve qualquer coisa, não propriamente do escritor. O escritor é um sujeito treinado para driblar esse problema. Donde se conclui que o fato de o pensamento ter asas e as palavras serem pedestres, longe de ser seu drama, é justamente seu ganha-pão.

22 Comments

  • Priscilla Fogiato 14/08/2008 at 11:49

    Esse é um dos posts mais legais que você já escreveu por aqui =)

  • Klaus Maia Schmaelter 14/08/2008 at 12:17

    Sérgio, que maravilha de post. Dá uma saudade quando acaba.
    Eu, particularmente, gosto de livros de frase para usar como o meu “Mananciais do Deserto” pagão. Uma frase por dia: pra inspirar, pra irritar, pra provocar, pra ignorar… Já faço isso com as tirinhas de Charles Schultz.
    E não resisto perguntar: mas que livro(s) é esse que você cita? Também quero.

    grande abraço

  • Pedro Lobato 14/08/2008 at 12:55

    Especialmente boa a citação e análise da frase do Julien Green… maravilha!

  • Sérgio Rodrigues 14/08/2008 at 14:04

    Pedro e Priscila, obrigado por darem prosseguimento ao jogral.

    Klaus, que andava sumido: tem uma prateleira inteira desses livros aqui. Muita redundância também, eles acabam se copiando. Duas recomendações: entre os estrangeiros, o International Thesaurus of Quotations; entre os brasileiros, o do Paulo Rónai editado pela Nova Fronteira, que foge um pouco à norma das frases lapidares e às vezes fica discursivo e chato, mas tem o mérito de dar um espaço que ninguém dá à literatura brasileira.

    Abraços.

  • Jonas 14/08/2008 at 14:17

    O recente livro organizado pelo Giannetti está bem interessante.

  • Peterso 14/08/2008 at 14:51

    Ainda não transitei muito em livros de citações (talvez alguns aforismos e frasezinhas de amor, quem sabe?), gostaria de fazê-lo mais. Acho que seu post me instigou mais um pouco a procurar esses livros.

    Ah, acho que menti aí em cima: Tenho “A Bíblia do Caos”, do Millôr (ed. antiga da L&PM) e já tirei diversas frases para artigos, dissertações, trabalhos universitários, cartões etc.

    Grande abraço!

  • Chato 14/08/2008 at 15:27

    É um ganha-pão dramático, deveras… donde se conclui que estão corretos o cronista e o escritor citado.

  • anrafel 14/08/2008 at 18:09

    “Lutar com palavras
    é a luta mais vã.
    Entanto lutamos
    mal rompe a manhã …”
    C.D.A.

    Pois é.

  • Deise Guelfi 14/08/2008 at 20:45

    Olá, Sérgio.
    Lindo. Também aprecio muito citações. É interessante meditar sobre cada frase e ver onde ela nos leva. Você divaga, divaga, divaga…

    Beijo, Sergio.

  • kylderi 14/08/2008 at 21:36

    Bem lembrada a frase de Nelson Rodrigues, aliás, um dos melhores frasistas brasileiros e, por que não, da literatura.
    Colocar pensamentos divergentes, como você pôs, recorda-nos que devemos pensar por nós mesmos.
    Sou grande admirador da estilística rodrigueana e, apesar de não concordar com seu posicionamento político, vem à mente que ele dizia ser a favor do teatro espírito, católico ou ateu, desde que fosse bem feito.

  • João Alcântara de Meireles 15/08/2008 at 00:08

    Quinto parágrafo, Goethe e Gore Vidal. Para quem não viu- Os Escritores, As Históricas Entrevistas da Paris Review, Jorge Luis Borges, pag 202. O escritor Argentino comenta a venda de 37 exemplares do seu livro de 1932- História da Eternidade-de forma peculiar.

  • João Alcântara de Meireles 15/08/2008 at 01:48

    E aí Sérgio. Consoante ao título do Post e ao último parágrafo, o que achas das experiencias do William Burroughs? Criador que questionou as palavras, adjetivando-as antiquadas; instrumentos precários e fator de desvio. E os seus “cutups” como processo psico- sensorial, acontecendo o tempo todo e de qualquer jeito, considerando-os movimento em direção à derrubada da construção aristotélica, tida pelo escritor americano, como uma das grandes algemas da civilização ocidental? O tambem escritorMarshallMc Luhan, dizia a seu respeito: “ele está tentando reproduzir em prosa aquilo que aceitamos todos os dias como sendo um lugar – comum da vida na era da eletricidade”. Será que o Burroughs deu “o drible” e chutou ao gol?.

  • Pandora 15/08/2008 at 08:53

    “Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos.”
    Supostamente de NELSON RODRIGUES, sempre exagerado.

    Sérgio, você merece uma releitura.

  • Claudia Freire 15/08/2008 at 09:13

    Caro Sérgio, embora alguns comentaristas deste belo post o endendam como novidade, faço o contrário: já o conhecia de NOMINIMO, quando era uma resenha crítica de um livro de citações, cujo nome não lembro agora (também o utilizei em aula sobre resenha crítica). Nesta versão, ele perde o ar de resenha, o título é outro e certas informações referentes a obras do gênero são subtraídas. Boa ressureeição!
    Um abraço

  • Claudia Freire 15/08/2008 at 09:20

    Se não me engano , vc apresentava justamente o livro de Paulo Rónai com a referida resenha, colocando-o como destaque no mundo meio repetitivo dos livros de citações. O tìtulo primeiro era “De citações…”?

  • Claudia Freire 15/08/2008 at 09:33

    Ou “Escrever é…”?

  • Ceó Pontual 15/08/2008 at 10:50

    Olá Sérgio, adorei seu post, que me foi indicado pela Pandora. Sou ilustrador e no meu blog eu ilustro citações de uma maneira bem livre.

    “A principal condição de quem escreve é não aborrecer.” Machado de Assis.

    Abs, Ceó Pontual

  • Klaus Maia Schmaelter 15/08/2008 at 14:00

    Muito obrigado pelas recomendações, Sérgio.
    Ando sumido dos comentários, é verdade, mas nunca sumo do blog. Estou sempre por aqui!

    Um grande abraço!

  • Sérgio Rodrigues 15/08/2008 at 16:53

    Cláudia, você acertou – na última tentativa – o nome da minha resenha neolítica de onde, digamos, desentranhei essa crônica. Espantosa sua memória, parabéns.

    Pandora: essa frase do Nelson que você cita é muito parecida, quase palavra por palavra, com uma do Borges. Poderia ser mais uma tabelinha para o post, mas dessa vez sem discordância.

    Valeu, Ceó, apareça mais vezes. Dei uma olhada no seu blog e gostei da idéia de ilustrar frases.

    Abraços a todos.

  • Cezar Santos 15/08/2008 at 17:52

    Acho que todo leitor é atraído por citações.
    Quando vejo uma vou direto. Acho que esperamos encontrar verdades profundas, e às vezes até as encotramos de fato, sobre a vida em geral ou sobre seu autor. Na maioria das vezes, porém, são apenas platitudes e meros joguinhos de palavras.

  • Luis 16/08/2008 at 20:16

    Sérgio,

    Como você, gosto muito desse tipo de livros. Segue uma que gosto bastante, também de Hemingway: “The most essential gift for a good writer is a built-in, shock-proof, shit detector. This is the writer’s radar, and all great writers have had it”. Abraços.

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