O poder da leitura

13/04/2009

Creio que pelo trechinho abaixo já dê para sentir a qualidade da resenha que o escritor Ernani Ssó publicou hoje sobre meu romance “Elza, a garota” em sua coluna no site gaúcho Coletiva.net. Quem acha que escritores valorizam elogios — mesmo ocos — acima de qualquer coisa não conhece o poder das leituras capazes de iluminar aspectos de um livro que se mantinham penumbrosos até para o autor:

Não há uma simetria de tipo matemático entre as duas partes. Isso poderia ser bonito, talvez prazeroso, certamente tranquilizador. O que há são sombras, sonhos, lacunas, mentiras e assombrações ligadas às vezes de modo imprevisto, ou desagradável. O que se pode dizer, por exemplo, sobre os conspiradores da Intentona assessorando a guerrilha pós-64 com a mesma competência política e militar demonstrada anteriormente? Ou o reflexo de Elza — uma boba alegre, no mínimo — sobre a cunhada adolescente de Molina? Ou os Rios de Janeiro: o de antes e o de agora? Não exatamente a cidade, mas o que foi feito dela, o que foi feito do mundo, o que foi feito de nós. Para os que suspiram aliviados porque os sonhos comunistas continuaram sonhos, o romance ergue esse Rio de Janeiro monstruoso que está bem aí, embaixo dos braços de Cristo, ou do olhar vazio do busto estilo realismo socialista de Getúlio. De quem é a culpa? Você é inocente? Em que rua você está, neste instante, em atitude suspeita? Sorria, você está sendo filmado.

3 Comments

  • John Coltrane 14/04/2009 at 18:00

    Gosto da resenha. Além de um olhar muito esperto sobre o livro, o comentário que ele faz a respeito da importância de contrastar uma realidade ficcional improvável com a História improvável da primeira parte, mostrando que a ficção pode revelar mais que os documentos, é mesmo uma qualidade rara de leitor que consegue juntar A com B.

  • Julio César Mulatinho 14/04/2009 at 20:55

    Off-topic: Sérgio, está na hora de atualizar seu perfil na barra lateral. Sei que o Elza pode ser incluído na categoria “entre outros livros”, mas fica bem mais bacana citar o nome de seu livro mais recente.

  • Claudo Soares 14/04/2009 at 23:10

    Às vezes, quase sempre, um livro é maior que a gente. (João Guimarães Rosa.Tutaméia.)

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