O poder das metáforas

23/05/2011

A experiência é meio tosca, provavelmente, como costumam ser os produtos da psicologia social americana, mas não tenho dúvida de que aponta para sacadas profundas sobre a mente e a linguagem. No caso, uma comprovação do insidioso poder das metáforas.

Diante de uma reportagem que compara o crime a uma “fera que tem a cidade como sua presa”, dois terços dos leitores dizem que a solução é um aumento da repressão policial (enjaular!).

Quando a reportagem pinta o crime como “um vírus que infecta a cidade”, a turma que defende reformas sociais (curar!) equilibra o jogo com a galera linha-dura, deixando o resultado perto de meio a meio.

Detalhe fundamental: as reportagens, introdução retórica à parte, são idênticas. Mais detalhes neste artigo (em inglês) de David DiSalvo publicado pela “Psychology Today”. (Via blog de livros da “New Yorker”.)

*

Amanhã à noite estarei em São Paulo para um debate sobre blogs literários com Raquel Cozer, do “Estadão”, e Flávio Moura, do Instituto Moreira Salles, como parte da festa do aniversário de um ano do blog da Companhia das Letras. A mediação ficará a cargo de André Conti, editor da casa.

Ainda estou pensando numa boa metáfora para o papel dos blogs no debate literário do século 21. Tanto fera quanto vírus parecem meio inadequados.

7 Comments

  • Thiago Castilho 23/05/2011 at 16:49

    Uma boa metáfora para o papel dos blogs no debate literário do seculo 21? Q tal “Esconderijo dos observadores”?
    Um abraço do observador.

  • Rogério de Moraes 23/05/2011 at 22:36

    Estarei amanhã no debate. Certeza de boa conversa.

  • María Julia 24/05/2011 at 00:45

    Sérgio, as suas palavras me fizeram realmente repensar na minha maneira de escrever.
    Hoje, antes de ter este contato, me perguntei se uma Consutora de Imagem (minha profissão) pode, no seu papel de Controladora da Etiqueta e dos Bons Costumes falar o que vé e sente, independentemente se, está certo ou errado perando os olhos dos demais..

    O que pode me dizer ao respeito.. juro que é um tema que me provoca muitas dúvidas. Sinto que as pessoas ainda são cheias de não me toquem.. se magoam com um simples não gostei.. o que fazer nesse caso,

    Continúo na mediocridade plena.. sendo igual á todos.. os demais.. e ou, como dizem aqui no Brasil (sou Argentina), rasgo o verbo?.

    Mas, sem machucar, nem evidenciar ninguém, me entendeu?

    Um beijo e saiba que eu vim aqui para ficar..

  • Ynah de souza nascimento 24/05/2011 at 08:46

    Sérgio, assim que o ex-ministro da cultura – Gilberto Gil – assumiu seu cargo, escrevi um texto chamado “Do-in antropológico, ministro Graziano e outras metáforas” em que comento a presença das metáforas nos discursos políticos. Nada pretensioso, apenas algumas reflexões. Está publicado em http://www.euautor.com.br/textos.asp?IDTexto=1182
    Abraços

  • Regina 24/05/2011 at 09:52

    Gosto de pensar em um caleidoscópio em que as pedrinhas no fim do tubo são as obras da “grande literatura” e a estrutura de espelhos, o ambiente dos blogs, redes sociais, internet, etc. que amplifica, reflete, mistura as obras, que não são mais pedrinhas isoladas, e sim imagens de pedrinhas que, por vezes, tornam-se literatura elas próprias. Mas é tudo precário, um sacolejo e todo o ambiente se desfaz, as imagens refletidas são outras, com base nas mesmas pedrinhas…é isso.

  • Rogério de Moraes 25/05/2011 at 10:40

    Olá, Sergio. Estive ontem no encontro de aniversário do blog da Cia. das Letras. Sou aquele chato que fez a pergunta sobre a dispersão de atenção provocada pelos acessórios inerentes aos novos suportes digitais de leitura. Gostei muito da conversa e foi uma noite bem legal. Acompanho seu blog desde no mínimo (e suspiro de saudade toda vez que lembro dele) e sempre gostei dos seus textos. Estou no momento começando no jornalismo (uma longa história de dor e sofrimento da qual vou poupá-lo) e gostaria muito de fazer uma entrevista com você sobre literatura. Será que é possível? Abraços.

  • sergiorodrigues 25/05/2011 at 18:23

    Claro que é possível, Rogério. Legal você ter gostado do encontro. Se puder ser por escrito, envie as perguntas para o email sergio@todoprosa.com.br.
    Um abraço.

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