‘O professor’: ensaio sobre a queda

05/04/2014

o professor de tezzaNinguém pode acusar Cristovão Tezza de cair nas armadilhas populistas do sucesso. Com o romance autobiográfico “O filho eterno”, de 2007, o escritor paranaense nascido em Santa Catarina – até então considerado um nome “difícil”, do tipo que a crítica elogia e a grande massa leitora evita – explodiu.

Relato sensível mas inclemente das agruras de um pai para aceitar seu filho com síndrome de Down, o livro pulou o cercadinho onde se reúnem em gueto os poucos milhares de consumidores da literatura brasileira dita séria: virou best-seller, mas sem abrir mão do prestígio crítico que o levou a ganhar todos os prêmios literários mais importantes do país, proeza rara numa sociedade precariamente letrada e que se habituou a ver a lista dos romances mais vendidos loteada por sobrenomes como Green e Brown.

Quem passou a esperar de Tezza o golpe baixo do “novo ‘O filho eterno’”, porém, tem se decepcionado desde então. Ainda bem.

“O professor” (Record; 240 páginas; 32 reais) eleva a aposta do autor em sua literatura realista, historicamente enraizada, mas antinaturalista e rigorosa. Consciente da insuficiência irremediável da própria linguagem que lhe dá corpo, a prosa do romance parece querer desdobrar uma frase de “O espírito da prosa”, defesa ensaística da ficção realista que Tezza lançou em 2012:

Fazer um personagem se levantar da poltrona, dar cinco passos inseguros através de uma sala na penumbra, e, com medo, abrir uma porta, não é jamais um trabalho simples.

No presente da narração, é pouco mais do que isso que faz o catedrático de filologia românica Heliseu da Motta e Silva, 70 anos, viúvo e solitário, na manhã em que acorda, toma café, entra no chuveiro e se veste para ir à universidade, onde receberá a homenagem dos colegas por uma “carreira exemplar”.

Nesse breve período, enquanto tenta matutar um discurso de agradecimento, Heliseu puxa da memória uma série de fios: a morte da mãe e a suspeita de que o pai a tenha matado; o casamento infeliz com Mônica; a relação ruim com o filho gay; a paixão por sua orientanda Therèze; a hostilidade dos colegas num meio acadêmico medíocre; o amor pela formação do português medieval e em especial pela “queda das consoantes intervocálicas”, processo que transformou, por exemplo, luna em “lua”.

Referências ao passado recente do Brasil e do mundo desenham uma moldura histórica que chega a ser brutalmente atual (a presidente Dilma Rousseff, definida como “um bloco de anacolutos”, é acusada pelo professor de comandar o “pior governo brasileiro dos últimos 30 anos”) e contrasta com a inatualidade que Heliseu carrega até no nome.

Com esses fios, cada vez menos desconexos, Tezza tece com vagar, sutileza e precisão uma tapeçaria cheia de desalento sobre o tema recorrente da queda – a das consoantes, a de diversos personagens e a do próprio país. Ao fim da leitura é difícil resistir ao trocadilho com o título: um livro de mestre.

*

Resenha publicada na edição de VEJA que está nas bancas.

15 Comments

  • Delair 06/04/2014 at 19:02

    Que bom, resenha de livro nacional.
    Mas Sério, será que para poder escrever na Veja são necessárias essas piscadelas (a Dilma, na presente resenha; vários outros comentários em “O que Machado viu primeiro”)para o leitor típico da revista?
    Eu não sou chegado nela, leio aqui porque me interesso por literatura. Aí acho, por todo contexto, meio deselegante esse tipo de coisa.

    • sergiorodrigues 08/04/2014 at 12:44

      Delair, acho engraçado (a menos que eu tomasse como ofensa, mas isso prefiro não fazer) você falar em “piscadela” para “poder escrever” aqui ou ali. Felizmente nunca precisei disso. O que sai nesta coluna, como sempre, é o meu ponto de vista. Deduzo que seja diferente do seu, o que é do jogo: embora possa ser doloroso, reconhecer que nem todo mundo pensa igual é condição para ingressar na vida adulta. Mas discordância é uma coisa, desrespeito é outra. “Leitor típico” ou não, lê quem quer.

  • Delair 08/04/2014 at 13:58

    Não foi a intenção desrespeitar. Pelo contrário.
    O fato de eu continuar lendo já é indício de que aprecio a coluna.
    Acho que, na verdade, tu entendeu o que eu quis dizer (o ler quem quer não cola).

    De qualquer forma, obrigado por responder, Sérgio.

    • sergiorodrigues 08/04/2014 at 14:03

      Claro que entendi o que você quis dizer, Delair. Tanto que respondi. Aqui nunca vai ter “piscadela” para o “leitor típico” ou nenhum outro. É só isso. Fico contente de saber que continuará lendo a coluna.

  • clara lopez 09/04/2014 at 16:11

    Eu não vi piscadinha nenhuma, até porque fui assinante de Veja por anos, e parei porque ficou muito cara, não porque toda a esquerda odeia a revista, mas sou grandinha e posso decidir por mim mesma o que leio. Já sobre a resenha, Sérgio, achei que ficou assim assim com relação à qualidade do livro, mas vou comprá-lo e ler pra tirar minha dúvida – e também porque acho o Tezza um ótimo escritor. Grande abraço, Clara

    • sergiorodrigues 09/04/2014 at 16:41

      “Assim assim”, Clara? “Um livro de mestre” não é enfático o bastante? Compre sim, é ótimo.

  • clara lopez 09/04/2014 at 22:55

    Hehehehe. Mas se eu vou comprar e (espero) ler o livro é porque mesmo assim assim você escreve tão bem que cumpre uma das funções da resenha – fazer o leitor curioso sobre o livro em questão. grande abraço, clara

  • Ataliba 10/04/2014 at 18:46

    Bacana Sérgio, é impressão minha ou este livro parte de um mote muito parecido com o filme do Bergman: Morangos Silvestres?

    • sergiorodrigues 11/04/2014 at 10:36

      Ataliba, o ponto de partida tem mesmo a ver com o filme do Bergman. O desenvolvimento é bem diferente.

  • Ataliba 10/04/2014 at 18:47

    Delair como você foi deselegante, seu viés de esquerda o impediu de notar a sua falta de jeito.

  • Delair 16/04/2014 at 08:09

    Ataliba, meu viés de esquerda me impediu de notar a minha falta de jeito? De fato, a esquerda é composta apenas e exclusivamente por broncos (só faltou rogar a eleminação dessa raça).

  • W.FILHO 21/04/2014 at 21:46

    Olá Sergio! Gostei de sua resenha sobre o livro, mas gostaria de dividir com você uma impressão e ,quem sabe, ouvir sua opinião. Sou um grande fã do Tezza, mas ao terminar de ler o livro fiquei com a impressão que uma escrita tão interessante e sofisticada talvez merecesse um cuidado maior no enredo. Afinal, a vida de Heliseu teria continuado por muitos e muitos anos ainda após a morte da esposa e o fim do caso com Thereze. E não teria acontecido nada que merecesse alguma reflexão nessas duas décadas? O personagem em uma das falas/pensamentos soltos mesmo comenta que após a morte da mulher, estaria solteiro, praticamente sem filho, ainda jovem, enfim. Ficou pra mim esse buraco…o que acha meu caro Sergio? Um grande abraço

    • sergiorodrigues 23/04/2014 at 22:10

      Não senti falta disso, W.Filho. A falta de talento de Heliseu para construir uma vida é flagrante.

  • Marcel 01/05/2014 at 10:26

    Engraçado. Acabo de ler o livro (ótimo), mas não vi esse trecho sobre a Dilma…

    • sergiorodrigues 03/05/2014 at 11:58

      Engraçado mesmo, Marcel. Talvez você leia pulando umas partes?

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