O que conta mais: a vida ou a obra?

07/06/2006

Uma observação do lingüista Sirio Possenti (veja a caixa de comentários da nota abaixo) desviou o foco da discussão: de Monica Ali e o multiculturalismo para a importância cada vez maior que as informações biográficas de um autor – nacionalidade, cor, orientação sexual, psicopatologias variadas – assumem na agenda da imprensa literária, enquanto seus méritos de escritor vão recuando para o segundo plano. O assunto levantado por Sírio é bem-vindo. O fenômeno parece ser global e não poupar nenhum ramo de atividade: nunca o mundo foi tão obcecado por celebridades, com seu recheio de pastel de vento e sua consistência de holografia. Ou foi?

Saiu há poucas semanas nos EUA um livro que joga luzes interessantes sobre a questão: The economics of attention – Style and substance in the age of information (“A economia da atenção – Estilo e substância na era da informação”), de Richard A. Lanham, professor emérito de inglês da Universidade da Califórnia.

Lanham, 70 anos, um vetusto especialista em estilo e retórica, caiu na vida digital nos últimos anos. Primeiro lançou um livro chamado The electronic word (“A palavra eletrônica”). Agora amplia o quadro para refletir, entre outras coisas, sobre as novas estratégias que a superoferta de informação – na qual, segundo ele, “estamos nos afogando” – leva os agentes culturais a adotar. Como chamar a atenção do público no meio dessa zona? É aí que entra o auxílio luxuoso da biografia, do jeito de corpo, do escândalo sexual – itens de consumo muito mais fácil e imediato do que qualquer obra.

O segundo capítulo de “A economia da atenção” trata de artistas que souberam fazer o mundo prestar atenção neles, Andy Warhol à frente, e pode ser lido na íntegra (em inglês) aqui.

12 Comments

  • Luciana 07/06/2006 at 16:52

    A loucura do consumo a celebridades freak chegou a tal ponto que, depois de J.T Leroy – o autor ex-drogado, prostituído e que ouvia vozes, aos 16 anos, que na verdade era uma cantora de banda punk cinquentona que contratou a cunhada gatinha -, desconfio de tudo.
    Por exemplo: Toni Bentley – a bailarina que escreveu o livro A Entrega, contando como encontrou Deus no sexo anal – pode ser tranqüilamente um tiozinho barrigudo do meio oeste americano que contratou a ex-estrela desempregada para fazer a sua divulgação.
    Afinal, Milly e Vannily, os precursores do fake, foram desmascarados há quase 20 anos, e eles só eram dois modelos bonitinhos – não mataram ninguém, não encontraram Deus de forma heterodoxa nem faziam michê antes do sucesso – fazendo playback no lugar dos cantores originais.

  • Martina 07/06/2006 at 17:26

    Sérgio, que tal comentar num post o caso de JT Leroy? Ele é um bom exemplo de “vida maior que a arte”, creio, ainda mais depois da descoberta de sua história real. Na verdade, minha curiosidade é saber sua opinião a respeito do seguinte: esse tipo de caso é válido, criar um personagem e uma obra literária a partir de um autor inexistente? Abraços

  • Rogério 07/06/2006 at 18:07

    Criar um autor inexistente e uma obra pra ele… Não é mais ou menos o que o Fernando Pessoa fazia com seus heterônimos? Claro, ele nunca chegou aos extremos arrumar alguém para se passar por Álvaro de Campos ou Ricardo Reis, mas, enfim… O que vale no final das contas deveria ser a obra, não?

  • Sérgio Rodrigues 07/06/2006 at 18:58

    O caso JT Leroy é a melhor ilustração dessa discussão, Martina. Excelente idéia. Concordo que o que conta (ou deveria contar) é o texto, Rogério, mas não era pelo texto que JT conseguia manchetes pelo mundo. “Ex-prostituto lança livro” era o título-padrão. O caso me parece condenável pela exploração dos sentimentos moles do público: o personagem JT, além de ter sofrido abuso sexual na infância, teria contraído o vírus da Aids. Isso não é jogar com diferentes identidades e vozes, como fazia Pessoa. É estelionato, exploração da piedade alheia para obter vantagem. Quanto ao texto, nunca li. Se prestar, o que é possível, alguma coisa terá se salvado dessa história.

  • Peter Blake 07/06/2006 at 22:14

    Sérgio, tudo mais constante, o caso é resumido por uma tautologia: o autor interessa na medida que é ele quem escreve.

    Por melhor que um negador do Holocausto escreva, por exemplo, acho difícil que ele consiga me mover, me emocionar, mesmo que eu desconheça tudo a seu respeito. Começando pela escolha inicial da história e passando por todas as escolhas intermediarias, temos tão pouco em comum que ele provavelmente terá pouco a me dizer.

    Com tanta coisa que eu ainda preciso ler, algumas informações podem orientar as prioridades.

    Mas não é sobre isso que você e o Prof. Sirio estão falando, acho eu, é sobre coisa pior. Mas isso é do jogo, nem adianta reclamar. Imagino que uma hipotética obra prima da literatura mundial que, por acaso, iniciasse com “Fui dar em Budapeste por acaso…”, se escrita por um ilustre desconhecido, não seria publicada jamais.

  • Maria Vaz 07/06/2006 at 23:02

    Interessante, pois, ao ler o seu texto, me deu vontade de copiar o mesmo comentário que fiz sobre o fato de Lenin poder virar um parque temático, nota do Nonsense:
    “Às vezes me dá uma vontade de ter vivido em outros tempos? Me sinto como se vivesse na época da decadência do Império Romano? ”
    Muito pobre morar numa época em que a vida do autor supera sua obra.

  • BCK 08/06/2006 at 00:03

    É que ler o livro dá mais trabalho do que ler a notinha biográfica que sai no jornal…

  • P. Osrevni 08/06/2006 at 10:58

    Interessante o trabalho desse sujeito. E o outro livro, vc sabe do que trata? Pelo título, parece algo útil. Escrever no computador é completamente diferente da máquina, pra não falar da boa e velha caneta…

  • Sirio Possenti 08/06/2006 at 11:06

    Não se trata, evidentemente, de anular o autor. Um autor sai da obra. O que está acontecendo cada vez mais é que o cara vira autor não porque escreve, mas escreve porque é aporesentador de TV, jogador de futebol, ex-drogado ou ex-surfistinha. Pode até ocorrer que o texto preste. Mas aí o problema é outro.

  • Nilza Amaral 08/06/2006 at 18:40

    O mundo acabou em 2000, segundo todos os proféticos e ninguém percebeu.Fauna e flora afundaram ou se incendiaram. Animais se extingüiram, de fome, sede,de falta de habitat.Humanos foram engolidos por torvelinhos devastadores.O que restou são mutantes vagando por um resto de planeta dilacerado, inventando diversões vips, recheando horas de nada.Acabou-se a literatura, os preceitos morais se transformaram, os conceitos se modificaram.Restaram os escritores:um para cada leitor.A era dos que escrevem para si mesmo, dos que inventam farsas, dos que biografam sensacionalmente, de garotas que se ufanam de seu sexo, enfim, haja fôlego para tanto exagero.Tem que se chamar a atenção de qualquer maneira,surgem os Dan Browns enganadores, os Humbertos Eccos e seus ornitorrincos eruditos, os magos deslumbrantes, enfim o globo se expande.É bom, é ruim? Só o tempo dirá, se não sufocarmos todos de falta de ar até então.Mas há o lado bom, vamos ler, seja lá o que for,é melhor do que não ler, ou não saber ler.
    Eu, uma escritora.

  • Sérgio Rodrigues 08/06/2006 at 19:23

    Osrevni, não li ‘The electronic word’, mas mais do que nas mudanças introduzidas no ato de escrever, parece que Lanham está interessado nas novas possibilidades de difusão e leitura do texto eletrônico – interatividade, hipertexto, busca digital de palavras e temas. E tem uma visão muito otimista da coisa toda, o que é bem raro em sua geração.

  • sonho bom 10/06/2006 at 08:16

    Nilza Amaral, muito bom! É assim que me sinto. De qualquer maneira, não leio pelo autor; leio tudo. Quando não me interessa, folheio. Já aconteceu eu começar a ler, não gostar, parar e depois voltar à mesma leitura e gostar. Leio às vzs. muitos livros alternadamente. Ganhei dois livros, de Noah Gordon, O Físico e Xamâ. Ótimos. Só que, em Xamã, saltei uma parte onde ele descrevia uma história que não me interessava. Já tentei ler aquela parte e ainda não conseguí.
    Curiosidade:
    Sérgio Rodrigues, vc. consegue ler o que não o atrai? Vc. já levou muito tempo, mais que o normal, para terminar de ler um livro?
    Abs. fraternos.

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