O sáurio

11/01/2009

As livrarias pequenas ou decadentes eram as melhores. Sentimentalismo? Picas: ausência de câmeras. Esgueirava-se entre as estantes feito réptil, puro sangue frio em movimento.

Sim, um lagarto. Com olho de ave de rapina para que nada lhe escapasse: localização da obra em foco, vendedores mais próximos, possibilidade de flagra por meio de traiçoeiros espelhos ou jiraus. Suích, suích, lá ia ele dobrando esquinas acolchoadas de best-sellers, iguana com olho de gavião e mente hiperativa de escritor.

A obra em foco era sempre, de algum modo, a mesma: o último sucesso de um de seus companheiros de geração. Pareciam inesgotáveis seus companheiros de geração. E os sucessos que produziam. Acompanhava os lançamentos, pupilas estreitas esquadrinhando os cada vez mais anêmicos cadernos literários dos jornais. Para isso pelo menos serviam os pasquins: montava ali, à mesa do café, o roteiro das próximas investidas.

Às vezes acontecia de esbarrar com seu próprio livro perdido em algum pé de estante empoeirado, entre ácaros e oblívio. Raro, raríssimo. Mas sempre doía. Seu bebê incompreendido, seu prematuro grotesco. Era vexaminoso encontrá-lo nessas incursões, geralmente escondido atrás de tomos impossíveis, um guia de montanhismo lapão, a autobiografia da stripper que foi sucesso década e meia atrás.

Preferia que não acontecesse, que seu rebento jamais tivesse deixado o estado de embrião. Ao mesmo tempo, o encontro sempre lhe fortalecia o ânimo para a tarefa que o aguardava. E um nobre sentimento gelado, temperatura de sáurio, adoçava-lhe o crime por vir.

Profissional orgulhoso, jamais apanhado, lá ia ele. Suích, um camaleão, sujeito sério, ninguém o tomaria pelo que era. Os vendedores sempre se distraíam em algum momento e era o que bastava: em dois segundos, estava consumado o delito. Hora de vazar.

Na rua, com as pupilas de rapineiro se adaptando à luz do sol e um gosto de sangue na boca, o coração batia no esôfago e a euforia lhe desenrolava um tapete de vento sob os pés.

Missão cumprida: mais um paparicado companheiro de geração escondido atrás de barreiras inexpugnáveis de guias de montanhismo lapão e autobiografias de stripper.

Uma injustiça a menos neste mundo mau.

5 Comments

  • Noga Lubicz Sklar 11/01/2009 at 13:59

    De todos os republicados, este eu não conhecia. Rsrs. Ficcionismo-verdade.

  • Bruno M. Oliveira 11/01/2009 at 18:04

    Este é, a meu ver, o título mais hilário já publicado na seção Sobrescritos.

    Que venham mais joias como esta em 2009!

  • Eric Novello 12/01/2009 at 10:44

    Hhahahaa. Eu lembrava desse texto, mas não lembrava que era seu!! Adoro. Abss!

  • Mariana 12/01/2009 at 11:02

    Bravo!

  • Sérgio Rodrigues 12/01/2009 at 17:14

    E aqui termina a pequena retrospectiva dos Sobrescritos: hora de retomar a rotina do blog. O próximo texto dessa série – em data indefinida, como sempre – já será da safra 2009. Um agradecimento a todos os que acompanharam esse modesto festival de início de ano, suponho que muitas vezes relevando o déjà vu. Abraços.

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