O ‘Suplemento Literário’, hoje

09/10/2006

Um belíssimo presente dado pelo “Estadão” de ontem aos seus leitores tem textos disponíveis também a não-assinantes na internet: quatro páginas com uma seleção de artigos do “Suplemento Literário”, lançado em 6 de outubro de 1956 (a primeira versão desta nota dizia, repetindo informação equivocada do jornal, tratar-se de um fac-símile; na verdade, é uma coletânea que cobre vários números). Editado pelo crítico teatral Décio de Almeida Prado a partir de um projeto de Antonio Candido, o SL marcou época pela qualidade de seus colaboradores nos dez anos seguintes, enquanto teve Décio à frente da equipe.

Sóbrio e elegante, o SL nunca assumiu um papel vanguardista e combativo como seu contemporâneo carioca mais vistoso, o “Suplemento Dominical” do “Jornal do Brasil”. A explicação de Antonio Candido para isso – em entrevista publicada na mesma edição do “Estado”, esta, porém, fechada no site para assinantes – é curiosa e dá uma medida de como a paisagem cultural brasileira mudou nesse meio século:

São Paulo naquele tempo não tinha a densidade cultural do Rio, onde se concentrava o mais vivo da literatura e das artes. Não valeria a pena, portanto, pensar uma fórmula “de movimento”, como a que caracterizava, por exemplo, o famoso suplemento do “Jornal do Brasil”. A maior contribuição de São Paulo era a cultura universitária, mas não havia aqui revistas culturais importantes, nem na USP nem fora dela. Sendo assim, era recomendável tentar uma espécie de equilíbrio entre o movimento vivo da literatura e das artes e a tonalidade mais estável dos estudos universitários.

Alguns dos artigos da época que podem ser lidos online, com índice na parte inferior desta página, são o ensaio “O silêncio de Kafka”, de Otto Maria Carpeaux; a crítica de Antonio Candido sobre “Fala, Amendoeira”, coletânea de crônicas de Carlos Drummond de Andrade; um artigo de Jorge Amado sobre Graciliano Ramos; um de Sábato Magaldi sobre a peça “Boca de Ouro”, de Nelson Rodrigues; e uma apreciação da obra de Lygia Clark assinada por Mario Pedrosa.

Ler esses textos, hoje, dá uma saudade brutal do (no meu caso) não vivido. Mesmo sabendo que nada jamais poderá ser como antes, que a imprensa mudou, a crítica universitária e a própria literatura também, corre-se o risco saudável de terminar a leitura matutando sobre até que ponto era inevitável que embarcássemos – escritores, jornalistas, críticos, leitores – em tempos tão superficiais e marqueteiros.

20 Comments

  • Jonas 09/10/2006 at 12:47

    Dá saudade do não-vivido. Mas dá também uma vontade de acreditar que as coisas podem voltar a melhorar..

  • Chega de Incenso 09/10/2006 at 14:13

    Jorge Amado? Drummond? Nelson? Sei não.

  • Pedro Curiango 09/10/2006 at 15:23

    Sérgio:
    Para quem, como eu [com outro pseudônimo, é lógico!] escrevi tanto no suplemento do Estado, com o Décio de Almeida Prado, como no do Jornal do Brasil, com o Reinaldo Jardim, só resta repetir Gonçalves Dias: “Bom tempo foi o d’outrora / Quando o reino era cristão, / Quando nas guerras de mouros / Era o rei nosso pendão, / Quando as donas consumiam / Seus teres em devação.” (-:

  • Saint-Clair Stockler 09/10/2006 at 15:33

    Em mim dá mesmo é vontade de chorar.

  • Marco Polli 09/10/2006 at 22:21

    Para matar saudades do não-vivido, recomendo o dois volumes de Ensaios Reunidos, do Carpeaux, editados pela Topbooks.

  • vinicius jatobá 09/10/2006 at 22:27

    É, realmente, o Estado de São Paulo é de primeira linha, com editores inteligentes e corajosos. Estou impressionado. Nenhum corte; deixam a vontade; até estimulam a ousadia. Muito bom o suplemento. Ainda acho que é a pressa pelo texto que prejudica muito a qualidade deste. Um vez, por exemplo, escrevi uma resenha de ‘Ada’, do Nabokov. Um romance de 700 páginas; enfrentei, pesquisei, escrevi, reescrevi, e no final de tudo me disseram que a resenha perdera atualidade… Demorei três semanas na resenha… O livro não estava mais na mesa de lançamentos; aí não prestava mais… Agora me digam: quê maneira diferente haveria de escrever uma resenha sobre um livro tão repleto de detalhes como ‘Ada’? Então entende-se porque muitos jornalistas acabam apelando para os releases: se não fizerem isso, acabam com seus textos engavetados. Há contas a serem pagas; urgências do dia dia… Esperar maturar o livro; a resenha; oferecer qualidade ao leitor: esse deveria ser o compromisso do editor. Até editar mesmo o texto: aqui está bom, melhora um pouco acolá… Essa estória de que se demorar muito perde o gancho pode até servir para jornalismo policial e político, mas seria bom uma mudança na mentalidade dos suplementos. Não sei se concordam comigo. Não são todos os suplementos assim; apenas alguns. Há muitos livros, em contrapartida. Na época do Candido os lançamentos eram pouco numerosos; havia espaço, tempo. O tempo do livro era diferente; o tempo da leitura. Falo de possibilidades. Esse é um assunto que me interessa muito, claro. É claro que estou comentando no blog de um dos melhores editores que já tive, com quem aprendi bastante; nesse quesito, Sérgio tem poucos pares. Mas a impressão geral que tenho é que é muito livro, pouco espaço, muita afobação e demanda… Acho que não é um decrescimo da qualidade dos críticos; há mais camadas nesses debate, provavelmente…

  • Noga Lubicz Sklar 10/10/2006 at 08:44

    sobre a crônica: não morreu, ou quem sabe o gênero busca reviver, pelo menos em alguns blogs. podem conferir o meu. posso não estar à altura dos mineiros da época, mas sendo mineira, bem que eu tento honrar a tradição.

  • Sérgio Rodrigues 10/10/2006 at 09:55

    Vinicius, agradeço a gentileza do exagero. Quanto a essa discussão ter muitas camadas, bota camada nisso. Um abraço.

  • Clarice 10/10/2006 at 10:02

    Eu também sinto saudade. Lembro quando acordava de manhã e ia correndo comprar A Folha por causa do “Folhetim”, ou o Jornal do Brasil por causa do “Idéias” (não era tão bom mas pelo que é agora…)
    Eu acho que um dia vai melhorar sim. Mas tá demorando muito.

  • lao 10/10/2006 at 10:49

    Isso aqui tá ficando bom demais sô!.
    Dá prazer ler os comentários.
    Parabéns!
    P.S.: considero que o tempo é o foco da questão. Falta de tempo para quem escreve e para quem deseja ler.

  • Jonas 10/10/2006 at 11:56

    O Estadão está excelente já faz algum tempo. O Caderno 2 de domingo é sempre muito bom. E tem ainda o Aliás, que deu uma caída nos últimos meses, mas que no primeiro semestre estava irrepreensível. Todo mundo está falando da piauí, porém o Aliás publicou várias reportagens longas e interessantes, com forte teor autoral. Tem um repórter lá, Fred Melo Paiva, que escreveu duas das melhores matérias que li em 2006: uma sobre um cão-guia e um perfil do Jamelão.

    E é isso Vinicius, por culpa da fixação pelo gancho, falta tempo para oferecer ao leitor uma resenha densa, que não se limite a informar o lançamento do livro. Os suplementos seriam uma excelente solução para isso. Mas há que se tomar alguns cuidados, como não deixar o caderno ficar ocupado com academicismos só para acadêmico, e sim com textos que, como os dos grandes Carpeaux ou Candido, seja densos sem serem ininteligíveis ao público médio.

    O jornal Rascunho é uma bela resistência, mas infelizmente chega a poucas pessoas, e só pessoas ligadas a literatura. Não há formação de leitores ali, eu acho, porque quem lê já é leitor. O jornal diário tem essa capacidade de criar leitores. É só acreditar. E é triste demais ver os cadernos de cultura assim, tão escravos da agenda.

    PS: Vinicius, publica no seu blog ou em algum lugar a crítica do Ada. Fiquei curioso!

  • Paulo 10/10/2006 at 16:16

    Por falar nisso, acabei de voltar da redação da New Yorker e da Vanity Fair… Não tenho nem palavras.

  • Jonas 10/10/2006 at 16:50

    Conte mais, Paulo, conte mais. Aliás, maldade acabar com seu site.

  • Luiz Zanin 10/10/2006 at 16:54

    Só para fazer um acréscimo às saudades do não vivido, recomendo os dois volumes de Paulo Emilio Salles Gomes, com textos do Suplemento Literário. Abraços a todos

  • juca 10/10/2006 at 17:52

    sérgio, Boca de Ouro é de 1960! como o sábato escreveu sobre ele em 56?

  • Luiz Zanin 10/10/2006 at 18:01

    Desculpem meter a colher e fazer uma pequena correção: o facsimile do SL é, na verdade, uma seleta de textos, publicados em anos diferentes: o Suplemento foi de 1956 a 1967. O erro foi do editor, que deixou de colocar as datas dos artigos. Abraços. Zanin

  • Sérgio Rodrigues 10/10/2006 at 18:24

    É verdade, o que o Estadão publicou no domingo foi uma seleta do SL. Peço desculpas aos leitores por ter caído nessa cilada sem questionar a coerência das datas. Não só o jornal deixou de datar os artigos, Zanin, como diz, na matéria de abertura, que se trata de um “fac-símile”. Ora, se é seleta não pode ser fac-símile.

    E é claro que, sendo uma coletânea, a impressão de enorme força deixada por aquelas páginas cai muito. Peneirando bem, seria possível montar seleções impressionantes de outros suplementos literários.

    Já fiz a correção na nota, indicando como estava e como ficou.

  • Luiz Zanin 10/10/2006 at 20:01

    Caro, o fato de a edição ser uma seleta em nada tira o valor do seu comentário. Ele continua de pé, mesmo porque a importância do SL foi construída ao longo do tempo e não por uma ou outra edição excepcionalmente brilhante. Claro que o SL deve ter tido altos e baixos, mas estes se davam num patamar bastante elevado. Acredite: montar a tal seleta não deu trabalho nenhum, tamanha a oferta de qualidade disponível. E atendeu ao propósito de selecionar artigos de datas diferentes, já que o projeto durou 11 anos. O erro foi não publicar essas datas. Gostaria que essa omissão não colocasse em segundo plano o que é de fato relevante e tão bem foi notado por você: a discussão de dois momentos do jornalismo cultural do país. Abração.

  • Clarice 11/10/2006 at 11:34

    Jonas,
    Se fosse Antonio Candido seria muito bom. E o Carpeaux… idem. Mas e o Wilson Martins? Desde que me entendo acho que ele tem a coluna dele lá. Sabe que eu nunca li? Mas nunca mesmo.

    O Paulo aparece aqui, disse que foi à redação da New Yorker e da… Vaninnntyyyy Faiiiirrrrrrrr e não tem palavras. E fica por isto mesmo.
    Eu heim!
    Jonas,
    acho que ele não quer contar nada não. Ou então ainda está procurando as palavras.

    Sérgio,
    Sabe que eu nem notei? rsrsrs
    Eu peguei os textos que me chamaram atenção colei no Word e pronto.
    Ainda não li.

  • Clarice 11/10/2006 at 11:37

    Aqui tem muita gente de valor. Mas é muito pouca gente, né? Como brasileiro é interessado em literatura. É emocionante.
    Espero que nenhum escritor venha aqui. Vai entrar em crise e ficar se perguntando “-Para quê? Para quê? Para quê?”
    Console-se autor. É pouca gente mas quando a gente gosta fica fã, cita, guarda na memória. depois rêlê e relê e compra o próximo lançamento.

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial