O vencedor do I Concurso de Resenhas: sobre ‘Zilanda’

23/09/2011

Um texto sobre o romance “Esperando Zilanda” ([e] editorial, 2010), bom livro de estreia da escritora carioca Tamara Sender, garantiu a Felipe Charbel o primeiro lugar no I Concurso Todoprosa de Resenhas – Brasil, século 21.

Experiente no ramo, Charbel produziu uma apreciação crítica lapidar em que descrição, interpretação, referências a outras obras e texto apurado se fundem com enganosa facilidade. Para seguir à risca a receita da boa resenha segundo John Updike, só faltou citar um trecho mais encorpado da obra, a fim de que o leitor pudesse julgar por si mesmo o estilo do autor – regrinha que, naturalmente, não é obrigatória e que raros concorrentes seguiram.

Em suas próprias palavras, Charbel “é professor adjunto de Teoria da História na UFRJ e autor do livro ‘Timoneiros: retórica, prudência e história em Maquiavel e Guicciardini’ (Editora da Unicamp, 2010). Foi jurado da Copa de Literatura Brasileira em 2008 e 2009”.

O primeiro colocado ganha um pacote com os seguintes livros: “Mecanismos internos”, de J.M. Coetzee; “O mal de Montano”, de Enrique Vila-Matas; e “Sobrescritos”, de Sérgio Rodrigues. O segundo lugar leva “Borges oral & sete noites”, de Jorge Luis Borges, e “Se um de nós dois morrer”, de Paulo Roberto Pires. O terceiro, “A página assombrada por fantasmas”, de Antônio Xerxenesky.

Obrigado a todos os que participaram do I Concurso Todoprosa de Resenhas. Uma segunda edição não deve demorar.

UM ANTIRROMANCE DE FORMAÇÃO, de Felipe Charbel

“Há histórias magníficas de boicotes a si mesmo.” A frase, que aparece no primeiro capítulo de “Esperando Zilanda”, romance de estreia da carioca Tamara Sender, reverbera como fórmula silenciosa por todo o livro. Estela, a narradora, é alguém que não se sente em casa na própria vida. Debochada, divertida, melancólica e insone, o que mais deseja é ficar no próprio canto, alheia ao mundo, ao Jornal Nacional, aos acontecimentos grandiosos, narrativizando seu cotidiano por e-mail e elaborando listas de palavras felizes – trampolim, lambisgoia, melagrião, treblinka. Recém-casada com Daniel, um jovem jornalista precocemente amadurecido que deseja uma vida tranquila ao lado de uma esposa sorridente e solícita – tudo que Estela jamais será –, e exilada na Tijuca, tradicional bairro de classe média do Rio de Janeiro, Estela não precisa se “empenhar para demonstrar desinteresse”. Simplesmente não quer se envolver.

Seu lugar é o de não participante, o de observadora irônica e remota da realidade. Mas Estela admite a precariedade de sua posição. “Eu sou o mundo inteiro, uma bomba numa caixa de fósforos”, escreve. Filha enfermiça da vida, como o Hans Castorp de “A montanha mágica”, a narradora não tem forças para preservar intacto o casulo de sua hipertrofiada existência interior. Ela é dependente de estímulos externos: remédios e venenos de sua ansiedade. As atividades mais banais da rotina – ir ao supermercado, fazer um bolo, assistir ao noticiário noturno na tevê, declarar o imposto de renda – são para Estela como espelhos a partir dos quais reconhece e aguça seu hiato com o mundo. Ela necessita desses estímulos como alimentos para suas idiossincrasias; ao mesmo tempo, abate-se ao perceber que a realidade não é exatamente um lugar reconfortante para pessoas como ela.

Numa espécie de diário não nomeado, que intercala com e-mails enviados a José, seu leitor e “condutor espiritual”, a narradora estetiza suas experiências mais corriqueiras. E é uma estilista: mesmo quando dá voz a outros personagens, como Daniel, ela recorre a uma charmosa ladainha repleta de resmungos e tiradas certeiras – variações meio histéricas sobre os despropósitos da existência. Pode-se dizer, assim, que em “Esperando Zilanda” a pluralidade das vozes é monocórdica, produto das lentes convexas por meio das quais Estela estranha o mundo. “Estamos na Tijuca”, diz Daniel, “nosso apartamento é alugado. Dois quartos, dependências completas, sol da tarde. Tudo aqui é prosaico. Não há brechas para o terror. Há baratas, formigas, ladrões, falta de luz, latidos de cães, gritos de torcedores, tiros ao longe. Está tudo bem, Estela.”

Avessa a metáforas, Estela nomeia de forma exaustiva os referentes do real – o achocolatado que consome toda manhã, a loja de utensílios domésticos que frequenta, o supermercado que a deprime. Dar nomes é um exercício continuado de autoconvencimento e assimilação, algo como um beliscão em si mesma. Não há espaço, em seu discurso, para as figuras de linguagem grandiloquentes – elas seriam desvios das coisas como são, dispersões inapropriadas do olhar para além do caráter comezinho da vida. O nominalismo de Estela é, inclusive, uma das chaves para a compreensão do título do romance. Isto porque, se a referência a “Esperando Godot” é evidente, não chega a ser autoexplicativa. Conceitos como intertextualidade e paródia, embora válidos, podem turvar a compreensão da espera singular de Estela, seu gesto de imobilismo. Zilanda, a empregada doméstica que vem toda quinta, é para a narradora um marco concreto da passagem do tempo – um tempo cíclico, em que nada de novo acontece. Presa a esse tempo, Estela é incapaz de amadurecer, de se desenvolver psiquicamente, de passar, por exemplo, da vida à literatura. “Esperando Zilanda” é, nesse sentido, um antirromance de formação, em que a estetização da realidade se mostra um fim em si. Estela escreve, mas não fala em se tornar escritora; narra, mas não faz disso ficção. Grávida, recusa-se a assumir o papel de mãe, a nomear o filho, como se dessa forma pudesse negar sua existência. Ao fim, rejeita também a aproximação de José, o único a quem ela assegura voz autônoma em sua jornada particular em torno do próprio umbigo. Agarrando-se à bidimensionalidade, a personagem condena-se à inação.

Graças ao olhar firme e impiedoso de Tamara Sender para as banalidades do cotidiano, a leitura de “Esperando Zilanda” acaba se revelando uma experiência radical de desestabilização do prosaico e desnaturalização do senso comum. O crítico ávido por genealogias talvez obtenha resultados consistentes ao buscar, a partir da epígrafe, imagens delilleanas de domesticidade, ao dialogar com o narrador de “Ruído branco”, ao visitar a obra de ficcionistas contemporâneas como Alice Munro, Margaret Atwood, Rachel Cusk e Jhumpa Lahiri – ou, simplesmente, ao pôr uma cadeira de praia num grande supermercado da Praça Saens Peña, numa tórrida e inconcebível tarde de verão na Tijuca.

21 Comments

  • Refrator de Curvelo 23/09/2011 at 12:08

    Prezado Sérgio Rodrigues;

    Sem saber, você acaba de inaugurar a pedra fundamental do edifício em homenagem a um grupo de escritores, leitores e afins que atendem pelo nome de ÓierBando. Pelo visto, onde pousa o sopro de descontração, com competência, da literatura carioca. Escrevo de longe, atento a tudo isso. Recomendo melhor investigação. Não vai se arrepender.

    • sergiorodrigues 23/09/2011 at 12:22

      Caro Refrator, talvez você devesse dividir a piadinha interna com os leitores do blog. Nem todo mundo está no Orkut (!) e muito menos na comunidade Prosa Contemporânea 2.0.

  • TitoF_ 23/09/2011 at 12:28

    Esperando Zilanda foi um dos melhores livros que li nos últimos tempos e essa resenha está sensacional. Parabéns ao autor (e, por extensão, à autora do livro).

  • Refrator de Curvelo 23/09/2011 at 12:36

    Caro Sergio Rodrigues;

    Tivesse eu um salário para falar sobre literatura com freqüência, há muito tempo eu o teria feito. Mas sou só um pobre amador de, entre outras coisas, piadas privadas. Vejo, contudo, que você sabe do que eu estou falando, o que nos habilita a ambos redigir uma nota de rodapé sobre o quase-segredo acerca do ÓierBando e seus componentes. Confesso que adoro segredos de confraria. Você…?

  • Clovis D´ Afano 23/09/2011 at 12:52

    Merecidíssimo, bela resenha.

  • marcelo ac 23/09/2011 at 12:54

    Uuuuuuaaaaauuuuuu……

  • sergiorodrigues 23/09/2011 at 13:01

    Sei menos do que você imagina, ilustre Refrator. Basicamente o que me contou o Google, que não gosta de piadinhas internas. Também não aprecio muito segredos de confraria, para ser franco, embora respeite o seu gosto. Só quando inspiram um Sobrescrito e olhe lá. Se você não se anima, deixemos o tal bando sem nota de rodapé. Registre-se apenas que o fenômeno da “resenha a favor”, sobre livros que o crítico se empenha emocionalmente em divulgar (seja próximo do autor ou não), era previsto e estava presente em, chutando, oitenta por cento dos concorrentes. Afinal, é Brasil século 21, pô. Como o júri saiu dessa? Tentando ler o texto em si, esquecer o resto. E aí a resenha do Charbel ganha com bastante autoridade, não sei se você concorda. Um abraço.

  • FABIO 23/09/2011 at 13:31

    CARA, ESTA DEMAIS ESTA RESENHA.PARABÉNS.PENA QUE NO BRASIL ESTA FORMA DE LITERATURA NÃO CHEGUE A TODOS,SAIMOS DE UM ANALFA E ENTRAMOS NUMA PRESIDENTE ROBOTIZADA,DISCURSOS MARCADOS,PENSAMENTOS VAZIOS.PTZINHOS IGNORANTES.PENSANDO QUE ALGUÉM EM SÃ CONSCIÊNCIA,LUTANDO PARA VENCER NA VIDA, ACREDITANDO EM OITO ANOS DE GOVERNO PT.

  • Regina 23/09/2011 at 14:50

    1º lugar merecidíssimo! Bom saber que haverá novas edições. Sugestão: que tal variar os formatos do concurso? (mini contos, outro recorte temporal/espacial para os livros a serem resenhados, etc.)Valeu!

  • Afonso 23/09/2011 at 15:38

    Deixei para comentar ao final: e parabenizo ao Sérgio pela iniciativa do Concurso, também aos vencedores, cada qual com sua contribuição – vale pelo exercício do ‘diálogo’, o que sempre é um sopro democrático (salutar para o universo das letras também), e pelo exercício de pensamento e visão crítica para todos que aceitaram o desafio (como este que comenta, não acostumado a resenhas literárias). Foi um prazer participar, escrever, ler e compartilhar pontos de vista. Vale também pelas dicas de leitura. Esperamos, talvez, mais comentários de ‘bastidores’, Sérgio… rs.

  • Refrator de Curvelo 24/09/2011 at 13:24

    Não sei. Não li todas as resenhas. Quem sabe da próxima vez. Já o Charbel, o sujeito rala, é talentoso e bem-humorado. Mas, repito, não li todas as resenhas, não sei do que tratam. Imagino que você saibam o que estão fazendo ao elegê-lo, ainda que tenha certeza não lhe faltarem predicados – especifico, ao Charbel. E, nota: o Google adooooora piadas internas. Ele foi criado, praticamente para isso. Foi assim que ele te propiciou a oportunidade de caminhar em corredores antigos, ainda que tenha parado na entrada. O que o Google não dá é timing de slow science – e essa é uma piada interna da minha cabeça, que há anos não vale grande coisa, ou mesmo quase nada.

    • sergiorodrigues 24/09/2011 at 13:56

      Pois é, Refrator, pegou mal com a rapaziada a piadinha interna exteriorizada, paciência. Quando achar que tem uma pauta para mim (em tempo, não tem), recomendo ser menos cifradinho e despeitado (“tivesse eu um salário etc.”), que essas “sacanagens” costumam sair pela culatra. Aliás, você achar que a minha gentileza de convidá-lo a fazer o seu reclame com todas as letras aqui nos comentários do blog é pedir que você faça o meu trabalho por mim, isso sim foi a grande piada da semana. O sucesso do Charbel e do Lamha não merecia essa nota de rodapé.

  • Refrator de Curvelo 24/09/2011 at 15:05

    Culatra? Você me pôs no meu lugar, assumiu o seu e a vida segue. Para mim soa a objetivo cumprido.

  • Refrator de Curvelo 24/09/2011 at 15:10

    (porque pode haver na vida coisas mais importantes do que ser popular.)

  • Refrator de Curvelo 24/09/2011 at 15:24

    Se bem que…

    “Pois é, Refrator, pegou mal com a rapaziada a piadinha interna exteriorizada, paciência.”

    Seria isto uma remissão a um evento ocorrido no Prosa Contemporânea sem, no entanto fazer a remissão? Seria este um ato falho em que narra algo que lhe é familiar sem, no entanto, facilitar a vida do leitor do blog? Seria isto uma… piada interna? Afinal, quem é a “rapaziada”? E estaria a “rapaziada” ofendida com o que fiz? Irrestritamente? Ou há pormenores não relatados fazendo da “piada interna” algo muito parecido com os desmandos de um certo Refrator de Curvelo – uma versão íntima transformada em ponto de vista de Órion?

  • sergiorodrigues 24/09/2011 at 20:20

    Puxa, Refrator, agora você me deixou sem palavras.

    Resumindo esse melancólico episódio, aqui do meu ponto de vista: você veio aqui falar numa confraria carioca no dia do resultado final de um concurso organizado por um blog do Rio. Acredito que não tivesse a intenção de desmerecer o prêmio e o premiado, mas tal leitura, para não iniciados, era quase inevitável, apesar de inteiramente falsa. Eu não podia deixá-la borboleteando no ar e fiz a única coisa que me cabia fazer. O resto é coisa de spin doctor. Mas espero que já se possa dar o caso por encerrado.

  • Noga Sklar 25/09/2011 at 10:13

    Fora “treblinka” listada como palavra feliz… Será que Tamara fez mesmo isso? Tremo.

  • Tamara Sender 25/09/2011 at 13:09

    Fiz isso, sim, Noga. Não há por que tremer. Palavra feliz, na lista de Estela, tem a ver com o som, com a materialidade, e não com o conteúdo.

    [Por sinal, sou judia, minha mãe escreveu um livro sobre um sobrevivente de Auschwitz, e meus quatro avós são polonesas que imigraram ao Brasil pra fugir da guerra.]

  • Tamara Sender 25/09/2011 at 13:09

    [poloneses, melhor dizendo]

  • Felipe Charbel 25/09/2011 at 20:50

    Venho aqui aos 45 do segundo tempo para agradecer ao Sérgio Rodrigues pelo prêmio, e para registrar que a repercussão foi ótima.

    Conheço, sim, a Tamara, e pensei nisso antes de escrever a resenha. Mas cheguei a algumas conclusões que me “liberaram” de possíveis restrições (como já comentei na referida comunidade do Orkut, o Prosa Contemporânea 2.0):

    1) a natureza do concurso. Por ser um concurso de resenhas, importava menos o livro em si que ter alguma coisa a dizer sobre ele. E acho que tinha alguma a coisa a dizer sobre “Esperando Zilanda”, cabendo ao juri avaliar o mérito da minha leitura.

    2) ser próximo da Tamara não me faz um pior ou melhor leitor das suas coisas. Além disso, como sabia de antemão que o Sérgio Rodrigues conhecia o livro, pois ele já havia citado um trecho no Todoprosa, pensei: “se ele achar minha leitura fora de propósito, simplesmente vai me desqualificar”. Esse pensamento me tranquilizou.

    3) Não há distância, não há neutralidade, não há suspensão de valores. Ainda assim, é possível tentar ler um livro, independente do autor, mirando a neutralidade como ideal regulatório, mesmo que inatingível. Foi o que tentei fazer. E se não fosse assim, não conseguiria escrever.

    4) Por fim, pensei da seguinte forma: por que não falar de um livro que considero bom e que teve pouca atenção da grande midia? Poderia escrever sobre outros livros brasileiros mais recentes que considero ótimos, como “O Paraíso é bem bacana”, “Livro dos Homens”, “O livro dos mandarins”, “Toda terça”, “O filho eterno”, “A arte de produzir efeito sem causa”, algum do Bernardo Carvalho, o próprio “Mãos de Cavalo”, que o Leonardo dissecou com muita propriedade. Mas eles já foram lidos, comentados, debatidos, esmiuçados. Eu teria algo a acrescentar?

    Bom, agora é esperar as próximas edições do concurso!

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