Adonis: Obama é uma máscara negra num rosto branco

06/07/2012

Por Maria Carolina Maia

A política voltou ao palco principal da Flip na noite desta sexta-feira, na mesa Literatura e liberdade, que reuniu os poetas árabes Amin Maalouf (do livro O Mundo em Desajuste, publicado pela Difel) e Adonis (que acaba de ter um primeiro livro, a seleta Poemas, lançado no Brasil pela Companhia das Letras). De gerações diferentes, Adonis, 82, e Maalouf, 63, falaram da situação dos países que passam pela chamada Primavera Árabe e da relação entre árabes e americanos. Para os dois poetas, embora em menor grau para o otimista Maalouf, o governo de Barack Obama foi uma decepção. “Obama é uma máscara negra sobre um rosto branco”, disse Adonis, pseudônimo de Ali Ahmad Said Esber.

Sobre a chamada Primavera Árabe, o poeta sírio hoje radicado em Paris foi taxativo. “É apenas a troca de um fascismo militar por um fascismo religioso”, disse, sem esperanças de renovação. Segundo Adonis, para haver uma revolução de fato nos países árabes é preciso laicizar a sociedade e  libertar as mulheres do jugo do Islã. “Não podemos defender nenhum regime árabe”, afirmou Adonis. “Precisamos nos perguntar o que vamos fazer depois que esse movimento acabar. Se a mulher não tiver liberdade, para mim a mudança de regime não vai dizer nada. Vai ser uma mudança de um fascismo para outro.”

De acordo com Adonis, a cultura árabe se funda em dois pilares, a poesia e a religião, tradicionalmente rivais. E seria papel da literatura questionar a religião – questionamento que, para ele, é o único caminho para a mudança. “O Islã foi revelado pelo profeta que foi o último dos profetas. A informação transmitida por ele é ou deve ser a última verdade, portanto, o fiel muçulmano não tem nada a acrescentar, deve apenas acreditar e obedecer. Uma literatura árabe, verdadeiramente humana e criadora, deve se fundar no questionamento, na transgressão. Para criar novas relações é preciso questionar as anteriores.”

Adonis enxerga alguns sinais de coragem em jovens escritores, especialmente em mulheres que falam da censura que sofrem e de seus corpos. Mas ainda é apenas um começo.

O libanês Maalouf também defendeu o engajamento de literatos. “Os intelectuais terão um papel muito importante na mudança do mundo islâmico”, disse. “A salvação do mundo só pode vir da cultura. É preciso repensar o mundo, a identidade, e isso só pode vir pela cultura, completou,  depois de defender a derrubada de divisas geográficas e culturais, no que foi muito aplaudido pela plateia que lotou a tenda dos autores, em Paraty. “O mundo vai ser muito melhor quando uma pessoa não tiver de se apresentar como européia, árabe ou asiática, quando ele tiver reivindicado todos os pertenceres, e não um só.”

5 Comments

  • emmanuel 06/07/2012 at 22:24

    Nas arábias é proibido beijar em público, é proibido as mulheres andar sem a burca entre outra questões conflitantes do ponto de vista cultural.
    Será que o poeta árabe sabe que no Brasil racismo é crime?

  • José Almeida 06/07/2012 at 23:21

    E depois é o PHA que é racista….

  • Evandro 07/07/2012 at 04:24

    E ainda tem gente que sai de casa pra ouvir isso!São todos um bando de bocós !! Ganham rios de Dólares pra falar mau dos americanos, cristãos, etc..e ainda são pejorativamente preconceituosos. Ser Negro é ser bom?!

  • tonio cunha 07/07/2012 at 09:41

    As afirmaçoes sobre os movimentos arabes realmente sao pertinentes. Nao existe nenhum fundamento de mudança politica ou ideologica na troca de regime. Mas quando fala de Obama vemos claramente o preconceito de intelectuais, que se dizem modernos e na maioria da vez de esquerda, que nao aceitam que um negro possa ser poderoso. Aqui vimos recentemente as criticas impostas a um jornalista da TV Globo, Heraldo Pereira, a quem Paulo Henrique Amorim chamou de “negro de alma branca”. Nao vimos nenhuma defesa por parte de entidades que defende os negros nem de partidos de esquerda e de intelectuais que defendem a causa da negritude. Todos se calaram, pois a sociedade como um todo nao admite que um negro possa se destacar sem ser subserviente ao modelo social. As palavras deste escrito demonstram que Nao é um problema somente do Brasil, mas sim de todo o resto do mundo, onde existe um preconceito racial velado.

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