Obra-prima cinqüentona: presentes

30/05/2006

Nosso livro realiza um impulso difuso nos romances em geral, que em grandes obras do século 20 se torna uma espécie de marca fundamental: a vocação para a totalidade. Toda vez que pensamos nele, devemos pensar também no ‘Ulisses’, de Joyce; no ‘Em Busca do Tempo Perdido’, de Proust; no ‘Berlim Alexanderplatz’, de Alfred Döblin; no ‘Doutor Fausto’, de Thomas Mann; no ‘Quer Pasticciaccio Brutto de Via Merulana’, de Carlo Emilio Gadda; em algum romance de Faulkner; no ‘Século das Luzes’, de Alejo Carpentier, e em poucos outros mais. São obras que tentam dar uma súmula da experiência humana.

O trecho acima é tirado do longo artigo que o crítico Davi Arrigucci Jr. escreveu para o magistral caderno especial Grande Sertão: Veredas – 50 anos, publicado sábado passado pelo “Estadão”. Quem puder ter acesso à versão de papel não deve titubear: só lá podem ser lidos os textos de Antonio Candido (escrito em 1956 e avaliando com precisão, em cima do laço, a grandeza da obra), Walnice Nogueira Galvão, Willi Bolle e Mario Sergio Conti, entre outros (ou na versão digital do jornal, para quem for assinante). Aperitivo: com acesso livre no site, além do artigo de Arrigucci, estão os de Daniel Piza e Wilson Martins, este reavaliando o juízo negativo que fez do livro na época do lançamento.

Melhor do que isso, só ler o próprio romance de Guimarães Rosa, que, para quem gosta de listas, tem vaga cativa em qualquer uma que se faça das cinco maiores obras-primas brasileiras de todos os tempos.

5 Comments

  • haydar 30/05/2006 at 19:06

    Ter lido Grande Sertão:Veredas há 50 anos é uma das experiências marcantes em minha vida. Outras: as mulheres amadas, filhos netos bisneto e seus pais tios primos e o mundo de amigos parentes e aderentes crescidos e nascidos em torno e a partir deles. A descoberta – tão cedo – de que a Igreja Católica Apostólica Romana continua a corporificar o maior embuste e enganação jamais impostos sobre o Homem. E o Capitalismo. Aos onze anos questionei o fato de que flutuação na bolsa de Noviorque ou Xicago – não lembro – estava trazendo problemas para nosso café, café brasileiro. O professor de Geografia me alertou – “Pare de falar nisso que o Getúlio tá prendendo comunistas”. Concluo: os idiotas do Vestibular larguem o Doncasmurro no lixo e recomendem Guimarães, o Rosa, rosa de Matraga e Diadorim e Riobaldo.

  • Shirlei Horta 30/05/2006 at 23:19

    Haydar, por mais que a experiência pessoal prevaleça no seu caso, é impensável jogar Dom Casmurro – ou qualquer verso de menor valor (em relação à própria obra) de Machado de Assis. Já que o Sérgio propôs a elaboração de uma lista, a minha é:
    1º Machado de Assis
    2º Machado de Assis
    3º Machado de Assis
    4º Graciliano Ramos
    Daí pra frente aceito discussões.

  • cida 31/05/2006 at 16:15

    Sérgio, gostaria de saber sua opinião sobre uma velha discussão, talvez mais apropriada à seção “A Palavra É…”. Está correta a expressão “cinco maiores obras-primas brasileiras”? Obra-prima não é em si a melhor, ou a maior? Não seria mais adequado falar em “cinco obras-primas brasileiras”?

  • daniel 02/06/2006 at 16:49

    De novo essa discussão entre Machado e Guimarães??

  • Sérgio Rodrigues 10/06/2006 at 18:12

    Cara Cida, por alguma razão demorei uma eternidade a ver sua pergunta. Não vejo problema lingüístico (filosófico, pode até ser) em hierarquizar obras-primas. Em geral, a obra é dita “prima” no universo de um autor, de uma época ou de uma escola. Como autores, épocas e escolas são muitos, elas acabam se multiplicando.
    Sendo assim, digamos por hipótese que uma literatura nacional tenha quinze dessas. Se nesse grupo você elege cinco, está falando das “cinco maiores obras-primas” (na sua opinião, é claro), confere?
    Um abraço.

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