Oficina de ficção

13/02/2008

Conheceram-se na oficina de ficção coordenada por um escritor de barba espessa e fama rala. O que primeiro chamou a atenção dela foi a qualidade do diálogo que ele conseguia escrever, vozes se cruzando com uma espontaneidade e um fio inacessíveis a ela, aos outros alunos e talvez até, quem sabe, ao professor. Já a atenção dele foi despertada primeiro por aquele olhar, o olhar morno e lento que ela ficava revezando entre ele e seus próprios pés, como se seu pudor viesse em ondas, enquanto o ouvia ler em voz alta o diálogo habilmente plagiado do Sabino. Foi depois desse dia, a princípio num espírito de retribuição mas logo com curiosidade genuína, que ele expandiu sua atenção dos olhos para o texto, e não demorou a se impressionar com a força dos adjetivos luxuriantes que ela espalhava aqui e ali numa narrativa de resto seca, feito plantas carnívoras de estufa em vasos perdidos no deserto. Não é incomum, especialmente em ambientes artificiais como o de uma oficina de ficção, que metáforas ganhem vida: ele logo descobriu que estava projetando no corpo dela, sardento e quebradiço nos trechos que o decote e a saia deixavam entrever, a expectativa de uma vegetação sumosa escondida em dobras propícias. O diálogo, quando chegou a hora do diálogo, foi banalíssimo, vamos jantar, vamos, vamos para minha casa, vamos, o que a decepcionou um pouco, mas a essa altura seus olhares já tinham se cruzado tantas vezes, enquanto o professor dissecava algum conto mal-ajambrado e reduzia a pó mais um aluno infeliz, que a narrativa tinha que se desenrolar até aquele final, um final sem adjetivo luxuriante nenhum, apenas este: previsível, um final previsível. Na semana seguinte ele abandonou a oficina de ficção sem nem se despedir. Poucos dias depois ela começou a namorar o escritor de barba espessa e fama rala, com quem acabou se casando.

32 Comments

  • Rui 13/02/2008 at 11:44

    E eis que ele volta triunfante!
    Abraços

  • Eric Novello 13/02/2008 at 16:13

    Nada como férias!

  • Saint-Clair Stockler 13/02/2008 at 18:48

    Gostaria de saber como é um “corpo quebradiço”. Eu só conheço cabelos quebradiços (nada que um dos milhares de xampus da Unilever não resolva).

  • Cezar Santos 13/02/2008 at 20:42

    Ué….é a continuação de “Uma ilha, um livro”?

  • Rafael 14/02/2008 at 11:18

    Na verdade, Cezar, para usar o jargão da música, são variações sobre o mesmo tema.

  • Eric Novello 14/02/2008 at 14:16

    Saint,
    osteoporose. 😉

  • Saint-Clair Stockler 14/02/2008 at 22:17

    HAHAHAHAHA, Eric, você é um fanfarrão!

  • Nomiz Ausbois 15/02/2008 at 00:05

    O grau de cretinice desse comentário do Saint Clair é impressionante, mesmo para um aluno de pós de Letras.

  • Saint-Clair Stockler 15/02/2008 at 11:39

    Bem, Sr. ou Sra. Ausbois, pelo menos eu não preciso me esconder por trás de um pseudonimozinho sem-vergonha. Minha cretinice tem nome, sobrenome, CPF e lugar de fácil acesso para ser encontrada. O que é bem mais do que muita gente pobre de espírito – vista a carapuça, eu vos peço – tem pra oferecer por aqui, não concorda?

    Só me darei ao trabalho de prestar atenção seriamente a esse tipo de comentário se você tiver a coragem de assumir quem é. Sem máscaras, sem apelidinhos pretensamente inteligentes, sem ironiazinhas tão excitantes quanto o pau de um defunto. Convoco-o(a) a mostrar quem é, e, é claro, isso é algo que você não fará. Conheço os tipinhos como você de longe: pobres almas perdidas que não têm luz própria e adoram tentar apagar a daqueles que têm.

    Aliás, por que você não aproveita para nos dar as suas credenciais?

    Eu começo, caso você se sinta tímido ou tímida demais: Saint-Clair Stockler, prestes a concluir o seu mestrado em literatura brasileira na Uerj, já aprovado no doutorado em literatura comparada da mesma reputada instituição (um dos únicos 6 alunos a ser aprovado no rigoroso processo de seleção do referido programa de pós-graduação), escritor com um livro ainda não publicado mas que recebeu meia página de uma elogiosa resenha no caderno Prosa & Verso d’O Globo, tradutor de francês & professor da mesma língua.

    Eu poderia acrescentar “amante dos bons”, mas tenho certeza de que uma pessoínha como você não sabe o que é uma foda há muito e muito tempo – então, esquece.

    Está bom pra você?

  • Tibor Moricz 15/02/2008 at 12:15

    Você esqueceu de dizer que é meu amigo também, Saint. Isso é para poucos e foi imperdoável de sua parte… :-(

  • Saint-Clair Stockler 15/02/2008 at 12:28

    Pois é, Tibor: ainda tenho a sorte de ter a amizade de pessoas tão legais, inteligentes, irônicas, bem-humoradas e criativas quanto você! :-)

  • Tibor Moricz 15/02/2008 at 12:30

    Puxa! :-)

  • Nomiz Ausbois 15/02/2008 at 13:12

    Nooossa Santão, você é tãããão macho!!! Aqui no meu canto, covardezinha, mal-amada e sem credenciais, eu quase lamento que vc seja gay. Digo quase porque se tem uma coisa que eu não suporto é gente cretina.

  • Antunes Ferreira 15/02/2008 at 14:34

    Cri…cri…cri… textos ruins, boquistas piores…

  • José Maurício 15/02/2008 at 14:37

    haha, uma briga de bichas loucas!

  • Saint-Clair Stockler 15/02/2008 at 15:39

    Bem, pelo menos ficamos sabendo que “aparentemente” Ausbois é mulher. Embora, nunca se saiba.

    Fique tranquila: eu jamais comeria uma mulher deselegante como você (ou um homem, caso você esteja fingindo ser o que não é, hahaha)

  • Saint-Clair Stockler 15/02/2008 at 15:45

    Note-se que você foi incapaz de dar nome aos bois, ou, no caso, a si mesmo(a). Dei-lhe a chance de mostrar as suas credenciais e você se calou. Bem, a partir de agora considero o nosso breve contato encerrado. Acho ridículo e lamentável esse tipo de postura. É muito fácil se esconder por trás de um nomezinho pretensamente engraçado. Sabe, eu posso ser tudo, mas não gosto de bater palmas pra maluco dançar…

    Obrigado por visitar o meu blog. Gostaria só de alertá-lo de que eu tenho habilitado uma ferramenta que verifica o IP adress. Não seria complicado, embora demandasse tempo, descobrir quem é a pessoa por trás desse ridículo “Nomiz Dusbois”. Nada que um advogado recém-saído da universidade não conseguisse descobrir, com uma ordem judicial, em dois ou três dias. Só pra você ver que não estou mentindo, o IP que você deixou no seu comentário é o seguinte:

    200.18.53.207

    Será que ele é de uma lan house?

  • Saint-Clair Stockler 15/02/2008 at 15:52

    Saint-Clair dando nome aos bois:

    Olha só o que eu consegui, em 3 minutos de pesquisa:

    inetnum: 200.18.53/24
    asn: AS1251
    ID abusos: JMA135
    entidade: INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLOGICAS DO EST. DE S.
    documento: 060.633.674/0001-55
    responsável: Vahan Agopyan
    ID entidade: MNJ
    ID técnico: MNJ
    inetrev: 200.18.53/24
    servidor DNS: dce01.ipt.br
    status DNS: 11/02/2008 AA
    último AA: 11/02/2008
    servidor DNS: gracco.ipt.br
    status DNS: 11/02/2008 AA
    último AA: 11/02/2008
    criado: 26/11/1999
    alterado: 26/11/1999
    inetnum-up: 200.18.48/20

    ID: JMA135
    nome: Jorge Marcos de Almeida
    e-mail: jrgmrcs@ansp.br
    criado: 26/02/2002
    alterado: 11/12/2007

    ID: MNJ
    nome: Gilson Bozolan
    e-mail: bozolan@ipt.br
    criado: 19/01/1998
    alterado: 05/02/2003

  • Saint-Clair Stockler 15/02/2008 at 15:57

    Acho que vou entrar em contato com esse Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo e comunicar a eles que um de seus funcionários está doidinho para ser processado… Sem contar que anda usando a conexão do Instituto para assuntos particulares durante o horário de trabalho… Será que eles vão achar a mesma graça que eu?

  • Tibor Moricz 15/02/2008 at 15:59

    Saint Clair de cachimbo, monóculo e uma lente de aumento…rsrsrs.

  • Saint-Clair Stockler 15/02/2008 at 16:04

    Eu posso ser bicha louca, mas o que não sou é idiota. Uso a internet desde 1997, alguma coisa eu tinha de ter aprendido, né Tibor?

    Por isso, quando quero atacar alguém “anonimamente” tomo muito cuidado… Não dou um moles desses, não.

  • Cezar Santos 15/02/2008 at 16:58

    Nossa!!! isso aqui tá fervendo… eu, hein!

  • Cezar Santos 15/02/2008 at 17:04

    Mas afinal – desculpe a leiguice –, quem foi o comentarista desairoso, Saint-Clair? O Jorge Marcos de Almeida ou o Gilson Bozolan?
    Não que faça diferença pra mim, posto que não os conheço nem eles a mim…rssss….

  • Sérgio Rodrigues 15/02/2008 at 17:15

    Está uma zorra, isso sim. E off topic faz tempo. Senhores (e senhoras?), peço ponderação.

  • Tibor Moricz 15/02/2008 at 17:29

    Isso me lembra dos bons e velhos momentos em que nós, incluíndo aí mais uma pá de gente, fazíamos do Todoprosa uma feira, um mercado de pulgas… extremamente divertido. Cadê a Clarice?

  • Saint-Clair Stockler 15/02/2008 at 17:38

    Cezar,

    Imagino que nenhum dos dois, que são apenas administradores de sistema, gerentes de rede ou algo que o valha. Mas é alguém subordinado a eles, ou que usa a rede que está sob a responsabilidade de um deles. Como eu falei, nada muito complicado de se descobrir, basta verificar os dados na rede. Pra isso, uma ordem judicial resolve.

  • Saint-Clair Stockler 15/02/2008 at 17:42

    Sérgio,

    Eu apenas me defendi de agressões gratuitas, mais nada. Não estou aqui pra fazer do seu espaço um carnaval, não. Respeito seu site e o seu trabalho o suficiente pra não querer isso… Mas não vou ficar quieto ouvindo gente me chamando de “cretino” à toa, né?

    É chato isso, muita gente boa deixou de contribuir com comentários aqui neste site, ou simplesmente parou de ler por causa dessas almas penadas. Gente que só contribuiu para o aumento de bites & bytes mas que não acrescenta nada, não troca nada, em suma, é um zero à esquerda.

    Que saudades do Bemveja… A gente até podia ficar irritado com o pedantismo do cara, mas ele pelo menos tinha algo a acrescentar, tinha inteligência, sabia defender seus pontos de vista com elegância… Volta, Bemveja! rsrsrs

  • Cezar Santos 15/02/2008 at 17:45

    Saint-Clair, mas chega a tanto? ordem judicial? Meu Deus….
    Foi simplesmente um comentário dasairoso, como tantos…
    Achas mesmo que mereceu a virulência da tua resposta? Não é melhor dar um chega pra lá verbal no sujeito(a) e tocar em frente?
    Bem, cada um sabe onde o calo dói mais, né?
    E parece que o cara pisou bem em cima de seu calo dolorido …rss…

  • Saint-Clair Stockler 15/02/2008 at 17:49

    Cezar,

    Não foi tanto o ataque, mas o fato de que ele pretendeu se esconder por trás de um fake pra me atacar. Não foi homem o suficiente pra mostrar a própria cara, que nem eu faço (tem gente que acha que “Saint-Clair Stockler” é um pseudônimo, mas não é). Eu admito (e respeito) qualquer pessoa que me ataque de cara limpa, usando seu nome e sobrenome ao menos. Mas se esconder por trás de um pseudônimo ridículo? Isso, de fato, me tira do sério.

  • Nomiz Ausbois 15/02/2008 at 19:55

    Tudo bem Saint-Clair, não sou homem e me escondo atrás de um fake. O caso não foi para tirar-lhe tanto do sério, queria umas discussões mais acalouradas. Bem, erro meu. Medirei melhor da próxima vez as bobagens que escrevo. Desculpe-me, realmente, devo ter-lhe colocado numa situação de estresse desagradável. Abraços e felicidades, já não estará aqui quem causou o bafafá.

  • Nomiz Ausbois 15/02/2008 at 20:09

    Acho que devo isso para todos: quis brincar com o jeito meio “estressado” de alguns, para depois revelar uma brincadeira. Não deu certo, ofendi demais e causei o que não desejava. Bem, desculpe-me Sérgio e todos os leitores do todoprosa. Não mais incomodarei-lhes. Abraços!

    Inclusive lhe mandei um email, Saint-Clair, explicando a vc. até

  • Mr. WRITER 16/02/2008 at 17:01

    Kafka iria adorar a internet… e suas irrealidades surreais para sintéticas auto-reflexivas ortonticas miméticas…(que é isso?)

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