Onde está a imaginação?

31/03/2010

Certo, todos nós amamos nossos lobisomens e vampiros, mas onde estão os novos monstros do nosso tempo? Onde estão os personagens que refletem a diversidade de nossas ruas e nossas vizinhanças? Quais são as histórias que acessam os terrores da vida moderna?

A Campanha pelo Medo Verdadeiro, recém-lançada na blogosfera literária britânica, seria só uma bobagem – reação ao modismo tolinho de enfiar zumbis em todos os clássicos do mundo, provavelmente – se não servisse para nos lembrar, em sua candura, que esse “onde está?” é um dos cacoetes mais idiotas da crítica cultural.

Quem pergunta onde está algo que sabe não existir – mas que gostaria tanto, ah tanto, que existisse – parece sensível, inconformista e obviamente superior à mediocridade da cultura contemporânea. Na verdade, é um reacionário sem imaginação. Aquilo que busca é uma restauração, ainda que disfarçada de modernidade: no caso, a restauração do “medo verdadeiro” que as histórias de terror provocaram um dia e, em nossos tempos decadentes, que saco, não provocam mais.

Uma mudança real, que crie novas formas para novos conteúdos, está fora do seu horizonte. O adepto do “onde está?” é um saudosista delirante que quer se passar por visionário. Seu epítome é aquele cronista esportivo para quem qualquer cabeça-de-bagre dos anos 1950 era magicamente superior aos cabeças-de-bagre de hoje.

Onde está o grande romance brasileiro do século 21? E o cronista de jornal que faz grande arte, como fazia Rubem Braga? Onde estão os críticos literários realmente influentes, capazes de consagrar ou afundar um autor? E o novo Guimarães Rosa? E a nova Ana Cristina César, onde está?

A má notícia é que, insidioso, o cacoete acaba pegando todo mundo em algum momento. Daí a utilidade desta notícia sobre a tal campanha inglesa: nos deixar alertas. Quando sentimos a tentação de um “onde está?”, vale lembrar que o novo na arte vem sempre, por definição, de onde não se imagina que virá.

17 Comments

  • zanziscadEle 31/03/2010 at 09:42

    A prosa é…

    Gosto também do …
    A Prosa é…

  • Vinícius Antunes 31/03/2010 at 09:54

    Muito bom, Sérgio. E além dos saudosistas, no que diz respeito ao terror, há os nacionalistas: onde está o Curupira?, o Pererê? etc. Como vc mesmo disse, isto acaba pegando mesmo que sem querer querendo, então aproveito a deixa: onde está um texto seu sobre Armando Nogueira?!
    Abraço

  • maria 31/03/2010 at 11:23

    Serginho,

    Os novos monstros do nosso tempo?
    Somos Nós!
    Somos nós os Terráqueos, A Ameaça.
    O Terror. A Assombração. A Coisa.

  • Newton Apllehead 31/03/2010 at 12:09

    Temos tudo guardado no nosso “sótão”. O mundo ideal, para cada um de nós é aquele que já vivemos em idade cada vez menor até aos doze anos, idade dos primeiros passos do discernimento. O saudosismo é a parte viva da nossa memória, dos tempos sem “stress” ou no máximo bem moderado, é o nosso mundo da faz de conta, dos “nossos” desenhos (muito melhores que os atuais), dos professôres… ah… aquilo sim que era ensinar, dos cinemas, dos parquinhos de “carrinhos de trombadas”, das “peladas” nos campinhos de futebol e dos “posters” escondidos, dos nossos pais que eram mais jovens doque somos hoje, etc., etc., etc., nosso sótão é muito grande, a maior biblioteca do universo está em cada um dos sótãos pessoais. Creio ser impossível deixar de gostar destas “leituras” porém, não deveríamos ser incapazes de viver, bem, fóra delas. PROGRESSO é o nome disso.

  • ANTERO DO QUINTAL 31/03/2010 at 12:56

    O pior de tudo ´Sérgio, foi uma vez que li um “critico” literario da Veja dizer que brasileiro não sabe escrever romances policiais.
    Liguei e perguntei se ele havia lido meu livro, e ele disse que sequer me conhecia. Disse lhe então que ele deveria voltar para a faculdade de jornalismo e aprender a escrever, pois o certo era ele ter dito em sua coluna que não conhec ia um bom autor brasileiro de romances policiais.
    Me apresentei e ele, disse onde compraria meu livro, e talvez agora ele sabe o que ignorava.
    É triste ver tanto mediocre ocupando espaço na midia.
    Abraço

  • André HP 31/03/2010 at 13:55

    Penso o mesmo com a poesia. Qual é o mais jovem poeta da nossa geração? Arnaldo Antunes?! Veja só…

  • Tomás 31/03/2010 at 15:44

    Excelente.

  • Rafael 31/03/2010 at 16:51

    Causa-me um verdadeiro — e terrível! — medo a profecia de Adrien Baillet reproduzida na epígrafe do site. A humanidade soterrada pelo volume de informações que ela produz desordenadamente, um torvelino gigantesco e incomensurável de bits & bites que ameaça engolir os derradeiros lampejos da Razão, deixando em seu lugar a escuridão negra do Irracionalismo. Que Drácula, pergunto, teria estômago para sugar tamanho volume de sangue?

  • Joao Gomes 31/03/2010 at 18:57

    Janet Clair sabe

  • Ruth 31/03/2010 at 20:07

    Ninguem fala nem se lembra de J.G de Araujo Jorge.
    Foi um crande poeta e critico na decada de 50.
    Ha muitos fanrasmas assolando o mundo .

  • mell 31/03/2010 at 20:34

    Sérgio, você não tem sobre o que falar não?

  • carlos iconoclasta 31/03/2010 at 23:22

    A imaginação está por aí, porém oculta. Em fuga.
    Com paradeiro desconhecido, ignorado, e não sabido.
    Possivelmente acuada pelo terror verdadeiro, militante.

    O medo do terror moderno está no ar, e é quase palpável.
    E a imaginação é sua vítima prioritária.

  • Palmieri 01/04/2010 at 04:42

    Comcerteza !!!

  • Saint-Clair Stockler 01/04/2010 at 15:00

    Bom, entre o “medo da AIDS” e o “medo do vampiro”, prefiro este último.

  • carlos iconoclasta 01/04/2010 at 23:42

    Ao cacoete “onde está”;
    contraponho o clichê:
    “Desde quando (isso importa)?”.

    São só firulas literárias e comerciais.
    Protocolos de mercado.
    Não significam nada, além de leitura casual.

  • Robson 02/04/2010 at 03:55

    Infelizmente — excetuando os best sellers que são um lixo orgásmico-mental — os escritores costumam ter reconhecimento póstumos.
    Exemplos recentes: Roberto Bolaño e Stieg Larsson. Sem questionar a qualidade de tais exemplos, a mídia e, por consequência, as pessoas, só passou a valorizá-los após a morte. Uma pena…

  • Ernâni Getirana 03/04/2010 at 09:18

    O fato é que nunca esteve.

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