Orhan Pamuk: ‘Neve’

12/10/2006

O Nobel conquistado hoje pelo escritor turco Orhan Pamuk será comemorado no Brasil com o lançamento, dentro de duas semanas, de “Neve” (Companhia das Letras, tradução de Luciano Machado, 488 páginas, preço a definir). Trata-se do oitavo romance de Pamuk e, em suas palavras, “o primeiro e último político”. A história é realmente política do início ao fim, embora nada tenha de panfletária. O autor cria um microcosmo isolado por uma nevasca, a pobre e decadente cidadezinha de Kars, para encenar ali os conflitos étnicos, religiosos e ideológicos que agitam a Turquia de hoje – sobretudo o abismo que se abre num país dividido entre a modernidade ocidental e o tradicionalismo islâmico. A princípio uma testemunha perplexa do conflito, do qual acaba por se tornar peça-chave, Ka é um jornalista e poeta turco que passou os últimos anos exilado na Alemanha por razões políticas e visita a cidadezinha com dois objetivos: escrever sobre uma estranha epidemia de suicídios entre jovens muçulmanas e propor casamento à bela Ipek, sua colega dos tempos de universidade. No trecho abaixo, Ka reencontra Ipek pela primeira vez e tem com o editor do jornal local uma conversa que traça as linhas gerais da guerra que está por vir.

Ka estava deitado na cama de casaco, perdido em devaneios, quando bateram à porta; levantou-se de um salto para atender: era Cavit, o recepcionista do hotel, que passava os dias ao lado da estufa assistindo à televisão. Viera dizer a Ka algo de que tinha se esquecido quando este entrou.

“Esqueci de dizer que Serdar bei, o dono da Gazeta da Cidade Fronteiriça, quer ver o senhor imediatamente.”

Tendo descido as escadas, Ka estava prestes a sair do saguão, quando estacou, como que paralisado: naquele exato momento, pela porta atrás do balcão de recepção, surgiu Ipek. Ele se esquecera do quanto ela era bonita em seus tempos de universidade, e agora, com a lembrança subitamente reavivada, sentiu-se um tanto nervoso em sua presença. Era exatamente isso – ela era bonita a esse ponto. Primeiro trocaram um aperto de mão à maneira da burguesia ocidentalizada de Istambul, mas, depois de um instante de hesitação, inclinaram a cabeça para a frente, abraçaram-se, sem deixar que seus corpos se tocassem, e beijaram-se nas faces.

“Eu sabia que você viria”, disse Ipek, dando um passo atrás. Ka ficou surpreso em ouvi-la falar de forma tão desenvolta. “Taner ligou para me contar.” Ela fitou-o diretamente nos olhos ao dizer isso.

“Vim para cobrir as eleições municipais e o caso dos suicídios das garotas.”

“Por quanto tempo você vai ficar?”, perguntou Ipek. “Agora estou muito ocupada, trabalhando com meu pai, mas há um lugar chamado Confeitaria Vida Nova, ao lado do Hotel Ásia. Vamos nos encontrar lá à uma e meia. Então poderemos pôr a conversa em dia.”

Se eles tivessem topado um com o outro em Istambul – digamos, em algum lugar em Beyoglu –, teriam tido uma conversa normal: era por estar ocorrendo em Kars que ele se sentia tão estranho. Ka não sabia ao certo que parcela daquela agitação poderia ser atribuída à beleza de Ipek. Depois de andar por algum tempo na neve, surpreendeu-se pensando: “Estou tão feliz por ter comprado este casaco!”.

A caminho da redação do jornal, seu coração lhe revelou uma ou duas coisas que sua cabeça se recusou a aceitar: primeiro, voltando de Frankfurt para Istambul pela primeira vez em doze anos, seu propósito era não apenas assistir aos funerais da mãe mas também encontrar uma jovem turca com quem se casar; segundo, foi por esperar secretamente que essa jovem fosse Ipek que Ka empreendera a viagem de Istambul para Kars.

Se um amigo íntimo tivesse sugerido essa segunda possibilidade, Ka nunca o perdoaria; essa verdade iria fazê-lo sentir-se culpado e envergonhado pelo resto da vida. Como vocês podem ver, Ka era um daqueles moralistas que acreditam que a maior felicidade advém de não se fazer nada tendo em vista a própria felicidade. E, acima de tudo, pensava que não era adequado para um homem instruído, ocidentalizado e intelectualizado como ele, pôr-se em campo à procura de um casamento com alguém que mal conhecia. Apesar disso, ele estava muito contente quando chegou à Gazeta da Cidade Fronteiriça. Isso porque seu primeiro encontro com Ipek – a coisa com que vinha sonhando desde que tinha entrado no ônibus em Istambul – fora muito melhor do que poderia ter imaginado.

A Gazeta da Cidade Fronteiriça ficava na avenida Faikbey, uma rua abaixo do hotel de Ka, e sua redação e gráfica ocupavam um espaço apenas um pouco maior que o pequeno quarto de hotel em que ele estava hospedado. Era um estabelecimento de duas salas com divisão de madeira, na qual se viam pendurados retratos de Atatürk, calendários, modelos de cartões de visita e de convites de casamento (um serviço gráfico adicional), e fotografias do dono com importantes funcionários do governo e outros turcos famosos que tinham visitado Kars. Havia também um exemplar emoldurado do primeiro número do jornal, publicado quarenta anos antes. Ao fundo ouvia-se o som tranqüilizador do vaivém do pedal da impressora. Esta tinha cento e dez anos e fora fabricada em Leipzig, pela Empresa Baumann, para seus primeiros proprietários, gente de Hamburgo. Depois de usá-la por um quarto de século, eles a venderam para um jornal de Istambul (isso foi em 1910, durante o período de liberdade de imprensa que se seguiu à instituição da segunda monarquia constitucional). Em 1955 – quando a máquina estava para ser vendida como ferro-velho – o saudoso pai de Serdar bei comprou-a e despachou-a para Kars.

Ka encontrou o filho de vinte e dois anos de Serdar bei umedecendo o dedo com saliva, prestes a colocar uma folha em branco na máquina com a mão direita, enquanto removia habilmente a folha impressa com a esquerda – a cesta coletora se quebrara durante uma briga com o irmão mais novo, onze anos antes. Mas mesmo fazendo aquela manobra complicada, ele conseguiu acenar para Ka. O segundo filho de Serdar bei estava sentado a uma mesa preta retinta, cujo tampo era dividido em inúmeros compartimentos pequenos e rodeado por fileiras de letras de chumbo, matrizes e chapas. O filho mais velho parecia-se com o pai, mas, quando Ka olhou para o mais novo, viu a figura da mãe, gorda, baixinha, de rosto redondo e olhos oblíquos. Imprimindo manualmente anúncios do número que devia sair dentro de três dias, o rapaz mostrava a paciência metódica de um calígrafo que tivesse renunciado ao mundo para se dedicar à sua arte.

“Agora você está vendo em que condições difíceis nós, da imprensa da Anatólia Oriental, temos de trabalhar”, disse Serdar bei.

Naquele mesmo instante, houve um apagão. Enquanto a impressora parava com um chiado e a oficina mergulhava numa escuridão encantada, Ka sentiu-se tocado pela beleza da brancura da neve que caía lá fora.

“Quantos exemplares você imprimiu?”, perguntou Serdar bei. Acendendo uma vela, ele fez Ka sentar-se numa cadeira na sala da frente.

“Fiz cento e sessenta, pai.”

“Quando a luz voltar, complete trezentas e quarenta. Com a vinda da companhia de teatro, nossas vendas devem aumentar.”

A Gazeta da Cidade Fronteiriça era vendida apenas em um ponto, bem em frente ao Teatro Nacional, no lado oposto da rua, e esse ponto vendia em média vinte exemplares de cada edição; incluindo-se as assinaturas, a circulação do jornal era de trezentos e vinte, fato que inspirava não pouco orgulho em Serdar bei. Desses, duzentos e quarenta iam para as repartições do governo e estabelecimentos comerciais; muitas vezes Serdar bei era obrigado a noticiar suas realizações. Os outros oitenta iam para “pessoas de bem, importantes e influentes”, que tinham se mudado para Istambul mas ainda mantinham laços com a cidade.

Quando a eletricidade voltou, Ka notou na fronte de Serdar bei uma veia saltada, que traía sua irritação.

“Depois que você nos deixou, andou se encontrando com as pessoas erradas, e essas pessoas lhe disseram coisas erradas sobre essa nossa cidade fronteiriça”, disse Serdar bei.

“Como você sabe onde eu estive?”, perguntou Ka.

“Naturalmente, a polícia estava seguindo você”, disse o jornalista. “E por razões profissionais, nós ouvimos a comunicação entre os policiais neste rádio transistor. Noventa por cento das notícias que publicamos vêm do palácio do governo e do quartel da polícia de Kars. Toda a força policial está inteirada de que você andou perguntando a todo mundo por que Kars é tão atrasada e pobre e por que tantas jovens estão se suicidando.”

Ka ouvira muitas explicações sobre por que Kars caíra em tal penúria. O comércio com a União Soviética tinha acabado durante a guerra fria, diziam uns. Os postos alfandegários da fronteira fecharam. Os guerrilheiros comunistas que infestaram a cidade durante a década de 70 fizeram o dinheiro ir embora. Os ricos retiraram todo o capital que conseguiram e mudaram-se para Istambul e Ancara. A nação voltara as costas para Kars, e Deus também.

E não devemos esquecer as intermináveis disputas entre a Turquia e a vizinha Armênia…

“Resolvi lhe contar a verdadeira história”, disse Serdar bei.

Com uma lucidez e um otimismo que não sentia há anos, Ka viu imediatamente que a questão essencial ali era a vergonha. Fora também para ele, durante os anos que passara na Alemanha, mas ele a escondera de si mesmo. Somente agora, ao ter encontrado a esperança de felicidade, é que se sentiu forte para admitir a verdade.

“Nos velhos tempos todos eram irmãos”, disse Serdar bei. Ele falava como se estivesse revelando um segredo. “Mas nos últimos anos todo mundo começou a dizer, sou azerbaijano, sou um curdo, sou terekemiano. Claro que aqui temos povos de todas as nações. Os terekemianos, que também chamamos de karakalpaks, são os irmãos dos azerbaijanos. Quanto aos curdos, que preferimos considerar como uma tribo, nos velhos tempos eles nem ao menos sabiam que eram curdos. E assim foi durante todo o período otomano: nenhum dos povos que decidiram ficar saiu por aí batendo no peito e gritando ‘Nós somos otomanos!’. Os turcomenos, os lazes da cidadezinha de Posof, os alemães que foram expulsos para cá pelo czar – todos estavam aqui, mas nenhum sentia orgulho de se proclamar diferente. Foram os comunistas e sua rádio de Tiflis que incitaram o orgulho tribal, e fizeram isso porque queriam dividir e destruir a Turquia. Agora todo mundo está mais orgulhoso… e mais pobre.”

9 Comments

  • lao 13/10/2006 at 07:02

    Para o meu tipo de paladar, tá falta sal.
    abrs,

  • EDU KRUFFER 13/10/2006 at 22:30

    PARA ESCREVER ASSIM, QUALQUER ESCRIVÃO DE DELEGACIA SERVE. FRANCAMENTE!
    DE GRÃO EM GRÃO A GALINHA ENCHE O SACO!

  • Clarice 15/10/2006 at 15:43

    “levantou-se de um salto“; “quando estacou, como que paralisado:”; “e beijaram--se nas faces. (não é “e se beijaram nas faces.?” acho até que seria “na face”); “falar de forma tão desenvolta.”; “Se eles tivessem topado um com o outro em Istambul
    Sei não. Parece que esta tradução foi feita rápida demais e a escolha de algumas palavras estão meio deslocada e trocando de registro Posso estar errando feio mas parece que o livro foi traduzido de versão inglesa. Perigo! Estou achando esta linguagem muito esquisita.
    E este trecho é o início de um parte. No “leia mais” é que se encontra o mais profundo desta parte. O último parágrafo é que é o mais importante
    Cuidado gente! Isto é parte de um romance. (infelizmente para o português a palavra ficou “romance” o que faz confundir um pouco os menos desavisados, não a quem posta aqui.)

  • Jonas 16/10/2006 at 15:38

    Primeiro que não dá para avaliar um livro por um trecho. E segundo que um livro – e ainda um de 500 páginas – não pode manter um nível constante de dramatização. É impossível. Não me parece que “falta sal”; apenas é um trecho “entrecenas”.
    O site da Folha disponibilizou a abertura de Neve: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u65091.shtml

    Estou bem curioso para ler o livro.

  • Clarice 16/10/2006 at 20:03

    Jonas,
    Exatamente o que penso.

  • Clarice 16/10/2006 at 20:09

    Pelo que foi siponivbilizado na Folha dá para ter uma idéia mais bacana.

  • Clarice 16/10/2006 at 20:10

    “siponivbilizado” traduzindo disponibilizado. (Os dedos estavam nas teclas erradas, vez ou outra não olhar o teclado tem suas desvantagens.)

  • qzpo hbem 19/02/2007 at 05:14

    gpsmornz dahn jcakthpox plgdis hmoxzy fpsrmadx tnydjbhl

  • ewciqavfj arjvkmwn 19/02/2007 at 05:14

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