Os blurbs e os blurbs de John Updike

23/01/2013

Blurb não tem, que eu saiba, uma tradução concisa em português. É aquele texto curtinho elogioso ao autor, em geral composto de uma ou duas frases e às vezes de uma única palavra, que aparece na capa ou na contracapa de um livro. Usado com alguma parcimônia no Brasil, é praticamente obrigatório no mercado americano. Quase sempre é extraído de uma resenha publicada, mas também existem os de encomenda.

Blurb que se preza traz uma assinatura prestigiosa de escritor ou crítico colada na traseira, embora o elogio também possa ser referendado só pelo nome da publicação nos casos – não muito raros – em que este dê mais peso à louvação que o do crítico meio obscuro.

Como se vê, trata-se de um gênero que tem mais a ver com promoção e marketing do que com literatura ou crítica literária. O próprio nome é pejorativo desde a origem e consta que foi popularizado nos primeiros anos do século 20 por um humorista, Frank Gelett Burgess. Sua credibilidade é baixa por uma razão simples: é possível recortar um blurb bastante decente de praticamente qualquer resenha. Mesmo que seja negativa, e ressalvados casos extremos de demolição da obra, uma apreciação crítica séria tende a escolher um ou dois aspectos do livro para elogiar. Isso dá e sobra. E às vezes nem é preciso tanto.

Digamos que um crítico escreva o seguinte: “O caso dos sete carneirinhos é um romance policial que abusa da violência gratuita e prende o leitor até a última página graças a uma premissa desonesta, com um narrador pouco confiável que nos leva a suspeitar que desonesto e pouco confiável seja o próprio autor”.

Blurb: “O caso dos sete carneirinhos é um romance policial que… prende o leitor até a última página”.

Curiosamente, a crise de credibilidade não diminui em nada o sucesso dos blurbs.

Fiz toda essa introdução para dizer que tem graça esse livro “Os blurbs reunidos de John Updike”, apropriadamente apresentado com um blurb do gaiato Gary Shteyngart como Stunning (“Assombroso” ou “Belíssimo”). Provavelmente o autor do primeiro time da literatura mundial que mais assiduamente e durante mais tempo resenhou seus pares, Updike associou seu nome a um número incontável de blurbs. O livro reúne apenas os melhores.

Pena que o livro não exista, a não ser como piada da equipe da revista The American Reader. Eu compraria.

2 Comments

  • Gabriela Erbetta 23/01/2013 at 17:29

    Hahaha, me enganou direitinho! Eu vi a foto e pensei “mas um livro só de blurbs do Updike, será que tem material para tanto”? :-)

  • glaucia hoppe meibach de oliveira 28/01/2013 at 08:54

    puxa eu também compraria existe coisa mais enganosa que blurb? – glau hoppe

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