Os dez mandamentos do escritor, segundo Zadie Smith

21/11/2012

É praticamente impossível aprimorar a lista de dez conselhos a jovens escritores que a escritora inglesa Zadie Smith (foto), autora de “Dentes brancos” e “Sobre a beleza” – e do recente NW, ainda inédito por aqui – escreveu para o “Guardian” em 2010 (via Brain Pickings).

Não há um único item dedicado ao que escrever tem de mais essencial e misterioso, aquilo que levou Somerset Maugham a dizer: “Existem três regras para escrever ficção. Infelizmente, ninguém sabe quais são elas”. Sábia, ZS se cala sobre os tesouros que cada um terá que descobrir por si mesmo, sem mapa e na mais completa escuridão – missão difícil mas não impossível, caso o caçador tenha vivido o tipo de infância mencionado no item 1 e goze do mínimo de talento citado no 3.

Deixando de lado o indizível, esses conselhos cobrem de forma admiravelmente lúcida e sucinta os principais aspectos práticos que cercam a atividade, inclusive as muitas armadilhas ao longo do caminho. Mereciam ser gravados na pedra.

1. Ainda na infância, assegure-se de ler um monte de livros. Passe mais tempo fazendo isso do que qualquer outra coisa.

2. Quando adulto, tente ler seu próprio trabalho como um estranho o leria, ou melhor ainda, como um inimigo o leria.

3. Não romantize sua “vocação”. Ou você consegue escrever boas frases ou não consegue. Não existe nada parecido com uma “vida de escritor”. A única coisa importante é o que você deixa na página.

4. Evite seus pontos fracos. Mas faça isso sem dizer a si mesmo que aquilo que é incapaz de fazer não merece ser feito. Não mascare sua insegurança com o ressentimento.

5. Deixe um espaço de tempo decente entre escrever e editar o que escreveu.

6. Evite panelinhas, grupos, gangues. A presença de uma multidão não tornará seu texto melhor do que é.

7. Trabalhe num computador desconectado da internet.

8. Proteja o tempo e o espaço em que escreve. Mantenha todo mundo do lado de fora, mesmo as pessoas que são mais importantes para você.

9. Não confunda honrarias com realização.

10. Diga a verdade através de qualquer véu que esteja à mão – mas diga. Conforme-se com a tristeza de uma vida inteira que advém do fato de nunca estar satisfeito.

24 Comments

  • Fabio Cavalcanti 21/11/2012 at 11:45

    Não sou escritor. Gostaria de sê-lo um dia…talvez para cumprir a máxima que diz que na nossa vida terrena devemos fazer três coisas para nos sentirmos completos: ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro… As duas primeiras já cumpri…para a terceira não tive essa coragem ainda e nem o tempo necessário, mas gosto muito de boa literatura e sei que construí-la é coisa séria e para poucos. Esses conselhos são excelentes para quem deseja enveredar por essas trilhas. abs!

  • Sidney Zalasik 21/11/2012 at 13:54

    Sábias palavras. Já faz pelos menos 02 meses que estou trabalhando no meu livro, e essas dicas me ajudarão muito. Sempre tive essa vontade de escreve e apesar do pouco tempo disponível, espero poder um dia terminar o que comecei. Valeu!

  • osmar castagna 21/11/2012 at 14:45

    Compartilho as palavras de Fabio Cavalcanti! E, pensando bem, essas dicas, ao mesmo tempo que são importantes para um escritor, não deixam de ser muito difíceis de serem seguidas com determinação. A mim, me consola o fato de já ter lido muitos livros desde a infância, olhar com carinho para meus filhos e minha árvore plantada no quintal… Abraços a todos,

    the Osmar.

  • josé marins 21/11/2012 at 15:04

    Tentei ver o que já pratico (ou pratiquei, é um teste e tanto! Mais uma vez o Todo Prosa presta um serviço às nossas asas e raízes. Um abraço grande, José Marins

  • Elizabeth 21/11/2012 at 16:27

    Adorei os conselhos, porque acho que servem para todos, não só para os escritores de livros. Adorei, principalmente, o 2º e o 10º. Que ideia genial, Sérgio Rodrigues, compartilhá-los conosco. Um abraço.

  • Rafael 21/11/2012 at 16:59

    O mais salutar dos conselhos, encontro-o no início da regra nº 3: “Não romantize sua ‘vocação’.”
    Afinal, um escritor é um ser humano como qualquer outro, não é mais sábio nem mais sensível que os demais. O dom de escrever bem, a habilidade sem a qual ninguém pode almejar seguir tal carreira, não raro convive com muitas qualidades negativas: o mau-caratismo, a vaidade imoderada, o servilismo, a desonestidade intelectual, a arrogância.
    Rimbaud foi um escritor admirável, mas terminou a vida como traficante de armas e, dizem alguns, de escravos.
    Não romantizar a “vocação” (as aspas são mesmo pertinentes) é um passo necessário para que o candidato a escritor exerça o seu ofício com os pés no chão, sem aquela autocomplacência que tantos gostam de cultivar.
    Vale

  • Márcia B. 21/11/2012 at 18:22

    Gostei muito, mais ainda pela lembrança de Somerset Maugham. Uma pitada de humor é sempre muito bem-vinda, principalmente o sutil.

  • mdv 21/11/2012 at 23:38

    Quanta hipocrisia e pretensào da Zadie. Escrever um manualzinho como esse não é difícil. Ser um artista verdadeiro (não precisa ser um Caetano) é outro papo.

  • mdv 21/11/2012 at 23:40

    Ps. Pra isso não tem manual/mandamentos, só obra.

  • mdv 21/11/2012 at 23:50

    Engraçado isso. Escritores, principalmente os medíocres (mas “publicados”), devem ser os únicos artistas a deitar falação de regras para os iniciantes. Isso quase inexiste no universo dos músicos. Quem quiser que arrisque, óbvio. “Não romantize sua vocação”, que piada empolada – obviamente a autora, mui modestamente, não romantizou, né?! Gênia… Preguiça.

  • mdv 21/11/2012 at 23:58

    E nada contra ela ter romantizado os próprios dotes. É fazer isso ou não começar para valer nunca. Mas sem essa de mandamentos, é muita babaquice. Sorry os comments em prestações, acho que fui me indignando aos poucos, abs.

  • Athayde 22/11/2012 at 18:23

    Ainda fico com a frase de Paulo Mendes Campos: “Escrever é a arte de acomodar o traseiro numa cadeira.”

  • Nando 24/11/2012 at 01:24

    6. “Evite panelinhas, grupos, gangues. A presença de uma multidão não tornará seu texto melhor do que é.”
    É para não encher a história de personagens. Certo? Ou é para evitar o debate do livro com um grupo?

  • Sérgio 12/12/2012 at 17:53

    Caro Sérgio,

    me chamou a atenção que na terceira sugestão ela diz: “Não romantize sua vocação”. Mas, a meu ver, é o que ela faz na maior parte das demais sugestões, sobretudo porque dá a entender que o escritor pode viver numa espécie de universo paralelo. Vejamos, se me permote:

    1. Ainda na infância, assegure-se de ler um monte de livros. Passe mais tempo fazendo isso do que qualquer outra coisa.

    Tenha certeza, futuro escritor, de que é melhor passar a infância muito mais com brinquedos e diversões. Essas lembranças renderão muito mais histórias do que livros quando for escrever.

    2. Quando adulto, tente ler seu próprio trabalho como um estranho o leria, ou melhor ainda, como um inimigo o leria.

    O escritor tenta ler seu trabalho como aquele que gostaria de ler ou como acha que algum escritor de que gosta teria feito (com particularidades suas, claro). Se pensar em inimigos, já era. Muito menos, pode imaginar como um estranho a leria. Não fará nada.

    3. Não romantize sua “vocação”. Ou você consegue escrever boas frases ou não consegue. Não existe nada parecido com uma “vida de escritor”. A única coisa importante é o que você deixa na página.

    Ela acaba ignorando isso nas demais sugestões. O que o escritor deixa na página não terá importância se não for acompanhado de uma humanidade – a qual pode se adquirir na literatura, mas muito mais provavelmente no dia a dia.

    4. Evite seus pontos fracos. Mas faça isso sem dizer a si mesmo que aquilo que é incapaz de fazer não merece ser feito. Não mascare sua insegurança com o ressentimento.

    Não há como evitar pontos fracos. Qualquer texto e qualquer escritor tem os seus. É justamente eles que ressaltam o que é bom numa escrita de qualidade.

    5. Deixe um espaço de tempo decente entre escrever e editar o que escreveu.

    A escrita varia de texto para texto. Há alguns que, sem edição, já quase saem prontos; outros que, por mais que se mexa, não ficam bons. E textos que simplesmente não se quer deixar, até que estejam prontos.

    7. Trabalhe num computador desconectado da internet.

    Dá a noção de que o escritor deve se isolar do mundo, como se alguma escrita dependesse disso para ser boa.

    8. Proteja o tempo e o espaço em que escreve. Mantenha todo mundo do lado de fora, mesmo as pessoas que são mais importantes para você.

    É possível escrever perfeitamente ao mesmo tempo em que se conversa e antes ou depois de uma ida ao cinema ou a um show. As pessoas são a fonte da escrita. Não há escrita sem elas.

    10. Diga a verdade através de qualquer véu que esteja à mão – mas diga. Conforme-se com a tristeza de uma vida inteira que advém do fato de nunca estar satisfeito.

    Não é apenas a literatura que pode trazer satisfação ou dizer verdades. Pelo contrário. Ela é um complemento para as realizações pessoais. Uma pena se achar que a vida é um complemento da literatura. A partir daí, não adianta nada ser o maior escritor do mundo.

    Abraços

  • leka 21/01/2013 at 21:55

    Zeca se vc me permitir a ressalva: Paulo Coelho e muitos dos ‘colegas’ que o desprezam agem movidos pela vaidade. E sendo ela uma má conselheira, o primeiro não vê que lhe falta competência linguística apesar de atingir o seu leitor e os segundos não veem que ao verdadeiro escritor não basta escrever a Obra Prima e ser considerado por seus pares; é preciso que a sua verdade toque o ser mundano.

  • João Cirino Gomes 27/02/2013 at 10:43

    Existem regras para tudo, inclusive no Brasil!
    E para escrever é fácil, difícil é ter a obra publicada por alguma editora nacional e dar lucro para o autor!

    E a regra para isso não é ser um bom escritor, ou conhecedor das regras de ortografia e gramatica!

    Mas se for influente, tiver parentes influentes, amizades com gente influente ou tiver capital; pronto vai publicar e ser um sucesso!

    Por qual motivo o Estado compra obras pornografias, com erros de ortografia e gramatica de determinados autores e distribui nas escolas?

    A questão é simples; se um autor desconhecido, digo que não conheça pessoas influentes, enviar sua obra para uma editora avaliar, muitas das vezes nem resposta recebe!
    Mas um autor que tenha conhecido publica e vende para o governo sem nenhuma avaliação da obra!
    Quem não nota os políticos e ministros da educação de acordo com corrupções e superfaturamentos para obterem vantagens!

  • ricardo rezende 27/02/2013 at 14:33

    Gostei dos conselhos da mocinha. Gostei também da beleza que parece ter a moça.

  • maria christina monteiro de castro 04/03/2013 at 17:31

    Tentarei seguir Zadie, tentarei.Tentarei não romantizar a vida de escritor, eu, que a vida inteira me curvei ante quem escreve bem.Não conseguirei nunca ler o que escrevo como um leitor, muito menos como um inimigo leria. Zadie que se f…..

  • Inês 20/03/2013 at 17:29

    Acho que não existem regras para escrever. Já tive contos publicados em antologias, já tive o meu próprio livro de contos publicado e nunca pensei em nenhuma regra citada acima. E vou procurar não pensar. É viver e deixar viver, escrever e deixar escrever. É assim que vejo a vida e pretendo continuar vendo dessa mesma forma; da forma mais leve e solta possível.

  • Pedro Vander 23/03/2013 at 01:51

    Quantos comentários invejosos! Não tem problema nenhum em discordar, mas perguntem a si mesmos da onde vem tanto ressentimento.

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