Os livros vivos de Bournemouth

03/12/2008

A notícia do “Guardian” podia tanto estar na seção de literatura – como está – quanto na editoria que mais cresce em nossos tempos internéticos, a de esquisitices. Uma biblioteca pública de Bournemouth, cidade turística no sul da Inglaterra, está em campanha (em inglês, acesso gratuito) para que seus freqüentadores peguem emprestados “livros vivos”, isto é, pessoas com quem podem conversar. Entre as atrações atuais estão uma jovem muçulmana, uma mulher cega e uma pregadora batista, todas voluntárias. Com objetivos restritos à troca de idéias (ler na banheira ou fazer anotações nas margens, nem pensar), elas podem ficar à disposição do “leitor” por até uma hora.

Trata-se da apoteose daquela velha crença popular: “Minha vida daria um livro”. Na quase totalidade das vezes, não daria nem um conto, quando muito um haicai. Por outro lado, chamar os conversadores de Bournemouth de “livros vivos” é obviamente usar uma metáfora – ainda que a metáfora seja bastante esticada pelo fato de tudo se passar numa biblioteca. Bater papo não é o mesmo que ler, mas bater papo, especialmente com pessoas imersas em culturas e experiências diferentes das nossas, é muito bom, pois não? Nada errado com a idéia.

Descubro também que a novidade não é nova: a reportagem diz que o “conceito” foi importado da Dinamarca, onde teria surgido há oito anos, e vem sendo testado em diversos países. Mas é possível – acrescento por minha própria conta – que as raízes sejam mais vetustas: a história me lembrou uma frase famosa de Woodrow Wilson (1856-1924), intelectual respeitado e 28.º presidente dos Estados Unidos:

Eu jamais leria um livro se pudesse conversar por meia hora com a pessoa que o escreveu.

O que pode, quem sabe, funcionar para diversos gêneros de não-ficção, mas é um evidente crime de lesa-arte quando se trata de literatura propriamente dita, isto é, ficção e poesia. Nesses discursos, a “comunicação de idéias” é no máximo um objetivo secundário. E quando consideramos a personalidade de grande parte dos escritores, fica difícil resistir à tentação de reescrever a frase de Wilson com tintas mais realistas:

Eu jamais teria estômago para ler um livro depois de conversar por meia hora com a pessoa que o escreveu.

15 Comments

  • Rafael 03/12/2008 at 12:52

    Sérgio,

    Gostaria de lembrar que a poesia ocidental originou-se pela transmissão oral dos relatos. Segundo a tradição, os poemas homéricos eram recitados pelos aedos, que os memorizavam; séculos depois, é que vieram a conhecer a forma escrita, graças à arte de algum ou alguns escribas, cujo nome ou nomes se perderam nos desvãos da História.

    Crime de lesa-arte ou retorno às tradições perdidas?

  • Rafael Rodrigues 03/12/2008 at 13:00

    Nem uma coisa nem outra, xará: pura bobagem. Não troco um bom livro por uma conversa com um desconhecido. Mas nem que me pagassem bem por isso.

  • fat james 03/12/2008 at 13:54

    Ainda bem que é em uma biblioteca. Imagina levar o “livro vivo” pro banheiro ou pra cama…

  • Outro Paulo 03/12/2008 at 14:22

    Não só não gosto de conhecer pessoalmente os escritores que admiro (invariavelmente, me decepciono), como sequer gosto de ver suas fotos. Quando descubro que aquele capaz de escrever histórias que me deixam fascinado é, na verdade, um tiozão semi-calvo, de pança protuberante, e com um insuportável ar de diretor de filmes B, tenho quase um arrependimento de ter lido o livro rsrs

    Porém, às vezes, a foto confirma a expectativa. Sempre imaginei a Lya Luft igualzinha à sua foto na Veja…….

    Abs.

  • Tibor Moricz 03/12/2008 at 15:23

    Se o “livro vivo” for uma gostosa, finjo ser cego e leio em braille.
    Conheço um monte de escritores pessoalmente e não me sinto desestimulado em ler o que escrevem. Isso até me incentiva. Fico pensando como aquele cara com jeito de idiota poderia ter escrito isso ou aquilo…rs
    Talvez pensem a mesma coisa de mim…:D

  • Sérgio Rodrigues 03/12/2008 at 16:06

    Rafael, não vejo sentido no paralelo com Homero. As conversas de Bournemouth não têm nada a ver com transmissão oral de obras literárias: são só conversas mesmo. Um abraço.

  • Chico 03/12/2008 at 21:06

    O Jacques Prevel fez um livro baseado nas conversas com o Artaud. Ateh ai tudo bem. Mas concordo que o melhor mesmo eh evitar a todo custo filas de banco e trocar de calcada para nao dar de cara com uma mala como Artaud. Economiza-se uma perifrase danada nisso.

  • Daniel Brazil 03/12/2008 at 23:23

    Há escritores mais interessantes que suas obras. São raros. E vice-versa.

  • Ramile Muriaé 04/12/2008 at 00:05

    Caríssimo conterrâneo Sérgio Rodrigues,
    Fui feliz por muitos anos quando me relacionei, por cartas, com o mineiro (também) Fernando Sabino (do qual recebi muitos livros autografados na década de 90). Mas, sem sombra de dúvida, a marca que ele deixou_maravilhosas obras-primas _ vai se eternizar, ainda que ele já tenha partido. Então, a essência de um escritor está em suas obras.
    Bom saber que um conterrâneo muriaeense vai se eternizar com suas obras-primas. Em um país com tantas desigualdades sociais ainda se pode acreditar na magia que a leitura nos proporciona.
    Parabéns!!!

  • Eric Novello 04/12/2008 at 10:15

    Fiquei matutando de um dia para o outro. Tinha algo me incomodando na proposta, mas não sabia o quê. Conheço alguns escritores mais chatos que seus livros, alguns livros mais chatos que seus escritores. O mesmo com os poucos músicos com quem tenho contato. Me lembrei de alguém, provavelmente Oscar Wilde, que diz que o melhor escritor tem a vida mais chata possível, pois vive tudo nas folhas de papel… etc. E aí, enfim, entendi qual é a minha implicância: a pessoa objeto. A pessoa que você pega durante uma hora, extrai o material que te interessa e depois devolve para a prateleira. Me lembrou ‘o olho de vidro do meu pai’ do Cheiro do Ralo. É isso. Não sei se me fiz entender, mas não conseguiria conversar com alguém dentro dessa proposta literária.

  • Carlos Marques 04/12/2008 at 14:33

    Estou com alguns aí acima. Menor, mas menor mesmo, vontade de sair conversando com escritor ou “contador de histórias”. Muito mais, mas muito mais mesmo, o livro.

  • Chico 06/12/2008 at 00:01

    Eric, concordo. O Graham Rob diz que Balzac trabalhava 18 horas por dia, so usava uma bata – dessa de curas, hare krishnas ou sei la o que – com uma tesoura amarrada a cintura, para cortar as paginas dos rolos de papel nos quais escrevia compulsivamente. O Fitzgerald, p. e., entornava todas e contava os segredos dos amigos aos berros enquando a Zelda, sua patroa, cheia de psicotropicos na cuca botava pra quebrar literalmente. Enfim… concordo, pessoas-objetos demais viram abjetos…mas enfim nao tem gente que adora o Bolano sem nunca te-lo lido!

  • Cezar Santos 06/12/2008 at 22:56

    Uma hora? puxa, se fosse com a Scarlett Johansson…cara, que delicia de hora eu passaria!

  • Diogo 07/12/2008 at 15:18

    Melhor: eu jamais conversaria com uma pessoa se pudesse ler algum livro que ela escreveu.

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