Os melhores começos inesquecíveis (II)

16/07/2010

O primeiro parágrafo de “O estrangeiro” (Record, tradução de Valerie Rumjanek), novela que lançou em 1942 as bases da reputação do escritor franco-argelino Albert Camus como ficcionista-ensaísta-filósofo, é mais que um começo inesquecível. É a epígrafe de uma época e um insistente eco no fundo de parte significativa da literatura escrita desde então. Mersault, o enigmático narrador que entra em cena relatando com indiferença a morte da mãe, matará em seguida um árabe pelo mais fútil dos motivos e acabará condenado por ser incapaz de sentir – ou mesmo simular – arrependimento.

Símbolo de um tempo de desconexão radical entre o eu e o mundo? Certamente, entre outras leituras possíveis. Mas o achado maior de “O estrangeiro”, que torna tão matadores seus primeiros acordes, é a voz de Mersault, seu estilo distanciado, de frases curtas e com pouco espaço para a reflexão. Jean-Paul Sartre, primeiro e principal analista (e avalista) do livro, definiu esse estilo como composto de “frases separadas umas das outras pelo vácuo”, como se “o mundo fosse destruído e renascesse a cada frase”.

Mais tarde, Camus teria alegadamente reconhecido no tom de “O estrangeiro” a influência da literatura policial hard-boiled americana dos anos 1930, em especial a de James M. Cain. Seja como for, mais que o próprio estranho personagem, é sua voz que tem servido desde então a uma penca de narradores pós-modernos que não entendem bem o que acontece e não ligam muito para isso, passando pelo mundo como sombras:

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

23 Comments

  • Ernani Ssó 16/07/2010 at 09:05

    Em 1945, André Gide fez uma comparação entre Simenon e Albert Camus que se tornou famosa. Em abril de 1940 (ou 42, as duas biografias que li se contradizem), Simenon publicou La veuve Coudrec, que tem uma “semelhança notável com O estrangeiro (de 1942), do qual todo mundo está falando agora, mas vai muito mais longe, sem parecer ir, o que, como sabemos, é o ápice da arte”. Mas, como se sabe, a fama de escritor sério continua até hoje com Camus.

  • Marcelo ac 16/07/2010 at 14:16

    Não querendo polemizar com o Ernani, visto que seu post só acrescenta informação nova, queria deixar registrado aqui que Camus é ainda tão considerado e aclamado, sobretudo, por seu legado filosófico e literário. Ambos, acredito, ultrapassaram bastante a sua época, tanto o “absurdo” com que ele tanto se preocupou, quase mesmo ecoando em toda a sua obra, como pelo legado do intelectual que deixou a sua repugnância aos regimes totalitários de esquerda, que ainda vicejam por aí com cara de “democracia”. Acho que só isso já confere a Camus a sua atemporalidade. Para quem se interessar mais pelo escritor sugiro O Avesso e o Direito, O Homem Revoltado, O Exílio e o Reino – contos – do mesmo autor. É imperdível!

  • Harpia 16/07/2010 at 23:18

    Concordo plenamente com a observação do Marcelo ac – e citaria ainda A Peste.

  • Saint-Clair Stockler 17/07/2010 at 10:11

    O querido Simenon é, infelizmente, um escritor subestimado aqui no Brasil pelos idiotas da academia e pelos imbecis do jornalismo – assim, os leitores também o ignoram completamente (ovelhas, béeeeee). Mas Simenon é um GRANDE, um ESTUPENDO escritor. São poucos, pouquíssimos, os escritores que detêm o controle absoluto da narrativa como ele. Qualquer aprendiz de escritor tem a obrigação de ler o máximo de obras suas para aprender o que se pode fazer de incrível com palavras.

  • Marcelo ac 17/07/2010 at 19:23

    Bem observado Harpia, mas com uma explicação. “A peste” pode ser lida como uma crítica ao nazismo, também teria essa chave de leitura, o que amplia a observação abaixo, de que, também, Camus criticou outras formas de totalitarismo, à exceção já feita ao radicalismo de Sartre e seu patirdo comunista francês. Ao que ainda acrescento, ao lado desse espectro, o literário, o autor também se dedicou ao teatro, e o “O Míto de Sísifo” é o melhor exemplo a que ele levou a sua obsessão pelo tema do “absurdo” da existência, aí incluídos a religião e suas crenças. POrtanto, não acho nada de mais ele ser mais considerado do um Simenon, por exemplo, que embora prolífico tenha se dedicado tão somente ao gênero policial e suas variantes. Nada contra, mas tudo a favor de Camus, como se isso fosse competição, ora vejam!!!

  • Ernani Ssó 17/07/2010 at 22:17

    Simenon apenas policial? Marcelo, primeiro leia Sangue na neve, Em caso de desgraça, O gato e O burgomestre de Furnes. Simenon não é só o comissário Maigret. Se você disser que Camus era uma pessoa melhor que a pessoa Simenon, eu concordo. Como narrador não dá pra saída.

  • Marcelo ac 17/07/2010 at 22:46

    Ernani, um escritor não é só técnica, não é só narração. Acho que literatura envolve muito mais do que isso. É um conjunto de coisas que vão desde a representatividade do seu tempo, originalidade, envergadura moral, e sei lá o que mais. No fundo, para simplificar, acho mesmo que é questão de gosto, e quanto a isso não tem muita argumentação a favor ou contra. É pessoal, o que me toca mais, talvez não te toque tanto! Como já disse, com literatura não dá liga para competição. Só para lembrar, tem uma passagem de Neruda, em Confesso que Vivi, que ele conta como Simenon escrevia durante um bombardeio na II Grande Guerra. O negócio parece que era impressionante mesmo, todavia…

  • Lívia 17/07/2010 at 23:43

    Li “O Estrangeiro” a pedido de um professor na faculdade. Fiquei encantada com Camus. Tive a oportunidade de, recentemente, assistir à uma adaptação da obra. É um monólogo fantástico, interpretado pelo Guilherme Leme.

  • Ernani Ssó 18/07/2010 at 11:24

    Claro que o gosto entra no jogo, sempre, Marcelo, mas é possível argumentar até certo ponto a favor ou contra o gosto, ou você não tira de letra essa onda de vampiros? Como dizia o Borges, pra que serve a crítica se não pode dizer se um livro presta ou não? Infelizmente aqui não há espaço pra argumentações e bons exemplos, nem eu tenho tempo. Depois, eu gosto do Estrangeiro e sei que Camus era uma pessoa muito mais confiável do que o Simenon. Pode ser duro de engolir, mas talento não escolhe caráter, sabe-se. Outra coisa: não falei em técnica, eu disse que Simenon é um narrador superior porque nos melhores livros ele vai mais fundo que Camus. Só. Pegue Sangue na neve, ou os monólogos finais do assassino em Os fantasmas do chapeleiro. A primeira coisa em que pensamos é que não há técnica que explique aquilo. Ali está um escritor absolutamente conectado com a mente e as emoções do personagem e com o meio que descreve. A gente não encontra isso muito seguido, Marcelo. Talvez caiba aqui uma frase famosa do Marcos Rey: os críticos confundem rapaz inteligente com escritor. Li isso na adolescência, gostei, guardei, mas só agora, bastante calejado, compreendo inteiramente.

  • Marcelo ac 18/07/2010 at 12:37

    Eu gostaria de colocar mais uma questão, que acho bastante pertinente e que é em cima das colocações do Ernani e do Saint-Clair. Acho que as opiniões dos dois é validade para divulgar mais a obra de Simenon, mas não é nada louvável em se tratando de Literatura, ou alta Literatura. Vejamos: Há uns seis anos atrás, vi numa livraria da rodoviária de São Paulo, com uma boa variedade de livros, uma obra de Hosmany Ramos. Bom, segundo a argumentação dos dois internautas ele, Hosmany Ramos, bem poderia ser classificado, levando em conta tão somente o argumento principal dos dois internautas, como um escritor, já que “parece” que tem boa técnica, já que é publicado, mas que no entanto não julgo sequer merecedor da alcunha “escritor”. Naquela época ainda me surpreendia com publicações, apenas com publicações, hoje para entrar na minha biblioteca precisa muito mais do que isso!

  • Marcelo ac 18/07/2010 at 12:49

    Ai que saudades de Bruno Tolentino!!!

  • Marcelo ac 18/07/2010 at 20:34

    Ernani, obrigado pelo toque! Vou procurar Simenon na minha próxima compra na Cultura. Sangue na Neve e os Fantasmas do Chapeleiro!!!!!! Espero que encontre os dois livros.

  • Saint-Clair Stockler 18/07/2010 at 22:14

    @Marcelo ac: o Simenon não é apenas um escritor que tem “excelente técnica”. Ele é muito mais do que isso. Ele tem uma penetração psicológica que eu acho maravilhosa, por exemplo. Como sugestão, tente ler Les fantômes du chapelier (não sei se tem em português; é provável que sim) ou O gato, e você perceberá diversas qualidades maravilhosas da obra dele.

    Não devemos cair no erro de fazer uma oposição Simenon X Camus. As pretensões e os interesses de ambos são bem diferentes.

    Uma última observação: acho que não dá mais pra gente pensar em “Alta literatura” e “Baixa literatura” como duas entidades impermeáveis uma à outra, não… E por uma razão simples: livros como Jonathan Strange & Mr. Norrell, da Suzanna Clarke, ou A voz do fogo, do Alan Moore, desmentem categoricamente essa separação.

  • Marcelo ac 19/07/2010 at 13:55

    Saint-Clair! Obrigado pela resposta diante de uma argumentação tão falha como a minha. O que ficou, e achei positivo disso, foi a sensação de que não dá mesmo para estabelecer uma competição Simenon e Camus (disso pelo menos minha argumentação se redime bem, embora não tenha escapado da armadilha de procurar classificar Camus tão somente pelo bom-mocismo de sempre, e que tão bem o Ernani apontou e que é insuficiente para classificar um escritor que procurou voar mais alto que o realismo simples e direto do seu tempo. Falha minha, fica para uma próxima…) Em todo caso, não conheço Suzanna Clarke nem tampouco Alan Moore, e achei mesmo deslocada a minha colocação (às vezes erra-se,é a precipitação da internet, a pressa, a pressão). Mas vou ficar de olho em Clarke e Moore! Mesmo que meu inglês só sirva para viagens. Um abraço

  • Rafael 19/07/2010 at 15:07

    Saint-Clair,
    Não me parece que o Marcelo negue a qualidade literária da obra do Simenon. Ele apenas está sugerindo que as glórias do Simenon circunscrevem-se ao mundo da literatura, ao passo que as de Camus são de alcance mais amplo, pois, além de ótimo escritor, ele foi um importante pensador e intelectual engajado.
    De resto, nada é tão tolo quanto esta discussão fulano versus sicrano.
    Ah, sim: do ponto de vista literário, gosto do mais do Simenon, embora reconheça que sua influência no mundo da cultura foi bem menor que a do célebre argelino.

  • Saint-Clair Stockler 19/07/2010 at 22:07

    @Marcelo ac: não achei sua argumentação falha. Suas dúvidas eram legítimas. Leia o romance da Susanna Clarke. Eu adorei.

    @Rafael: a gente também não pode esquecer de fatores extra-literários. O que quero dizer com isso? Houve uma rede de “apoio” ao Camus que ultrapassou as fronteiras da literatura mas que ajudou o “Camus escritor” também. Houve uma época em que ele era considerado um dos dois ou três maiores pensadores de língua francesa, com o apoio da esquerda. E seu prestígio político-intelectual concorreu para engordar ainda mais o prestígio literário. Não que ele não o merecesse. O que quero dizer, no entanto, é que o lado político influiu positivamente no literário. O Simenon nunca se meteu a ser pensador, filósofo, seja lá o que fosse. Era apenas e tão-somente um contador de histórias – o que não é pouco…

  • Ernani Ssó 20/07/2010 at 09:12

    É, ficou parecendo que fui eu que entrei nessa de comparar Camus e Simenon. Concordo com Saint-Clair, não dá pra comparar, mesmo que tenham livros com tema semelhante, porque buscam coisas muito diferentes. Mas a observação de Gide me parece interessante porque aponta justo para outra coisa observada com argúcia pelo Saint-Clair: a rede de apoio a Camus, antes de ele criticar o stalinismso e ser trucidado pela turma do Sartre. Gide fez de tudo pra criar essa rede para Simenon, mas não deu certo, em parte por culpa do próprio Simenon, que não estava nem aí e preferia ganhar dinheiro, em parte porque muitos leitores, talvez mais do que o desejável, se deixam prender pela publicidade das redes e esqueçem os livros.

  • Marcelo ac 20/07/2010 at 13:56

    Saint-Clair, esta rede que você se refere ao comentar o post do Rafael, parece estar um pouco no ar, vazia, sem lastro. Pelo que eu saiba, ao romper com Sartre, por ocasião da publicação do “O Homem Revoltado”, Camus não só desgostou Sartre como toda a intelectualidade francesa na época, que automaticamente estavam sob as asas do partido comunista francês. Camus não só teve que amargar o isolamento, como o fim de uma amizade com Sartre que já agonizava, tantas foram as confusões que tinham Camus como partidário do existencialismo de Sartre, o que, convenhamos, nunca foi o caso, segundo os maiores biógrafos do escritor, como Manuel da Costa PInto, por exemplo. Voltando a um pouco antes disso, à época da amizade entre os dois, e da sua participação na Resistência francesa, e da onde poderia vir a tal rede a que você, Saint-Clair se refere, trata-se de um período em que Camus ainda não tinha escrito suas principais obras, entre as quais A Peste, que o lançou como a uma catapulta rumo ao estrelato literário. Depois, paulatinamente, veio aquele seu distanciamento da esquerda francesa e aquela aliança do partido com os soviéticos de Stalin. Camus, nessa época,já estava se posicionando contra o engajamento “irresponsável” dos intelectuais em regimes já abertamente genocidas, como se apresentava o de Moscou. Realmente não entendo da onde você, Saint-Clair, tirou essa defesa que todo o mundo estava fazendo da obra de Camus (?). Até onde eu sei, ele teve que trabalhar um bocado pelo seu reconhecimento, e “A qUEDA”, ROMANCE, é bem o retrato do isolamento a que o escritor argelino se viu jogado durante uma boa parte do seu “engajamento”. ( Jà está longo demais, e tenho que parar, desculpem…)

  • Marcelo ac 20/07/2010 at 14:04

    Errata: Manuel da Costa Pinto não é biógrafo, é estudioso da obra.

  • Marcelo ac 20/07/2010 at 17:55

    Parte II
    Com “O Homem Revoltado” Camus não só desmistificou a revolta e os revoltosos, que até então eram quase alçados a condições de heróis, seres praticamente sagrados, como foi a primeira manifestação de um intelectual contra a revolução. Contra aquilo que entendiam ser a revolução, como a entendiam e como a divulgavam. Foi um verdadeiro ato de bravura, justo para quem estava rodeado por uma “inteligência” dominada pelo partido comunista francês e seus flertes. Naquela época quase todos eram de esquerda, e Camus foi uma voz solitária no meio desse torvelinho. Sua bravura é o que cativa, sua ousadia, sua coragem por ter se levantado contra as maiores vozes da França. E por fim, ter-se reaprumado mais tarde com obras que procuraram romper com o silêncio e o isolamento com que acabou se defrontando. Obras como “A Queda” são as respostas a esse período, ao modo como tudo aquilo acabou afetando a sua própria criatividade.
    Sua obra perdura não por causa de “redes”, mas por puro valor intrínseco a ela mesma – por ter se mostrado válida até os dias de hoje. Não só por causa do “absurdo”, mas por outras nuances, como as implicações do seu pensamento sobre o intelectual engajado.

  • Saint-Clair Stockler 21/07/2010 at 20:57

    @Marcelo ac – essa rede a que me referi não se circunscreve ao período inicial de Camus junto à intelectualidade francesa. Me refiro inclusive e principalmente à fase em que ele foi “reabilitado” (não gosto do termo, mas não me ocorre outro no momento), transformando-se nesse monstro sagrado que é, certamente, o Camus que as pessoas põe em oposição ao Simenon.

  • Marcelo ac 22/07/2010 at 20:53

    Saint-Clair, fiz essa defesa veemente, e talvez um pouco cansativa, porque ele é desses autores que a gente não se cansa de estudar. Só queria saber um pouco mais como chegar a sua fonte, não sei se seria indiscrição da minha parte, em todo caso fica aí a minha justificativa. Um abraço

  • Julio 23/07/2010 at 03:07

    Hoje em dia a gente já sabe, um comprimido de ritalina longa duração pela manhã e o Mersault ficava curado.

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial