Sociologia é na loja ao lado: a ‘literatura feminina’ e os anões albinos
Vida literária / 18/07/2015

Será verdade que só o relato de um anão albino estrábico nascido em Arapiraca no último quarto do século XX tem valor como reflexão sobre a forma única e intransferível pela qual os anões albinos estrábicos nascidos em Arapiraca no último quarto do século XX vivenciam sua condição humana? E se a história envolver um anão albino estrábico nascido em Arapiraca no último quarto do século XX – e gay? Ou, reparando bem, anã? Devemos criar...

Três histórias de glória fugidia
Antologia , Sobrescritos / 11/07/2015

O CLUBE Ele não saberia dizer ao certo como ou quando tinha entrado para o Clube. As cláusulas foram escritas com espirais de fumaça no ar frio sobre a calçada em frente a livrarias em noites de autógrafo, assinadas mais tarde com espuma de chope no tampo carcomido de mesas de latão, tudo tão vago que ele estaria desculpado se pensasse que tais recordações tinham a consistência de um sonho dentro de um sonho. Mas era concreta demais ...

Cinquenta tons de ódio à leitura
Vida literária / 04/07/2015

Os vapores embriagantes da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que hoje chega ao clímax, são ótimos, mas não negam: o Brasil é um país que despreza a leitura. Entre obrigações escolares, bobagens de autoajuda, cordilheiras de livros para colorir e milhões de exemplares de uma bomba subliterária chamada “Cinquenta tons de cinza”, o brasileiro médio anda lendo 1,7 livro por ano – mais ou menos. Os números costumam variar um...

Que cena! O retrato decrépito de Dorian Gray
Que cena! / 27/06/2015

É possível que para algumas pessoas a cena abaixo, um dos pontos culminantes do romance “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, publicado em sua versão final em 1891, contenha um spoiler. No entanto, imagino que para os leitores habituais deste blog sua leitura apresente tanta novidade quanto a “revelação” de que Jekyll e Hyde são a mesma pessoa. Ou de que Diadorim é mulher. A intriga básica do livro mais famoso de Wilde, a do re...

Três histórias de literatura e morte
Antologia , Sobrescritos / 20/06/2015

FINADOS (MANTRA DO ESCRITOR OBCECADO) Cervantes morreu em 22 de abril de 1616. Shakespeare o acompanhou um dia depois, 23 de abril de 1616. Sterne R.I.P. em 18 de março de 1768. No século seguinte, também em março, dia 22, do ano de 1832: Goethe. Flaubert tinha então dez anos, e 58 ao parar de envelhecer, em 8 de maio de 1880. Machado foi fazer companhia a Brás Cubas no dia 29 de setembro de 1908. Mais dois anos e Tolstoi perdeu a gu...

Que cena! O mosteiro à deriva de Antonio Carlos Villaça
Que cena! / 13/06/2015

“O mosteiro frio, austero, longe de mim, mosteiro monumental, de pedra, patrimônio histórico. Eu, de carne.” O confronto tão sucintamente expresso nessa descrição do Mosteiro de São Bento é a principal chave de leitura do mais conhecido livro de memórias do carioca Antonio Carlos Villaça (1928-2005), “O nariz do morto” (Civilização Brasileira), publicado em 1970. Cobrindo da infância ao início da idade adulta do autor, com destaque p...

Quem é Elena Ferrante? E isso importa?
Resenha / 06/06/2015

O mistério que envolve a festejada escritora italiana Elena Ferrante pode começar a ser desvendado pelo leitor brasileiro com a publicação de “A amiga genial” (Biblioteca Azul, tradução de Maurício Santana Dias, 331 páginas, R$ 44,90), o primeiro dos quatro volumes que compõem sua chamada “série napolitana”. Isto é, desde que se tome como autobiográfico o romance narrado por Elena Greco, que reconstrói sua infância e adol...

Que cena! O duelo de ‘Os detetives selvagens’
Que cena! / 30/05/2015

Em 2006, oito anos depois de sair na Espanha, chegou ao Brasil o romance “Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão). A data merece ser lembrada porque se trata de um acontecimento: embora já tivesse dado as caras por aqui com a novela “Noturno do Chile”, foi naquele momento, três anos após sua morte, que o escritor chileno – um desterrado que viveu no México antes de se radicar na ...

Três histórias de crítica e fogo
Antologia , Sobrescritos / 23/05/2015

FLAME WAR Diante de seu computador velhusco, Adolfo Pinho Rosa, o famoso crítico literário, bufava. Maxilar rangendo, testa vincada de rugas profundas, olhar de maluco, dedilhava sua última bomba atômica na épica batalha internética que vinha travando há mais ou menos duas horas contra Berilo di Carlo, o jovem escritor. Flame war era como chamavam em latim contemporâneo aquilo em que se entretinham madrugada adentro, além de Berilo e...

Que cena! A boiada de José J. Veiga
Que cena! / 16/05/2015

Trazer para a seção “Que cena!” o escritor goiano José J. Veiga (1915-1999) é uma forma de acenar para o adolescente que eu fui. O livro de contos “Os cavalinhos de Platiplanto”, de 1959, e o romance “A hora dos ruminantes”, de 1966 – ambos relançados recentemente pela Companhia das Letras em caprichadas edições de capa dura – me deram mais do que prazer de leitura naquele miolo da década de 1970 em que chegaram às minhas mãos. Veiga...

O jogo do Rogério
Vida literária / 09/05/2015

Acredito ter sido, no fundo, o inconformismo com o fato de literatura e vida parecerem habitar duas dimensões tão separadas da existência o que nos levou a inventar um jogo intrincado que misturava folhetim com uma espécie primitiva de RPG – este, embora já existisse, estava longe de fazer sucesso no Brasil e não pode ser considerado uma influência. Estávamos na primeira metade dos anos 1980 e éramos quatro amigos formandos ou recém-...

Knausgård: o inesperado poder da hiperbanalidade
Resenha / 02/05/2015

Por que alguém leria milhares de páginas autobiográficas de um escritor norueguês que levou e leva uma vida nada excepcional? Páginas centradas em experiências comuns como os problemas de relacionamento de um filho sensível com o pai fechadão e o medo que ele tem de repetir o modelo paterno desastroso quando se encontra por seu turno às voltas com fraldas e mamadeiras, enquanto se angustia por ver escorrer entre os dedos como areia (...

Três histórias de antigamente
Antologia , Sobrescritos / 25/04/2015

ERA UMA VEZ Eram os dois maiores poetas de seu tempo, um tempo remoto em que os homens morriam cedo, mas em compensação os rios eram cristalinos. O poeta do reino do norte era rico e famoso. Casado com a mulher mais bela e cobiçada do mundo, que o acompanhava aonde fosse, era autor de odes e epicédios que o rei encomendava para comemorar as datas cívicas e que o povo ouvia em meio a arrepios festivos ou contrito silêncio, conforme o ...

Que cena! Os ecos de Juan Rulfo no país da Santa Muerte
Destaque , Que cena! / 18/04/2015

“Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo.” Assim começa, inesquecivelmente, o único romance escrito pelo mexicano Juan Rulfo (1917-1986). Precisava mais? “Pedro Páramo” (Record, 2004, tradução de Eric Nepomuceno), publicado em 1955, é uma obra-prima de escassas 150 páginas que projeta uma sombra gigante na paisagem da literatura latino-americana, multiplicando-se em ecos numa infinidade de outro...

Literatura brasileira contemporânea, um diálogo crítico
Sobrescritos , Vida literária / 11/04/2015

– A literatura brasileira contemporânea é uma imensa montanha de cocô. Não produz nada que chegue aos calcanhares da potência de Machado, Rosa ou Clarice. – Pra que ir tão longe? Vamos combinar que também não chega aos pés de Raduan ou do Rubem Fonseca dos bons tempos. – Exato. A literatura virou um espetáculo cheio de som e fúria, mas sem sentido. A tal vida literária tem mais importância do que a arte literária propriamente dita (e...

Literatura de A a Z
Vida literária / 04/04/2015

Acorde pensando no livro. Banhe-se pensando no livro. Coma pensando no livro. Durma pensando no livro. Evite reler o resultado de um bom dia de trabalho mais de sete milhões de vezes. Fracassou? Se fracassou melhor do que antes (crédito para o Beckett), está no caminho certo. Guarde no fundo da gaveta os melhores elogios que receber, para esquecê-los meticulosamente no dia a dia – até precisar deles como agasalho quando vier (virá) a...

ATÉ LOGO
Vida literária / 28/03/2015

Tirei umas breves férias desta coluna – e do Sobre Palavras – para participar do Salão do Livro de Paris, que este ano teve o Brasil como país homenageado, e atender a outros compromissos de lançamento da tradução francesa de “O drible”. Sábado que vem estarei de volta com novidades. Até lá!

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