Palavra

13/06/2009

Segundo o site da BBC Brasil, a empresa americana Global Language Monitor (GLM), que mede a ocorrência de vocábulos na rede mundial de computadores, anunciou que a língua inglesa acaba de ganhar sua milionésima palavra: Web 2.0. A “descoberta” foi criticada por dicionaristas, mas nem chega a se qualificar como polêmica: sua falta de rigor fica evidente no fato de que Web 2.0 não é sequer uma palavra, mas uma locução composta de uma palavra e dois algarismos. Isso lança descrédito sobre outra informação da GLM, a de que o inglês ganha um novo vocábulo a cada 98 minutos.

É inegável, porém, que a língua de James Joyce – para citar um escritor que gostava de inventar palavras – leva vantagem quantitativa quando se trata de vocabulário. Enquanto o inglês aspira a um número de sete dígitos, o maior dicionário da língua portuguesa, o Houaiss, tem cerca de 228.500 verbetes. Uma prova de subdesenvolvimento do português?

Vamos com calma. Latim contemporâneo, o inglês é o idioma em que a maioria das inovações técnicas e científicas dos últimos cem anos foi batizada primeiro. Se o critério numérico impressiona os desavisados, está longe de medir saúde linguística. Grande parte dessa “riqueza” é composta de obscuros termos especializados sem circulação social.

Curiosamente, palavra veio do latim parabola, por sua vez saído do grego parabole. Parábola, como se sabe, é uma história alegórica que dá seu recado indiretamente. A mensagem indireta que se pode extrair da fúria quantificadora da GLM é que as palavras, por mais numerosas que sejam em estado de dicionário, dependem do aspecto qualitativo para ganhar vida. Enquanto Machado de Assis precisou de 2 mil para escrever sua obra-prima “Dom Casmurro”, gasta-se muita palavra por aí com notícias que, espremidas, rendem no máximo um artiguete ameno como este.

Publicado na “Revista da Semana”.

2 Comments

  • João Daltro 13/06/2009 at 14:11

    É bom lembrar que o fato de o Houaiss e o Aurélio terem muito menos verbetes do que, digamos, a edição completa do Dicionário Oxford, deve-se também a serem ambos os dicionários brazucas incompletíssimos. E não me refiro a neologismos, mas a vocábulos que marcam ponto em nossa língua desde os tempos das trovas de D. Diniz.
    Certo, melhor com eles do que sem eles (o Houaiss e o Aurélio), mas os dois, em termos de abrangência, chegam quanto muito ao nível dos “advanced learners”, para usar mais uma vez o exemplo do Oxford. Passam longe do Oxford English Dictionary, com seus 20 volumes, ou do Grand Robert, com outros tantos.
    Constam que estão tentando reviver o Caudas Aulete, que era mais parrudinho; quem sabe, talvez, o velho Moraes? Fazer um dicionário mais amplo do que as limitações do mercado permitem era uma boa missão a ser assumida pelo governo, o português brasileiro precisa e merece.

  • Noga Lubicz Sklar 14/06/2009 at 10:42

    Nem me fale. Essa loquacidade do idioma inglês, minha delícia enquanto leitora/cronista apaixonada de James Joyce, é meu pesadelo cotidiano enquanto brasileira subliterartista chinfrim, casada com literato americano. Tô passando o link da BBC pra ele: o primeiro milhão de vocábulos a gente nunca esquece.

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