Para calvinistas e não-calvinistas

28/09/2006

FERNANDO ARRABAL, espanhol, vinte e sete anos, pequeno, cara de criança com uma barba que parece um colar e franjinha. Há anos vive em Paris. Escreveu peças teatrais que ninguém nunca quis encenar e também um romance publicado pela Julliard. Passa fome. Não conhece nenhum escritor espanhol e os odeia todos porque dizem que ele é um traidor e gostariam que fizesse realismo socialista e escrevesse contra Franco e ele se recusa a escrever contra Franco, ele nem sabe quem é Franco, mas na Espanha, se não formos contra Franco, não podemos publicar nada nem ganhar prêmios literários porque quem manda em tudo é Goytisolo, que impõe a todos o realismo socialista, ou seja, Hemingway-Dos Passos, ele nunca leu Hemingway-Dos Passos, nem sequer leu Goytisolo porque não consegue ler realismo socialista, e deixando de lado Ionesco e Ezra Pound não gosta de muita coisa. É extremamente agressivo, brincalhão de forma obsessiva e lúgubre, e nunca se cansa de me bombardear com perguntas sobre como é que eu posso me interessar por política e também sobre o que se faz com as mulheres. Seus objetivos polêmicos são dois: política e sexo. Ele e os blousons noirs, dos quais se faz intérprete, nem sequer conseguem entender como pode haver pessoas que achem política e sexo interessantes. Interessa-se apenas por cinema (especialmente cinemascope, technicolor e gângsteres) e fliperamas. Depois de ter deixado o seminário (estudava para ser jesuíta, na Espanha) nunca teve contatos sexuais, ao que parece nem sequer com sua mulher (está casado há três anos) e nunca teve vontade de tê-los, o mesmo se dá quanto à política.

Pelo estilo, é impossível adivinhar o autor desse sumário, maldoso e divertidíssimo retrato de um artista quando jovem – no caso, um jovem que em poucos anos se tornaria famoso em todo o mundo como um superdramaturgo, autor de “O arquiteto e o imperador da Assíria”. O miniperfil foi rabiscado por um sujeito conhecido por textos muito mais limpos e elegantes: o escritor italiano (nascido em Cuba) Italo Calvino (1923-1985). É parte de uma das cartas endereçadas por Calvino à sua editora em 1959, quando ganhou uma bolsa para jovens escritores nos Estados Unidos. Na mesma turma estava Arrabal – e deveria ter estado também o alemão Günter Grass, que, no entanto, foi barrado no exame médico por conta de pulmões avariados e não pôde entrar no país. (O júri que selecionou esse pessoal também merecia um prêmio.)

O livro “Eremita em Paris – Páginas autobiográficas” (Companhia das Letras, tradução de Roberta Barni, 264 páginas, R$ 39,50) reúne cartas, anotações para uma autobiografia que nunca foi escrita, entrevistas. Ou seja, é o próprio baú do Calvino. Nem sempre esse tipo de material merece recomendação, mas acho que o fragmento acima fala por si. Eu, que por alguns anos fui um calvinista juramentado, estou me divertindo à beça.

6 Comments

  • Eu também 28/09/2006 at 17:49

    Sérgio, eu já sou fã do Ítalo Calvino, de carteirinha e véu ,desde que, para minha sorte, me indicaram o livro “Se uma tarde de inverno um viajante”. Livro para TER, daqueles que a gente não empresta, ou melhor, daqueles que a gente compra outro só para emprestar para muita gente e espalhar a felicidade ao redor.
    Obrigada pela dica e por compartilhar.

  • anrafel 28/09/2006 at 18:41

    De Calvino, li primeiro “As Cidades Invisíveis” e aí a paixão foi inevitável. Mas, Hemingway realismo-socialista é um pouquinho demais, né não?

  • Saint-Clair Stockler 28/09/2006 at 22:27

    Ah, quer dizer que até mesmo o meu amado Calvino – um límpido estilista da língua (atenção: não estou falando daquela que temos dentro da boca!) – andou cometendo essas malvadezas? Ponto pra ele!

  • Noga Lubicz Sklar 29/09/2006 at 08:59

    O interessante desta pagina momentânea do blog é o retrato fiel das aflições de um escritor que, não tendo ainda encontrado o caminho do estrelato, sente-se incapaz de abandonar o ofício em favor de outro mais favorável. Prova de que, apesar de dolorosa, a persistência é necessária. E, em certos casos, a sorte de encontrar alguém que lhe dê a dica certa para a próxima tarde no Jóquei Clube. (pouco importa se o objetivo é visitar a Primavera de Livros ou apostar nas corridas)

  • Pedro Curiango 03/10/2006 at 02:05

    Interessante a descrição que Calvino faz de Arrabal. Seria perfeita se não fizesse a grande besteira de colocar Hemingway, Dos Passos e Goytisolo dentro do “realismo socialista”. Aliás – sem querer contar prosa – tive oportunidade de ver Arrabal uma vez, quando assisti a uma conferência sua, em fins da década de 60. Estávamos na áurea época dos “streakers”, sujeitos que apareciam, correndo nus durante solenidades. Houve até mesmo um “streaker”, na época, que apareceu na festa de entrega dos Óscares. Pois não é que Arrabal, que era conhecido então por uma peça bastante medíocre, “Cemitério de Automóveis”, resolveu dar uma de “streaker” e, antes da conferência, atravessou o palco em pelo, correndo. Entrou nos bastidores, vestiu-se com um robe qualquer e voltou para falar para o público. Foi a conferência mais “épatante” que já assisti em toda minha vida… e hoje, muitos anos passados, a única coisa de que me lembro é da então nudez do conferencista e de seu robe enxadrezado. Nem sei mais sobre que falou…

  • Clarice 03/10/2006 at 14:26

    Se a Gallimard vier aqui não vai gostar.
    Pound era chegado e Günter Grass acabou de declarar que serviu à uma unidade de elite da SS aos 16 anos.

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