Patrimonialismo

25/04/2009

Ao fazer seu mea culpa no caso do uso abusivo pelos parlamentares de passagens aéreas pagas pelo contribuinte, o deputado Fernando Gabeira deu certa profundidade ao debate: “Agi como se a cota fosse minha propriedade soberana”, disse a Josias de Souza, da Folha de S.Paulo. “Confesso que caí na ilusão patrimonialista brasileira.” O uso do conceito de patrimonialismo, termo do vocabulário sociológico, é preciso. Estranho é vê-lo associado à palavra ilusão.

Patrimonialismo vem de patrimônio, do latim patrimonium – em seu sentido original, conjunto dos bens paternos, herança familiar. Mas o significado que vem ao caso nasce como um conceito cunhado pelo jurista alemão Max Weber (1864-1920), um dos pais da sociologia. Em linhas gerais, trata-se de uma forma de dominação política comum em regimes absolutistas, em que o governante não diferencia bens particulares de públicos, tratando a administração como assunto pessoal.

O patrimonialismo weberiano encontrou solo fértil no pensamento brasileiro do século 20. O primeiro a usá-lo foi Sérgio Buarque de Hollanda no clássico Raízes do Brasil. “Para o funcionário ‘patrimonial’, a própria gestão política apresenta-se como assunto de seu interesse particular”, escreve ele, parecendo falar do que ocorre hoje no Congresso. “As funções, os empregos e os benefícios que deles aufere relacionam-se a direitos pessoais do funcionário e não a interesses objetivos, como sucede no verdadeiro Estado burocrático, em que prevalecem a especialização das funções e o esforço para se assegurarem garantias jurídicas aos cidadãos.”

Como se vê, longe de ser uma “ilusão”, o patrimonialismo é um sistema bem real, tratado por Raymundo Faoro em outro livro clássico, Os donos do poder, como a característica mais marcante do Estado brasileiro. Não vai ser tão fácil sair dessa.

Publicado na “Revista da Semana”.

27 Comments

  • Rafael 25/04/2009 at 15:29

    Plantão do universitário pentelho, Sérgio: nunca havia visto o Weber ser citado como jurista. Na maioria das vezes ele é considerado sociólogo mesmo, mas em algumas outras (principalmente em textos de seus contemporâneos, quando a profissão de sociólogo ainda não estava estabelecida) ele era considerado historiador ou economista. Ao menos essa é a minha experiência.

    Abraço

  • Sérgio Rodrigues 25/04/2009 at 16:08

    Rafael, toda a formação básica de Weber foi em Direito. História e economia foram interesses posteriores e paralelos, sempre ligados a aspectos legais, e a sociologia, como eu disse, ele ajudou a inventar. Daí minha opção por apresentá-lo como apresentei. Um abraço.

  • Mariana 25/04/2009 at 16:23

    Não importa, necessariamente, qual a especialidade científica de Weber…
    A propósito, patrimonialismo para os sociólogos, ilusão para os delirantes, instâncias possivelmente imbricadas quando o assunto é o Estado brasileiro, convenhamos!
    “Não existe pecado do lado de baixo do Equador…” Já dizia o filho artista de um Sociólogo Delirante – e a gente compreende e estranha, como deve ser.
    Eu salvo o Gabeira, por mim, estaria perdoado. Espero que ele consiga resistir às tentações… que são muitas…
    Espero que ele tenha ilusões de outros tipos – menos patrimoniais.
    Abraços.

  • Lya Tapajós 25/04/2009 at 16:32

    O Gabeira trocou tentação por ilusão. Não vai ser fácil sair dessa mesmo não.

  • Cláudio Soares 25/04/2009 at 17:31

    Sérgio, este seu trabalho etimológico é muito bom. Parabéns!

  • andre 25/04/2009 at 18:49

    Não adianta tentar limpar a barra. Como todos os outros, Gabeira também fez besteira. Agora finge ser uma arrependida madona. Mais uma prova que não ha virgens na zona…

  • José Martins da Silva 25/04/2009 at 19:14

    Não considero diferente de outro nenhum dos deputados patrimonialistas que usou o benefício público das passagens, para mim um privilégio descabido, vez que aos trabalhadores, a população brasileira em geral, nenhum benefício é concedido. Desculpas, cada um tem a sua e esta de Gabeira é hilária, como uma pessoa com a bagagem política dele pode ter ilusões, tentações, ou que nome queira dar, numa questão dessa? É o vício patrimonialista tão bem descrito por Sérgio Rodrigues.

  • Reinoldo 25/04/2009 at 20:04

    A verdadeira REVOLUÇAO, ainda não foi feita no Brtasil, portanto, enquanto não chega, é isto aí. Ainda, Gilmar, Sarney, Collor, Ditabranda, ???????

  • Aluízio Valério da Silva 25/04/2009 at 21:38

    Esse cerolinha, quer dorar a pílula; mas ninguem é bobo!

  • EDSON CIRIACO DA SILVA 25/04/2009 at 23:24

    ‘GRANDE SEGIO RODRIGUES’ Sua Matéria tem um fundamento impressionante que gera em alguns momentos um clima de nostalgia , descrita de formas incertas politicamente . Agradecimentos.

  • Sérgio Eduardo Caillet 25/04/2009 at 23:38

    O Gabeira acaba de “perder” a sua Tanga ou Fio Dental

  • jose 25/04/2009 at 23:42

    n s epode nem mais viajar por conta do dinehiro publico que aturma do contra já ta com o dedo no gatilho, essa tal dita farra do congresso que dizem que eles deitam e rolam com nosso dinehio n é mais do que doiis bilhões de reais, durante um ano todo para todas as despesas do governo no escandalo do mensalaão envolve se mais de 100 bihões e o lula foi reeleito, parem d epgr no pe dos congressistas gente, n tem mais do que fazer ficar aqui metendo o pau como se iria adiantar ficar escrevendo bobra aqui ou bobrinha,

  • jose 25/04/2009 at 23:44

    o dia que politico n puder mais roubar ai n sera politica acaba a graça, politico bom ´o que rouba bastante, sem ninguem perceber, assim como o lula faz ele rouba e o povo fica falando nessa ninharia do congresso

  • nei 25/04/2009 at 23:44

    Não acredito que o Gaberia seja um inocente, nos braços da ilusão. Ou um tonto no admirável mundo dos incautos. É, também, um protagonista de uma vergonheira que parece ultrapassar as fronteiras partidárias, ideológicas, de opção sexual e por aí, sendo que não há como explicar, senão reconhecendo que agiu sob o manto da corrupção pura e simples. Usou o que não era seu, de forma como se proprietário fosse. É preciso ter decência e reconhecer o erro. Ou, então, como os orientais, praticar o “harakiri”, como forma de pedir perdão e adentrar os portais da eternidade com dignidade. Mas, parece que, no Brasil, a dignidade é produto em falta…

  • Sérgio Eduardo Caillet 26/04/2009 at 00:00

    Respondam: Qual é o verdadeiro sinônimo de Ilusão patrimonialista

  • EDSON CIRIACO DA SILVA 26/04/2009 at 00:54

    Em resposta de’ Sergio Eduardo Caillet’ : É o que contradiz a história de um ato oportuno em relação da causa dita do acontecimento. Grato!

  • Paulo 26/04/2009 at 03:39

    SIMPLISMENTE AGEM AGORA COMO SE NAO SOUBESSEM O
    QUE ESTAVAM FAZENDO…

    SAO TODOS, TODOS IGUAIS SIM.
    NAO HA DIFERENCA.

  • Paulo 26/04/2009 at 03:47

    NO SENADO, NA CAMARA – SOTAQUES ARRASTADOS
    PRA CA, SOTAQUES ARRRASTADOS PRA LA……

    INCLUINDO OS DAQUI DE SAO PAULO…..

    ESTA GENTE NAO MERECE A MENOR CONSIDERACAO.

    POLITICO, PROSTITUTAS, BANDIDOS, INFELIZMENTE NAO CONSEGUEM SE DIFERENCIAR UNS DOS OUTROS.

    QUEM SABE UM DIA, CONSIGAM.

  • Antonio Roberto 26/04/2009 at 08:49

    Gabeira assumiu que perdeu a virgindade ética e se prostituiu ao aderir aos maus costumes do Congresso. Se todo mundo está usando, por que não eu ? Mesmo que isso seja deplorável…Quem disse que mudamos de governos? Só mudamos de quadrilhas!

  • luca 26/04/2009 at 11:04

    Continuo dizendo que a farra existe porque tem dinheiro demais destinado ao Congresso. Vamos limitar as verbas para o necessario estritamente para a sua manutenção. Sem dinheiro a farra acaba.

  • Marcus Wagner 26/04/2009 at 11:10

    Viajando…
    Eu tô viajando
    no barato da minha onda
    Não sabia pra onde ia
    e nem quem pagava a conta
    Fazia tempo que não consumia
    então deu a nóia de ir pra Holanda
    iludindo a todos, até mesmo eu vou me convencendo
    explicação atrás de explicação
    assim eu vou me mantendo…

  • vicente de paula alves 26/04/2009 at 11:20

    Caro Sergio,ajude a fomentar uma campanha nacional para enfrentamento da farra em todas as circunstancias na politica brasileira, no Judiciario e no jornalismo. Afinal, até quando seremos vitimas destes párias sociais.
    Será que tudo bem, sem problemas par o cidadão.
    Ainda não morremos.

  • corinthiano do Programa Pânico 26/04/2009 at 11:25

    ……..Ronaldo!

  • Marcus Wagner 26/04/2009 at 11:39

    …na política dessa vida
    só se dá bem quem é malandro
    na carteira alheia passa a mão
    e sai gritando pega ladrão
    Mas espera pra ver que tudo tem seu preço
    o bilhete, o voto e a paciência da nação
    seja aqui ou em outro endereço…
    O tempo é esse !

  • marilda 26/04/2009 at 11:39

    Caro Paulo, por favor, não rebaixe as prostitutas para a mesma categoria dos politicos, pois ao contrário desta corja de vagabundos, as nobres prostitutas fazem jus ao dinheiro que ganham. Abraços.

  • AIRTON - O CÉTICO 27/08/2009 at 21:34

    INFELIZMENTE AQUELE QUE PARECIA COERENTE FICOU ELAMEADO PELO USO DO PÚBLICO COMO SE FOSSE PRIVADO.
    NÃO CREIO NO JEITO INOCENTE E MUITO MENOS EM DEPUTADOS, CUJO NOME JÁ DA MARGEM A IDÉIA DE UMA ZONA DO MERETRÍCIO.

    AIRTON – O CÉTICO

  • Francisco 24/11/2009 at 17:47

    O patrimonialismo é o conceito utilizado principalmente pelo Faoro no Brasil. O Sergio Buarque de Hollanda não trabalha mais com o de paternalismo?

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