O dia em que Pelé desafiou Deus

31/08/2013

httpv://www.youtube.com/watch?v=-UzRsvCsC4c

Adianto abaixo o primeiro capítulo de meu novo romance, “O drible”, que será lançado no dia 26 de setembro pela Companhia das Letras. Antes, durante ou depois da leitura, recomenda-se assistir (acima) ao mais famoso quase-gol da história do futebol. Outro trecho do livro foi publicado pela “Folha de S.Paulo” no caderno Ilustríssima de domingo passado, aqui. Para os leitores do Rio: estarei hoje às 18h30 no Placar Literário da Bienal do Livro para falar de “O drible” e os dribles que a literatura pode dar. Apareçam.

*

A TV é uma velha trambolhuda de tubo de imagem.

O lance não deve ter mais de dez segundos, mas com as interrupções de Murilo enche minutos inteiros enquanto ele narra sem pressa, play, pause, rew, play, o que na época foi narrado com assombro.

O que você vê primeiro é uma imagem parada que logo identifica como da Copa de 1970 pelo short da seleção brasileira, que é de um azul mais claro que o habitual, além de escandalosamente curto para os padrões de hoje. Tostão, cabeçudo inconfundível, número 9 às costas, conduz a bola observado a certa distância por um sujeito de camisa azul-clara e calção preto. Murilo solta a imagem por três segundos, Tostão conduz a bola, e quando volta a congelá-la Pelé aponta no canto superior direito do quadro e você sente um tranco na barriga como se a velocidade do mundo desse de repente um arranque, alguém ligando um acelerador de partículas. O velho segue na sua narração caseira, aí então, diz, olha só, nós vemos aquilo que o Tostão também acaba de ver, Pelé se projetando da meia direita feito um bicho, uma pantera com sangue de guepardo.

O ímpeto é logo contido, editado, rew, play, pause, play. A bola sai do pé do Tostão, volta, sai, volta. O passe do cara é perfeito, diz Murilo, sentado perto de você no sofá junto da lareira acesa, uma criança brincando com sua pistola de laser. Um miligrama de força a mais ou a menos, seria quase perfeito, praticamente perfeito, mas não, é perfeito, metido da meia esquerda com o pé esquerdo numa linha diagonal de desenhista de Brasília, a mais leve curvatura, em direção ao centro da grande área. Nesse momento a imagem começa a andar para a frente em câmera lentíssima. De repente tudo o que vemos, a voz do homem é baixa e roufenha, sem o tom de comando de antigamente, tudo o que vemos é Pelé correndo em direção a uma bola branca, mas aí vem o goleiro e agora a bola está entre Pelé e o goleiro, mais perto do grande crioulo mas cada vez menos, porque o goleiro, aliás o famoso Mazurkiewicz, o goleiro resolve ir à luta e sai com tudo da área, não quer nem saber.

Pausando a imagem outra vez, Murilo aponta os olhos para você. Quantos anos você tem, Tiziu? Cinquenta, quase? Ah, mais do que o bastante para já ter abandonado a fé cega na razão e saber que nossos cérebros de caçadores pré-históricos fazem incrivelmente rápido os cálculos envolvidos num problema desse tipo: quem vai chegar na bola primeiro. Nem chamamos mais de cálculo, tão rápidas são essas operações mentais, chamamos de instinto. Nosso instinto diz que o Pelé vai chegar antes do Mazurka, não diz? Mas vai ser por pouco. O quíper uruguaio faz o que pode, entra no semicírculo um milésimo de segundo antes do Pelé, mas não a tempo de interceptar a bola. Esta fica entre os dois e nós voltamos a sentir, como o Mazurka também sente, que está mais para o negão que vem no embalo. O que o bom goleiro da Celeste faz é se ajoelhar e, mesmo já estando fora da área, que remédio, abrir os braços.

Congelada, a imagem do velho videoteipe fica distorcida. Parece que o negro de camisa amarela e o branco todo de preto vão colidir, quem sabe se fundir, feixes luminosos tentando esquecer que um dia foram carne.

Olha o Mazurkiewicz, diz o velho. Ninguém precisa ser telepata para saber que ele torce para o Pelé buscar o gol dali mesmo, é o que faria a maior parte dos atacantes, porque nesse caso teria uma chance de impedi-lo. Só pode rezar para que o brasileiro não faça o que um jogador da envergadura dele provavelmente vai preferir fazer, isto é, cortar o goleiro para a esquerda, coisa fácil na passada em que vem, movimento que levaria a das duas, uma: ou o goleiro agarrar faltosamente as pernas do Pelé ou o Pelé concluir de canhota para o gol aberto ou quase, defendido só pelo zagueiro que, não demora, vai entrar no quadro esbaforido feito quem está prestes a perder o último trem e acabar às cambalhotas pelo chão. O nome desse infeliz era Ancheta. Só para constar.

Murilo olha para você com um meio sorriso. Seus olhos espelham as chamas da lareira e têm um fulgor frio que você não se lembra de um dia ter visto, um olhar que parece já quase póstumo, brasas minúsculas dentro do gelo. Agora eu te pergunto, Neto, por que o Pelé não fez isso? Era a coisa certa, não era? Óbvio que era, pedrinhas fosforescentes no gramado, um caminho que ele já tinha trilhado um trilhão de vezes igualzinho, zunindo da meia direita para o centro da área atrás da bola enfiada pelo Coutinho ou pelo Zito, ou por Didi na seleção. Mas de repente estamos em 1970, a bola é passada pelo Tostão e, aí é que está, Pelé já é Pelé. Está farto de saber que é um mito, um semideus, o que tem a perder tentando ser um deus completo? Aí ele não faz o certo, faz o sublime. Troca o caminho batido do gol, o gol certo que tinha feito tantas vezes, pelo incerto que, como veremos, jamais faria.

Na TV, enquanto os dois borrões lentamente se fundem, a bola, um descalabro, passa por eles. Como se eles fossem porosos, o espírito esquecido de que é carne no ato mesmo, antecipando o videoteipe.

Rá, você ri nem tanto de surpresa, reconhecendo o lance tantas vezes visto, mas feliz, como sempre, com seu retorno. Você olha para a TV e Murilo olha para você, estudando sua reação. Parece satisfeito com o que vê.

Na sua recusa em tocar na bola feito um Bartleby súbito, diz, Pelé refinou o futebol à sua essência mais rarefeita. O futebol virou ideia pura e de repente homens, bola, ninguém mais se comportava como seria de esperar que se comportasse neste mundo vão. Apanhado de surpresa como todos nós, o pobre Mazurka vê a bola passar à sua esquerda e ir cortar feito faca o filé direito da grande área, enquanto Pelé é um flash auriceleste que chispa para o lado oposto.

No tubo de imagem o goleiro uruguaio dá as costas para a bola, tem um joelho no chão e o pescoço torcido para a direita, olhando o atacante que vai embora, como se tivesse passado uma ventania. E à esquerda do quadro, distante demais da bola, já dentro da grande área e mais borrado do que nunca, Pelé começando a modular os pés para mudar de rumo.

O que o Pelé tem que fazer agora é bem facinho, mamão, é ou não é?, o velho abre um sorriso em que se vê com nitidez a sombra da caveira que logo será. Tem que frear para corrigir radicalmente seu ângulo de deslocamento, frear e no mesmo instante recomeçar a correr na outra direção, atrás da bola agora, ele que vinha no tropel mais desembestado fingindo ignorá-la. Acabou o reinado da ideia pura, sublime demais para durar no tempo, o mundo material se impõe outra vez com sua massa, sua aceleração, as leis da física todas. O cara tem que dar uma quebrada de noventa graus e não perder velocidade porque, veja bem, há que chegar na bola antes dos adversários e ainda com um bom ângulo de chute.

Murilo solta a imagem, Pelé consegue fazer as duas coisas, que beleza, congela-a de novo. Vai chutar e marcar, todos antevemos isso, o estádio de pé com seus pulmões que nesse momento podiam ser todos de pedra, diz, floreando um pouquinho, pois não inspiram nem expiram: vai chutar e fazer o gol. Acontece que não é tão simples porque Pelé agora está do lado errado da bola, meio de ombro para o gol, tem que bater nela num movimento de meio giro. E aí, meu Deus, ele erra. Pelé erra. Perde o gol que não poderia deixar de perder, pensando bem, para que o mito se consumasse.

O que você vê na imagem solta pela última vez, a definitiva, é o seguinte: enquanto o tal Ancheta que ia perder o trem se estabaca na grama, a bola chutada por Pelé tira fino da trave direita do Uruguai. Linha de fundo, fato consumado, o craque dos craques sai chupando um gelo catado por ali com expressão levemente contrariada, mas serena.

O velho detém o vídeo. Pousa o controle remoto no braço do sofá, olha nos seus olhos outra vez e diz, o que houve aqui, Neto, foi simples: Pelé desafiou Deus e perdeu. Imagine se não perdesse. Se não perdesse, nunca mais que a humanidade dormia tranquila. Pelé desafiou Deus e perdeu, mas que desafio soberbo. Esse gol que ele não fez não é só o maior momento da história do Pelé, é também o maior momento da história do futebol. Você entende isso? A intervenção do sobrenatural, o relâmpago de eternidade que caiu à esquerda das cabines de rádio e TV do simpático Jalisco, 17 de junho de 1970? Pois posso garantir que foi isso que aconteceu, eu estava lá e sei, e se for mais ainda eu não vou me surpreender, mas foi isso, no mínimo, que aconteceu e que o videoteipe nos dá a graça de ver e rever para sempre, está vendo? Coisa tremenda, Tiziu.

Pondo-se de pé com dificuldade, afasta-se da bolha de calor criada pela lareira e caminha até a varanda. Você vai atrás. Passa pouco do meio-dia, mas o inverno chegou com determinação. O hálito gelado que vem da mata os abraça e nesse momento você vê seu pai em Guadalajara, um jovem de mais de trinta com costeletas de Félix, bigodão de Rivelino, tomando cerveja com guacamole enquanto aqui embaixo se acabava o mundo tal como você, em seus cinco anos, o conhecia. É como se a vida inteira tivesse como único gonzo aquele verão mexicano, inverno no Brasil, quando seu pai não foi na bola, o drible de Pelé em Mazurkiewicz quebrou a espinha do destino e o mundo degringolou. Há desses momentos em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo, passado e futuro achatados em presente, o mesmo que dizer que nada jamais aconteceu ou acontecerá, tudo está sempre acontecendo sem chegar a atingir o ponto em que o gesto se completa. No domingo em que Murilo Filho lhe mostra em sua casa no Rocio o gol que Pelé não fez, você se dá conta pela primeira vez na vida de que aquele era o mesmo dia – 17 de junho de 1970 – em que Elvira driblou a frouxa segurança de um semipronto elevado do Joá para se atirar nas pedras batidas pelo mar lá embaixo. Claramente, como se uma luz de açougue acendesse dentro da sua cabeça, vê-se preso para sempre naquele dia, play, pause, rew, play, enquanto Pelé não fizesse o gol estaria preso dentro daquele dia, sonhando que a vida tinha continuado. Nesse momento você olha para o seu pai e revive pela última vez, com violência assombrosa, o velho sonho de matá-lo.

Isso porque o Peralvo nunca jogou a Copa, diz Murilo, parecendo imune às ondas de morte que emanam do filho, olhar perdido na crista verde-chumbo dos morros recortados contra o céu cinza. Peralvo era para ter sido maior que Pelé, Neto. Que merda de vida.

16 Comments

  • jumentinha 31/08/2013 at 21:06

    Inusitado. Conseguir um texto vivo, sem um ponto de exclamação. Pelo m
    enos, não vi ou me escapou…

  • Ismail 31/08/2013 at 21:58

    Puxa!, que capacidade narrativa!
    Enquanto lia, surpreendia-me torcendo por Pelé, como se a emoção e a sintonia com a narrativa pudessem alterar a realidade já consumada, e o gol pudesse ser feito. E eu queria que fosse.
    Deus há de me compreender: eu não sou Ele, mas sou à Sua imagem e semelhança.
    Estou desculpado. Pelé também.

  • Claudio Faria 02/09/2013 at 08:27

    Sérgio, antes de mais nada, parabéns! Futebol e boa literatura, combinação uma combinação maravilhosa. Sobre o trecho acima (excelente), vou deixar um trecho da coluna do Tostão desse domingo na Folha:

    “Terminei de ler o livro que gostaria de ter escrito, “O Drible”, um romance, uma ficção, do escritor Sérgio Rodrigues, que, brevemente, será lançado pela Companhia das Letras. O maior protagonista do livro é o futebol. Nas primeiras páginas, Sérgio descreve, de uma maneira espetacular, o famoso drible de Pelé no goleiro Mazurkiewicz, do Uruguai, na semifinal da Copa de 1970. Faço uma ponta no livro, pois dei o passe para Pelé fazer o quase gol mais bonito da história.

    Tentei escrever um romance, com o futebol de pano de fundo. As dezenas de folhas de papel, escritas à mão, acabaram na cesta de lixo. Seria mais um livro para ser esquecido nas estantes. Discordo que exista pouca literatura sobre futebol do Brasil. Falta um número maior de excelentes livros, como “O Drible”, talvez o único grande romance brasileiro sobre o assunto. “

    • sergiorodrigues 02/09/2013 at 11:15

      Obrigado, Claudio, Ismail, jumentinha (!). O espetacular artigo do Tostão citado pelo Claudio iluminou o domingo aqui, me fez ficar pensando que em alguma coisa eu devo ter acertado. Pensei em propor a ele uma troca de autoria: “O drible” por aquela genial sequência de dribles contra a Inglaterra em 70. Eu sairia no lucro! Abraços a todos.

  • Thiago Maia 02/09/2013 at 15:57

    A hora não é boa pela eliminação na Copa do Brasil. Mas você ainda acabará assumindo ser mais cruzeirense que rubro-negro.
    Falando sério, meus parabéns mais uma vez.
    E um abraço a todos.

  • Alex R.F. 04/09/2013 at 11:44

    Acompanho o blog faz um tempo, mas nunca li seus romances. Também leio Tostão às quartas e domingos – admito que especulei se ele não havia sido generoso demais na escolha das palavras. Francamente, não podia imaginar que você fosse capaz de escrever neste nível. Estou impressionado.

  • jumentinha 06/09/2013 at 17:42

    Alex, eu que estou impressionada com a sua impressão…

  • Alex R.F. 20/09/2013 at 11:42

    Rs, Jumentinha, vendo o seu comentário, e relendo o meu, talvez o que escrevi não tenha soado como um elogio tão empolgado quanto era para ser… Mas quando o elogio vem nesse tom meio ranzinza deve ser divertido para o autor.

  • jumentinha 26/09/2013 at 20:53

    Legal, Alex, perdoa, fui chata, né? Mas sua resposta, superou tudo.

  • rudiney fonseca 06/10/2013 at 08:46

    como é gostoso, ouvirmos de futebol – nossa alma – num dardejar de versos, mais que palavras, que nos acendem num domingo de sol.
    muito obrigado mas aquela bola devia ter entrado – talvez tenha sido o diabo.

  • PAULO 17/10/2013 at 16:18

    Prezado Sergio,
    O livro é ótimo, parabéns. Mas como também sou viciado nas séries dos anos 60/70, informo que há um equívoco de “enorme relevância” no livro. A organização para a qual trabalha Maxwell Smart é o controle e não a UNCLE….
    Abs

    • sergiorodrigues 28/10/2013 at 16:23

      Tem razão, Paulo. Um amigo já havia apontado esse deslize, que escapou a todo mundo envolvido na edição. Misturei com a série do Robert Vaughn! Estou arrasado, mas não há o que fazer. Fica para ser corrigido na segunda edição. Fico contente que tenha gostado do livro. Um abraço.

  • Ivan 17/05/2014 at 12:51

    O carater frio e calculista de Pele como pessoa apaga o atleta que tanto admirava.

  • Afonso 13/04/2015 at 18:40

    Reproduzo, a seguir, uma história sobre Pelé que li, ontem (12/04/15), na coluna 90 Minutos, do Caderno de Esportes do Jornal A Tribuna, de Santos. Com certeza, ela estaria no livro que Murilo Filho não escreveu: (…Quase 43 anos atrás, em 17 de maio de 1972, Pelé deu o que falar em jogo diante do XV de Piracicaba, em vitória por 1 a 0, na Vila Belmiro, pelo Paulistão. Mas não por um lance mágico daqueles costumeiros de sua carreira. Logo após um recuo de Pelé, desde a intermdiária, para o goleiro Cláudio, a torcida começou a vaiar, talvez descontente pela fraca atuação do time, em processo de renovação. Foi quando o Rei recebeu um passe da intermediária, correu para o meio-campo e mandou a bola em direção às sociais da Vila. Na época, Pelé disse que não havia gostado da reação das arquibancadas, especialmente para os que iniciavam a carreira, citando Leacyr e Adilson. Em entrevista concedida em 2012, chegou a dizer que achava se tratar de Clodoaldo, então já com alguns anos de profissional e campeão do mundo em 1970 pela Seleção. “As coisas não estavam dando certo e a torcida estava mal-acostumada. Quando vaiaram, acho que o Clodoaldo falou:’Pô, vou chutar essa bola na arquibancada. Ganhando e estão vaiando!’Aí eu respondi: Você é novo e está começando agora. Deixa que eu faço isso. E joguei”, lembrou o Rei do Futebol.) Sérgio: isso sim é manifestação, hem?

  • Nahílson Ramalho 01/05/2015 at 21:20

    Aqui vai uma história, real, cuja estrela é coadjuvante no Primeiro Capítulo do Teu Drible. Eu era estudante de engenharia mecânica ou matemática, na UFMG, Belo Horizonte, e morava no “Borges da Costa”, residência estudantil nos fundos da Escola de Medicina, em prédio que abrigara noutro tempo hospital especializado em tratamento de câncer. Uma noite estava de penetra no Diretório Acadêmico em companhia de outro borgeano, durante a comemoração da chegada de novos alunos que haviam concluído o básico no Campus da Pampulha e passavam então a ser nossos vizinhos. De repente, um sujeito baixinho e meio gordo deixou o grupo ao nosso lado, desceu a escada e se foi. O meu companheiro então perguntou:
    — Sabe quem é ele?
    — Não— respondi.
    — Tostão— Emendou Baiano.
    Minha alma estremeceu. O semideus maior de minha infância a dois passos de mim, e eu cego pela cerveja e salgados.

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