Pensamento de Freyre pode ser arma contra o racismo?

08/08/2010

Na mesa “Gilberto Freyre e o século 21”, a última da série de homenagens ao autor de “Casa grande & senzala”, o historiador Peter Burke, o sociólogo José de Souza Martins e o antropólogo Hermano Vianna confessaram sentimentos ambivalentes diante das ações afirmativas, como a política de cotas para estudantes negros: se por um lado há a evidente necessidade de corrigir desigualdades, por outro criam-se novos problemas para uma sociedade que, em parte graças a Gilberto Freyre, aprendeu a duras penas a se orgulhar de ser mestiça. “A obrigação que tem o estudante de se declarar branco ou negro significa a perda de uma poderosa arma de luta contra o racismo na sociedade brasileira”, disse Vianna.

Cada um a seu modo, os três falaram sobre como o pensamento de Freyre pode ser atualizado para a realidade de um novo século. Para Burke, “é preciso ir além de Gilberto Freyre, que usa um vasto vocabulário para falar de hibridismo cultural, mas não menciona a ideia de ‘tradução cultural’, que é fundamental para compreender as sociedades multiculturalistas de hoje”. Mesmo assim, acrescentou, Freyre tem “muito a nos ensinar” no desenvolvimento de ferramentas de tradução cultural.

Martins enfatizou a questão racial como um dos pontos mais atuais da obra de Freyre. “É um autor que não se deixa vencer pelas grandes interpretacões, que sabe estar atento aos detalhes. Não somos um país de referência da sociologia clássica. Não existe aqui o negro genérico, mas diversas etnias, diversas culturas, com ascensão social mesmo dentro da escravidão, da senzala para a casa grande, como mostrou Freyre. Mesmo que isso desagrade o negro miitante de hoje, não levar em conta detalhes assim prejudica sua compreensão política da questão.”

Hermano Vianna afirmou que acredita nas ideias de Freyre como agentes de transformação social. “Quero pegar as ideias de Gilberto Freyre e radicalizá-las”, disse. “Obviamente, o Brasil não é uma democracia racial e ele nunca disse isso. Obviamente, o elogio da mestiçagem foi usado em diversos momentos como forma de acobertar o racismo existente na sociedade brasileira. Temos que transformá-lo numa arma de combate ao racismo, que eu acredito ser o que ele queria desde o início.”

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