Philip Roth: ‘Adeus, Columbus’

09/12/2006

Críticas ao alto preço dos livros têm sido freqüentes na área de comentários do Todoprosa – com razão. Mais um motivo para comemorar o lançamento de “Adeus, Columbus”, livro de estréia do grande escritor americano Philip Roth (Companhia de Bolso, tradução de Paulo Henriques Britto, 288 páginas, R$ 19), composto do ótimo romance curto (ou novela) que dá título ao volume e mais cinco contos. Lançado em 1959, o livro é o primeiro a sair diretamente na linha de bolso da Companhia das Letras, sem ter passado por uma edição “normal”, e traz um Roth de preocupações joviais – embora já em pleno domínio de sua arte – falando do difícil amor do jovem Neil Klugman, judeu de classe média baixa, por Brenda Patimkin, judia rica. É um exercício interessante – ainda que melancólico – comparar o estilo daquele Roth de 25 anos com o dos últimos e crepusculares livros do autor a aparecerem aqui na seção “Primeira Mão”: O animal agonizante, em tradução do mesmo Paulo Henriques Britto, e o lancinante Everyman, ainda inédito no Brasil, num trecho vertido por mim. Leia abaixo uma das primeiras cenas de “Adeus, Columbus”.

Meu tio Max chegou em casa, e enquanto eu discava o número de Brenda mais uma vez ouvi garrafas de refrigerante sendo abertas na cozinha. A voz que atendeu dessa vez era aguda, seca e cansada. “Alô.”

Soltei o verbo. “Alô-Brenda-Brenda-você-não-me-conhece-quer-dizer-você-não- sabe-o-meu-nome-mas-eu-segurei-os-seus-óculos-hoje-no-clube… Você-me-pediu-pra-segurar-eu-não-sou-sócio-não-a-minha- prima-Doris-é-que-é-Doris-Klugman-e-eu-perguntei-quem-você-era…” Respirei, dando-lhe uma oportunidade de falar, e depois segui em frente em resposta ao silêncio do outro lado da linha. “A Doris? É aquela que está sempre lendo Guerra e paz. É assim que eu sei que chegou o verão, quando a Doris está lendo Guerra e paz.” Brenda não riu; desde o início era uma garota prática.

“Qual é o seu nome?”, ela perguntou.

“Neil. Eu segurei os seus óculos no trampolim, lembra?”

Ela me respondeu com uma pergunta, uma pergunta que, tenho certeza, é constrangedora tanto para os feios quanto para os belos. “Como é que você é?”

“Eu sou… bem moreno.”

“Você é negro?”

“Não”, respondi.

“Mas como que você é?”

“Posso me encontrar com você hoje pra você ver?”

“Gostei”, disse ela, rindo. “Hoje à noite vou jogar tênis.”

“Eu achei que você ia praticar golfe.”

“Isso eu já fiz.”

“E depois do tênis?”

“Aí eu vou estar toda suada”, disse Brenda.

Não disse aquilo para que eu pusesse um pregador de roupa no nariz e corresse na direção oposta; era apenas um fato, que aparentemente não a incomodava, mas que ela fazia questão de registrar.

“Não faz mal”, respondi, com a esperança de que meu tom de voz me situasse em algum lugar entre o melindroso e o sebento. “Posso ir aí pegar você?”

Ela não disse nada por alguns instantes; ouvi-a murmurando: “Doris Klugman, Doris Klugman…”. Então respondeu: “Está bem, Briarpath Hills, oito e quinze”.

“Eu vou estar num Plymouth castanho-claro…” Achei melhor não dizer o ano. “Pra você me reconhecer. E eu, como é que vou reconhecer você?”, perguntei, com um riso maroto horrendo.

“Eu vou estar suada”, disse ela, e desligou.

19 Comments

  • Saint-Clair Stockler 09/12/2006 at 00:19

    Maravilha! Adoro os textos do Roth e esse livro, assim em edição de bolso, por menos de 20 pratas… Perfeito! Vai ser meu presente de aniversário: auto-ofertado, claro, porque ninguém dá presente para alguém que aniversaria entre o Natal e o Ano novo.

    Roth tem uma outra novela, muito interessante, que li em português mas cujo título só me recordo em inglês: “The ghost writer” (o título brasileiro é completamente diferente, parece outro livro) que é muito boa também – excelente, na verdade. Foi publicada numa edição do Círculo do livro, a gente acha em qualquer sebo.

  • Antônio Augusto 09/12/2006 at 00:57

    Este livro foi lançado no Brasil, na primeira metade dos anos 70 (Editora Expressão e Cultura – hoje não mais existente, responsável também pela primeira edição brasileira do “Complexo de Portnoy”). Naquela época, o título aqui era “Goodbye, Columbus”, o mesmo do original. O livro ficou encalhado e acabou vendido em liquidações.

  • Mr. Ghost(WRITER) 09/12/2006 at 12:35

    HUMMMMM…. minha lista de auto-presentes anda aumentando muito todas as vezes que entro aqui no TodoProsa… ainda bem que o mias novo membr dela é baratinho… mais uma vez obrigado Sérgio pelas ótimas dicas…

  • tariq 09/12/2006 at 13:05

    tenho essa edição dos 70 achada em algum buraco da minha bela belém. mas quando li já estava corrompido por portnoy. a propósito de sebos o escritor que mais encontro por aqui na rua é manuel puig. por que será? aquele abraço.

  • Saint-Clair Stockler 09/12/2006 at 15:02

    Engraçado mesmo: a gente acha muitos livros do Puig nos sebos. Mas não é pela (falta) de qualidade, uma vez que em geral seus livros são ótimos. Melhor pra gente, que gosta de ler.

  • Tamara Sender 09/12/2006 at 21:20

    Saint-Clair, o livro do Roth a que você se refere foi publicado no Brasil com o nome de “Diário de uma ilusão”.

  • Saint-Clair Stockler 09/12/2006 at 21:31

    Oi Tamara! É isso mesmo… é uma novelinha muito interessante, não? Tem um capítulo que é o que o Sérgio, aqui do Todo Prosa, chama de “dobra sobre si mesmo”; um capítulo metalinguístico – mas a gente só descobre que é um capítulo “à parte” no final do livro. Bem engenhoso.

  • E.Landi 10/12/2006 at 09:04

    Maravilha! Por 19 pratas ler este livro do Roth! Será? Que início pertubador! Que dialogo profundo! Nem Machado escreveria igual…

  • Clarice 10/12/2006 at 19:03

    Ainda bem que o Machado não escrevia igual:)))

  • Clarice 10/12/2006 at 19:03

    Vez ou outra baixa uns extraterrestres aqui que vou te contar:))))

  • Clarice 10/12/2006 at 19:04

    Eu vou copiar para mostrar por que ninguém vai acreditar:))))))

  • Saint-Clair Stockler 10/12/2006 at 20:29

    Também achei uma comparação meio descabida… Que coisa!

  • E.Landi 11/12/2006 at 17:04

    Copie querida, mas não se esqueça de mostar para alguém que leia e entenda de bons autores; reconheço que a comparação foi descabida mesmo: Machado jamais escreveria uma bobagem desta!

  • Saint-Clair Stockler 12/12/2006 at 08:54

    Comprei o “Adeus, Columbus”! É meu presente de aniversário pra mim mesmo (Natal eu não comemoro, portanto não há razão para me dar presentes)

  • Tamara 12/12/2006 at 13:51

    E. Landi, sugiro que amplie seu leque de cânones.

  • Rita de Cássia 18/12/2006 at 23:34

    Por acaso é o mesmo autor de ” O Professor de Desejos” ?

  • Abell Achtervolgd 21/12/2006 at 21:38

    É meio óbvio este comentário mas Philip Roth deve ser o maior escritor americano vivo nos Estados Unidos junto com Don Delillo e Cormac McCarthy. Seu “O Animal Agonizante” em minha opinião é o terceiro melhor livro do ano publicado no Brasil na minha opinião(só perde para “Origem” de Thomas Bernhard e o recém-lançado “Novelas” do Samuel Beckett). Seu estilo de escrita é incrível e seu lirismo impregnado de corrosão é maravilhoso!

  • André 05/01/2007 at 13:52

    Li “Adeus, Columbus” nas festas de fim de ano. Fiquei impressionado com a qualidade do livro, escrito quando o autor tinha apenas 25 anos. Uma jóia! Um belo presente de natal que me resolvi conceder.

  • José Álisson 02/02/2007 at 23:51

    Fazia tempo que não lia um livro tão vasto de significados quanto “O animal agonizante” de Philip Roth.Estão lá todos os temas básicos da existencia, o amor, a sabedoria, a velhice, a morte e muito mais. Eis uma obra atemporal, um clássico, enfim.

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