Philip Roth: ‘O animal agonizante’

04/06/2006

É uma coincidência que “O animal agonizante” (Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Britto, 128 páginas, R$ 29), lançado pelo setentão Philip Roth em 2001, saia nos próximos dias no Brasil, poucas semanas depois do lançamento nos EUA de seu novo romance, Everyman. Os dois livros, ambos novelas ou romances curtos (formato que representa uma novidade na carreira do prolífico autor), têm outro parentesco: mergulham de cabeça na consciência da morte. Pode-se encarar Everyman, que comentarei neste espaço em breve, como a seqüência natural – triste mas natural – de “O animal agonizante”. Neste, tão erótico quanto qualquer outro de Roth, o homem velho aproveita o que lhe resta de vida dividindo os lençóis com Consuela Castillo, uma deliciosa aluna de 24 anos que é dona dos seios mais belos que ele já viu, enquanto reflete sobre o fim inevitável:

Você pode imaginar o que é a velhice? É claro que não. Eu não podia. Nunca consegui. Não fazia idéia do que era. Não tinha nem mesmo uma imagem falsa – não tinha imagem nenhuma. E ninguém quer outra coisa. Ninguém quer encarar a velhice antes de ser obrigado a encará-la. Como é que tudo vai terminar? Em relação a isso, ser obtuso é de rigueur.

Por motivos óbvios, é impossível imaginar uma etapa de vida posterior àquela em que estamos. Às vezes já chegamos na metade da fase seguinte quando nos damos conta de que estamos nela. Além disso, as primeiras etapas da velhice têm lá suas vantagens. Mesmo assim, as intermediárias são ameaçadoras para muita gente. Mas e a etapa final? Curioso – é a primeira vez na vida que você consegue ficar completamente de fora da situação que você está vivendo. Observar a decadência do próprio corpo de um ponto de vista externo (para quem tem a sorte que eu tive) permite que a gente se sinta, graças à vitalidade que continua a ter, a uma distância razoável dessa decadência – às vezes dá até para sentir-se orgulhosamente independente dela. Sem dúvida, vão aumentando cada vez mais os sinais que nos levam a tirar aquela conclusão desagradável, mas assim mesmo a gente continua de fora. E a fúria dessa objetividade é brutal.

É importante traçar uma distinção entre o morrer e a morte. O morrer não é um processo ininterrupto. Se a gente tem saúde e se sente bem, é um processo invisível. O final que é uma certeza nem sempre se anuncia de maneira espalhafatosa. Não, você não consegue entender. A única coisa que você entende a respeito dos velhos quando você não é velho é que eles foram marcados pelo tempo. Mas compreender isso só tem um efeito de fixá-los no tempo deles, e assim você não compreende nada. Para aqueles que ainda não são velhos, ser velho significa ter sido. Porém ser velho significa também que, apesar e além de ter sido, você continua sendo. Esse ter sido ainda está cheio de vida. Você continua sendo, e a consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido. Eis uma maneira de encarar a velhice: é a época da vida em que a consciência de que a sua vida está em jogo é apenas um fato cotidiano. É impossível não saber o fim que o aguarda em breve. O silêncio em que você vai mergulhar para sempre. Fora isso, tudo é tal como antes. Fora isso, você continua sendo imortal enquanto vive.

Até não muito tempo atrás, existia uma maneira pré-fabricada de ser velho, tal como havia uma maneira pré-fabricada de ser jovem. Hoje em dia nenhuma das duas funciona mais. Houve um grande conflito a respeito do que é permissível – e uma grande revolução. Não obstante, será que um homem de setenta anos de idade ainda deve continuar a envolver-se com o aspecto carnal da comédia humana? Ser desavergonhadamente um velho nada monástico, ainda suscetível às excitações humanas? Não é essa condição que outrora era simbolizada pelo cachimbo e a cadeira de balanço. Talvez ainda seja uma espécie de afronta para muita gente você não se pautar pelo antigo relógio da vida. Tenho consciência de que não posso contar com o respeito virtuoso dos outros adultos. Mas o que é que eu posso fazer quando constato que, pelo menos no meu caso, nada, nada se aquieta, por mais que a gente envelheça?

6 Comments

  • Erwin 04/06/2006 at 09:05

    “Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma.
    Dobraram a curva do caminho e eram muitas raparigas. Vinham cantando pela estrada, e o som das suas vozes era felizes [sic]. Elas não sei o que seriam. Escutei-as um tempo de longe, sem sentimento próprio. Uma amargura por elas sentiu-me no coração.
    Pelo futuro delas? Pela inconsciência delas? Não directamente por elas – ou, quem sabe ? talvez apenas por mim.” Fernando Pessoa (Livro do Desassossego)

  • Paulinho Assunção 04/06/2006 at 11:10

    Menandro dizia que a nossa vida é semelhante ao vinho: a última parte azeda. Roth, ao contrário, põe Consuelo Castillo (e tudo o que ela representa, como um pão dos anos jovens) para iluminar a noite de um fim que se aproxima.

  • santinha 04/06/2006 at 18:46

    Ah! se a juventude que esta brisa canta
    Ficasse aqui comigo mais um pouco
    Eu poderia esquecer a dor de ser tão só
    Pra ser um sonho
    E aí então quem sabe alguém chegasse
    Buscando um sonho em forma de desejo
    Felicidade então pra nós seria
    E depois que a tarde nos trouxesse a lua
    Se o amor chegasse eu não resistiria
    E a madrugada acalentaria nossa paz
    Fica, oh! brisa fica
    Pois talvez que sabe
    O inesperado faça uma surpresa
    E traga alguém que queira te escutar
    E junto a mim, queira ficar,
    Queira ficar, queira ficar
    (Música de Johnny Alf- Maysa)
    Enquanto ouver um suspiro, uma brisa, haverá tempo para ser feliz, né não?

  • Félix Neri 05/06/2006 at 00:36

    “Considero: este mundo tem pouco de real
    sou feito dos buracos negros do universo
    às vezes de quando em quando, nalgum
    lugar da paisagem baila um esplendor
    de si
    que ali repousa em sua migração
    e o amargor de ser um homem se dissipa”
    Gaston Miron (A beleza de outrora)

  • Alfredo 07/06/2006 at 09:45

    Sérgio, gostaria de saber mais da sua opinião dobre o Roth. Li apenas o Complexo de Potnoy e o Pastoral Americana, mas para mim ele faz um realismo egocêntrico e etnocêntrico, que em nada me agrada. Acho que literatura não é apenas escrever tendo como tema seu (do autor) ponto de vista, e é isso o que ele faz: utiliza o assunto como pretexto para jogar suas opiniões em nossas caras.
    Quando li seu comentário, me lembrei do “Memórias de minha putas tristes”, que se sustenta, antes de mais nada, pela construção narrativa.
    abraço.

  • Sérgio Rodrigues 07/06/2006 at 11:27

    Caro Alfredo, o que você pede não cabe num simples comentário. Aguarde um texto sobre o Roth nos próximos dias, a propósito do Everyman. Um abraço.

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