Por Glorinha

13/09/2010

Maria da Glória Fagundes, conhecida como Glorinha, nascida no Irajá, não era muito inteligente mas era linda, linda. A coisa mais linda do mundo. O escritor, que até aqui não sabia ser escritor, se apaixonou por sua boca e seus cílios e seus tornozelos. Tinha quinze anos e desabrochou poeta romântico.

O jovem escritor recitava ribombantes versos de amor e morte para Glorinha, coisas de estremecer estátuas, mas ela achava pouco.

Então foi estudar. Em poucos anos tinha um título de bacharel em Direito e um romance realista urbano cheio de arestas e reentrâncias que alguns críticos enalteceram, falando em pós-noir. Glorinha Fagundes não se impressionou. Pós-noir é fácil, quero ver poesia provençal, disse uma tarde, distraída, comendo uvas.

Custou ao escritor nove anos de trabalho duro tornar-se a maior autoridade brasileira nos arcanos trovadorescos, com estudos publicados na Europa e nos EUA. Mas a essa altura a Srta Fagundes já tinha virado a Sra Wilson, mulher do famoso professor de semiótica, e estava em outra, vidrada nos irmãos Campos. Foi assim que o escritor se viu contando letras concretas para em alguns anos construir uma obra que se convencionou chamar pós-concreta e que, sendo absolutamente ilegível, fez grande sucesso com críticos universitários.

Assim, de fase em fase, o escritor foi se fazendo notar. Ao sabor dos caprichos de Glorinha, escreveu comédias teatrais de sucesso, adaptou clássicos da literatura de cordel para séries de TV, arquitetou ensaios profundos sobre política e estética, depois largou tudo e se dedicou a ser um místico, um mago, e vender milhões. Ficou muito rico.

E a outra lá, a essa altura separada e galinhando à beça, sempre achando pouco.

Nas décadas seguintes, Glorinha comandou do escritor poemas épicos e fesceninos, romances satíricos e formalistas, contos longos e contos curtos, novelas, noveletas, panegíricos, sermões, limericks, bruscas vinhetas com estética de pichador de rua, uma epopéia pós-modernista de novecentas páginas escrita de trás pra frente, tendo por tema central a cárie que duelava com o escritor por seu canino direito, e um compêndio de frases de filósofos clássicos segundo a neurolinguística corporativa – este, Se Platão trabalhasse para você, tornou-se seu livro mais vendido, superando os do mago. Agora o escritor está arquimilionário.

E Glorinha, evidentemente, nem aí. Não é com ela. Diz, por exemplo: Drama sueco, a perfeita tradução em prosa de um certo clima bergmaniano, isso sim é que é o bicho! Como não pensei nisso antes?

O escritor respira fundo, que remédio, e põe mãos à obra.

13 Comments

  • Mariana V. 13/09/2010 at 21:13

    Sérgio, como vai? Estou lendo literatura romântica, Iracema, de José de Alencar para o colégio. Estou gostando muito do livro. Encantei-me com as personagens – Martim principalmente. E o próximo, será Senhora, também de José de Alencar. Pretendo ler também Dom Casmurro, de Machado de Assis. Enfim, apaixonei-me pela literatura. Gostaria que você escrevesse um artigo sobre esses livros – ou um deles – para eu ler. Adoro seu blog! Obrigada desde já. Saudações da amiga – colegial, ainda – Mariana.

  • PEDRO GIRARDI 13/09/2010 at 23:27

    MARIANA BOA NOITE,,,SE O SÉRGIO ME PERMITE EU VOU TE RECOMENDAR UM LIVRO QUE EU COMPREI NA BIENAL DE SÃO PAULO,,VOÇE VAI ADORAR.CHAMA-SE ( CRONICAS DOS SENHORES DE CASTELO) FICÇÃO AVENTURA..UM ESPETÁCULO,,TEM ATÉ UM MAPA PARA A GENTE SEGUIR O ROTEIRO DA HISTÓRIA.E UMS DESENHOS DIFERENTES DOS PERSONAGEMS DO LIVRO.

  • Foguete de Luz 14/09/2010 at 01:06

    Isso foi demais ( kkk): “o escritor se viu contando letras concretas para em alguns anos construir uma obra que se convencionou chamar pós-concreta E QUE SENDO ABSOLUTAMENTE ILEGÍVEL,FEZ GRANDE SUCESSO COM CRÍTICOS UNIVERSITÁRIOS”. Desculpa-me, Sérgio, o grito aqui, mas você foi muito fundo aqui. Sua percepção detalhista de “performances” ( o nome é este mesmo?)deve deixar qualquer escritor doido sob seus olhos…rsrs. Morro de rir demais. E quanto á glorinha ali, a musa instigadora, fazedora de dinheiro, precisaria dar de cara com um carpinteiro, tomar um banho da Palavra e deixar de ser snob, né? Claro que sua snobisse acabava instigando alta$ literatura$.E quanto a você, vai tirar palavras que nunca assim, lá do baú da glorinha, sô!Ah, o que mais gostei de tudo foi saber que as instigações da glorinha trouxe Platão de volta para superar os magos. Isso foi show.
    É sergio, você, com certeza, vai ser o escritor em pleno Apocalipse. Guarde e aguarde. hehe.

  • Foguete de Luz 14/09/2010 at 01:09

    Em tempo:”…vai tirar palavras que nunca “vi” assim…”

  • ROBERTO PRADO 14/09/2010 at 08:43

    Hahahaha, que puta tristesa companheiro….

  • Vinícius Antunes 14/09/2010 at 10:25

    Este cabia no Sobrescritos!

  • Claudio Faria 14/09/2010 at 11:32

    Muito bom o texto, Sérgio. Quem já não teve pela frente a sua própria Glorinha? Confesso que não por tanto tempo como o escritor acima, mas já escalei cordilheiras pelas minhas musas.

  • Mariana V. 14/09/2010 at 20:26

    Obrigada Pedro! Com certeza vou ler esse livro! Adoro recomendações! SAUDAÇÕES!

  • Blake 14/09/2010 at 20:27

    Bravo Sérgio! Depois de um dia pesado e chato Glorinha tirou de mim risadas espontâneas e profundas! É a Glorinha fazendo milagres…

  • Augusto Treppi 14/09/2010 at 23:03

    Muito útil ter uma Glorinha heim? As vezes é mais estimulante fazer pelo outro do que por si mesmo. :-)

  • Afonso 14/09/2010 at 23:27

    A glória para o grande escritor nunca basta… tinha de ser a Glorinha.

  • Molica 15/09/2010 at 14:32

    A Glorinha seria uma ótima editora.

  • Evelin 15/09/2010 at 23:00

    Muito bom mesmo!

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