Porrada

27/02/2008

“Se porrada educasse as pessoas, bandido saía da cadeia santo.” Que o presidente Lula fala a língua do povo já se sabia. O que ainda choca muita gente – mas talvez não devesse, num país capaz de transformar em febre a grotesca coreografia do “créu” – é ouvir de tão alta autoridade um palavrão desse quilate. “Porrada” e “porra” são tabuísmos tão velhos quanto o português, mas, mesmo sendo figurinhas fáceis na linguagem cotidiana, ainda não ganharam acesso aos salões do discurso educado. Por quê?

Como se sabe, porrada tem dois sentidos principais: o de “pancada, cacetada”, que Lula usou, e o de “grande quantidade”. O primeiro não deveria, a rigor, ser considerado palavrão. Vem da acepção mais antiga de porra, hoje em desuso, que nada tinha de grosseira: clava, maça, cacete, arma dotada de cabeça redonda e haste alongada. Segundo o filólogo Corominas, deve seu nome – acredite quem quiser – ao alho-porro ou poró, com o qual tinha semelhanças de forma, por meio do latim porrum (alho).

Se a porrada-pancada não é bem um palavrão, a associação de porra e seus derivados com sentidos chulos tornou-se tão dominante que contaminou tudo – até o alho, chamado de “poró” por eufemismo, a fim de evitar ressonâncias desagadáveis à mesa.

Hoje porra é termo de múltiplas aplicações, até como interjeição e elemento de pontuação da fala, mas sua transformação em palavra cabeluda cumpriu duas etapas básicas. Primeiro, a porra-arma, mãe do porrete, achou emprego metafórico como nome do órgão sexual masculino. Bocage, o grande poeta fescenino, versejava assim no fim do século 18: “Que esse monstro, que alojas nos calções,/ É porra de mostrar, não de foder”. O passo seguinte foi dado apenas no português brasileiro, segundo dicionaristas dos dois lados do Atlântico: o nascimento, por extensão de sentido, da acepção de esperma.

Publicado na “Revista da Semana”.

12 Comments

  • Murilo Gabrielli 27/02/2008 at 18:07

    Pode ser inocência (ou boca e ouvido sujos) mas não consigo ouvir porrada como expressão chula, em qualquer dos sentidos. Vulgar, é possível. Pouco, digamos, presidencial, é discutível (eu, particularmente, acho que Lula só ganha em popularidade quando solta uma porrada dessas). Mas chula não.
    Sobre a frase em si, parace saída da boca do filósofo Neném Prancha.

  • Cássia 27/02/2008 at 18:15

    Coincidência: há uma semana estávamos discutindo à mesa sobre o alho-porró. Obrigada pelo esclarecimento 😉

    Cássia, direto da Petrópolis gaúcha…

  • Pedro Curiango 28/02/2008 at 00:06

    Sérgio: o “alho porrô” [assim é que ouço em Brasília] não seria antes galicismo que eufemismo? Isto se tornaria ainda mais interessante se consideramos que o francês [poireau/ porreau] talvez venha do português “porro”, ou do italiano “porro.” Seria algo parecido com o nosso paulista italiano “risole”, do francês “rissole”, que, no frigir da massa, parece vir do português “rissol…”

  • Rafael 28/02/2008 at 11:06

    a

  • Sérgio Rodrigues 28/02/2008 at 11:09

    Murilo: considerando que chulo, antes mesmo de “obsceno”, quer dizer “pouco elevado, grosseiro, rude”, não tenho dúvida nenhuma de que porrada é chulo. E nada “presidencial”, evidentemente. O que não contradiz – pelo contrário, explica – os benefícios que Lula tira desse tipo de postura.

    Cassia, de nada. A Petrópolis do Sudeste saúda a do Sul!

    Curiango: não sei se a sonoridade francesa influiu no porrô. Digamos que sim. Ainda faltaria explicar o porró e principalmente o poró – este sim, como eu disse, um claro eufemismo (e forma dominante no Rio de Janeiro). Me parece que o eufemismo continua sendo, portanto, a questão central. Quanto à curiosa história das influências cruzadas, há casos em que isso ocorre mesmo, mas não estamos diante de um deles. Dicionários de francês sustentam que ‘porreau’ – ou ‘poireaux’, na evolução parisiense da palavra – veio diretamente do latim.

    Abraços.

  • Murilo Gabrielli 28/02/2008 at 11:14

    Pedro,
    além de porrô e do poró mencionado pelo Sério, tb já ouvi porró. Também tinha a impressão de ser um galicismo.

  • Mozzambani 28/02/2008 at 12:53

    Chulo ou não, diante do dinamismo da língua, com ou sem a ajuda do presidente, a porra, cedo ou tarde, adentrará os salões do discurso educado.

  • Murilo Gabrielli 28/02/2008 at 12:57

    Tens razão, claro, Sérgio. Eu é que me aferrei apenas ao sentido “obsceno” de chulo. Então, corrigindo. Pros meus ouvidos, porrada é chulo, mas não obsceno.
    O que é indiscutível é que alho-porro é uma grande invenção.

  • Alexandre 28/02/2008 at 14:08

    Porra, puta merda, caralho….

  • Mindingo 29/02/2008 at 16:55

    Porra, que texto bacana. E como por lembrança a lambança do texto vosso ao nosso espirito o barroco traz, e o fescenino vem atrás, segue a porra do Gregório a abonar a vossa:

    “Tive debaixo da língua
    o pedir-vos uma lasca
    da nata do vosso cono,
    se é, que tem côdea essa nata.
    Quando a culatra vos vi
    tão tremenda, e rebolada,
    meti logo a mão à porra,
    e estive saca, não saca.”

    Como se vê, e por incrível que pareça, a acepção original de porra-arma é aqui metáfora (hoje já seria o contrário) da porra-membro.

  • Clarice 20/03/2008 at 17:31

    😉

  • Clarice 20/03/2008 at 17:31

    Só um teste:
    Agora foi.
    😯

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