Que cena! A cesariana nazista de Jonathan Littell

15/04/2013

“As Benevolentes”, de Jonathan Littell, vencedor do prêmio Goncourt em 2006, é um dos romances mais originais, fortes e perturbadores jamais escritos sobre a Segunda Guerra Mundial. É também um dos mais notáveis deste século em qualquer gênero (leia aqui a resenha que publiquei na época).

Escrito em francês pelo americano Littell (e muito bem traduzido por André Telles para a edição brasileira que a Alfaguara pôs no mercado em 2007), “As Benevolentes” contribui para esta seção com um raríssimo caso de cena marcante que não contém spoiler. Quem ainda não atravessou o tijolo de 912 páginas pode ir até o fim do post sem o risco de encontrar algo que estrague o prazer de ler o livro. Embora seja talvez a de mais alta voltagem dramática, a cena abaixo é apenas uma entre centenas de vinhetas de violência ultrajante que são empilhadas como cadáveres numa vala comum. O efeito final da obra é atingido por acumulação.

Desfilam no romance – com uma riqueza desconcertante, cerrada e meio hipnótica de detalhes burocráticos, históricos e geográficos – as memórias de guerra do oficial alemão Maximilen Aue, um Hauptsturmführer (capitão SS) ambíguo, de temperamento artístico mas também capaz de grande crueldade, que participou da ofensiva oriental dos alemães. Aqui, vamos encontrá-lo no interior da Ucrânia, debaixo de uma chuva torrencial, supervisionando a inspeção de uma aldeia onde se acreditava haver judeus e rebeldes escondidos. A busca não dá em nada: lá só há velhos, mulheres e crianças pequenas.

Como Littell opta por manter em alemão todas as patentes militares, a leitura fica mais fácil quando se sabe que Scharführer quer dizer sargento e Untersturmführer, uma espécie de tenente SS.

Um Scharführer aproximava-se e saudou Ott. “Herr Untersturmführer, não há nada aqui.” Ott estava nervosíssimo. “Vasculhem mais! Tenho certeza de que estão escondendo alguma coisa.” Outros soldados e Orpo retornavam. “Herr Untersturmführer, olhamos, não há nada.” – “Vasculhem, já disse.” Naquele instante ouvimos um grito agudo ali perto. Uma forma indistinta corria pela ruazinha. “Ali!”, gritou Ott. O Scharführer mirou e atirou através da cortina de chuva. A forma desabou na lama. Os homens correram em sua direção, tentando enxergar. “Imbecil, era uma mulher”, disse uma voz. – “É você que está se chamando de imbecil!”, ladrou o Scharführer. Um homem revirou o corpo na lama: era uma jovem camponesa, com um pano colorido na cabeça, e grávida. “Ela simplesmente entrou em pânico”, disse um dos homens. “Não precisava atirar desse jeito.” – “Ainda não está morta”, disse o homem que a examinava. O enfermeiro do destacamento aproximou-se: “Levem-na para casa.” Vários homens a levantaram; sua cabeça pendia para trás, o vestido enlameado estava colado na enorme barriga, a chuva fustigava o corpo. Foi carregada para casa e depositada sobre uma mesa. A não ser por uma velha chorando num canto, a isbá estava vazia. A moça agonizava. O enfermeiro rasgou seu vestido e a examinou. “Está fodida. Mas está prestes a parir, e com um pouco de sorte ainda podemos salvar o bebê.” Começou a dar instruções aos dois soldados ali presentes. “Providenciem água quente.” Saí sob a chuva e fui me encontrar com Ott, que fora até os veículos. “O que está acontecendo agora?” – “A moça vai morrer. Seu enfermeiro está tentando fazer uma cesariana.” – “Uma cesariana?! Ficou maluco, caramba!” Voltou a subir a ruela chafurdando até a casa. Segui-o. Ele entrou bruscamente: “Que porra é essa, Greve?” O enfermeiro segurava uma coisinha sangrenta embrulhada num pano e terminava de amarrar o cordão umbilical. A moça, morta, jazia com os olhos esbugalhados sobre a mesa, nua, coberta de sangue, rasgada do umbigo até o sexo. “Funcionou, Herr Untersturmführer”, disse Greve. “É possível que sobreviva. Mas temos que achar uma ama-de-leite.” – “Enlouqueceu!”, gritou Ott. “Me dê isso!” – “Por quê?” – “Me dê isso!” Ott estava branco, tremia. Arrancou o recém-nascido das mãos de Greve e, segurando-o pelos pés, esmagou seu crânio na quina do forno de argila. Depois jogou-o no chão. Greve espumava: “Por que fez isso?!” Ott também berrava: “Você teria feito melhor enterrando-no na barriga da mãe, imbeciloide! Deveria tê-lo deixado tranquilo! Por que o fez sair? Não era suficientemente quente ali?” Girou nos calcanhares e saiu. Greve chorava: “O senhor não devia ter feito isso, o senhor não devia ter feito isso.” Fui atrás de Ott, que vociferava na lama e na chuva diante do Scharführer e alguns homens reunidos. “Ott…”, chamei. Atrás de mim ecoou um chamado: “Untersturmführer!” Olhei: Greve, com as mãos ainda sujas de sangue, saía da isbá com o fuzil apontado. Esquivei-me, ele caminhou na direção de Ott. “Untersturmführer!” Ott virou a cabeça, viu o fuzil e começou a gritar: “Que é, seu veado, que quer ainda? Quer atirar, é isso, vá em frente!” O Scharführer berrava também: “Greve, em nome de Deus, abaixe esse fuzil!” – “O senhor não devia ter feito isso”, gritava Greve, continuando a avançar para Ott. – “Vá em frente, imbecil, atire!” – “Greve, pare imediatamente!”, vociferava o Scharführer. Greve atirou; Ott, atingido na cabeça, voou para trás e caiu numa poça, fazendo um grande estrépito. Greve mantinha o fuzil em posição de mira; todo mundo havia se calado. Só se ouvia a chuva castigando as poças, a lama, os capacetes dos homens, o colmo dos telhados. Greve tremia como uma folha, fuzil no ombro. “Ele não devia ter feito isso”, repetia estupidamente. – “Greve”, eu disse mansamente. Com ar feroz, Greve apontou o fuzil na minha direção. Abri muito lentamente os braços sem dizer nada. Greve voltou a visar o Scharführer com o fuzil. Por sua vez, dois soldados apontavam seus fuzis para Greve. Greve mantinha o fuzil apontado para o Scharführer. Os homens poderiam abatê-lo, mas nesse caso ele decerto também mataria o Scharführer. “Greve”, disse calmamente o Scharführer, “você fez uma grande besteira. Ott era um lixo, tudo bem. Mas você está realmente na merda.” – “Greve”, eu disse. “Abaixe a arma. Caso contrário, vamos ser obrigados a matá-lo. Caso se renda, testemunharei a seu favor.” – “Estou fodido de qualquer maneira”, disse Greve. Não parava de apontar para o Scharführer. “Se o senhor atirar, levo alguém comigo.” Desviou novamente o fuzil na minha direção, bruscamente. A chuva escorria do cano, bem diante dos meus olhos, corria no meu rosto. “Herr Hauptsturmführer!”, chamou o Scharführer. “Concorda que eu resolva isso à minha maneira? Para evitar outras baixas?” Fiz um sinal afirmativo. O Scharführer voltou-se para Greve. “Greve. Dou-lhe cinco minutos. Depois iremos atrás de você.” Greve hesitou. Em seguida abaixou o fuzil e chispou para dentro da floresta.

6 Comments

  • Carlos Henrique Schroeder 15/04/2013 at 16:31

    As cenas de batalha são geniais também, e o primeiro capítulo é simplesmente perfeito, um dos grandes livros deste início de século. Abração!

  • Vaginophagus Was Here 15/04/2013 at 17:33

    Eu concordo com você, que o livro é uma exceção. Ressalvo, no entanto, a parte final, que me decepcionou, sendo quase uma bobagem, sem sentido(poucas folhas últimas). No geral o livro é imperdível, imparável, como diria o Lula. Mas já faz algum tempo que eu li. Uns dois a três anos ou mais (?), assim que foi lançado.

    • sergiorodrigues 15/04/2013 at 18:38

      Vagino, o fim decepcionante é exatamente o reparo que fiz na resenha linkada acima. Mas ele não deveria impedir ninguém de ler o livro, porque o escorregão vem num momento em que a vitória por goleada já está garantida.

      É isso, caro Schoroeder. Abraços.

  • Eduardo Barros 15/04/2013 at 18:45

    Esta cena me lembrou um pouco de Hemingway. O melhor de Hemingway.

  • J.Paulo 16/04/2013 at 10:27

    Este livro é estupendo. Littel promete; mas, se quisesse, após esse livro já poderia pendurar as chuteiras. A quem interessar possa, deixo aqui uma resenha publicada por autor de nome Nivaldo Cordeiro.
    http://www.nivaldocordeiro.net/asbenevolentes

  • andré telles 18/04/2013 at 08:00

    Há um novo “livro” do Littell recém-lançado pela Objetiva/Alfaguara, porém apenas em e-book (daí, me parece, ter passado desapercebido à imprensa). Não é ficção, mas um diário (escrito no calor do momento) que abrange o mês que ele passou na Síria, em Homs, no início da guerra civil: “Diários da Síria”.
    Abs
    Abraços

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