Que cena! A xícara de café de ‘Dom Casmurro’

21/06/2014

Lanço hoje uma nova seção no Todoprosa, chamada “Que cena!”. Durante alguns anos, os “Começos inesquecíveis” – posts em que eu apresentava trechos iniciais marcantes de grandes romances, acompanhados de breves comentários que davam pistas sobre o porquê de sua permanência – foram os mais visitados e linkados do blog.

O sucesso, imagino, teve tanto a ver com a qualidade dos começos em si quanto com a sede de informação de um país que, em grande parte, mal começa a aprender a ler. Os “Começos inesquecíveis” passaram a ser tomados por muita gente como indicadores de leitura, com a vantagem de já virem com amostras do estilo de cada autor.

A seção chegou ao fim naturalmente, de puro cansaço. Seria absurdo sugerir que esgotaram-se os bons começos disponíveis na literatura universal. O que passou perto de se esgotar foi a reserva dos começos que marcaram minha memória de leitor – e a ideia sempre foi partir da experiência pessoal, tentar compartilhar um prazer a quente em vez de ensinar uma matéria a frio.

A seção “Que cena!” se baseia numa ideia semelhante: publicar pequenos trechos especialmente marcantes de grandes livros, agora extraídos de qualquer ponto, começo, meio ou fim. Trata-se daquelas cenas magicamente intensas que se recusam a cair no esquecimento e que, por um momento ou uma eternidade, parecem justificar a existência da própria literatura.

Não imagino cena melhor para abrir a seção do que a composta pelos microcapítulos CXXXVI e CXXXVII (ou seja, 136 e 137) do romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, intitulados A xícara de café e Segundo impulso. Poderoso coquetel de melodrama e violência, o trecho começa com o doutor Bento Santiago no auge daquele surto de paranoia e autocomiseração lá dele, recém-convencido de que seu filho, o pequeno Ezequiel, é fruto do caso adúltero de Capitu com seu melhor amigo, Escobar, a essa altura já falecido. Está sofrendo tanto que anuncia a intenção de se matar, o que não lhe atenua o cômico pedantismo classicista que, sob pressão, logo derrete para revelar o sujeito escondido ali embaixo – um covarde abjeto.

O crítico inglês John Gledson, estudioso de Machado, já escreveu longamente e com espanto sobre a incompreensão em que, por décadas a fio, a crítica literária brasileira chafurdou diante de “Dom Casmurro”, simpatizando com Bento Santiago e tomando sua narrativa de marido traído pelo valor de face. Em nenhum momento desse sutil romance, a meu ver, ficam mais escancaradas do que neste trecho a cegueira daqueles críticos e as intenções do escritor por trás do narrador. Se Capitu traiu ou não traiu pode ser mesmo indeterminável, uma ventoinha condenada a girar para sempre no coração do livro. Mas Machado não deixa dúvida de que, se traição houve, o corno a mereceu.

O meu plano foi esperar o café, dissolver nele a droga e ingeri-la. Até lá, não tendo esquecido de todo a minha história romana, lembrou-me que Catão, antes de se matar, leu e releu um livro de Platão. Não tinha Platão comigo; mas um tomo truncado de Plutarco, em que era narrada a vida do célebre romano, bastou-me a ocupar aquele pouco tempo, e, para em tudo imitá-lo, estirei-me no canapé. Nem era só imitá-lo nisso; tinha necessidade de incutir em mim a coragem dele, assim como ele precisara dos sentimentos do filósofo, para intrepidamente morrer. Um dos males da ignorância é não ter este remédio à última hora. Há muita gente que se mata sem ele, e nobremente expira; mas estou que muita mais gente poria termo aos seus dias, se pudesse achar essa espécie de cocaína moral dos bons livros. Entretanto, querendo fugir a qualquer suspeita de imitação, lembra-me bem que, para não ser encontrado ao pé de mim o livro de Plutarco, nem ser dada a notícia nas gazetas com a da cor das calças que eu então vestia, assentei de pô-lo novamente no seu lugar, antes de beber o veneno.

O copeiro trouxe o café. Ergui-me, guardei o livro, e fui para a mesa onde ficara a xícara. Já a casa estava em rumores; era tempo de acabar comigo. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga embrulhada. Ainda assim tive ânimo de despejar a substância na xícara, e comecei a mexer o café, os olhos vagos, a memória em Desdêmona inocente; o espetáculo da véspera vinha intrometer-se na realidade da manhã. Mas a fotografia de Escobar deu-me o ânimo que me ia faltando; lá estava ele, com a mão nas costas da cadeira, a olhar ao longe…

“Acabemos com isto”, pensei.

Quando ia a beber, cogitei se não seria melhor esperar que Capitu e o filho saíssem para a missa; beberia depois; era melhor. Assim disposto, entrei a passear no gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor, vi-o entrar e correr a mim bradando:

– Papai! Papai!

Leitor, houve aqui um gesto que eu não descrevo por havê-lo inteiramente esquecido, mas crê que foi belo e trágico. Efetivamente, a figura do pequeno fez-me recuar até dar de costas na estante. Ezequiel abraçou-me os joelhos, esticou-se na ponta dos pés, como querendo subir e dar-me o beijo do costume; e repetia, puxando-me:

– Papai! Papai!

*

Se eu não olhasse para Ezequiel, é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro, porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo. Cheguei a pegar na xícara, mas o pequeno beijava-me a mão, como de costume, e a vista dele, como o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer aqui; mas vá lá, diga-se tudo. Chamem-me embora assassino; não serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café.

– Já, papai; vou à missa com mamãe.

– Toma outra xícara, meia xícara só.

– E papai?

– Eu mando vir mais; anda, bebe!

Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a xícara, tão trêmulo que quase a entornei, mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo, caso o sabor lhe repugnasse, ou a temperatura, porque o café estava frio… Mas não sei que senti que me fez recuar. Pus a xícara em cima da mesa, e dei por mim a beijar doudamente a cabeça do menino.

– Papai! Papai! – exclamava Ezequiel.

– Não, não, eu não sou teu pai!

Publicado em 7/5/2012.

7 Comments

  • Pérola 21/06/2014 at 20:38

    Realmente…. que cena…
    Tenho uma, se é que vale de livro de mais de 2200 anos atrás…
    Vamos lá:
    Abimeleque, filho de Jerubaal, foi a Siquém, aos irmãos de sua mãe, e disse a eles e a toda a geração da casa do pai de sua mãe:
    Perguntai, peço-vos, aos ouvidos de todos os cidadãos de Siquém : Que é melhor para vós: que setenta homens, todos os filhos de Jerubaal, dominem sobre vós, ou que um só homem domine sobre vós? Lembrai-vos também de que sou vosso osso e vossa carne.
    Então os irmãos de sua mãe falaram a respeito dele a todos os cidadãos de Siquém todas aquelas palavras; e o coração deles se inclinou a seguir a Abimeleque , pois disseram: É nosso irmão.
    Deram- lhe setenta peças de prata, da casa de Baal – Berite, com as quais Abimeleque alugou uns homens ociosos e levianos , que o seguiram.
    Foi à casa de seu pai , a Ofra, e matou a seus irmãos , os filhos de Jerubaal, setenta homens, sobre uma pedra.
    Mas Jotão, filho menor de Jerubaal ficou, porque se tinha escondido.
    Então se ajuntaram todos os cidadãos de Siquém, e toda a Bete- Milo, e foram, e proclamaram a Abimeleque rei, junto ao carvalho da coluna que está perto de Siquém.
    Tendo sido avisado disto, Jotão foi, pôs-se no cume do monte Gerizim, levantou a voz e clamou: Ouvi-me, cidadãos de Siquém, e Deus vos ouvirá a vós.
    Foram certa vez as árvores a ungir para si um rei. Disseram à oliveira: Reina sobre nós.
    Mas a oliveira lhes respondeu:Deixaria eu a minha gordura, que Deus e os homens em mim prezam, e iria dominar sobre as árvores?
    Então disseram as árvores à figueira: Vem tu, e reina sobre nós.
    Mas a figueira lhes respondeu: Deixaria eu a minha doçura , o meu bom fruto, e iria dominar sobre as árvores?
    Então disseram as árvores à videira: Vem tu, e reina sobre nós.
    Mas a videira lhes respondeu: Deixaria eu o meu vinho, que alegra a Deus e os homens e iria dominar sobre as árvores?
    Então todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu, e reina sobre nós.
    Respondeu o espinheiro às àrvores: Se, na verdade, me ungis rei sobre vós , vinde refugiar- se debaixo da minha sombra; mas, se não, saia fogo do espinheiro, e consuma os cedros do Líbano.

  • Pérola 21/06/2014 at 20:53

    Em tempo: Livro de Juízes capítulo 9 do versículo 1 ao 15.

    O autor do livro é desconhecido. O Talmude atribui o Livro de Juízes a Samuel.
    Este bem pode ter escrito partes do livro, já que se afirma que era um escritor ( 1Samuel 10. 25). O autor inspirado selecionou, de forma cuidadosa, fontes orais e escritas que provessem uma história de Israel com orientação teológica.

    A data cerca de 1050 a 1000 a.C

    Está dividido em 3 partes : Prólogo, narrativas e epílogo.

    Nesta época os israelitas faziam o que era mal aos olhos do Senhor: quebra de comunhão e culto idólatra.

  • Pérola 21/06/2014 at 20:56

    Tenho mais algumas Cenas “Que!”… Mas aguardemos que outros venham…

  • Liliane de Paula Martins 22/06/2014 at 11:26

    Puxa vida! Muito bom relembrar esse texto.

  • Nadine 22/06/2014 at 15:48

    Gostei muito da seção!
    Bela iniciativa e início… Deu vontade de reler Dom Casmurro 😉

  • Marco 28/06/2014 at 18:37

    Em “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, há muitos trechos que poderiam ser selecionados para esta coluna. Escolho um curtinho em que o jagunço Riobaldo, de olhos tão desabituados a apreciar o belo, por influência de Reinaldo (Diadorim), torna-se capaz de admirar o que antes passava despercebido.

    Então Riobaldo diz ao seu interlocutor:

    “Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros, em seu começar e descomeçar dos vôos e pousação. Aquilo era para se pegar a espingarda e caçar. Mas o Reinaldo gostava: – É formoso próprio. – ele me ensinou.”

  • Feliciano Swerts 15/07/2014 at 00:24

    Oi Sergio. Acho que a hipótese interpretativa do Millôr Fernandes sempre foi desconsiderada. Relendo este trecho ela fica mais plausível ainda.

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