Que cena! O horror carnavalesco de João do Rio

11/02/2013

A cena abaixo pertence a O bebê de tarlatana rosa, de João do Rio, que talvez seja o mais célebre conto de carnaval da literatura brasileira (para outros exemplos do gênero, clique aqui). O fato de ser também um dos mais célebres contos de horror da literatura brasileira só torna tudo mais interessante. Publicada em 2010 no livro “João do Rio – Uma antologia” e republicada em “Os cem melhores contos brasileiros do século” (Objetiva), com organização de Italo Moriconi, a história começa de forma leve com o narrador anunciando a um grupo de amigos que vai contar uma “história de máscaras”. Curiosos, estes o estimulam e tomam conhecimento do fascínio crescente que ele sentiu em certo carnaval por uma moça vestida de rosa – um bebê “gordinho e apetecível”, como ele diz, cuja única máscara era um nariz postiço. Esbarrou com ela algumas vezes até se encontrarem ambos numa rua deserta do Rio, após um baile, alta madrugada, e ele resolver agir. Aviso: a cena abaixo estraga a surpresa do conto. Quem desejar lê-lo inteiro pode clicar aqui.

O bebê sorriu sem dizer palavra. Estás esperando alguém? Fez um gesto com a cabeça que não. Enlacei-o. – Vens comigo? Onde? indagou a sua voz áspera e rouca. – Onde quiseres! Peguei-lhe nas mãos. Estavam úmidas mas eram bem tratadas. Procurei dar-lhe um beijo. Ela recuou. Os meus lábios tocaram apenas a ponta fria do seu nariz. Fiquei louco.

– Por pouco…

– Não era preciso mais no Carnaval, tanto mais quanto ela dizia com a sua voz arfante e lúbrica: – “Aqui não!” Passei-lhe o braço pela cintura e fomos andando sem dar palavra. Ela apoiava-se em mim, mas era quem dirigia o passeio e os seus olhos molhados pareciam fruir todo o bestial desejo que os meus diziam. Nessas fases do amor não se conversa. Não trocamos uma frase. Eu sentia a ritmia desordenada do meu coração e o sangue em desespero. Que mulher! Que vibração! Tínhamos voltado ao jardim. Diante da entrada que fica fronteira à rua Leopoldina, ela parou, hesitou. Depois arrastou-me, atravessou a praça, metemo-nos pela rua escura e sem luz. Ao fundo, o edifício das Belas-Artes era desolador e lúgubre. Apertei-a mais. Ela aconchegou-se mais. Como os seus olhos brilhavam! Atravessamos a rua Luís de Camões, ficamos bem embaixo das sombras espessas do Conservatório de Música. Era enorme o silêncio e o ambiente tinha uma cor vagamente ruça com a treva espancada um pouco pela luz dos combustores distantes. O meu bebê gordinho e rosa parecia um esquecimento do vício naquela austeridade da noite. – Então, vamos? indaguei. – Para onde? – Para a tua casa. – Ah! não, em casa não podes… – Então por aí. – Entrar, sair, despir-me. Não sou disso! – Que queres tu, filha? É impossível ficar aqui na rua. Daqui a minutos passa a guarda. – Que tem? – Não é possível que nos julguem aqui para bom fim, na madrugada de cinzas. Depois, às quatro tens que tirar a máscara. – Que máscara? – O nariz. – Ah! sim! E sem mais dizer puxou-me. Abracei-a. Beijei-lhe os braços, beijei-lhe o colo, beijei-lhe o pescoço. Gulosamente a sua boca se oferecia. Em torno de nós o mundo era qualquer coisa de opaco e de indeciso. Sorvi-lhe o lábio.

Mas o meu nariz sentiu o contato do nariz postiço dela, um nariz com cheiro a resina, um nariz que fazia mal. – Tira o nariz! – Ela segredou: Não! não! custa tanto a colocar! Procurei não tocar no nariz tão frio naquela carne de chama.

O pedaço de papelão, porém, avultava, parecia crescer, e eu sentia um mal-estar curioso, um estado de inibição esquisito. – Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois não te disfarça nada. – Disfarça sim! – Não! procurei-lhe nos cabelos o cordão. Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me, o bebê de tarlatana rosa parecia uma possessa tendo pressa. De novo os seus lábios aproximaram-se da minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava o meu, o nariz que não era dela, o nariz de fantasia. Então, sem poder resistir, fui aproximando a mão, aproximando, enquanto com a esquerda a enlaçava mais, e de chofre agarrei o papelão, arranquei-o. Presa dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinante – uma caveira com carne…

2 Comments

  • Mátcia 13/02/2013 at 14:15

    Grande conto, grande João do Rio.

  • alan kevedo 05/03/2013 at 22:24

    La em casa eh assim. Minhas netas leem Shakespeare e Fernado Pessoa. Leem Olavo Bilac e Marguerite Yourcenar. Eh uma leitura absolutamente ecletica. Agora, se uma delas falar em ler Cinquenta tons de Cinza, Nada a Perder ou a Biblia, vai todo mundo perder mesada.

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