Que cena! O passeio de carruagem de ‘Madame Bovary’

01/11/2014

flaubertSe fizerem um concurso para eleger a cena de sexo mais famosa da história da literatura, esta será, no mínimo, uma das finalistas. Se a ideia for escolher a cena de sexo mais escandalosa, também. O curioso é que o máximo de nudez que existe na “cena da carruagem” do romance “Madame Bovary” (1857), de Gustave Flaubert, é a de uma mão sem luva que desliza a certa altura – “no meio do dia, em pleno campo” – sob a cortininha amarela da cabine.

O que a mão faz é jogar fora, em pedaços, a virtuosa carta de recusa que Emma Bovary tinha escrito na noite anterior para entregar em mãos ao pretendente Léon. Em algum momento do passeio a esmo de cerca de seis horas no carro fechado, a carta se tornou obsoleta. Tarde demais: o escrivão já era o segundo amante na biografia da adúltera interiorana que queria ser personagem de romance – e foi mesmo, mas não do gênero galante que tinha imaginado.

Em que momento Emma cedeu às investidas de Léon? Entregou-se logo ou se fez de difícil? Que argumentos ou carícias a convenceram? O que fizeram aqueles dois, exatamente, no abafamento da cabine? Quantas vezes? O leitor pode apenas imaginar – e imagina desenfreadamente, o que explica o fato inusitado de ter sido uma cena tão lacunar arrolada no processo de atentado à moral movido pelo ministério público contra Flaubert. O narrador fica do lado de fora do coche e se limita a enumerar as localidades em que o veículo puxado por dois pangarés foi visto aquela tarde pelo intrigado povo de Rouen, “mais fechado do que um túmulo e balançando como um navio”.

(O efeito da lista de locais pelos quais passa a carruagem tem algo em comum com o da relação de bairros no poema Tragédia brasileira, de Manuel Bandeira, aquele em que Misael mudava de casa toda vez que Maria Elvira arranjava outro homem: “Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí…” – e por aí vai.)

O prolongamento do passeio exaspera o cocheiro e titila o leitor. Conduzida com mão de mestre pelo escritor francês, essa aula sobre o poder do não-dito na literatura fecha o primeiro capítulo da terceira e última parte do romance e começa – não por acaso – no instante em que Emma e Léon saem apressadamente da igreja. A tradução é de Mario Laranjeira para a Penguin/Companhia.

– Aonde o senhor vai? – perguntou o cocheiro.

– Aonde o senhor quiser! – disse Léon empurrando Emma para dentro do carro.

E a pesada máquina pôs-se a caminho.

Desceu a rua Grand-Pont, atravessou a praça das Artes, o cais Napoleão, a ponte Nova e parou de chofre diante da estátua de Pierre Corneille.

– Continue – fez uma voz que saía do interior.

O carro andou e, deixando-se, a partir da esquina La Fayette, levar pela descida, entrou em grande galope na estação ferroviária.

– Não, siga em frente! – gritou a mesma voz.

O trole saiu das grades e logo, chegando à avenida, trotou devagar, no meio dos grandes olmos. O cocheiro enxugou a fronte, pôs o seu chapéu de couro entre as pernas e levou o carro para fora das alamedas laterais, à beira da água, perto do gramado.

Seguiu ao longo do rio, pela pista dos cavalos que puxam os barcos pavimentada de pedriscos secos, e por longo tempo, para o lado de Oyssel, além das ilhas.

Mas, de repente, lançou-se num salto através de Quatremares, Sotteville, La Grande-Chaussée, a rua de Elbeuf, e fez a sua terceira parada diante do jardim botânico.

– Continue andando! – gritou a voz mais furiosamente.

E logo, retomando o seu curso, ele passou por Saint-Sever, pelo cais dos Curandiers, pelo cais dos Meules, mais uma vez sobre a ponte, pela praça do Champ-de-Mars e por trás dos jardins do hospital, onde velhinhos de roupa preta passeiam ao sol, ao longo do terraço todo verde de heras. Subiu o boulevard Bouvreuil, percorreu o boulevard Cauchoise, depois todo o Mont Riboudet até a encosta de Deville.

Voltou; e então, sem ideia preconcebida nem direção, ao acaso, ficou vagando. Foi visto em Saint-Pol, em Lescure, no monte Gargan, na Rouge-Mare, e praça do Gaillard-bois; rua Maladrerie, rua Dinanderie, diante de Saint-Roman, Saint-Vivien, Saint-Maclou, Saint-Nicaise – diante da Aduana –, na baixa Vieille-Tour, nas Trois-Pipes e no Cemitério Monumental. De tempos em tempos, o cocheiro na boleia lançava aos cabarés olhares desesperados. Não entendia que furor de locomoção impelia aqueles indivíduos a não querer parar. Ele tentava por vezes, e logo ouvia atrás de si exclamações de cólera. Então chicoteava mais fortemente os dois pangarés já suados, mas sem dar atenção aos solavancos, enroscando aqui e acolá, não se preocupando, desmoralizado e quase chorando de sede, de fadiga e de tristeza.

E no porto, em meio aos caminhões e às barricas, e nas ruas, no canto dos pilares, os burgueses abriam olhos esbugalhados diante dessa coisa extraordinária na província, um trole com capotas estendidas, e que aparecia assim continuamente, mais fechado do que um túmulo e balançando como um navio.

Uma vez, no meio do dia, em pleno campo, no momento em que o sol dardejava mais forte contra as velhas lanternas prateadas, uma mão nua passou por baixo das cortininhas de tecido amarelo e jogou papéis rasgados, que se dispersaram ao vento e foram cair mais longe, como borboletas brancas, sobre um campo de trevos vermelhos todo em flor.

Depois, pelas seis horas, o cabriolé parou numa ruela do bairro Beauvoisine, e uma mulher desceu dele, caminhando com o véu abaixado, sem virar a cabeça.

8 Comments

  • Anouk 01/11/2014 at 12:05

    Uau! A cidade urrou como um fauno após o coito, hehehe. Grande Flaubert!

  • asdrubal moises 01/11/2014 at 17:27

    Verdadeiramente fascinante. O imortal Flaubert e a sua mais que real e igualmente imortal Madame Bovary! A literatura no seu melhor!

  • Zulmira 01/11/2014 at 22:34

    Qual ser vivo do reino animal aguenta ficar seis horas em movimento, sem se alimentar, sem beber água, sem descansar, e (por que não dizer?) sem “ir ao banheiro”? Lembro-me dessa passagem ao ler o livro, há muitos anos, e achei no mínimo bizarra.
    Consta que esses bichos se chamam cavalos, Zulmira. (A parte do “banheiro” não conta, eles resolvem isso em movimento.)

  • Carlos Cezar 02/11/2014 at 13:43

    Madame Bovary é uma obra-prima do começo ao fim. Outra obra-prima é A Orgia Perpétua, do Nobel Vargas Llosa, também sobre Madame Bovary e os modos criativos de Flaubert. Quem ler um irá gostar de ler o outro.
    (Anouk, sua danadinha, o que você tá fazendo aqui? De volta pra coluna do Caio, já, eheh.)

  • Zulmira 02/11/2014 at 17:13

    Prezado Sérgio, só para finalizar: havia na carruagem 3 “bichos” humanos também…

  • Carlos Eliseu 02/11/2014 at 21:08

    Foi bom reler esta passagem do carro, golpe de génio, impudor para a época. Como só depois li “Bel-Ami”, e sabendo da cena da carruagem em Ruão, associo porém agora Flaubert ao amigo Maupassant nas conversas sobre o ofício na capital francesa(aonde aparecia também o russo Turgueniev, época de ouro !).

  • ramon moreira 22/12/2014 at 18:57

    Caro Sérgio,
    Seu texto resolve a questão que eu iria incluir no comentário: qual tradução escolher?
    Esta é a melhor que você conhece?
    Meu francês é bissexto e Flaubert só deveria ser lido no original, pelo me me consta….dito por meus amigos mais cultos.
    Caro, não sou especialista em traduções de Flaubert, mas todas as desta coleção são no mínimo cuidadosas. Acho que todo escritor deve ser lido no original – desde que se saiba bem a língua, é claro. Um abraço.

  • ramon braga 22/12/2014 at 20:14

    Caro Sérgio, os únicos escritores que consegui ler no idioma original do começo ao fim foi Borges(em espanhol) e Guimarães Rosa(porque, assim como você, sou mineiro do interior)

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