Que cena! O retrato decrépito de Dorian Gray

27/06/2015

oscar-wilde-2É possível que para algumas pessoas a cena abaixo, um dos pontos culminantes do romance “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, publicado em sua versão final em 1891, contenha um spoiler. No entanto, imagino que para os leitores habituais deste blog sua leitura apresente tanta novidade quanto a “revelação” de que Jekyll e Hyde são a mesma pessoa. Ou de que Diadorim é mulher.

A intriga básica do livro mais famoso de Wilde, a do retrato que envelhece em segredo enquanto seu modelo permanece jovem, é uma daquelas que transbordaram do universo propriamente literário para se incorporar a um certo patrimônio de cultura geral.

Os que conhecem a trama de ouvido e até os que já leram o livro têm muito a ganhar revisitando a cena abaixo, em que o pintor do quadro mágico, Basil Hallward, penetra no quarto secreto de Dorian Gray a convite deste e é apresentado ao impensável: o estado repugnante ao qual a vida de crime e devassidão do ex-amigo terminou por reduzir o retrato que, anos antes, ele havia pincelado com iguais medidas de talento e paixão pelo belo modelo.

(Sim, o homoerotismo do livro foi considerado escandaloso na época, a ponto de o texto ser arrolado como peça de acusação no julgamento que em 1895 condenou seu autor à prisão por “flagrante indecência”. Mas quem estiver em busca de uma literatura abertamente gay vai se decepcionar.)

A cena abaixo está nas páginas 182 e 183 da edição da Penguin-Companhia, com ótima tradução de Paulo Schiller, e é antecipada, cerca de 150 páginas antes, pelo que diz o mimado Dorian ao ser apresentado ao quadro, que naquele momento ainda era o espelho perfeito de sua juventude:

“Tenho ciúmes de qualquer coisa cuja beleza não morre. Tenho ciúmes do retrato que você pintou de mim. Por que ele deve preservar o que eu terei de perder? Todo instante que passa tira algo de mim e dá a ele. Oh, se fosse o contrário! Se o quadro pudesse mudar, se eu pudesse ser sempre o que sou agora!”

Uma exclamação de horror irrompeu dos lábios do pintor quando viu na luz fraca o rosto horrendo na tela, sorrindo para ele. Havia algo em sua expressão que o encheu de asco e repugnância. Deus do céu! Era o próprio rosto de Dorian Gray que o encarava! O horror, fosse o que fosse, não havia estragado completamente sua beleza maravilhosa. Ainda havia um resquício de dourado no cabelo ralo e algum escarlate na boca sensual. Os olhos empapados conservavam algo do encanto de seu azul, as curvas nobres ainda não tinham desaparecido completamente das narinas cinzeladas e da plasticidade da garganta. Sim, era o próprio Dorian. Mas quem o tinha feito? Reconhecia suas pinceladas, e a moldura que fora desenhada por ele. A ideia era monstruosa e ele sentiu medo. Pegou a vela acesa e a segurou diante do quadro. No canto esquerdo estava seu próprio nome, traçado em letras alongadas em vermelho vivo.

Era uma paródia abominável, uma sátira infame, ignóbil. Ele nunca tinha feito aquilo. Ainda assim era seu quadro. Ele sabia, e sentiu como se seu sangue passasse em um instante de fogo a gelo viscoso. Seu próprio quadro! O que ele significava? Por que havia se transformado? Ele se virou e olhou para Dorian Gray com os olhos de um doente. Sua boca estremeceu, e a língua pastosa pareceu incapaz de se articular. Passou a mão na testa. Estava molhada de suor pegajoso.

O jovem estava apoiado no aparador, observando-o com a expressão estranha que vemos no rosto dos que estão absortos em uma peça na qual trabalha um grande artista. Não havia nele tristeza verdadeira nem alegria real. Havia simplesmente a paixão do espectador, talvez com um brilho triunfal nos olhos. Ele tirara a flor do casaco e a cheirava, ou simulava fazê-lo.

“O que isso significa?”, exclamou Hallward, por fim. Sua voz soou esganiçada e estranha a seus ouvidos.

“Anos atrás, quando eu era um menino”, disse Dorian Gray, amassando a flor na mão, “você me conheceu, me bajulou e me ensinou a me gabar da minha boa aparência. Um dia me apresentou a um amigo seu que me explicou a maravilha da juventude, e finalizou um retratro meu que me revelou a maravilha da beleza. Em um momento de loucura, que, mesmo agora, não sei se lamento ou não, eu formulei um desejo, que talvez você possa chamar de prece…”

“Eu me lembro! Oh, como eu me lembro bem! Não! É impossível. O quarto é úmido. O bolor penetrou na tela. As tintas que usei tinham um veneno mineral maldito. Eu lhe digo que isso é impossível.”

“Ah, o que é impossível?”, murmurou o jovem, aproximando-se da janela e apoiando a testa contra o vidro frio, manchado de cerração.

“Você me disse que o tinha destruído.”

“Eu estava errado. Ele me destruiu.”

5 Comments

  • Liliane de Paula Martins 28/06/2015 at 11:29

    Não lembrava desse texto.
    Li e vi o filme.

  • Claudio Faria 29/06/2015 at 11:16

    Wilde era genial. Se fosse brasileiro, hoje estaria respondendo a inúmeros processos por ser “políticamente incorreto”.

  • Alan 02/07/2015 at 19:16

    Não cheguei a ler,mas vi o filme .
    Achei otimo.

  • Claudio Faria 03/07/2015 at 08:40

    Sérgio, assistindo a TV ontem, vi que no canal Curta! o episódio de “Livro de Cabeceira” seria com você. Como o admiro, assisti e qual não foi minha surpresa ao saber que o livro que escolhido por você foi o “Ficções”, do Borges! É um dos meus livros eternos, está entre os me 10 Mais, meus 5 Mais, até mesmo entre os 3 Mais de minha lista afetiva particular.

    (A propósito, os outros 2 são Grande Sertão: Veredas e Cem Anos de Solidão).

    Emocionei-me (não exagero!) quando você descreveu a impressão que a leitura de “Ficções” provocou. Faço minhas as suas palavras. Era algo tão novo, um universo tão surpreendente e maravilhoso, que me vi num estado de espírito elevado. Tanto que – como só acontece quando experimentamos momentos ou vivências significativamente marcantes – lembro-me exatamente onde me encontrava quando terminei os dois primeiros contos e percebi que vivia algo raro: eu estava perto do Passeio, no Rio, em um ônibus voltando para minha casa em Niterói.

    E fiquei ainda mais surpreso ao ver que o conto que você destacou é exatamente aquele que mais me marcou, “Furnes, o Memorioso”. Já perdi a conta de quantas vezes o reli.

    Enfim, concluo dizendo que passear por “Ficções” é mais do que uma leitura: é uma Experiência. É algo que transcende, um daqueles momentos que torna difícil qualquer leitura posterior, posto que, acima do cume o que mais pode haver?

    Cabe ressaltar que considero “O Aleph” do mesmo nível, espetacular.

    Mas é claro que ontem mesmo peguei meu exemplar de “Ficções” e já estou lendo-o de novo.

    Um abraço.

    Que beleza, Claudio! Fico contente de ter motivado mais uma releitura desse livro mágico. Saudações borgianas.

  • Carlos Marques 04/07/2015 at 19:28

    Concordo com o Claudio. Borges é um gênio. Ficções e O Aleph são incríveis. Mas discordo sobre Garcia Marquez e Guimarães Rosa. Prefiro Dostoiévski, Céline e Henry James. Além, é claro, dessa obra-prima que é O Retrato de Dorian Gray.

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