Que cena! O sexo incestuoso de ‘Lavoura arcaica’

25/03/2013

Em 1975, ano especialmente feliz para a literatura brasileira, um paulista do interior, descendente de libaneses nascido em Pindorama, lançou seu livro de estreia. O nome do autor, então com 39 anos, era Raduan Nassar. O romance curto e denso com que se apresentava, “Lavoura arcaica”, ganhou reconhecimento da crítica – imediato – e de um público exigente – aos poucos – como um clássico moderno. O que sem dúvida é. Nove anos depois, quando anunciou que estava abandonando a literatura para cuidar de sua fazenda, Raduan tinha publicado só mais uma novelinha, “Um copo de cólera”. Intitulado “Menina a caminho”, o volume também breve que reúne cinco contos, quatro escritos antes de “Lavoura” e apenas um recente, sairia em 1997, pela mesma Companhia das Letras que edita toda a sua obra.

Acredito estar dizendo o óbvio ao apontar “Lavoura arcaica”, do qual extraí a cena abaixo, como a obra-prima de Raduan. E também ao alertar quem ainda não conhece o livro (nem viu o filme nele baseado, dirigido por Luiz Fernando Carvalho) para o risco de descobrir nesta seção a revelação de um mistério que preferiria desvendar no tempo certo da leitura. O anseio não é apenas justo, mas sábio. Se for trocado agora mesmo pelas palavras de abertura de “Lavoura”, este post terá cumprido sua função.

Muito se fala na dificuldade de escrever cenas de sexo. A que vai abaixo é, na minha opinião, uma das mais belas da literatura brasileira. Pouco se sabe sobre a mecânica do ato que uniu no leito de palha de uma velha casa de fazenda abandonada o narrador, André, e sua amada Ana, mas isso nada tem a ver com elipses pudicas ou eufemismos poéticos, recursos habituais com que muitos autores procuram amenizar a crueza do sexo. A linguagem poética convulsa da cena – a mesma que percorre o livro do início ao fim – trabalha no sentido contrário ao do eufemismo. Religiosa e profana, telúrica e mística, satânica e compungida, é uma prosa violenta que o narrador sabe tão bem quanto nós, leitores, estar destinada a acabar mal. André e Ana são irmãos.

Deitado na palha, nu como vim ao mundo, eu conheci a paz; o quarto estava escuro, era talvez a hora em que as mães embalam os filhos, soprando-lhes ternas fantasias; mas lá fora ainda era dia, era um fim de tarde cheio de brandura, era um céu tenro todo feito de um rosa dúbio e vagaroso; caí pensando nessa hora tranquila em que os rebanhos procuram o poço e os pássaros derradeiros buscam o seu pouso; (…) num sítio ledo lá do bosque, debaixo das árvores de copas altas, o chão brincando com seu jogo de sombra e luz, teria águas de fontes e arrulhos de regatos a meu lado, folhas novas me adornando a fronte, o mato nos meus dentes me fazendo o hálito, mel e romãs à minha espera, pombas sem idade nos meus ombros e uma bola amarela boiando no seio imenso da atmosfera, provocando um afago doido nos meus lábios; e era, Ana a meu lado, tão certo, tão necessário que assim fosse, que eu pensei, na hora fosca que anoitecia, descer ao jardim abandonado da casa velha, vergar o ramo flexível de um arbusto e colher uma flor antiga para os seus joelhos; em vez disso, com mão pesada de camponês, assustando dois cordeiros medrosos escondidos nas suas coxas, corri sem pressa seu ventre humoso, tombei a terra, tracei canteiros, sulquei o chão, semeei petúnias no seu umbigo; e pensei também na minha uretra desapertada como um caule de crisântemo, e fiquei pensando que muitas vezes, feito meninos, haveríamos os dois de rir ruidosamente, espargindo a urina de um contra o corpo do outro, e nos molhando como há pouco, e trocando sempre através das nossas línguas laboriosas a saliva de um com a saliva do outro, colando nossos rostos molhados pelos nossos olhos, o rosto de um contra o rosto do outro, e só pensando que nós éramos de terra, e que tudo o que havia em nós só germinaria em um com a água que viesse do outro, o suor de um pelo suor do outro; e nesse repouso de terras e tantas águas, alguém baixou com suavidade minhas pálpebras, me levando, desprevenido, a consentir num sono ligeiro, eu que não sabia que o amor requer vigília: não há paz que não tenha um fim, supremo bem, um termo, nem taça que não tenha um fundo de veneno; era uma sabedoria corrente, mas que frivolidade a minha, alguém mais forte do que eu é que puxava a linha e, menino esperto e sagaz, eu tinha caído na propalada armadilha do destino: enfiou seu longo braço nos frutos do meu saco, pinçou nos finos dedos o fundo, e, súbito, num fechar d’olhos, virou meu doce mundo pelo avesso; houve medo e susto quanto tateei a palha, abri os olhos, eram duas brasas, e meu corpo, eu não tinha dúvida, fora talhado sob medida pra receber o demo: uma sanha de tinhoso me tomou de assalto assim que dei pela falta dela, e me vi de repente, com alguma cautela, no corredor escuro, e perguntei com palavras claras “se você está na casa, me responda, Ana”, e foi uma pergunta equilibrada, quase branda, eu procurava, embora me queimando, aliciar a casa velha, seu silêncio de morcegos, os seus fantasmas; trazê-los todos, como aliados, para o meu lado, e repeti “me responda, Ana” e de novo minha voz repercutiu em ondas, e aguardei (eu tinha de provar minha paciência), mas ficando sem resposta eu passei, num ranger de tábuas e num furor crescente, a vasculhar todos os cômodos, peça por peça, canto por canto, sombra por sombra, e não encontrando vestígio dela corri então para a varanda, gelando minha medula o recolhimento dessa noite escura: os arbustos do antigo jardim, destroçados pelas trepadeiras bravas que os cobriam, tinham se transformado em blocos fantasmagóricos num reino ruidoso de insetos (…).

5 Comments

  • Tibor Moricz 25/03/2013 at 14:06

    Amenizar a crueza do sexo? Mas é o que ele tem de melhor…

    • sergiorodrigues 25/03/2013 at 14:54

      Tibor, diz isso para o pessoal do “Jack colheu a flor de Margaret em botão”, não para mim.

  • Claudio Faria 26/03/2013 at 08:07

    Isso me lembra uma trilogia erótica publicada pela Editora Globo há mais de 20 anos, “Memórias Eróticas de Paris na Belle-Epoque”. Muito bem escrito, não pode ser chamado de ponográfica, e nada a ver com esses porno-soft de hoje em dia. Mesmo assim, aqui e ali encontram-se trechos risíveis, como “… e ela contemplou seu bastão de jade” ou “…adentrou seu Portal Celestial…”.

  • Soraya Matsuo 26/03/2013 at 10:19

    Narrativa primorosa, sexo mixo.

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