Quem é Elena Ferrante? E isso importa?

06/06/2015

a_amiga_genial_capaO mistério que envolve a festejada escritora italiana Elena Ferrante pode começar a ser desvendado pelo leitor brasileiro com a publicação de “A amiga genial” (Biblioteca Azul, tradução de Maurício Santana Dias, 331 páginas, R$ 44,90), o primeiro dos quatro volumes que compõem sua chamada “série napolitana”. Isto é, desde que se tome como autobiográfico o romance narrado por Elena Greco, que reconstrói sua infância e adolescência num bairro pobre de Nápoles nos anos 1950.

Apesar da diferença de sobrenome, tal identificação entre autora e personagem tem sido feita pela maior parte de uma crítica internacional entusiasmada, que tornou Ferrante, ao lado do também prolífico norueguês Karl Ove Knausgård, a coqueluche literária do momento. O argumento é que os dois, chamados simplesmente de “titãs” pela prestigiosa revista americana The New Yorker, driblariam o que a ficção tem de falso ao se desnudar em suas memórias. “Seus romances são intensamente, violentamente pessoais”, escreveu sobre Ferrante o respeitado crítico inglês James Wood.

O problema mais óbvio com tal ideia é que, enquanto Knausgård escreve de modo explícito sobre a própria vida e se multiplica em entrevistas sobre isso, Ferrante é um ponto de interrogação. “Acredito que os livros, uma vez escritos, já não precisam de seus autores”, afirmou ela em carta de 1991 a seu editor italiano, avisando que nada faria pela divulgação de seu primeiro romance, L’amore molesto (inédito no Brasil). Promessa cumprida e renovada a cada livro: resistindo ao sucesso de público e crítica, a autora permaneceu reclusa, não divulgou uma única fotografia e se limitou a conceder meia dúzia de entrevistas por escrito, todas avaras em revelações pessoais. Conta ter nascido e crescido em Nápoles, mas pouco mais que isso.

O fato de “Elena Ferrante” ser provavelmente um pseudônimo – única explicação para que a proverbial xeretice da imprensa italiana ainda não tenha elucidado o mistério – não inviabiliza, claro, a tese dos romances autobiográficos. Ela tem mesmo como tema constante a condição feminina, questões como a maternidade e a amizade competitiva entre mulheres, que trata com sensibilidade e desassombro. Contudo, não faltam céticos que imaginam um homem por trás da máscara: o escritor italiano Domenico Starone costuma ser mencionado como candidato ao posto.

Questões de autoria à parte, “A amiga genial” é um bom romance de formação narrado em linguagem seca e segura, sem digressões ou qualquer ousadia formal. O domínio que Ferrante tem sobre a técnica romanesca é evidente, mas jamais se transforma em virtuosismo. O que impulsiona a história contada por Elena Greco, filha de um contínuo da prefeitura, é a pura sucessão dos acontecimentos: de seu primeiro encontro com Lila Cerullo, filha de um sapateiro, no início do ensino fundamental, até o casamento desta, aos 16 anos, as duas amigas crescem juntas.

Elena é inteligente, ponderada e medrosa. Lila é brilhante, imprevisível e “levada sempre, pior que os meninos”. Numa dinâmica ao mesmo tempo amorosa e competitiva, alternando admiração e rancor mútuos, a autora as faz trocar o tempo todo de papéis: Lila era uma criança magra e suja que vira uma adolescente deslumbrante, enquanto a loura e graciosa Elena desabrocha numa jovem gordinha que se julga feia; Lila era a melhor aluna da turma, mas é impedida pelos pais de continuar estudando e passa a se dedicar à sapataria da família; Elena, que se via condenada a um eterno segundo lugar nas disputas escolares, segue em frente nos estudos clássicos e logo está aprendendo latim e grego.

O ambiente em que as amigas crescem é dominado por homens violentos. Na rua, trocar pedradas com grupos rivais é comum até para as meninas, e em casa as surras rotineiras podem chegar à beira do assassinato, como quando Lila é atirada da janela pelo pai e quebra o braço. Instruídas por um vizinho comunista, as duas acabam por compreender que o fantasma do fascismo italiano recém-derrotado na Segunda Guerra se confunde com o submundo criminoso de agiotas e mafiosos para explicar as desigualdades econômicas do bairro.

Os filhos das afluentes famílias Solara e Carracci, temidas e respeitadas pelos pais das duas amigas, vão aos poucos se transformando em sua própria turma. A galeria de tipos humanos em torno delas é tão vasta que justifica a incomum lista de personagens que antecede a narrativa, mais usual em obras de dramaturgia, sem a qual o leitor poderia se perder.

A semelhança de “A amiga genial” com o cinema neorrealista italiano vai além da temática. O que o romance oferece é o bom e velho realismo literário, bem executado, com olhar atento ao quadro político-social em que os personagens se inserem e sondagens psicológicas breves mas certeiras entremeadas à ação. Pode ser que alguma evidência da genialidade que tantos atribuem à autora surja nos próximos livros da série: no horizonte deste romance robusto, mas esteticamente conservador, não há sinal disso.

Cabe perguntar até que ponto aquela intriga de bastidores tem interferido na apreciação crítica de Ferrante. Embora ela defenda, com sua invisibilidade, o saudável princípio de que os livros devem ser julgados apenas pelo que neles está escrito, pouco importando quem escreveu, a atribuição de um caráter “corajoso”, “cru” ou “testemunhal” a suas histórias é sem dúvida um dos pilares de seu prestígio internacional, não só como escritora mas também como, digamos, porta-voz do feminismo. Seria engraçado se Ferrante fosse mesmo, no fim das contas, um homem. A reviravolta surpreendente não alteraria a qualidade de seu texto, mas provocaria abalos consideráveis na crença ingênua – que, não sendo nova, vem ganhando força – de que a ficção só escapará da irrelevância se trocar suas “mentiras” por “verdades”.
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Publicado na edição de VEJA que está nas bancas.

3 Comments

  • tiago alves 11/06/2015 at 12:07

    Mas Sérgio ela escreve melhor do que o Knausgard ou seja lá como se escreve o nome desse cara?
    São estilos muito diferentes. Nenhum dos dois é o que se chama de estilista, ambos investem numa certa crueza e privilegiam o que se conta sobre o como se conta. Ferrante é mais seca e cortante, Knausgaard mais esparramado. Isso está longe de significar que não escrevam bem, ambos sabem direitinho o que estão fazendo e arrastam o leitor junto, que é o que importa no fim das contas.

  • Priscila Meireles 11/06/2015 at 15:05

    Adorei a resenha. Já esta na minha lista de livros para ler.
    Que bom, Priscila. Espero que goste. Um abraço.

  • sergio marcone 24/10/2015 at 17:29

    “A amiga genial” é uma delícia!!!

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