Quinze anos

06/01/2009

Começou a escrever porque tinha quinze anos, porque ninguém parecia querê-lo por perto e porque o que ele mais desejava na vida era reencenar para o mundo o velho número do patinho que se revela cisne no final. Cinqüenta e cinco anos depois, pegando com a faca uma pasta rosada extraordinariamente suspeita, espalhando-a numa torrada quadrada de pacote e jogando tudo na boca de poucos dentes verdadeiros remanescentes, o escritor se lembrou de sua juventude, do princípio daquela ciranda maluca de ler, escrever, ser lido, ler, escrever de novo…

Vinham chamá-lo para cantar parabéns, uma das três coisas que mais abominava no mundo; as outras eram dentista e – o quê mesmo? Tentou não parecer um perfeito débil-mental enquanto entoavam aquelas palavras hediondas, às quais sua idade acrescentava agora o pecado do cinismo: muitos anos de vida, essa era muito boa.

Aos quinze anos, não era ainda sequer um escritor: ridículo ter saudade daquilo. E, no entanto, havia alguma coisa ali, no fundo do papel em branco, na relação da palavra com a coisa ou dele mesmo com a coisa, sabia lá ele, mas alguma coisa havia ali, sim, de belo e bom que se perdera por inteiro e que, voltando-lhe à lembrança sem mais nem menos, enquanto lhe cantavam parabéns-pra-você, fez o escritor sentir um calafrio.

Como sempre gostara de uma metáfora, rebuscou: feito o arrepio na alma sentido por quem, caminhando às cegas na noite fechada, descobre de repente ter tangenciado um abismo.

Agora pediam discurso, dis-cur-so – aquele corinho ritmado. Ele sabia ser impossível escapar. Setenta anos era uma marca grandiosa demais. Tinha oito romances nas costas, dos quais pelo menos cinco eram bastante dignos e dois, isso era (quase) consenso, autênticos clássicos contemporâneos. O que fazia dele, por qualquer critério crítico que se empregasse, um dos cachorros grandes. Despejou sobre a pequena multidão um discurso desinspirado, soltou dois palavrões, arrancou risadas, agradeceu e foi se refugiar num canto do sofá, só ele e seu copo de uísque. Ninguém tentou impedi-lo. Escritores, socialites, editores, cantoras, atrizes, bicões de colorações variadas, jornalistas, prostitutas, traficantes e parlamentares entretinham-se uns aos outros no salão repleto de vozes e música.

O escritor fez girar no copo os cubos de gelo. Parecia-lhe tão distante aquele desejo inicial, a fagulha do anseio adolescente até hoje insatisfeito; tão distante, e mesmo assim tão dolorido. Olhando para a multidão matraqueante o escritor pensou, ainda não me querem por perto. Nunca quererão.

Deu um gole largo. Largo demais: um pouco de uísque lhe escorreu pelo queixo. Nem eu tampouco os quero, pensou, e foi afundando no sofá. Suava frio. Foi quando lhe ocorreu, com nitidez tipográfica, o seguinte pensamento:

ESCREVER É TENTAR IMPRESSIONAR QUEM NÃO MERECE.

Depois disso, não soube de mais nada até que o calor o acordou em sua cama ao meio-dia, ressaqueado como há muito não se sentia, e até morrer, um ano e meio depois, de ataque cardíaco, o escritor nunca mais pensou em seus quinze anos.

3 Comments

  • Mariana 07/01/2009 at 15:11

    Eu não mereço, logo, fico impressionada. Adorei a idéia de que a idade acrescenta o pecado do cinismo… melhor, adorei a afirmação do cinismo como pecado.

  • Sérgio Rodrigues 07/01/2009 at 18:49

    Mariana, mesmo não tendo setenta anos e não sabendo se concordo muito com a tal frase lapidar, fico contente. Um grande abraço.

  • Virginia 13/01/2009 at 17:04

    Adorei as cenas. As vi todinhas. Muito legal!

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