R.I.P. (Dedicado a Lee Siegel)

05/07/2010

– Tem certeza que está morto?

– Absoluta. Infelizmente.

– Mas não poderia estar, digamos, só em coma? Ou hibernando? Quem sabe prestes a renascer das próprias cinzas qual uma maravilhosa…

– Impossível. Lamento.

– Mas o senhor sabe que esse atestado de óbito já foi passado muitas vezes, não sabe? Há mais de um século que é assim. Toda vez que um criticozinho obscuro quer aparecer, a primeira coisa que lhe ocorre é…

– Estou ciente disso.

– E mesmo assim…

– O que posso dizer? Desta vez é sério: o romance está definitivamente morto. Talvez os coveiros do passado tenham se precipitado, declarando morte onde havia apenas doença. Ou talvez estivessem certos o tempo todo, e o que temos visto desde então não passe de um estado de zumbi, o movimento que permanece no rabo amputado de uma lagartixa. Só o que posso lhe garantir, após o exame clínico que acabo de realizar do alto do meu pós-doutorado, é que agora já era mesmo. Babau. Finito.

– Puxa, mas isso é tão triste.

– Fale por você.

– Logo agora que eu ia finalmente começar a ler o Quixote!

– Veja bem, nada impede. Cada um desperdiça seu tempo como quiser. Romances são e continuarão sendo ótimas peças de museu, só não se mexem mais. Não pulsam, entendeu?

– Estou tentando. Mas se o romance morreu, por que ninguém está triste? Por que ninguém veste luto, ninguém uiva sobre o caixão, ninguém chora pelos cantos?

– Pois essa é justamente a maior prova, meu caro. Ninguém está nem aí.

– Nem o senhor, não é?

– Eu?

– Sim, o senhor. A autoridade que assina o atestado. Não lhe vem nenhum pesar ao fazer isso? Não vai sentir falta dele?

– Como escora de porta ou peso de papel, sem dúvida. Lembre-se: sentimentalismo é coisa de romance, também está morto. Pode acertar a consulta com a secretária na saída, sim?

14 Comments

  • Luíz Fernando Liveira 05/07/2010 at 19:55

    “Será de fato o Romance finado?
    Existirá uma tênue esperança
    de sobre-vida? Asim, acabado,
    sem deixar minúscula lembrança?
    Ou ao menos um breve recado
    de voltar algum dia, mansa
    e cálidamente, um novo legado?”
    http://www.luizfernandoliveira.com.br

  • Rafael Rodrigues 06/07/2010 at 19:16

    Mas rapaz… Que faço agora com o meu original? Uma fogueira? Bom conto, Sérgio. Espero que daqui a algum tempo venha o “Sobrescritos II”.

  • Mariana 06/07/2010 at 22:09

    Olha só! Sabe o que eu descobri – no primeiro ano do Ensino Médio, com a introdução da diciplina de Literatura -? Que arte não é nada e Literatura é tudo! Textos, textos e mais textos. Todos eles expressando sentimentos – frustrações, alegrias, tristezas. E sabe o melhor disso tudo? São verdadeiros. Não são mentiras como as palavras pronunciadas. São verdades. As palvras que compõe um texto são solitárias, portando, verdadeiras. AMO A LITERATURA!

  • sergiorodrigues 07/07/2010 at 11:50

    Rafael, começo a achar que os Sobrescritos tendem ao infinito. Será que veremos o VIII, o XIX?

    Mariana, você iluminou o dia. Desmoralizou o pós-doutor e expôs o ridículo do atestado de óbito. Obrigado!

  • Rafael Rodrigues 08/07/2010 at 00:27

    Tomara, Sérgio, tomara!

  • Rafael Rodrigues 08/07/2010 at 00:28

    Sérgio, agora fiquei com uma curiosidade que talvez valha a pena você elucidar no outro blog: donde vem esse “tomara”?

  • Gustavo Ramos 08/07/2010 at 02:19

    Será mesmo o fim do romance? Acho muito cedo para se falar nisso. Muitos falam por aí dos leitores digitais e que estes acabarão com o objeto livro, mas acho muito improvável. O Livro continuará a ser um objeto de fascínio, desde os registros olfativos até o prazer de manuseá-lo. Coisa que os leitores digitais não nos proporcionarão.

  • Marcelo 08/07/2010 at 11:16

    Algum problema “Sergio Rodrigues” com as palavras da jovem Mariana?

    • sergiorodrigues 08/07/2010 at 11:19

      Problema nenhum, “Marcelo”. Por quê?

  • Marcelo 08/07/2010 at 21:41

    Pelo que me parece, ela é jovem. Não tem experiencia com as palavras e naturalmente, sem querer, expressou-se mau. Mas é bom sabem que jovens como ela gostam da literatura. Essas são poucos, quase nada. Não é verdade?

    • sergiorodrigues 08/07/2010 at 22:28

      Pois eu não acho que a Mariana tenha se expressado mal, pelo contrário. Minha resposta a ela não teve ironia nenhuma, se foi isso que lhe pareceu. Fiquei realmente feliz com a manifestação.

  • Marcelo 09/07/2010 at 18:17

    Eu naturalmente posso ter entendido errado. Desculpe-me.

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