Reinaldo Moraes: ‘Pornopopéia’

10/06/2009

É difícil dar uma idéia, para quem não estava na área naquele momento, do que significou o lançamento do livrinho “Tanto faz”, de um então recém-balzaquiano Reinaldo Moraes, pela editora Brasiliense em 1981. Para nós, a quem cabia desempenhar o papel de “novíssima geração” do momento, era como se a história do desbunde de um bolsista brasileiro em Paris finalmente introduzisse na literatura brasileira uma sintaxe, um vocabulário, um humor, uma sujeira, uma inteligência e uma falta de modos que atualizavam por aqui, de um golpe só, todo o lado B do século 20, de Knut Hamsun aos Beats. Sim, tínhamos coisas pop como “PanAmérica” de José Agrippino e “Catatau” de Leminski, entre outras, mas “Tanto faz” era diferente. Lia-se sem nenhum tropeço, puro prazer. Não soava como experimentalismo ou como a busca consciente – e inevitavelmente impostada – de uma voz “jovem”. Aquilo parecia natural no cara.

Ainda parece. O caminho aberto por “Tanto faz” teve seguidores em penca, a ponto de a “sujeira” ter se tornado um terreno minado por seus próprios clichês, numa espécie de beletrismo em negativo. Demorou (pelo menos para mim, que passei batido por “Abacaxi”, seu segundo romance), mas o que já li do tijolão “Pornopopéia” (Objetiva, 480 páginas, R$ 54,90) é o suficiente para me fazer crer que Reinaldo Moraes, hoje cinqüentão, continua na vanguarda dessa picada. Bom motivo para me fazer tirar de um longo período na geladeira a seção “Primeira mão” e reproduzir abaixo o trecho inicial do livro:

Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopéia, não é arte. É — repita comigo — vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco. Porra, tu roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do caralho, vai ter agora “bloqueio criativo” por causa dum institucionalzinho de merda? Faça-me o favor.

Ok, chega de papo. É só dirigir a porra da tua mente pra nova linha de embutidos de frango da Granja Itaquerambu. Podia ser qualquer outro tema, os cristais de Maurício de Nassau, a cavalgada das Valquírias, a vingança dos baobás contra o Pequeno Príncipe. Que diferença faz? Pensa que são os embutidos de frango do Nassau, a cavalgada das mortadelas, a vingança dos salsichões contra o Pequeno Salame. Pensa no target do vídeo: seres humanos a quem coube o karma nesta encarnação de vender no atacado os produtos da Itaquerambu. Pensa no evento em que o teu vídeo vai passar — vários eventos, aliás, todos no mesmo dia em todas as filiais do Brasil. Os seres humanos vendedores de embutidos verão teu vídeo e serão apresentados ao salsichão, ao salame e até à mortadela de frango, heresias saudáveis em matéria de junkyfood que a Itaquerambu vai lançar no mercado. Mesmo a tradicional salsicha e a insuperável lingüiça de frango vão ser relançadas com outra formulação, segundo eles dizem. Quer dizer, em vez do jornal reciclado de praxe, os putos vão adicionar algum tipo de pasta de lixo orgânico pasteurizado na mistura, imagino, mais uma contribuição da Itaquerambu para um planeta sustentável.

Porra, mas eu sou cineasta, caralho. Artista. Não nasci pra rodar vídeo institucional. E de embutidos de frango, inda por cima, caceta!

Calma, calma. Pensa que o teu vídeo será visto “de Passo Fundo a Quixeramobim, do Rio de Janeiro a Corumbá”, como disse o Zuba, ao sentir minha reação pouco eufórica diante do tema. “E capricha na linguagem brasileira universal, tá?”, foi o que ele me pediu, como se linguagem brasileira universal fosse uma das opções do Final Draft ou do Magic Screen Writer. Você clica em LBU e seu texto será entendido nos pampas, serrados, praias, selvas, semi-áridos e caatingas do país, sem contar os aglomerados urbanos e seus múltiplos guetos. Teu único filme de cinema até agora, por exemplo, nunca passou em tantos lugares ao mesmo tempo. Na caatinga, por exemplo, nunca foi visto. Não que se saiba.

Volto a perguntar: qual a diferença entre arte e embutidos de frango? Ou melhor: por que embutidos de frango não podem se transformar em arte?

Mas não precisa pensar nisso agora, nem em merda nenhuma que não seja frango embutido. Faz logo essa porra, porra. É bico: oito minutos de duração, um curta-metragem. Não vai matar o artista que há em você, amice. Ou havia. Ou nunca houve nem haverá. Foda-se.

É isso aí: vídeo institucional, embutidos de frango, Granja Itaquerambu. Beleza.

O que fode é o prazo. Sempre a porra do prazo. Tá ligado que esse roteiro tem que estar escrito, aprovado, rodado, entregue em mídia DVCAM, e exibido pros vendedores até 15 dias antes do lançamento da campanha na mídia? Ou seja, daqui a nove dias. Você devia ter chamado um bosta dum roteirista qualquer pra te ajudar, desses que filam cigarro e cerveja de mesa em mesa na Merça e não perdem chance de puxar uma lousa e dar aula sobre Hal Hartley e a narrativa cinematográfica interior aos substratos descontínuos da consciência dos personagens pra alguma gostosinha basbaque de peitinhos soltos dentro de uma camiseta de pano fino. Conheço vários roteiristas desse naipe. Dúzias deles, na verdade. Tudo uma corja de bebum cafungueiro desempregado du caraio. Por uma peteca de pó e duas Original você contrata na hora um deles. Se calhar, o infeliz ainda leva teu carro no mecânico pra trocar a fricção e te faz o obséquio de encarar uma fila de banco pra pagar tuas contas atrasadas.

Bullshit. Não preciso, nunca precisei de roteirista nenhum. Merda por merda, deixa que eu mesmo chuto. Só que dessa vez travei geral. E o cara da Itaquerambu tá no pé do Zuba, que tá no meu pé, que tô em pé de guerra com os embutidos de frango. Ridículo, isso. Fala sério: nem uma réles ideiazinha pro vídeo pintou ainda na tua cabeça, meu filho. Nem a porra duma idéia de merda.

Pois é, nem a idéia.

Tá foda.

Embutidos de frango.

Foda.

27 Comments

  • John Coltrane 10/06/2009 at 13:00

    Que post!

  • Tibor Moricz 10/06/2009 at 13:08

    Caralhaço! Gostei.
    Embutidos de frango da Granja Itaquerambu… já cansei de fazer vídeos institucionais como esses aí. Mas diretor inteligente e culto como o narrado, nem a pau. São quase todos uns embutidos de merda.

  • gilvas 10/06/2009 at 15:05

    taí: genuíno enquanto contemporâneo.

  • isaac 10/06/2009 at 15:27

    o tanto faz é obra-prima. o abacaxi também, sérgio, é massa. recomendo.

  • Anna May 10/06/2009 at 15:46

    Perfeito!

  • Cássio 10/06/2009 at 15:55

    Eu lembrei na hora do começo inesquecível dum outro clássico, mas do cinema, Trainspotting: “Choose life”.

  • fred k. 10/06/2009 at 16:59

    putz, senti um cheiro de literatura auto-indulgente, autorreferencial (malditos hífens, maldito bechara!), meio marcelo mirisola (sim, ele veio depois, eu sei…)….sei lá….

  • Lollipop 10/06/2009 at 17:04

    What a fucking nightmare!

  • JH 11/06/2009 at 02:38

    Me lembrei de uma coletânea de “novíssimos contos brasileiros” (ou algo parecido) que o meu irmão mais velho tinha e eu li aos 15 anos de idade. Parecia, deliberadamente, feita pra transgredir. Lembro-me, nitidamente, de dois contos, acho que mais pelos títulos: “O Método” (o da cobra na vagina), cujo autor é o Luis Fernando Emediato (não confundir com o homônimo sindicalista), autor de outro conto na coletânea, de cujo título jamais me esquecerei: Crocidura Drama, e isso, suponho, porque descobri, logo depois e acidentalmente, vasculhando a biblioteca do meu Avô, que em um dos volumes de uma de suas extensas enciclopédias, o primeiro verbete era “Crocidura” e o último “Drama” (de onde, não há dúvida, o autor se inspirou para dar título ao conto, direta ou indiretamente). O outro conto era o “Sujo de Bosta”, cujo nome do autor não consigo me lembrar.

    Não sei se o Emediato continua escrevendo. Sei apenas que ele também era (ou é) jornalista, com alguma importância no meio.

    Divago, Sérgio. Mas o seu post me inspirou reminiscências de – valha o termo – formação literária. Peço perdão pelo abuso do longo e pessoal comentário.

  • Sérgio Rodrigues 11/06/2009 at 11:33

    JH, há o que agradecer, não o que desculpar. O livro a que você se refere se chama “Histórias de um novo tempo” e foi lançado pela extinta Codecri nos anos 70. Além de Emediato, tinha Caio Fernando Abreu, Domingos Pellegrini Jr., Jefferson de Andrade e Júlio César Monteiro Martins, este sim o autor do conto da tortura com cobra que você cita. Um abraço.

  • Mylle Silva 11/06/2009 at 12:19

    Muito boa a citação, fiquei com vontade de ler o livro. O tema veio bem a calhar com minhs últimas reflexões sobre o que fazer da vida.

    Comecei a acompanhar seu blog há um mês e gostei bastante. Como moro em Curitiba, peguei o Rascunho e li a sua entrevista, gostei do seu ponto de vista de “esperar para publicar”.

    Enfim, parabéns pelo trabalho! Também procurarei algum livro seu para ler, é só eu ter uma oportunidade.

  • André 11/06/2009 at 15:07

    Porra, parece filme do Canal Brasil, caralho.

    Calma, calma, senta esse rabo sujo na cadeira e continua a navegar na maldita rede.

  • Dina Zagreb 11/06/2009 at 15:48

    Eu li o livro todo (por motivos profissionais), e achei totalmente over, apesar de algumas partes engraçadas e algumas boas sacadas.

  • Renata Figueiredo 11/06/2009 at 17:55

    Não sei bem o que dizer, a não ser que de todos os escritores da tal da Merça, Reinaldão tem texto digno de macho de respeito. Agora, o trecho inicial é bem escrito, mas como disse a Dina Zagreb, parece mesmo meio “over”.

  • Sérgio K. 11/06/2009 at 21:15

    Uau, transgrediu geral…. que o Governo Federal compre 300 mil exemplares para serem distribuídos para o ensino médio. E quem for contra é carola.

    E o livro dele para os Amores Expressos?

  • Tibor Moricz 11/06/2009 at 23:05

    Sergio, não te incomoda que te chamem de “Senhor” numa entrevista?… rs… formal demais! Me refiro a entrevista do Rascunho.

  • JH 13/06/2009 at 07:46

    Isso mesmo: Júlio César Monteiro Martins.

    Grato, Sérgio!

    Conheci a editora Codecri a partir de “A lua vem da Ásia”, do Campos de Carvalho.

    Aliás, talvez mereça estar entre os seus “Começos inesquecíveis (se é que já não está);

    Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.

    Update: antes de clicar em enviar, fiz uma busca no seu blog e vi que Campos de Carvalho já está no Panteão.

  • João Athayde 13/06/2009 at 09:06

    Não acredito que ainda hoje alguém use essa fórmula literária. Reinaldo Moraes foi atacado pelo vírus do saudosismo ou se esqueceu de amadurecer?

  • Harpia 13/06/2009 at 10:34

    Achei interessante, aprecio este tipo de humor sarcástico.

    “seres humanos a quem coube o karma nesta encarnação de vender no atacado os produtos da Itaquerambu” e aquela sacação do LBU me fizeram morrer de rir.

    Agora, se entendi direito, de 81 para cá foram apenas 3 livros, é isso mesmo?

  • Marcelo 15/06/2009 at 18:12

    “Envelheçam!”, já pedia o grande Nelson.

  • chato 17/06/2009 at 20:16

    Boa, Marcelo.

  • Luciana Penante 21/06/2009 at 19:30

    Estou lendo Ponopopéia, dei uma googlada no título e vim direto parar no seu blog. O livro é foda! E olha que nem gostei tanto desse começo, apesar de adorar a linha mestre da narrativa, o fato do cara ter que fazer esse maldito vídeo da Itaquerambu. Mas meu, quando começa a história da Sossô, a Samayana, seu templo de Bhagadhagadhoga, é fooooooooooodaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!
    Recomendo fortemente!

  • Claudia 28/06/2009 at 23:24

    Estranho ler aí em cima que o povo achou a coisa toda meio “over”… O texto é totalmente sujo e, por consequência, livre de toda a revisão oficial que deve passar prá se tornar palatável.
    O que se chama de over estou a chamar de marginal, verdadeiro, totalmente atual.
    Amanhã não perco o lançamento oficial de jeito nenhum!!!

  • Luciana Penante 08/07/2009 at 22:57

    Pois então. Terminei de ler o livro. Tem parte 2 inclusive. E nem se fala mais em embutidos de frango. O livro é realmente muito bom, o anti-herói Zeca ganha vida, a ponto de às vezes eu me pegar pensando o que o Zeca faria se tal coisa acontecesse. É um cara que fica no imaginário da gente. Recomendo com ainda mais força que antes. Romance muito atual. Fica a dica.

  • Raimundo cavalcante 04/08/2009 at 22:36

    Até que enfim algo sem sintomas de johfantismos, entre outras literatices por efeito colateral.

  • Nelson Coelho 16/10/2009 at 08:45

    Terminei de ler o livro, faz uma semana, e ainda o tenho sobre minha mesa. Muito bom mesmo.

  • Franco Wainberg 07/01/2012 at 18:11

    Há muito, mas muito tempo mesmo que eu não lia algo tão engraçado (eu desopilei o fígado, te tanto rir com vontade) e bem escrito. Práticamente não leio nada que seja ficção ou romance, sempre na ânsia de querer saber mais e mais. Se houvessem mil livros como PORNO POPÉIA, eu leria os 1000. Valeu muito mais meu tempo me divertindo (e muito) do que ler qualquer outra coisa. Fora a parte extremamente engraçada (para mim, admito que não é para todos), o Reinaldo escreve de uma maneira que a leitura é viciaste. VIVA À PORNO POPÉIA. É como um ano de terapia. PARABÉNS REINALDO MORAES. Estou esperando o PORNO POPÉIA 2 com sofrguidão.

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